terça-feira, 30 de dezembro de 2014

'Best Of' de 2014

Dizem que, um dia destes, três parvalhões cegos andaram a apalpar um elefante (?) e que as conclusões surpreendentes a que cada um chegou, cortesia dos seus cérebros de alfinete, ensinam-nos importantes lições de alto coturno filosófico. Nunca achei piada nenhuma a esta história e acho que, assim como no circo, a filosofia devia deixar os animais em paz -- para quando a petição online?

Entretanto, com petição ou sem ela, chegando-se veloz o final do ano, que nem um prospecto religioso esganiçando-se entre a porta e o tapete para entrar sem ser convidado em casa, quase que se impõe o inevitável tique de compilar uma lista do melhor que se leu, viu, ouviu, visitou nos passados doze meses. Eu gosto muito de listas (no forno, principalmente) e quase que elenquei uma enorme, não fosse os factos funestos de 1) o meu forno ser eléctrico e a tarifa da luz ir aumentar e 2) começar a sentir-me como o ceguinho do parágrafo anterior a quem calhou apalpar o rabo do proverbial elefante no momento em que deu ao paquiderme uma aguda crise de desarranjo intestinal: é que a gente também começa a lembrar-se daquilo que de pior o ano trouxe -- e 2014 foi pródigo em coisas más que se fartam. Mas, aqui, fala-se do melhor -- e para simplificar, não enuncio categorias: vão os títulos a seco, e sem ordem de preferência, que é como a gente os encontra pela primeira vez. 

Best Of de 2014


1) Elephant Company: The Inspiring Story of an Unlikely Hero and the Animals Who Helped Him Save Lives in World War II de Vicki Croke (Random House, Julho de 2014).
Falando tanto em elefantes no início do texto, até pareceria mal não escolher este título para a lista, mas não é apenas a cortesia a falar, porque este livro é muitíssimo bom. The Elephant Company é um excelente exemplo de como um bom livro de história pode ser milhentas vezes mais enriquecedor que um livro de ficção. 


2) Racisms: From the Crusades to the Twentieth Century de Francisco Bethencourt (Princeton University Press, Janeiro de 2014).
Um dos meus historiadores portugueses preferidos (há quem tenha jogadores preferidos de futebol ou concorrentes preferidos da Casa dos Segredos, mas eu mantenho padrões de exigência bastante mais elevados, que me perdoem, e tenho historiadores preferidos) escreveu aquele que é bem capaz de ser um dos livros mais importantes sobre o tema do racismo, principalmente porque este livro, de facto, pensa sobre o tema e propõe uma visão nova sobre ele. Adorei! Este ano foram publicados livros de história muitíssimo bons e este é um dos melhores. 

 
3) Preto: História de uma Cor de Michel Pastoreau (Orfeu Negro, Setembro de 2014).
Opúsculo interessantíssimo sobre as origens e manifestações culturais da cor negra na(s) sociedade(s). Esta edição tem um design e um toque muito apelativos. Tanto no formato, como nas intenções autorais, faz-me lembrar os livros de Alexander Theroux sobre as cores, sendo que os de Theroux são superiores (mas comparar qualquer autor com Theroux é uma injustiça, porque Theroux está num nível só dele). No entanto, recomendo-o vivamente, porque, tudo somado, está muitíssimo bem feito e pesquisado. Já faltava uma biografia do preto: góticos e metaleiros, este livro é para vocês. 

 
4) Stoner de John Williams (Dom Quixote, Setembro de 2014).
A rentrée trouxe às nossas livrarias um dos meus romances preferidos de sempre. Não li esta tradução, mas o texto original é um triunfo de subtileza e sensibilidade. Em essência, Stoner é uma análise visceral sobre a intelectualidade nas relações humanas e sobre o modo como o conhecimento liberta -- mas nunca liberta completamente. Aplaudo o facto do romance ter sido, finalmente, traduzido para português, mas recomendo a leitura do original a quem saiba ler em inglês: isso parece-me fundamental.