quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

As Duas Cadeiras


Já andam vergonhosamente os formatadores de opiniões, tanto os civis quanto os políticos, a catalogar de ataque e deterioração da democracia portuguesa o heróico protesto dos estudantes do ISCTE contra Miguel Relvas, tentando fazendo medrar junto dos leitores e espectadores a ficção fraudulenta de que esses estudantes não deixaram o dito ministro exercer a sua liberdade de expressão. Ora, liberdade de expressão é um direito que nunca nenhum ministro deixou de exercer sempre que quis, marcando-se de imediato todas as conferências de imprensa que se deseja para dizer-se seja o que for. A quem tem faltado, verdadeiramente, o poder para exercer o direito de liberdade de expressão é ao povo: sonegado desse direito à bastonada, às dentadas de cães e às detenções injustificadas. Cada vez é menor o espaço de verdadeira intervenção pública - e intervenção que cause efeitos. Mas nada disto é novo: cada vez que o povo tenta falar e manifestar o seu descontentamento pelas injustiças às quais é empurrado isso é sempre rotulado pelo poder como sendo um ataque à democracia, mas quando é o poder a pressionar o povo da forma que bem entende e a esperar que os indivíduos pressionados se comportem como animais domésticos já é um bom sinal da nossa saúde democrática. Como poderão ver pela imagem que ilustra este artigo, tempos houve em que ser-se como um animal doméstico é que era um bom indicador de elevado sentido de civismo e de integração na democracia: de sentidos ofuscados, amordaçado, amarrado a uma cadeira e com um balde debaixo do assento para que nem sequer fosse preciso levantar para ir à casa-de-banho, era deste modo que se curavam os ímpetos rebeldes dos indesejáveis que ousavam insurgir-se contra os poderes estabelecidos. Não se iludam, é assim que o poder nos quer: sentadinhos sem ver, ouvir e falar, totalmente indefesos e dependentes de um carcereiro que vem trocar-nos os baldes da urina e das fezes quando estes começam a ficar cheios. Os indivíduos que protestam pelas injustiças a que são submetidos pelo poder em vigência não estão a atacar as liberdades de expressão daqueles que nem sequer as podem perder: estão, sim, a lutar para não serem amarrados a uma cadeira com um balde debaixo do assento, que é onde o poder quer mantê-los.

Miguel Relvas não foi calado: abandonou o ISCTE sem falar, por sua própria vontade. Não queiram transformá-lo em vítima, porque sabe-se bem quem são as vítimas das medidas de austeridade imaginadas e implementadas à força pelo governo a que ele pertence. Aliás, transformá-lo em vítima, mais do que ser perverso, é ridículo, porque, em 2008, quando Augusto Santos Silva (ministro dos Assuntos Parlamentares de um anterior executivo, liderado pelo ex-primeiro ministro José Sócrates) criticou duramente os manifestantes que o vaiaram em situação semelhante, Miguel Relvas veio acusá-lo de não aceitar os protestos democráticos: sentindo-se «chocado», disse Relvas à Agência Lusa que «o ministro [Augusto Santos Silva] passou a fronteira do bom-senso e com total impunidade» afirmando ainda que ele evidenciava «um comportamento de guerrilha e hostilidade» para com os manifestantes. Rematou com «o senhor ministro tem que perceber que a barricada da liberdade, desta vez, não está do lado do PS, mas do lado dos professores e não tem que ficar indignado que estes se manifestem e reclamem os seus direitos».
Então, em que ficamos? Quando se protesta contra os outros, isso é democracia; mas quando somos nós o alvo de protestos, isso já é atentado à liberdade de expressão e deterioração da democracia? Pura hipocrisia de quem está agarrado que nem uma lapa à cadeira do poder.

Mas o povo também não pode ficar agarrado que nem uma lapa à cadeira terrível, a do balde e mordaça, na qual o querem, à força, e sem legitimidade, manter paralisado. Haja quem não se cale: haja quem, como os alunos do ISCTE, diga bem alto que este governo e o seu iníquo projecto neoliberal de engenharia social-darwinista não pode continuar a mandar os portugueses para a miséria e para o abate. Chega! Chega, de uma vez por todas! Chega!

(As declarações de Miguel Relvas citadas acima podem ser lidas nesta ligação: http://www.publico.pt/politica/noticia/augusto-santos-silva-acusa-professores-manifestantes-de-nao-distinguirem-entre-salazar-e-os-democratas-1321994)