terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A "selecção natural" segundo o governo

Pela boca do seu líder, eis a prova do projecto neoliberal de engenharia social, operado pelo governo de coligação em vigência, que eu venho a denunciar desde o Dia 1: os engenheiros da miséria já se sentem à vontade para afirmá-lo sem medo de virem a ser chamados à justiça por uma população cada vez mais desvitalizada. Alguém devia dizer a Passos Coelho que Darwinismo Social nada tem a ver com Selecção Natural: a Selecção Natural nunca foi, em momento algum, a sobrevivência do mais forte - muito menos do mais lucrativo!... Quem quiser que se indigne - ou que se envergonhe com essas declarações: http://www.publico.pt/politica/noticia/passos-diz-que-portas-apresentara-guia-para-cortes-no-estado-1584649.

À luz disto, o prémio que o fotógrafo português Daniel Rodrigues ganhou há poucos dias no concurso internacional World Press Photo, depois de ter vendido todo o seu equipamento de trabalho para ter dinheiro para comer, é uma alegoria perfeita de como a tónica colocada pesadamente pelos pugnadores do neoliberalismo político-financeiro sobre a infalibilidade da dita "lei do mais forte" no combate pela sobrevivência empresarial não significa, nem de perto nem de longe, que se esteja a provocar uma "selecção natural" dos melhores elementos da sociedade ou dos elementos mais proveitosos, mas, somente, dos que têm mais dinheiro: no banco, nos offshores ou até debaixo do colchão. E ter mais dinheiro somente significa isso mesmo: tem-se mais dinheiro. Não significa que se seja mais criativo, prestimoso ou, para usar uma palavra tão querida a esses engenheiros sociais, empreendedor.
Bem avaliadas as coisas, Portugal está até muito longe de ter uma tradição filantrópica, segundo a qual os mais ricos são muitíssimo empreendedores e financiam obras de carácter social ou investem a riqueza em novos avanços científico-tecnológicos, como podemos observar, por exemplo, nos países de expressão anglo-saxónica. Daí, vir à praça pública dizer que a «selecção natural das empresas que podem melhor sobreviver está feita» como se isso fosse uma tábua de salvação nacional - como se fosse uma coisa nobre - é ridículo, indecente.
Que empresas são essas, que «podem melhor sobreviver»?
De que forma a sua sobrevivência contribui para enriquecer o país?
Não sabemos.
Sabemos é que indivíduos que se vêem a cair nas piores armadilhas das suas circunstâncias pessoais, como o já citado Daniel Rodrigues, obrigado pelo desespero a vender o seu equipamento de trabalho, são olhados pelos tais "sobreviventes" como uns fracassos da dita "selecção natural" pela competitividade. No entanto, como prova o exemplo que serve de eixo a esta argumentação, a verdade é que há indivíduos de valor a cair, como escrevi, nas piores armadilhas das suas circunstâncias pessoais: não são nenhuns fracassos abstractos da teórica "selecção natural" que perderam a corrida frenética pela sobrevivência, mas pessoas reais, de carne e osso, idênticas a nós, que não aguentaram a violência operada nas suas vidas pelas inexoráveis medidas de austeridade impostas pelo governo de coligação em vigência.

Nesta época neo-romana que atravessamos, na qual é sobrevalorizado o carácter utilitário mais elementar das coisas, os indivíduos que deixam de ser lucrativos são tratados como lixo pelo estado, como não-seres, que, enfim, perderam por sua culpa a corrida pela sobrevivência e que, por isso mesmo, merecem ser castigados. Que Passos Coelho venha dizer aos familiares de quem, em desespero, já se suicidou por não ter dinheiro para alimentar os filhos, que essas pessoas não estavam talhadas para a sobrevivência: que foram seleccionadas naturalmente para o abate. Quantos "Daniel Rodrigues" estaremos a perder, sem o sabermos, nesta razia social-darwinista que o governo de Passos Coelho está a operar, nesta autêntica política de "salve-se quem tem grandes fortunas"? Portugal está no bom caminho para tornar-se aquilo que foi há poucos séculos: um país onde meia-dúzia de privilegiados põem e dispõem de milhões de pés-descalços analfabetos que não sabem, não sonham sequer, mudar as suas vidas. É o novo Portugal da selecção natural passos-coelhiana: não se esqueçam de pedir a factura à saída do velho Portugal, pois vão pagá-la caro.