domingo, 11 de novembro de 2012

A composição


Isabel Jonet revelou ontem no seu acto de contrição, publicado no site de Internet da Rádio Renascença, que «não estava a falar para os mais pobres» quando declarou em directo, na passada terça-feira à noite, em entrevista a Ana Lourenço para a SIC Notícias, que os portugueses têm de empobrecer para deixarem de viver acima das suas possibilidades, nem que, para o efeito, abandonem a ideia peregrina de comer bife todos os dias. Provoca algum espavento o facto de que os mesmos portugueses que, segundo essa óptica, andaram com egoísmo atroz estes anos todos a viver acima das suas possibilidades sejam os mesmos que demonstram continuamente grande generosidade doando - em alguns casos, até doando com sacrifício -, todo o tipo de bens alimentares para o Banco Alimentar recolher nos peditórios que promove regularmente nos supermercados e hipermercados de todo o país. Seria útil perceber como irão continuar a doá-los quando já não viverem acima das suas possibilidades e o seu processo de empobrecimento estabilizar em velocidade de cruzeiro: ou tem-se fé de que não comam para doar a comida, tal como o governo teve fé de que o nível de consumo das famílias se mantivesse na mesma grandeza depois de aumentadas as taxas do IVA e confiscados os subsídios de férias e de Natal? Se sim, poderá ser uma fé sem forte fundamento, porque qualquer um que perceba o mínimo de caridade sabe que ela costuma começar em casa.    

Aclare-se, também, que toda a gente tinha percebido que, na sua intervenção da passada terça-feira, Jonet «não estava a falar para os mais pobres», porque estes - os pobres - não têm TV Cabo para verem a SIC Notícias. Faz lembrar a composição que a menina rica da anedota escreveu no ensino básico sobre o tema "Os Pobres", na qual toda a família por ela imaginada era pobre: os pais, os filhos, o mordomo, os criados, a cozinheira, o motorista, o jardineiro; enfim, eram todos pobres na pobre mansão - uma espécie de Downton Abbey sem orçamento. Mas não deixa de ser importante que os espectadores pobres sejam formalmente informados pela Internet (essa declaração passará hoje na rádio e na televisão) de que não eram eles os visados na intervenção, porque, assim, poderão continuar a ver TV Cabo à vontade - e a usar a Internet, também -, sem ressentimentos.

Outra observação é a de que, por aquilo que tenho lido e ouvido nas redes sociais, nos meios de comunicação e na rua, apenas dois tipos de indivíduos estão a defender as declarações de Jonet: aqueles que estão muito bem e aqueles que estão mal.
Penso que isto deveria servir de matéria de reflexão para pensar-se sobre as prováveis relações de poder e dependência que, na nossa sociedade contemporânea, se manifestam, de maneira geral, entre aqueles que têm muito - e acham que sabem melhor do que os outros como esses outros devem viver as suas vidas - e aqueles que por terem pouco ou nada estão dispostos a aceitar tudo. Aceitar até a substituição de serviços públicos e gratuitos de solidariedade para todos por serviços públicos de caridade de emergência para aqueles que não tiverem dinheiro para pagar serviços privados.