sexta-feira, 8 de março de 2013

Devagarinho


Numa entrevista publicada hoje no site do jornal iOnline, Hugo Soares, presidente da Juventude Social-Democrata, declarou: «Adoro a minha profissão. Adoro ter responsabilidades e mudar a vida das pessoas, devagarinho

Estas palavras lembraram-me outras, ditas há bastante mais tempo, na resposta a uma pergunta, em outra entrevista. Prestem atenção:
«- A sua aspiração, o seu sonho teimoso - perdoe-me se observo mal - é modificar, pouco a pouco, pacientemente, a nossa mentalidade, fazendo parar, bruscamente, as paixões dos homens, atrofiando-as, calando-as, forçando-nos, temporariamente, a um ritmo vagaroso, mas seguro, que nos faça descer a temperatura, que nos cure da febre...
- Continue... - responde-me da sombra o dr. Salazar. - Talvez esteja a caminho da verdade...
(...)
- Suponha que a própria compressão os faz saltar
[os governados], como a água que rebenta da torneira desarranjada, impossível de fechar?
E Salazar, interessado com a imagem e refundindo-a:
- Não será o caso, mais propriamente, da história do parafuso que verruma lentamente sem ferir a madeira, que faz uma pressão doce, mas constante, penetrando, pouco a pouco, sem provocar a reacção viva da madeira?»
São excertos de entrevistas que António de Oliveira Salazar deu a António Ferro, futuro director do Secretariado de Propaganda Nacional do regime salazarista, e que foram publicadas periodicamente no Diário de Notícias, antes de serem compiladas e editadas em livro. Nos trechos acima, é o próprio Salazar que, sem evasivas, desvenda o seu desejo de controlo total sobre os pensamentos, atitudes e aspirações dos portugueses. Foi a chamada Política do Espírito.

É por saber história e, por enquanto, ter memória que me arrepio quando leio frases, ditas por políticos, como «Adoro a minha profissão. Adoro ter responsabilidades e mudar a vida das pessoas, devagarinho.» Devagarinho... Devagarinho como um «parafuso que verruma lentamente sem ferir a madeira, que faz uma pressão doce, mas constante, penetrando, pouco a pouco, sem provocar a reacção viva».

Que se indigne quem tiver vontade. (A entrevista pode ser lida na íntegra aqui: http://www.ionline.pt/portugal/hugo-soares-iria-uma-manifestacao-se-chamasse-geracao-rasca)