segunda-feira, 1 de abril de 2013

Sobre a Bíblia #1


Vi uns episódios da série The Bible, em que Diogo Morgado interpreta Jesus Cristo, transmitida no passado fim de semana pela SIC. Eu sou ateu, mas gosto de estudar textos religiosos e conheço bem a Bíblia, logo fiquei surpreendido com as lacunas de episódios bem importantes e o tratamento elíptico dado a outros. Além de ser uma versão da Bíblia muitíssimo family friendly...

Por exemplo, o segmento da série em que o Rei Saul manda David matar cem filisteus para ganhar o direito a casar com a sua filha Mical não corresponde à narrativa bíblica, na qual Saul, de modo explícito, pede a David que lhe traga os prepúcios de cem filisteus (por que raio quereria Saul cem prepúcios de filisteus é algo que nunca nos é esclarecido): todavia, nenhuma referência a este pedido nos é dada na série e Saul até olha com algum nojo para dentro do saco que David lhe entrega (os espectadores desconhecedores do texto original não adivinham o conteúdo), o que consiste numa reacção totalmente oposta ao carácter da personagem. Juntando esta elipse a outras anulações dos versículos selváticos do Antigo Testamento, concluo que esta série é uma adaptação ligeirinha e à la carte dos textos bíblicos, como se, hoje, em pleno século XXI, os próprios crentes sentissem embaraço ou pudor com o conteúdo do livro em órbita do qual organizam a sua vivência, o que pode bem ser um sinal de que, no fundo, até eles reconhecem que é uma crença totalmente anacrónica e apartada da realidade dos nossos dias. Outra prova que suporta esta conclusão é o facto de que nestas novas produções nunca é mostrada a ascenção corporal de Cristo, como se a imagem de um homem flutuante fosse, para os crentes de hoje, demasiado inverosímil: a ascenção é sempre mostrada do ponto de vista de Cristo - para garantir a identificação com o espectador, de maneira a reduzir uma possível reacção negativa - ou através da sobreposição de imagens abstractas, relacionadas com a vida de Cristo, transformando a ascenção numa espécie de analepse pessoal que se passa na cabeça do Messias.

Mas mesmo com as reduções e invisibilidades exercidas sobre o conteúdo mais intragável e virulento do Antigo Testamento, continua a ser notório que o Novo Testamento é uma progressão extraordinária em relação a esse material racista, misógino, neofóbico, homofóbico, paranóico e perigoso. A mensagem de Cristo - antes de Paulo, apenas uma heresia judaica, pensada por judeus para judeus - é um corte revolucionário com a lei mosaica. Há boas probabilidades de, com efeito, ter existido um Cristo histórico, embora muito diferente do relato plasmado nos evangelhos e, sobretudo, muitíssimo diferente da figura de Diogo Morgado e da concepção tradicional do Cristo que nos habituámos a ver na arte europeia - que é, exclusivamente, alegórica.
O Cristo histórico foi, provavelmente, um híbrido de profeta milenarista, como João Baptista, a quem roubou protagonismo, e guerrilheiro ao estilo de Che Guevara, que começou por pregar uma mensagem inédita e inclusiva de amor ao próximo, totalmente diferente da lei mosaica, mas que, no final da sua curta vida, se radicalizou e tentou, por meios mais violentos, trazer o tão esperado Reino de Deus para a terra.

Mas gostei da interpretação de Morgado: fiquei bastante surpreendido pela qualidade da sua composição e do seu inglês, perfeitíssimo. Em suma: a série não é grande coisa (ainda prima pelo plágio, ao copiar de modo descarado a aparição do Diabo - interpretado por um "sósia" do presidente dos Estados Unidos Barack Obama (alfinetada política de gosto duvidoso por parte dos produtores?) - durante as torturas de Cristo, como inventou o Mel Gibson em The Passion of the Christ), mas Morgado deu um bom Cristo fictício. Gostaria de ver uma série sobre o Cristo histórico: isso, sim, seria muitíssimo mais interessante.