sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O estômago e o espelho


Desta quarta-feira para cá tem-se escrito e dito que a gratuita e degradante carga policial que o corpo de intervenção operou nesse final de tarde sobre os manifestantes que se reuniam em protesto contra o governo iníquo liderado por Pedro Passos Coelho, à frente da escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, foi uma manobra necessária diante do desrespeito que lhes foi mostrado sob a forma de uma ininterrupta chuva de pedras de calçada, atiradas por «profissionais da desordem e da provocação». Sim, de facto, se «profissionais» existiram nesses instantes foram apenas os da «desordem», porque os supostos "profissionais" da "ordem" mantiveram-se mansos e impávidos debaixo dos calhaus quando podiam, perfeitamente, ter agarrado sem grande alarido os desordeiros somente esticando um braço, tal era, em certos momentos, a proximidade entre uns e outros. Como toda a gente viu, mas nem toda a gente compreendeu, o corpo de intervenção, em vez de fazer o seu trabalho, como seria esperado, investiu irascível sobre os cidadãos, numa violenta manobra de dissipação a golpes de cassetetes, atingindo, aleatoriamente, todo o tipo de indivíduos, fossem novos, velhos, homens ou mulheres - alguns com crianças ao colo. O único objectivo desta manobra, mais encenada do que outra coisa, foi meter medo às pessoas para inibi-las de se manifestarem novamente. Ou seja: o corpo de intervenção, inversamente ao que têm vindo a declarar os seus defensores, não fez o seu trabalho convenientemente.

Digo «convenientemente», porque, até certa altura, o corpo de intervenção fez parte do seu trabalho - que foi ser agredido.
O trabalho de qualquer corpo de intervenção, como se pode deduzir - e bem - pela blindagem que normalmente anquilosa os seus agentes, apetrechados de escudos, cassetetes e molossos, é fazer de filtro e aguentar as investidas mais brutais e mirabolantes que lhe possam ser dirigidas: dando-lhe pontapés ou atirando-lhe pedras da calçada. Nesse sentido, quem diz que os agentes do corpo de intervenção só estiveram a fazer o seu trabalho estão cobertos de razão: levar porrada da grossa é mesmo o trabalho deles. Se não fosse, não teriam necessidade de ir para a rua protegidos com coriáceas carapaças e armados com cassetetes e cães. Cada ofício tem o seu fato de trabalho e ferramentas especializadas: e o ofício deles é ser agredidos, aguentarem e agredirem. No mínimo, agredirem os seus agressores - coisa que esteve muito longe de acontecer na vil e vergonhosa manobra de dissipação em que espancaram os espectadores. Resta descobrir se o objectivo da carga - semear nas pessoas o medo de manifestar desagrado pelo governo, de desafiar o governo - foi alcançado.

A propósito, expresso o meu espanto diante da atitude de vassalagem que o público, um pouco por todo o lado, está a demonstrar, defendendo o indefensável com o argumento de que o corpo de intervenção estava apenas a fazer o seu trabalho. O que escrevi acima desmonta, creio, o sofisma dessa má dedução, mas ainda acrescento que se é verdade que existem trabalhos melhores e trabalhos piores também existem pessoas que estão melhor e pior preparadas para fazê-los. E agredir, com pancadas de cassetete e dentadas de cães treinados, velhos e mulheres desprotegidos não é, de certeza, um trabalho que a maioria dos indivíduos tenha estômago para fazer. Tal como em todos os ofícios, é preciso ter queda, ter aptidão - talvez até ter gosto.

Agostinho de Hipona encontrou uma engenhosa fórmula para desculpabilizar os soldados que matavam a torto e a direito nas guerras para as quais eram enviados pelos seus senhores: seguiam ordens e, como seguiam ordens, não tinham culpa. Ou seja: "estavam só a trabalhar".
No final do terceiro decénio do século passado, quando os esbirros das einsatzgruppen nazis disparavam tiros nas nucas de mulheres e crianças ajoelhadas à beira de valas comuns, já repletas com os corpos dos seus familiares assassinados nas vezadas anteriores, também "estavam só a trabalhar". Sob a legitimidade de um trabalho, de uma ordem ou de um sufrágio já se fizeram e continuarão a ser feitas as piores atrocidades possíveis.
Quando um carrasco, seja de que regime ou orientação política for, tortura outra pessoa para os mais abjectos fins, também "está só a trabalhar".

Sinto repugnância por este episódio miserável que aconteceu na passada quarta-feira e sinto vergonha pelos meus colegas, conhecidos e amigos que acham que tudo isto é desculpável, inevitável - normal. A passada quarta-feira foi, para a nossa sociedade portuguesa, um momento de não-retorno absoluto, a partir do qual será cristalizado o rumo que ela tomará. Daqui a umas semanas, no máximo um mês ou dois, passada a onda de choque provocada, a conjuntura ou muda ou piora. Estamos a fazer dezassete meses de governo liderado por Pedro Passos Coelho. Desejamos mais dois anos e meio disto? Estaremos, assim, tão acomodados à ideia de deixá-los "trabalhar"?

Termino com umas palavras que o escritor Edward Carpenter, fabuloso campeão da liberdade e dos direitos humanos, escreveu no seu longo poema em prosa «Towards Democracy» (1833):

«Could you be happy receiving favors from one of the most despised of these?
Could you be yourself one of the lost?
Arise then, and become a saviour.»

Ou seja: pode-se trabalhar a favor da injustiça ou pode-se trabalhar contra ela. Tudo depende do estômago de cada um e daquilo que cada um está disposto a aceitar quando se olha ao espelho.