sexta-feira, 30 de maio de 2014

Autógrafos meus na Feira do Livro de Lisboa


Autógrafos meus na 84ª Feira do Livro de Lisboa (que abriu ontem, no Parque Eduardo VII):
- As feiras do livro são bons locais para os escritores divulgarem os seus livros e falarem com leitores que, de outro modo, nunca conheceriam, mas, falando do conceito em si, nunca gostei de feiras do livro. Odeio ver as barracas com os livros expostos como se fossem peixes nas lotas, as roulotes de farturas e as animações cafonas que se inventam para divertir gente que, durante o resto do ano, nunca se lembra, sequer, de pôr os pés numa livraria. (Ponto positivo para a feira do livro de Lisboa, contudo: há sempre um quiosque qualquer com boas bicas a poucos passos de distância de qualquer sítio onde se esteja.)

Dito isto, informo que estarei na feira do livro de Lisboa para assinar exemplares dos meus livros:
- nos dias 8 e 15 de Junho, sempre das 17H30 às 19H00, na Praça Amarela, adjacente ao stand da distribuidora Europress, no qual poderão, entre outros títulos de minha autoria, adquirir Palmas Para o Esquilo, escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa (Kingpin Books, 2013).


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Para que se entenda do que se fala quando se fala em extrema-direita

Repudio com veemência o discurso de exculpação com que alguma comunicação social e a opinião pública nas redes sociais indulgem aqueles que votaram em partidos de extrema-direita nas passadas eleições europeias, caracterizando esses votos como sendo de protesto por um sistema partidário incompetente ou corrupto que não resolve os problemas dos cidadãos. Em sinal contrário, eu caracterizo esses votos em partidos extremo-direitistas como sendo atestados de ignorância política e histórica, alimentados pelos mesmos impulsos volúveis que estiveram na origem dos movimentos reaccionários de massas que, agora, esses partidos extremo-direitistas imitam nos modos, nas propagandas e nos programas.
Sob o selo da segurança da nação, do discurso anti-imigração e do agitamento de fobias etnocêntricas, que variam de alvos e grau de violência consoante os países, velhas ideias (como a esterilização obrigatória de indivíduos considerados inaptos para a reprodução e o aborto de fetos com síndrome de Down e espinha bífida) estão a ressurgir, diante da complacência, da falta de informação e da cumplicidade de todos aqueles que acreditam em soluções simples, personalizadas nas vontades de certos líderes mais ou menos carismáticos (na visão de quem os segue), para problemas complexos, compostos por diversas forças sociais e económicas agindo em conjunto. O discurso do autoritarismo é, sempre, o do monossílabo.
Parece-me que o cultivo da memória e a transmissão do conhecimento tem falhado e produzido os seus monstros, daí que será útil olhar, sem máscaras, aquilo que, de facto, se está a falar quando se fala em extrema-direita. Para o efeito, recolhi umas imagens que considero representativas de um período que não deve regressar. Escolhi imagens relacionadas com os crimes de guerra e flagelos sociais realizados pelos nacionais-socialistas, na primeira metade do século XX, porque é o movimento reaccionário de massas que conheço com maior profundidade - assim como me parece ser este o movimento reaccionário de massas que mais escola tem feito nos cernes dos vários partidos extremo-direitistas contemporâneos. Em rigor, quando se fala em extrema-direita não se está a falar em votos de protesto - está a falar-se disto:


Cartaz de propaganda eugénica nacional-socialista contra a «vida inadmissível de viver»: o texto doutrina que um indivíduo doente custará 50 000 marcos ao estado até que chegue aos sessenta anos de idade. O slogan maior diz, explicitamente, que «são vocês [o público] que suportam este custo». A demonização dos doentes físicos e mentais e dos idosos, entre outros, desumanizando-os como vidas inúteis, serviu o propósito de anediar a tolerância das massas aos extermínios etnocêntricos e religiosos que, em breve, se seguiriam. 


Os campos de concentração e os campos de extermínio começaram por ser pequenos, mas, em poucos anos, cresceram muitíssimo, tornando-se fábricas de morte que poderiam alcançar diversos quilómetros quadrados. Em cima: a entrada do gigantesco campo de concentração e extermínio Auschwitz II - Birkenau; em baixo: uma vista aérea do imenso campo de concentração de Dachau. Os campos de extermínio foram construídos com o único objectivo de serem rápidas e eficientes fábricas de genocídio, embora os campos de concentração também fossem campos de tortura e execução maciços.




Raparigas e mulheres grávidas enforcadas em praça pública: consistiu na eliminação de mulheres para impedir a reprodução da «vida inadmissível de viver». Muitos crimes desta natureza foram perpretados por civis, encorajados por milícias paramilitares e pela SS, veiculando, assim, os preconceitos e ódios de estimação das povoações. Quando a cúpula age de um determinado modo, as bases comportam-se de acordo com esse exemplo. 


Milhares de famílas consideradas indignas de viver pelos padrões do regime foram fuziladas por milícias paramilitares e populares.


Prisioneiros morrendo lentamente nos campos de concentração nacionais-socialistas.


O suicídio foi uma realidade tangível no dia-a-dia dos campos de concentração nacionais-socialistas.


Escravos de um campo de extermínio nacional-socialista arrastam um indivíduo assassinado na câmara de gás até aos fornos crematórios.


Fornos crematórios do campo de concentração e extermínio de Majdanek, com cinzas e ossadas de prisioneiros incinerados, em primeiro plano, na metade inferior da imagem.


Quando os inúmeros fornos eram, ainda assim, insuficientes para incinerar a quantidade de indivíduos assassinados nas câmaras de gás, os corpos eram incinerados em grandes valas, como pode ver-se na imagem acima, tirada no campo de Auschwitz II - Birkenau.


Corpos empilhados no campo de Dachau, num pátio adjunto aos fornos crematórios, à espera de serem transportados para o interior, de molde a serem incinerados.








Livros de que o meu gato gosta


Plutão, o meu gato, gosta de esconder-se nos espaços exíguos entre as prateleiras e os livros. Adora o cheiro deles e, às vezes, selecciona uns quantos, deitando-os ao chão e puxando-os das estantes com as garrinhas. Eis alguns dos livros que, até este momento, ele já escolheu e assinalou como seus preferidos, espojando-se sobre eles:

- Rats: A Year With New York’s Most Unwanted Inhabitants, de Robert Sullivan (este até o caçou – será pelo título?)

- A Perfect Red: Empire, Espionage and the Quest For the Colour of Desire, de Amy Butler Greenfield

- Sex Crimes From Renaissance to Enlightment, de William Naphy

- Stories Toto Told Me, de Frederick Rolfe (Barão Corvo)

- Don Renato, de Frederick Rolfe (Barão Corvo)

- Against the Day, de Thomas Pynchon

- Gravity’s Rainbow, de Thomas Pynchon

- História da História em Portugal, de Luís Reis Torgal, José Maria Mendes e Fernando Catroga (na imagem)


quarta-feira, 28 de maio de 2014

«No Teclado do Meu Computador»: um poema



No Teclado do Meu Computador
(Para Edgar Allan Poe.)
  
 
Em noite de cerebrações, preleccionava a vida ignorada de Camões –
sustendo dois pesados volumes com habilidade de prestidigitador –
quando, reticente, suspendi a minha leitura à vista de uma figura:
uma bizarra borratadura que achei no teclado do meu computador.
“Uma mancha’, murmurei. “Meramente uma mancha de suor,
no teclado do meu computador”.

Oh!, mas já era, então, o mês frio de Dezembro – e, bem lembro,
não me rebolou de nenhum membro uma única pinga de suor.
Baralhado, observei com atenção e após longa verificação
encontrei uma explicação – uma explicação maior –
para aquela rara e repentina mancha que, sem cor,
me apareceu no teclado do computador.

Na oportunidade em que a resposta à inteligência foi proposta,
por determinação de minha laboriosa e pródiga indução,
convenci-me: “Lemuriana travessura!, esta gnómica pisadura:
é uma digitígrada assinatura, feita com felina diabrura,
no teclado do meu computador!”

“Foi o gato!”, eu disse. “Tratante traquinas! – que me arruínas,
o documento que ficou aberto – aberto no meu computador.”
O texto está corrompido, cheiinho de frases sem sentido,
porque o meu gato, entretido, se passeou como um lorde
no teclado do meu computador – e crashou-me o Word.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Uma herança da Europa: breve observação sobre o ressurgimento extremo-direitista



Em vez de ressurgimento da extrema-direita europeia, denomino de ressurgimento extremo-direitista europeu os êxitos alcançados por partidos anti-europeus nas passadas eleições europeias, porque não existirá, de facto, uma extrema-direita europeia unívoca, homogeneizada numa ideologia e num programa político circunscritos, mas uma panóplia de diferentes resistências ao projecto europeu e à globalização, classificáveis como sendo de extrema-direita. Com efeito, o ingrediente comum e conglutinante de todas essas forças será, em maior espessura, a recusa do referido projecto europeu; alavanca pela qual se guindaram à própria estrutura do parlamento europeu e dentro do qual esperam arruiná-lo. Propinadas pelo desprendimento, pela permissividade e, em alguns casos, pela cumplicidade das democracias, as forças extremo-direitistas europeias mais perspicazes e melhor financiadas aprenderam a instrumentalizar a própria democracia para os seus fins antidemocráticos.

Embora sejam herdeiras dos movimentos reaccionários de massas europeus que deram abrigo a alguns dos piores crimes de guerra e crises sociais do século XX, como o fascismo e o nacional-socialismo, estas novas forças extremo-direitistas europeias não são, no todo, idênticas aos seus antepassados epistemológicos. Pressurosamente arvoram esses antecessores em jeito de legitimação ou como marketing de choque para satisfazer apoiantes e financiadores mais radicais, mas fazem-no de maneira sincrética e puramente propagandística: é que a memória dos crimes de guerra e dos horrores sociais perpetrados pelas forças extremo-direitistas europeias da primeira metade do século XX são, ainda, a única membrana que impede as forças extremo-direitistas europeias contemporâneas de invadirem os órgãos centrais; razão pela qual, nimiamente, elas procuram alvos retóricos mais ou menos consensuais nestes novos tempos de carestia de vida.
Agarrando o modelo plasmado pela chamada Nouvelle Droite, em finais da década de setenta do século passado, as forças extremo-direitistas europeias contemporâneas compõem um rol de partidos ideologicamente conservadores, de pendor antiglobalizante, eurocépticos e xenófobos que, paulatinamente, penetraram no espaço político europeu – às vezes, até nos parlamentos de diversos países – brandindo um discurso populista anti-imigração, cuja tónica impressa na segurança e na defesa da nação tenta obscurecer os reais motivos de intolerância etnocêntrica que o inflama. Nessa lista de partidos europeus extremo-direitistas contam-se, entre outros, a Deutsche Volksunion e os Republikaner alemães, o Vlaams Belang belga, o Dansk Folkeparti dinamarquês, a Lega Nord italiana, o Fremskrittspartiet norueguês, o Schweizerische Volkspartei suíço, a Front National francesa, o Partido Nacional-Renovador português e o UK Independence Party inglês. São, classifique-se assim, uma vaga extremo-direitista europeia dissemelhante daquela que se materializou no período imediato à segunda grande guerra, encabeirada por associações de assumida continuidade fascista e nacional-socialista – como o Movimento Sociale italiano e o Sozialistische Reichspartei alemão. É, aliás, a partir das criações de organizações deste tipo que se quadra a decomposição dessas ideologias extremo-direitistas europeias, fibriladas por grupos como a Union de Défense des Commerçants et Artisans francesa, o Nationaldemokratische Partei Deutschlands alemão e o Boerenpartij holandês, por exemplo, e se verifica o surgimento de divergências mais fundas que sobraçam novas realidades continentais, como a islamofobia, o discurso anticapitalista, a rejeição da moeda oficial da União Europeia e a abolição do Acordo de Schengen. De todos os partidos europeus extremo-direitistas contemporâneos é provável que o mais influente seja a Front National francesa, cuja cabeça histórica, Jean-Marie Le Pen, advogou há cerca de cinco dias o uso do vírus hemorrágico ébola para “resolver definitivamente a questão da imigração”, sentença que merece ser cotejada com a vitória deste partido, liderado pela sua filha mais nova, Marine Le Pen, nas passadas eleições europeias em França ou seja, essa declaração lamentável não se terá traduzido em perda de eleitores.

No fundo, o programa político das forças extremo-direitistas europeias contemporâneas é, somente, a exploração, pela via da volatilidade, de fragilidades e de fracturas sociais, sejam elas quais forem em determinado momento, preenchendo continuamente, mas nunca completamente, essa espécie de vazio deixado à direita pelos movimentos reaccionários de massas europeus do século passado. Assim como a negação do holocausto tem como objectivo principal reabilitar o nacional-socialismo na praça pública, os novos partidos europeus extremo-direitistas constroem muitas vezes uma imagem publicitária que repele o rótulo de extrema-direita, sublinhando que, não sendo de direita nem de esquerda, estão para além do sistema (como pode ouvir-se, tantas vezes, na propaganda do partido grego neo-nazi Aurora Dourada e na propaganda do partido húngaro neo-nazi Jobbik, que se descrevem como sendo patrióticos e não como sendo de extrema-direita). Com efeito, residirá aqui um dos principais pólos de atracção destas organizações para o eleitorado que se identifica com elas: o facto de se apresentarem como partidos anti-sistema, estratégia que se serve da ubíqua descrença pública na capacidade de representatividade democrática dos partidos políticos. A família extremo-direitista europeia apela ao voto das massas, transfiguradas para efeito retórico em povo soberano, mas desrespeita-as quando, propositadamente, confunde democracia com oclocracia no seu palavreado antidemocrático e anti-sistema – algo que, infelizmente, não parece ser evidente para os seus eleitores. A verdade é que, hoje, a poucos anos de distância dos primeiros centenários das criações do fascismo e do nacional-socialismo, estas ideologias contra-revolucionárias de massas tornaram-se algoritmos universalmente aplicáveis que não dependem, de modo algum, de condições análogas aquelas que serviram de parteiras aos seus nascimentos para medrarem novamente. As organizações extremo-direitistas europeias da primeira metade do século XX respigaram elementos do Antigo Regime monárquico-absolutista e de movimentos contra-revolucionários, como o nacionalismo católico e o anti-parlamentarismo. As novas forças extremo-direitistas europeias não só não abandonaram essa matriz, como a transformaram sob a estratégia de uma procura de legitimação pelo sufrágio e através da liberdade de expressão: são autênticos cavalos de tróia infiltrados no espectro político. Sabotadores da democracia.

São, também, uma herança da Europa, é preciso lembrar. Se, infelizmente, crescerem da sua presente marginalidade e contribuírem para dissolver o actual projecto europeu isso consistirá em mais uma dissolução violenta da Europa por si mesma; em mais uma manta de retalhos de novos estados desfeitos para ser outra vez remendada de diferente feitio num futuro mais ou menos distante. À medida que outras sociedades ocidentais e não-ocidentais se desenvolvem e enriquecem sem agência europeia, a Europa corre o risco, não de tornar-se um grande museu, como tem sido pugnado com mais nostalgia do que ironia por alguns adivinhos da desgraça, mas num gueto de fratricidas enclausurados pela prosperidade e cupidez dos seus vizinhos. Não seria nenhuma novidade.