quinta-feira, 3 de maio de 2012

Contra o "empreendedorismo"


Parece-me que a tónica que tem sido colocada nos tempos mais recentes sobre a palavra "empreendedorismo" é um pouco perigosa, porque não só cria expectativas falsas nos indivíduos como ainda os divide em dois grupos artificiais: o dos supostos criadores de empregos e o dos comedores inúteis. Ora, o "empreendedorismo" também pode ser inútil, pois, só por si, não encerra nenhuma qualidade em especial; e, na maioria das vezes, só existe enquanto faixa cosmética para mascarar a pura ganância e o oportunismo mais miserável.

Os discursos populistas de que cada um de nós precisa de ser mais "empreendedor", como se transformar-se num arremedo de Donald Trump e comprar coisas por um euro para vendê-las por dois fosse dever de cada um, revela um modelo mental que valoriza o humano pelo numerário: nos Estados Unidos, por exemplo, é costume perguntar-se às pessoas quanto elas "fazem" por ano e, a partir daí, nivelam-se relações interpessoais baseadas em posições mais ou menos hierárquicas.

Esta nova obsessão pelo "empreendedorismo" que assistimos faz-me lembrar a velha obsessão pelo corpo perfeito: todos querem ser mais bonitos, mais bronzeados, mais perfeitos - agora também todos querem ser mais empreendedores e mais ricos. Qualquer ideia saloia de formar-se uma pequena ou média empresa é vista como sendo um fabuloso escadote de progresso e todas as facilidades lhe são oferecidas, mesmo que a dita empresa seja uma inutilidade, tão inútil quanto, na visão dos "criadores de emprego", são os "comedores inúteis".

O descrédito do estado português no ensino e nas vias culturais, estas cada vez mais subordinadas ao peso asinino da cartilha mercantilista - que nunca pensa a longo prazo - é a verdadeira erosão da identidade e do espírito da população, que preencherá o vazio por eles deixado com as falsas luzes do tal "empreendedorismo", engodo açucarado de milhares de jovens licenciados sem perspectivas.

Não se trata da demonização bacoca do capitalismo, mas da recusa em que a sociedade, que não é nem nunca poderá ser uma empresa, possa ser governada como uma. É, sim, a recusa da formação de uma sociedade que "despede" os seus cidadãos, porque estes não se encaixam no padrão do "empreendedor", como se ser-se empresário seja moralmente superior.