quinta-feira, 29 de maio de 2014

Para que se entenda do que se fala quando se fala em extrema-direita

Repudio com veemência o discurso de exculpação com que alguma comunicação social e a opinião pública nas redes sociais indulgem aqueles que votaram em partidos de extrema-direita nas passadas eleições europeias, caracterizando esses votos como sendo de protesto por um sistema partidário incompetente ou corrupto que não resolve os problemas dos cidadãos. Em sinal contrário, eu caracterizo esses votos em partidos extremo-direitistas como sendo atestados de ignorância política e histórica, alimentados pelos mesmos impulsos volúveis que estiveram na origem dos movimentos reaccionários de massas que, agora, esses partidos extremo-direitistas imitam nos modos, nas propagandas e nos programas.
Sob o selo da segurança da nação, do discurso anti-imigração e do agitamento de fobias etnocêntricas, que variam de alvos e grau de violência consoante os países, velhas ideias (como a esterilização obrigatória de indivíduos considerados inaptos para a reprodução e o aborto de fetos com síndrome de Down e espinha bífida) estão a ressurgir, diante da complacência, da falta de informação e da cumplicidade de todos aqueles que acreditam em soluções simples, personalizadas nas vontades de certos líderes mais ou menos carismáticos (na visão de quem os segue), para problemas complexos, compostos por diversas forças sociais e económicas agindo em conjunto. O discurso do autoritarismo é, sempre, o do monossílabo.
Parece-me que o cultivo da memória e a transmissão do conhecimento tem falhado e produzido os seus monstros, daí que será útil olhar, sem máscaras, aquilo que, de facto, se está a falar quando se fala em extrema-direita. Para o efeito, recolhi umas imagens que considero representativas de um período que não deve regressar. Escolhi imagens relacionadas com os crimes de guerra e flagelos sociais realizados pelos nacionais-socialistas, na primeira metade do século XX, porque é o movimento reaccionário de massas que conheço com maior profundidade - assim como me parece ser este o movimento reaccionário de massas que mais escola tem feito nos cernes dos vários partidos extremo-direitistas contemporâneos. Em rigor, quando se fala em extrema-direita não se está a falar em votos de protesto - está a falar-se disto:


Cartaz de propaganda eugénica nacional-socialista contra a «vida inadmissível de viver»: o texto doutrina que um indivíduo doente custará 50 000 marcos ao estado até que chegue aos sessenta anos de idade. O slogan maior diz, explicitamente, que «são vocês [o público] que suportam este custo». A demonização dos doentes físicos e mentais e dos idosos, entre outros, desumanizando-os como vidas inúteis, serviu o propósito de anediar a tolerância das massas aos extermínios etnocêntricos e religiosos que, em breve, se seguiriam. 


Os campos de concentração e os campos de extermínio começaram por ser pequenos, mas, em poucos anos, cresceram muitíssimo, tornando-se fábricas de morte que poderiam alcançar diversos quilómetros quadrados. Em cima: a entrada do gigantesco campo de concentração e extermínio Auschwitz II - Birkenau; em baixo: uma vista aérea do imenso campo de concentração de Dachau. Os campos de extermínio foram construídos com o único objectivo de serem rápidas e eficientes fábricas de genocídio, embora os campos de concentração também fossem campos de tortura e execução maciços.




Raparigas e mulheres grávidas enforcadas em praça pública: consistiu na eliminação de mulheres para impedir a reprodução da «vida inadmissível de viver». Muitos crimes desta natureza foram perpretados por civis, encorajados por milícias paramilitares e pela SS, veiculando, assim, os preconceitos e ódios de estimação das povoações. Quando a cúpula age de um determinado modo, as bases comportam-se de acordo com esse exemplo. 


Milhares de famílas consideradas indignas de viver pelos padrões do regime foram fuziladas por milícias paramilitares e populares.


Prisioneiros morrendo lentamente nos campos de concentração nacionais-socialistas.


O suicídio foi uma realidade tangível no dia-a-dia dos campos de concentração nacionais-socialistas.


Escravos de um campo de extermínio nacional-socialista arrastam um indivíduo assassinado na câmara de gás até aos fornos crematórios.


Fornos crematórios do campo de concentração e extermínio de Majdanek, com cinzas e ossadas de prisioneiros incinerados, em primeiro plano, na metade inferior da imagem.


Quando os inúmeros fornos eram, ainda assim, insuficientes para incinerar a quantidade de indivíduos assassinados nas câmaras de gás, os corpos eram incinerados em grandes valas, como pode ver-se na imagem acima, tirada no campo de Auschwitz II - Birkenau.


Corpos empilhados no campo de Dachau, num pátio adjunto aos fornos crematórios, à espera de serem transportados para o interior, de molde a serem incinerados.