quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Temas actuais #3: arte e política


A intenção de vender em hasta, através da leiloeira londrina Christie's, o extraordinário acervo de oitenta e cinco obras do artista catalão Joan Miró, sob a justificativa de que consiste numa medida para ajudar a cobrir o dito "buraco do BPN", é mais um lamentável episódio de populismo puro com o qual o executivo em exercício nos envergonha - aliás, vergonha é um dos sentimentos concomitantes deste penoso calvário que está a ser o XIX Governo Constitucional de Portugal.

Este governo não tem nenhumas concepções do mundo que sejam exteriores à ideologia economicista pela qual se metodiza e, em regra, recusa tê-las. Na realidade, regula-se por um tipo de pensamento que observa com perplexidade todos os indivíduos que não gastem os seus dias na busca ininterrupta por lucro financeiro ou no cultivo dos mais avarentos interesses próprios. Sob esse assombro institucional que, tantas vezes, como temos visto, assume o recorte do desprezo, artistas, cientistas e intelectuais, são por ele catalogados como sendo ignorantes, irrealistas, indisciplinados e até malevolentes, porque falecem desse importante princípio moral - talvez o único que lhe importa - que é o desenvolvimento de interesses financeiros pessoais. Diz o catecismo neoliberal que «o dinheiro importa», mas, ao contrário daquilo que se pensa, o dinheiro não é riqueza. É, em vez disso, um requerimento, expresse-se assim, sobre riqueza que ainda não se tem - esta, propriamente dita, são os bens, as propriedades, os haveres, os activos. De facto, os bens e o dinheiro comportam-se de modo desigual, porque quando o valor de um deles baixa, normalmente aumenta o valor do outro. Os mecanismos económico-financeiros parecerão contra-intuitivos para quem não está familiarizado com eles, mas, com efeito, são muito simples de entender: se não o fossem nenhum espertalhão poderia reunir fortunas maciças a manipulá-los, porque, no fundo, quantas formas diferentes é que poderão existir de comprar uma coisa por um euro para vendê-la por dois? As terminologias técnicas com que são, periodicamente, apelidadas essas estratégias é que vão variando, à medida que o público as vai descodificando e emerge a necessidade de encriptá-las, mas, em essência, permanecem intactas. Em suma: os trinta milhões de euros que o governo almeja com a venda das obras de Miró são uma ninharia diante 1) do custo do "buraco do BPN" (cujo número aumenta todos os dias, quase geometricamente) e 2) face à sua avaliação no balanço do próprio BPN, cujo valor era de oitenta milhões de euros. Se vendermos a colecção de Miró estaremos a vender verdadeira riqueza (bens) ao desbarato.

Este governo é incapaz de valorizar cultura e conhecimento numa relação que seja extrínseca ao instrumentalismo mais elementar, num sentido que denomino de neo-romano em que até as coisas belas têm de ser lucrativas; aliás, neste sentido todas as coisas têm de ser lucrativas e quando algo deixa de sê-lo é tratado como lixo - incluindo as pessoas. Por conseguinte, o único valor que este governo reconhece numa tela de Miró é o mesmo que um merceeiro vê quando olha para uma lata de salsichas exposta na prateleira do seu estabelecimento ou para um cacho de bananas dentro de um caixote de frutas posto à porta: é o do lucro financeiro, puro e duro. O problema deste governo é de jaez ideológico (ou edeológico, tal é o carácter pornográfico - freudiano - com que a cartilha neoliberal é por ele seguida), mas, também, é de ordem metodológica, porque em política não basta ter ideologias: é preciso ter ideias traduzidas em objectivos. Os métodos, sejam eles certos ou errados, estão sempre ao serviço dos objectivos, mas, infelizmente, quando se pratica uma política desvinculada de quaisquer objectivos, quando se põe em marcha uma política do vazio, a única coisa que resta são os métodos. Ora, os métodos, certos ou errados, como escrevi, transformam-se, eles próprios, nos objectivos. Esta é a realidade trágica que se vive todos os dias.

Mais do que neoliberal, este governo é neo-isolacionista. Mais do que ser conservador ou até reaccionário, este governo é um retrocesso evolutivo. É um governo inimigo das leis, das instituições, das pessoas, da racionalidade. É inimigo da cultura, da ciência, da educação e do intelecto. Este governo tem tanta concepção do que significa arte como tem concepção do que significa ontem, hoje e amanhã: para ele, estes três conceitos são entidades relativas e amoldáveis de acordo com aquilo que se vai inventando à medida que se caminha de vergonha em vergonha. Este governo só está interessado na preservação do poder, como ficou explícito, entre outras circunstâncias, pela crise política de Julho do ano passado.