sábado, 10 de novembro de 2012

Defenestrações de ontem e hoje

 
Há setenta e quatro anos, a nove e dez de Novembro de 1938, a milícia paramilitar nazi Sturmabteilung (de alcunha "Camisas Castanhas"), reforçada por grupos amadores formados por cidadãos anónimos alemães e austríacos, invadiu e destruiu apartamentos, lojas e sinagogas, pertencentes a outros cidadãos anónimos alemães e austríacos, mas que professavam a fé judaica, despejando-os e executando-os de imediato - até atirando-os dos altos das suas janelas para as ruas -, num episódio de ódio anti-semita que ficou conhecido como Kristallnacht (Noite de Cristal), porque as ruas das vilas e das cidades ficaram totalmente cobertas de vidros de janelas e montras partidas. Em seguida, a maioria das habitações e locais de trabalho vandalizados foram, desavergonhadamente, reconstruídos para serem vendidos e alugados a membros e simpatizantes do partido nazi. A política do ódio anti-semita iria continuar até ao final da Segunda Grande Guerra, mas é consensual apontar-se a Noite de Cristal como o acontecimento responsável por legitimar diante de cidadãos anónimos a perseguição e o extermínio de outros cidadãos anónimos que professavam uma religião diferente.

Ontem de manhã, a nove de Novembro, e no seguimento das contínuas operações de despejo que têm sido efectuadas nas últimas semanas em Espanha contra indivíduos que, por culpa da carestia provocada pela crise económica e também pelas medidas de austeridade, deixam de ser capazes de pagar à banca as prestações das suas casas, uma mulher de cinquenta e três anos, identificada pela imprensa com o nome Amaia, sucidou-se, atirando-se de uma janela do seu apartamento, de quarto andar, para a rua no momento em que estava, de facto, a ser despejada: contando com esse despejo no bolso, a casa até já estava à venda num site de Internet de vendas imobiliárias do grupo económico La Caixa - um facto que, pessoalmente, me chocou muitíssimo pela desumanidade que demonstra.
Infelizmente, Amaia não é um exemplo isolado: por toda a Espanha, vários indivíduos se têm suicidado, atirando-se dos altos das suas janelas para as ruas, nas vésperas das datas dos despejos ou durante os despejos. Despidas das memórias das vidas que as preencheram, as habitações são, com celeridade - ou até antes, como prova o caso de Amaia -, postas à venda e alugadas.

Ontem, os europeus anónimos encontravam-se indefesos diante do absurdo inexplicável do ódio de origem religiosa ou racial, mas hoje, num continente felizmente sem fronteiras dessas ordens, estão indefesos diante do absurdo inexplicável da ganância da banca que, com o beneplácito e encolher de ombros dos estados, também demonstra saber como se defenestram aqueles que estão no caminho dos seus abjectos objectivos.
Vale a pena reflectir sobre se é este o caminho que queremos continuar a seguir: um caminho que valoriza os indivíduos de acordo com os seus vencimentos anuais e que os trata como lixo assim que, por culpa de escolhos que muitas vezes nem sequer são de sua responsabilidade, deixam de ser lucrativos.
Pelo fedor do ganho líquido se liquidam vidas - irrepetíveis e cujas perdas abrem feridas inestancáveis em todas as vidas que lhe eram próximas. À fúria da finança - cuja etimologia se relaciona com finitude, com a morte - não existem classes sociais, raciais, religiosas ou outras: só existem aqueles que ainda podem pagar e aqueles que não podem. E quem não pode é desumanizado.

Pertence a cada um a faculdade da consciência para escolher se este período terrível da nossa história será um momento de mudança ou um ponto de partida para que a desumanização dos insolventes progrida para níveis ainda mais intoleráveis e irreversíveis.