domingo, 10 de março de 2013

O lado ventral do empreendedorismo

Nos dias que correm, em plena embriaguez neoliberal, somos bombardeados desde há dois anos na comunicação social com o quasi-truísmo de que ser-se "empreendedor" é pertencer a uma classe moralmente superior que pugna por um "empreendedorismo" de iniciativa - mais do quixotesca, contra uma sociedade lapidada pela austeridade e em progressiva deterioração - cruzadesca e orientada pela fé cega na mão invisível do mercado, que se põe por baixo, não do menino e do borracho, como no pregão popular, mas dos meninos que criam o seu próprio emprego e não têm medo de «bater punho», como é esclarecido no vídeo abaixo.   



A mão invisível de Adam Smith e o «bater punho» de Miguel Caetano perfilham uma tradição de audaciosas alegorias e alusões, liberais e neoliberais, associadas à mão e ao trabalho de que ela é o símbolo mais representativo. Na tónica que coloca nas recompensas do trabalho árduo, o capitalismo contemporâneo de feição norte-americana não se dissocia da ética religiosa anglicana e protestante de que radica (veja-se, como um exemplo entre tantos, as Leis dos Pobres inglesas, que, desenvolvidas desde o século XVI, obrigavam os sem-abrigo e os desempregados ao internamento em casas de trabalhos forçados para banir o pecado da preguiça e reduzir o peso desses indivíduos sobre o estado) e cujo mote foi e continua a ser "as mãos ociosas são o instrumento do Diabo".
O ócio sempre foi mais tolerado pelo catolicismo romano, do qual os professos se colocam em outra mão, a da Providência Divina, que nem os pardais no Evangelho de Mateus (6:26). É possível observar o orgulho sentido pela olímpica herança do "empreendedorismo" numa série televisiva, produzida o ano passado para o Canal História, intitulada The Men Who Built America, que foi transmitida recentemente: em apenas quatro episódios, aprendemos como os grandes empreendedores norte-americanos (Cornelius Vanderbilt, J. P. Morgan, John D. Rockfeller, Andrew Carnegie e Henry Ford) vindos praticamente do nada, subiram a pulso (outra alegoria relacionada com a mão inefável) e, por virtude da sua astúcia e sentido de oportunidade, guiados por uma fé, dir-se-ia calvinista, na sua predestinação para o sucesso, ergueram os impérios que fizeram dos Estados Unidos uma super-potência global. Com efeito, a verdade histórica está longe dessa versão higienizada dos factos.


Para não alongar demasiado este artigo, vamos, somente, concentrar atenções no banqueiro John Pierpont Morgan (1837-1913), magnata que não fez fortuna aliando-se ao inventor norte-americano Thomas Edison na campanha feroz pela implementação da corrente contínua contra a corrente alternada do inventor austríaco Nikola Tesla (como sabem, a corrente alternada impôs-se), nem combatendo contra o político democrata William Jennings Bryan, que queria acabar com os monopólios e a especulação, mas com negociatas lucrativas, muitíssimo suspeitas. Aliás, o exemplo de Morgan é, em muitas faces, paradigmático, pois foi graças ao advento da Guerra Civil norte-americana, que opôs o Norte contra o Sul (1861-1865), que estes heróis do empreendedorismo, como o já mencionado Vanderbilt e outros menos conhecidos, como Philip Danforth Armour e as dinastias Du Pont e Studebaker, endeusados como sendo aqueles que construíram a América, fizeram as suas riquezas, enganando o governo e explorando ingenuidades e misérias alheias.
Tirando partido da grande necessidade que os militares tinham por armamento, Morgan, com apenas vinte e três anos de idade, engendrou um plano fraudulento para vender ao exército as armas que os seus inspectores rejeitavam como sendo defeituosas: através de um cúmplice, chamado Arthur Eastman, que sabia duas ou três coisas sobre armas, comprou cinco mil espingardas rejeitadas, a três dólares e cinquenta cêntimos cada, a um armazém militar situado em Governor's Island, a sul da ilha de Manhattan; em seguida, vendeu as armas defeituosas - que já tinham estropiado vários atiradores durante os testes de balística - de volta ao exército, pelo preço de vinte e dois dólares cada uma. Quando o logro foi descoberto, o caso foi julgado, evidentemente, mas o tribunal considerou válido o contrato de venda e quem ganhou o dia foi Morgan, que recebeu uma fortuna como indemnização.

Esta é que foi a verdadeira face do empreendedorismo prometeico dos tais homens que construíram a América: às armas defeituosas de Morgan e aos contratos milionários de Vanderbilt de venda e aluguer de navios podres ao exército, pintados de fresco para parecerem novos, outros exemplos poderíamos reunir sobre a falsidade do mito do trabalho árduo destes "empreendedores". Sob esse maldito canto de sereia, esconde-se, não poucas vezes, um oportunismo hipócrita e a mais elementar função de comprar por um para vender por dois: é a velha meta de "fazer dinheiro". «Money Matters», como dizem os monetaristas neoliberais da escola miltonfriedmaniana. Existe outra alegoria relacionada com a mão que se aplica aqui com muito mais correcção: "meter a mão ao bolso".


Outra face negra do mito do "empreendedorismo" - desta espécie de capitalismo redentor da ociosidade social - foi a progressiva substituição dos escravos por crianças, nos trabalhos forçados e tarefas industriais mais pesadas, depois das abolições das escravaturas.
Os "criadores de emprego" perceberam que as crianças podiam ser uma mão de obra tão especializada quanto os adultos, com a vantagem de ser muito mais barata: foi assim, através da aplicação em massa da exploração do trabalho infantil e dos seus salários "competitivos" - nas fábricas, nos campos e nas minas -, que os "empreendedores" setecentistas e oitocentistas, norte-americanos e europeus, foram acumulando fortunas anuais superiores aos produtos internos brutos de muitos países. Já no século XVII, os "criadores de empregos" compravam anualmente por ninharias aos orfanatos centenas de «meninos e meninas sem laços» para pô-las a trabalhar. O sociólogo e fotógrafo norte-americano Lewis Hine foi instrumental na mudança de mentalidades face à exploração do trabalho infantil quando, na primeira década do século passado, viajou pelos Estados Unidos para documentar as condições miseráveis em que milhões de crianças viviam e trabalhavam, mas hoje ainda existem cerca de trezentos milhões de crianças exploradas pelo "empreendedorismo", que não vão à escola e morrem prematuramente. A estas, espalhadas pelos países ditos em desenvolvimento (Índia, Bangladesh, Malásia, Tailândia, etc.), a mão invisível do mercado não se põe por baixo.

Numa nota mais negra ainda, para a nossa realidade interna, o documentarista inglês Peter Lee-Wright, reconhecido pelos seus trabalhos de denúncia sobre violações dos direitos humanos, coloca Portugal nesta lista terrível no seu livro Child Slaves (2009), no Capítulo 7 «A Storm at Any Port: Portugal Fails European Standards», no qual diz que «in Portugal, 12-year-olds manufacture clothes destined for British chain-stores». O livro foi publicado originalmente em 1990, mas, segundo o Eurostat, cerca de dois milhões e meio de portugueses vivem hoje no limiar da pobreza: números chocantes a que não são inocentes as medidas de austeridade sob as quais somos obrigados a viver e às quais adivinha-se a chegada da tão desejada baixa do salário mínimo nacional, que está fixa nos 485 euros mensais, para tornar a nossa economia mais "competitiva". Torná-la mais competitiva que as economias da Índia, do Bangladesh, da Malásia e da Tailândia, certamente.