sexta-feira, 20 de junho de 2014

Laranjada*


Confesso o meu mau feitio: não considero que países cujas formas de governo se apresentem como sendo monarquias constitucionais sejam democracias autênticas. São monarquias: somente não são absolutistas, mas não deixam de ser monarquias. No entanto, a democracia é, mais do que um sistema de governo, o múnus de um certo estado de coisas. Por exemplo, Portugal, que é um país democrático - para ser mais preciso, é uma república semipresidencialista - ainda possui certos tiques pouquíssimo democráticos (como, aliás, se pode ir vendo, infelizmente). Tudo isto para comentar os recentes acontecimentos políticos de Espanha.

Ora, a Espanha só é Espanha, propriamente dita, desde 1876, porque somente em Junho desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente Espanha: até aí era o Reino das Espanhas, que é algo bem diferente. De facto, até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma: existiram vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar no século XVI a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Existe documentação portuguesa (e não só) coeva em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de marketing - que funcionou. Existem países que ainda pensam que Portugal faz parte de Espanha ou que se tornou independente dela há pouco tempo, mas a verdade é que a Espanha é que foi criada "ontem" e colada com pouquíssima convicção, como se torna evidente pelos actuais ânimos catalães e outros (Madrid já se pronunciou contra o referendo que a Catalunha quer fazer a 9 de Novembro pela sua independência).
Enfim, a cerimónia de proclamação de Felipe VI foi algo anacrónica, um pouco beata, mas "democracia" não foi palavra que, em definitivo, me veio à lembrança, apesar de ser conspícua no discurso da comunicação social que, deslumbrada, comentava o evento.


E a imagem do Manuel Godoy é só para lembrar aos mais distraídos que existe ainda uma questão chamada Olivença. Parecendo que não, aborrece um bocadito.

* Em calão quinhentista português, uma laranjada não é a bebida feita com o sumo de laranjas espremidas, mas o nome que se dá ao acto de atirar uma laranja - podre, de preferência - à cara de alguém. Isto em referência à chamada Guerra das Laranjas, que os mais historicamente atentos deverão conhecer.