quinta-feira, 8 de novembro de 2012

De novo "Rerum Novarum"


Este discurso "jonístico" é totalmente decalcado da encíclica Rerum Novarum (1891) do Papa Leão XIII, substrato que seduziu sinistros pensadores reaccionários, católicos e de índole monárquica, como o francês Charles Maurras, cujos textos serviram de pedras basilares aos movimentos anti-democráticos e autoritários que se espalharam pela Europa nas primeiras décadas do século XX, como o fascismo italiano e o pensamento político de António de Oliveira Salazar. Também a encíclica Rerum Novarum, matriz ideológica do estado corporativo fascista, arroga a católica opção preferencial pelos pobres - aos quais é pedido que não tenham vergonha de ser pobres - e a instauração de um salário de sobrevivência que não seja «insuficiente para as necessidades básicas de um trabalhador pobre e bem comportado». Deve ser a pensar nesta descrição de «pobre e bem comportado» que Isabel Jonet, aos 05:10 minutos do seu discurso, diz que «temos de ajudar as pessoas para não ficarem completamente enraivecidas contra a falência total de um sistema que não lhes permite sequer 'tar integradas»  

É, pois, uma reconcepção do ideal teocrático de Leão XIII que, com ingenuidade, eu pensava não voltar a ouvir tão depressa no espaço de intervenção pública, mas, aparentemente, os extremistas andam a sair para luz do dia, porque a conjuntura actual lhes é simpática e convidativa. Em suma, todos aqueles que têm um pequeno autoritário dentro de si, todos aqueles que acham que sabem melhor do que os outros como esses outros devem viver as suas vidas, estão a vir à tona que nem a escória acumulada em décadas no fundo de um poço, agitada subitamente por uma forte chuvada. O exemplo, é evidente, vem de cima: com este governo que já demonstrou várias vezes qual é a sua ideologia e estratégias políticas, os cidadãos autoritários sentem-se com um maior à-vontade - entusiasmados pela perspectiva da impunidade, até - para mostrarem as suas verdadeiras qualidades - e Portugal é um país muito autoritário, muito complicado, que nunca recuperou, nem total, nem parcialmente, dos seus longos episódios anti-democráticos.


O discurso escandaloso da mirífica Isabel Jonet é, bem avaliadas as palavras, um discurso que escandaliza porque está completamente anacronizado: se tivéssemos uma máquina do tempo e recuássemos ao Portugal setecentista e oitocentista - para não falar no Portugal "de ontem" - era isto que ouviríamos das bocas das elites. Andámos, em particular, distraídos com o período da nossa jovem democracia e, de maneira geral, com o triunfo da classe média - sem a classe média não teria existido um século XX como aquele que tivemos -, mas esse horizonte deteriorou-se e a maré voltou a vazar: é provável que venha aí uma nova vaga de autoritarismo, como aquela que deu à costa europeia nas primeiras décadas do século XX. É a história a rimar: ela não repete, mas rima e aquilo que me assusta verdadeiramente não são os discursos "jonísticos", que misturam a caridade com a carestia, mas a profunda apatia com que são ouvidos. Essa apatia é que é perigosa.
 
É, no mesmo feitio, credível que esse neo-autoritarismo não se instale com o auxílio das armas ou com a pressão brutal de um golpe de estado, mais ou menos planeado, mais ou menos organizado, mas pela serôdia legitimidade do sufrágio. Sob esse disfarce de validez, oferecido pela vitória nas urnas, os extremistas irão corromper por dentro o aparelho democrático e a apatia do povo concorrerá para que eles se mantenham no poder, pois sob o percândido manto da dita legalidade qualquer manifestação civil de descontentamento será apodada pelo poder de gravíssima ilegalidade. A vontade de domínio continua, tal como ontem, mas os mecanismos do seu funcionamento são, agora, diferentes: muitíssimo mais adequados a uma sociedade cada vez mais intolerante à violência e à espontaneidade. É na nossa apatia generalizada - com o nosso comportamento manso de pobres e bem-agradecidos, para usar a terminologia de Leão XIII e Isabel Jonet - que os prováveis autoritários de amanhã confiam para se agarrarem adâmicamente aos assentos do poder. Uma vez instalados, só poderão ser extirpados com extraordinária, quase sobre-humana, determinação - e aí, nessa altura, poderá ser - e sê-lo-á, provavelmente - tarde.