terça-feira, 13 de novembro de 2012

Onde está a esperança?, pergunta-se


Há poucos minutos, na RTP1, no programa Prós e Contras desta semana, cujo tema era «Onde Está a Esperança?», João Machado, presidente da Confederação de Agricultores de Portugal, regozijou-se com o facto de muitos arquitectos, professores e outras gentes com formações académicas estarem, neste momento, a tornarem-se agricultores - até agricultores que, segundo as suas palavras, conseguem ser melhores que os outros agricultores, porque possuem formação académica.

 Isto significará o quê?

Que um arquitecto é, no limite, mais qualificado, por exemplo, para cavar batatas que um agricultor "tradicional", porque a sua facilidade em pensar quadridimensionalmente lhe permite acertar com a enxada num ponto optimal e rentabilizar o crescimento de tubérculos por metro quadrado de terreno? Então, por conseguinte, isto não significará que andámos enganados - desde a alvorada do agriculto no Crescente Fértil - ao deixar o cultivo da terra nas mãos de indivíduos sem cursos superiores, porque este tipo de formação, apesar de não garantir empregos nas áreas respectivas de especialização, garante super-agricultores, muitíssimo tarimbados? Como se pode sentir alegria pela falta de oportunidades de trabalho que leva estes jovens licenciados a voltarem à terra dos pais, de onde saíram para irem estudar para Lisboa, Porto e Coimbra, e os obriga a virarem-se para a prática da agricultura como último recurso?

Além disso, Machado voltou-se para uma jovem estudante de arquitectura que estava na audiência, acabada de intervir no debate em curso, dizendo-lhe que, provavelmente, até daria uma óptima agricultora. Em suma: o governo pede aos universitários que emigrem - Machado, com maior sensibilidade filial à terra mátria, pede-lhes que fiquem para cavar batatas. Isto é grave e revelador de que quando um país está desgovernado, a impunidade diante da rusticidade é completa. O exemplo, percebe-se, vem de cima.

Quando acabará esta catástrofe que nos sufoca mais e mais, a cada dia que passa?
Quando nos veremos livres deste governo que, segundo anunciou Luís Bento no mesmo programa, prepara mais um pacote de medidas de austeridade para Março de 2013, que contempla, entre outras determinações, o aumento da base tributável para efeitos de cálculo de IRS.
Será possível espremer ainda mais dinheiro dos bolsos dos indivíduos? Quanto tempo se pode viver na miséria?
Quantas famílias se atirarão pelas janelas nessa altura?
Espero que se compreenda - e bem - que estamos a falar de novas medidas de austeridade planeadas neste momento para serem aplicadas depois do orçamento de estado para 2013 ser aprovado em definitivo.