quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Nova página no Facebook


Em virtude dos vários emails e mensagens que tenho recebido, pedindo-me que volte a ter uma presença "facebookiana", criei esta página para ir ao encontro dos leitores e divulgar novidades relacionadas com o meu trabalho.
Todos são bem-vindos. Agradeço a divulgação: https://www.facebook.com/escritor.DavidSoares

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Manda-chuva



A maioria dos filmes de super-heróis é péssima, mas, raras vezes, lá estreia um ou outro que consegue ter algo de interessante para mostrar (falo em mostrar, porque, a esta altura, já dou de barato o contar, para as fracas expectativas não serem ainda mais arrombadas). O único filme de super-heróis que, de facto, me surpreendeu nos últimos tempos foi Homem de Ferro 3: sim, a terceira parte do franchise desta personagem é um filme bastante interessante, que consegue equilibrar o aparato espectacular dos seus efeitos visuais com um enredo inteligente e, ao mesmo tempo, com muita piada. Arrisco a hipótese de Homem de Ferro 3 ser uma espécie de acidente de percurso numa cascata de produtos menores de entretenimento, mérito de ter Shane Black ao leme, um dos mais irreverentes argumentistas de filmes de acção que já apareceram em Hollywood (Arma Mortífera, A Fúria do Último Escuteiro, O Último Grande Herói, Kiss Kiss Bang Bang), e, ainda, de ter como protagonista Ben Kingsley como o vilão Mandarim, numa composição estupenda.

Tudo isto para informar que a Marvel apresentou recentemente uma curta-metragem com o Mandarim, disponível apenas nas versões para download e em Blu-Ray do filme Thor: O Mundo das Trevas. Esse minifilme, intitulado All Hail the King, convida-nos a acompanhar o dia-a-dia do Mandarim, trancado a sete-chaves na cadeia, e a perceber as consequências de uma estranha entrevista que lhe querem fazer para um programa de televisão. Sem desvendar o grande segredo da personagem (revelado ao final de Homem de Ferro 3), deixo-vos com a curta-metragem: consiste numa versão preparada para evitar problemas de copyright, mas pode entender-se perfeitamente o conteúdo. Fãs do Mandarim, este é o filme que esperavam: qual será, afinal de contas, o mistério que esta figura encoberta? 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Lançamento da banda desenhada «Hawk» no Castelo de São Jorge


Na próxima sexta-feira, dia 14, às 18H00, será apresentado na Sala Ogival do Castelo de São Jorge, em Lisboa, o livro de banda desenhada Hawk, escrito por André Oliveira, desenhado por Osvaldo Medina e colorido por Inês Falcão Ferreira
«Vicente percebe que está à beira do colapso.
Sem emprego, sem uma família presente e com uma relação amorosa ainda por resolver, passa os dias em casa da sua recém-falecida avó cuja morte decidiu não enfrentar.
Quando o pai anuncia que vai deixar de poder pagar-lhe as sessões de psicanálise, sente que está definitivamente entregue às fobias de sempre. Mas, à beira de mais um fim-de-semana de reclusão, algo de inesperado acontece...
HAWK é uma história autêntica e emocionante que fala de prisão e de liberdade, onde uma pequena experiência pode significar grandes mudanças.»
Divulguem e apareçam - haverá uma surpresa muito especial para enriquecer a presença dos leitores. Hawk é uma edição da Kingpin Books.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um encontro significante


Saving Mr. Banks, de John Lee Hancock (argumentista de A Perfect World, de Clint Eastwood - filme que a revista Cahiers du Cinéma elegeu como o melhor de 1993 - e argumentista e realizador de The Blind Side), é uma ficção sobre como a escritora Pamela Lyndon Travers (pseudónimo de Helen Lyndon Goff) e o realizador e produtor de cinema de animação Walt Disney colaboraram na adaptação cinematográfica das histórias de Mary Poppins.

Enquanto escritor senti emoções ambíguas em relação a este filme. Tenho a maior empatia pelo retrato de P. L. Travers, interpretada por Emma Thompson, e pela sua busca - às vezes irracional - para que o filme sobre Mary Poppins seja fiel à sua visão autoral, mas, de igual modo, tenho a maior empatia por Disney, interpretado por Tom Hanks, um visionário que devotou a vida a produzir alguma da melhor animação jamais feita e que, neste caso, está genuinamente interessado em criar um filme memorável. O facto é que Mary Poppins (realizado por Robert Stevenson e estreado em 1964) é espantoso e um triunfo da imaginação: poderá não ser um decalque fidedigno do mundo criado por P. L. Travers, mas não é por isso que deixa de ser maravilhoso. Os livros de Travers são fortemente influenciados por ideias esotéricas, em principal as de George Gurdjieff, que ela conheceu e admirava (algo de que Saving Mr. Banks apenas dá um apontamento muito passageiro), logo é possível que grande parte dos sentimentos negativos que ela nutriu em relação ao filme tivessem florescido por essa via, pelo receio de que a mensagem espiritual dos seus textos se perdesse. Não se sabe de que forma Disney convenceu Travers a ceder os direitos para que a produção avançasse (embora existisse um pré-acordo assinado uns meses antes da visita da escritora aos Estados Unidos) e ainda não está esclarecida a relação de amor-ódio que ela manteve com o filme: aparentemente, rejeitou-o (na estreia terá falado com Disney, à saída da sala de cinema, exigindo-lhe que cortasse a sequência animada, entre outros pormenores), mas foi vê-lo diversas vezes e acabou por concordar que, somente enquanto filme e não enquanto adaptação dos seus livros, era um trabalho bem feito.

Acho que Saving Mr. Banks deveria ser visto por escritores e cineastas, porque suscita algumas interrogações interessantes - e importantes - sobre matérias muito sérias, como integridade artística, visão autoral e como conceber uma digna adaptação cinematográfica de um livro. Saving Mr. Banks é um grande filme, realizado com muito coração. Não tem absolutamente nada de postiço, de cínico ou de oportunista: pelo contrário, é desarmante, franco e emocionante. Para mim, a cena que encerra tudo aquilo que há para dizer sobre ele é a seguinte: à chegada à estreia de Mary Poppins, o motorista de P. L. Travers (interpretado por Paul Giamatti) percebe o desconforto que a escritora sente naquele ambiente que lhe é tão estranho e diz-lhe que foi ela que tornou aquele acontecimento possível, que nada daquilo existiria sem ela; em seguida, ainda sozinha na passadeira vermelha, P. L. Travers é abordada pelo Rato Mickey (por um figurante vestido de Rato Mickey), que lhe oferece o braço e entra com ela no cinema. Ou seja: mais do que ser sobre o choque de personalidades entre Travers e Disney, o filme é, sobretudo, sobre o encontro das suas imaginações - nesse sentido, é particularmente simbólico que seja Mickey a entrar com Travers no cinema. E é tão bom sentir que também nós entramos com eles.
Não percam este filme: vejam enquanto ainda está em cartaz.

 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Temas actuais #3: arte e política


A intenção de vender em hasta, através da leiloeira londrina Christie's, o extraordinário acervo de oitenta e cinco obras do artista catalão Joan Miró, sob a justificativa de que consiste numa medida para ajudar a cobrir o dito "buraco do BPN", é mais um lamentável episódio de populismo puro com o qual o executivo em exercício nos envergonha - aliás, vergonha é um dos sentimentos concomitantes deste penoso calvário que está a ser o XIX Governo Constitucional de Portugal.

Este governo não tem nenhumas concepções do mundo que sejam exteriores à ideologia economicista pela qual se metodiza e, em regra, recusa tê-las. Na realidade, regula-se por um tipo de pensamento que observa com perplexidade todos os indivíduos que não gastem os seus dias na busca ininterrupta por lucro financeiro ou no cultivo dos mais avarentos interesses próprios. Sob esse assombro institucional que, tantas vezes, como temos visto, assume o recorte do desprezo, artistas, cientistas e intelectuais, são por ele catalogados como sendo ignorantes, irrealistas, indisciplinados e até malevolentes, porque falecem desse importante princípio moral - talvez o único que lhe importa - que é o desenvolvimento de interesses financeiros pessoais. Diz o catecismo neoliberal que «o dinheiro importa», mas, ao contrário daquilo que se pensa, o dinheiro não é riqueza. É, em vez disso, um requerimento, expresse-se assim, sobre riqueza que ainda não se tem - esta, propriamente dita, são os bens, as propriedades, os haveres, os activos. De facto, os bens e o dinheiro comportam-se de modo desigual, porque quando o valor de um deles baixa, normalmente aumenta o valor do outro. Os mecanismos económico-financeiros parecerão contra-intuitivos para quem não está familiarizado com eles, mas, com efeito, são muito simples de entender: se não o fossem nenhum espertalhão poderia reunir fortunas maciças a manipulá-los, porque, no fundo, quantas formas diferentes é que poderão existir de comprar uma coisa por um euro para vendê-la por dois? As terminologias técnicas com que são, periodicamente, apelidadas essas estratégias é que vão variando, à medida que o público as vai descodificando e emerge a necessidade de encriptá-las, mas, em essência, permanecem intactas. Em suma: os trinta milhões de euros que o governo almeja com a venda das obras de Miró são uma ninharia diante 1) do custo do "buraco do BPN" (cujo número aumenta todos os dias, quase geometricamente) e 2) face à sua avaliação no balanço do próprio BPN, cujo valor era de oitenta milhões de euros. Se vendermos a colecção de Miró estaremos a vender verdadeira riqueza (bens) ao desbarato.

Este governo é incapaz de valorizar cultura e conhecimento numa relação que seja extrínseca ao instrumentalismo mais elementar, num sentido que denomino de neo-romano em que até as coisas belas têm de ser lucrativas; aliás, neste sentido todas as coisas têm de ser lucrativas e quando algo deixa de sê-lo é tratado como lixo - incluindo as pessoas. Por conseguinte, o único valor que este governo reconhece numa tela de Miró é o mesmo que um merceeiro vê quando olha para uma lata de salsichas exposta na prateleira do seu estabelecimento ou para um cacho de bananas dentro de um caixote de frutas posto à porta: é o do lucro financeiro, puro e duro. O problema deste governo é de jaez ideológico (ou edeológico, tal é o carácter pornográfico - freudiano - com que a cartilha neoliberal é por ele seguida), mas, também, é de ordem metodológica, porque em política não basta ter ideologias: é preciso ter ideias traduzidas em objectivos. Os métodos, sejam eles certos ou errados, estão sempre ao serviço dos objectivos, mas, infelizmente, quando se pratica uma política desvinculada de quaisquer objectivos, quando se põe em marcha uma política do vazio, a única coisa que resta são os métodos. Ora, os métodos, certos ou errados, como escrevi, transformam-se, eles próprios, nos objectivos. Esta é a realidade trágica que se vive todos os dias.

Mais do que neoliberal, este governo é neo-isolacionista. Mais do que ser conservador ou até reaccionário, este governo é um retrocesso evolutivo. É um governo inimigo das leis, das instituições, das pessoas, da racionalidade. É inimigo da cultura, da ciência, da educação e do intelecto. Este governo tem tanta concepção do que significa arte como tem concepção do que significa ontem, hoje e amanhã: para ele, estes três conceitos são entidades relativas e amoldáveis de acordo com aquilo que se vai inventando à medida que se caminha de vergonha em vergonha. Este governo só está interessado na preservação do poder, como ficou explícito, entre outras circunstâncias, pela crise política de Julho do ano passado.

    

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Jim Henson, a biografia


Editada no ano passado, a primeira biografia de Jim Henson, extraordinário criador de Os Marretas, entre outras personagens memoráveis que ocupam um lugar muito especial nas vidas de quem cresceu a vê-las na televisão. Escrita por Brian Jay Jones, biógrafo de Washington Irving, outra mente irrequieta cuja obra continua a reverberar nas constantes adaptações que dela fazem, escreveu um livro espantoso que nos recorda que indivíduos excepcionais como Jim Henson são raríssimos e preciosos. Henson é um dos meus heróis pessoais e, sobre a sua obra, tive oportunidade de, recentemente, dizer o seguinte:
Além disso, o universo do Jim Henson influenciou-me muito, também, quando eu era criança e adolescente, porque mostrava monstros a conviver com pessoas: os monstros eram loquazes, mas também tinham comportamentos animalescos. A mistura da eloquência do humano com a irracionalidade do monstro foi muito importante para mim. Também me estimulava muito a ideia de que, ao mesmo tempo que havia um universo oculto sob a casca do banal, como em «O Mundo dos Fraggles», em que havia, pelo menos, dois mundos escondidos, o dos Fraggles e o dos Ogres, a convivência do humano com o monstruoso era um dado adquirido, como em «Os Marretas». Mais tarde, passou na televisão a série «The Storyteller», que me emocionou muito – ainda hoje me desperta muitas emoções. Sempre achei que o universo do Jim Henson era, de certa maneira, muito perverso, muito subversivo. Não era um universo moralista: as personagens tinham comportamentos caóticos, selvagens, comiam-se umas às outras, eram deformadas… É possível que, de um modo mais ou menos subconsciente, tente evocar nas minhas histórias a magia que eu sentia ao ver as criações do Jim Henson. De facto, sempre me senti atraído por universos muito palavrosos: gostava muito de monstros, mas queria muito saber o que é que eles tinham para dizer. Gostava de monstros com o dom da palavra.



Admiradores de Jim Henson, este é o livro de que todos estávamos à espera.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Temas actuais #2: a praxe

Nas últimas semanas, a praxe académica tem permanecido como tema central na comunicação social, transmitida nos horários nobres de noticiários televisivos e destacada nas primeiras páginas dos jornais, assim como debatida em diversos locais na Internet.

Sou e sempre fui antipraxe, nunca conseguindo observar na praxe nada de atractivo e edificante. De maneira geral, os blocos noticiosos têm classificado a praxe académica como sendo um ritual iniciático ou, no mínimo, como sendo um ritual parainiciático, mas acho que essa denominação é forçada. É provável que quando os indivíduos adjectivam determinadas operações com a palavra iniciação estejam a pensar num significado mais próximo da ordenação. No meu ponto de vista é este o significado que os praxistas (palavra que existe, pelo menos, desde meados do século XIX) atribuem à praxe quando insistem que consiste numa cerimónia que integra novos alunos na hierarquia académica.

A ordenação tem como objecto a incorporação do indivíduo numa determinada ordem e existem ordens muito variadas, como religiosas, militares, civis, honoríficas, esotéricas e, aparentemente, académicas. Ora, a iniciação, por seu turno, pressupõe uma aprendizagem gradual de um conjunto de conhecimentos exclusivos de um círculo restrito; ou seja, um florilégio de ensinamentos que tanto podem ser de índole profissional como puramente filosóficos. Por exemplo, as ordens chamadas de esotéricas são, em regra, iniciáticas, porque os novatos, mais do que meramente ordenados, são iniciados na aprendizagem de saberes que são privilégios dessas ordens. Nesse sentido, os infindos rituais de iniciação existentes são, geralmente, alegóricos ou simbólicos em relação aos saberes ditos esotéricos de cada ordem em particular. Possuem uma coerência semântica e discursiva correspondente com o seu próprio universo.

De sinal contrário, a praxe académica mostrada na comunicação social e que também pode ser presenciada na rua é sincrética, findando-se numa ordenação muitíssimo elementar, feita de retalhos grosseiros da mais boçal cultura popular, na qual se conjugam brincadeiras próprias de recreios de liceus com o rigor violento das recrutas. Somente por mimetismo superficial a praxe - na tónica que coloca numa espécie de catecismo da humilhação e na exibição escatológica de um tipo de sexualidade herdado do marialvismo - poderá ser confundida com iniciação, porque a praxe é um fim em si mesma e não determina nenhum percurso individual de transformação ou conhecimento. Apelidar a praxe de ritual iniciático é emprestar-lhe um cunho que ela não tem, nem nunca teve. Creio que o fenómeno da praxe é, particularmente, merecedor de crítica no que diz respeito ao contexto das universidades públicas, porque se estas são públicas dispensam quaisquer pseudo-rituais de ingressão e de passagem.

A vida é única e curta. Há quem ganhe tempo a aperfeiçoar-se e a buscar conhecimento e há quem perca tempo a embrutecer-se e a buscar o entretenimento - aqui, infelizmente, muitas vezes à custa dos outros.