sábado, 28 de junho de 2014

A língua portuguesa não faz 800 anos de idade...

 
...ao contrário do que anda por aí a dizer-se, sobre o aniversário da assinatura do testamento de D. Afonso II (27 de Junho de 1214).
Só para esclarecer que o mais antigo documento escrito em linguagem* portuguesa data de 1175 e é propriedade do acervo do Mosteiro de São Cristóvão da cidade de Rio Tinto, na freguesia de Gondomar, distrito do Porto (pergaminho nº2 do maço nº10): consiste numa “notícia” de fiadores que pertenceu a Paio Soares Romeu («Pelágio», na grafia original), um dos senhores de Paiva e hipotético avô materno do pregador franciscano Fernando Martins - também conhecido por Santo António de Lisboa.

Por conseguinte, a língua portuguesa não faz 800 anos de idade: faz 839.
Isto, claro, se tivermos, mesmo, de encontrar uma data de nascimento para ela; algo um pouco artificial, na minha opinião, mas, enfim, sempre é mais rigorosa a data de 1175 que a de 1214. 

Como rebuçado, ainda deixo a informação que Gondomar significa cavalo de guerra.

* Linguagem era a designação que se dava a todas as línguas que não fossem latim erudito. Nunca é demais sublinhar isto, porque, às vezes, a este respeito, lê-se com cada disparate que até faz doer a vista.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Sobre a Peçonha Branca - em «Lisboa Triunfante»

 
Um excerto do capítulo «A Lição de Arquitectura», do meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008). Neste trecho, inserido no romance em nota de rodapé, mas parte integrante da narrativa – em Lisboa Triunfante todas as notas de rodapé são falsas e consistem em enredo –, observa-se a obra do filósofo fictício Binmarder da Silba, que, no romance, é um heterónimo fantasmático do verdadeiro poeta e cronista quinhentista português Francisco de Sá de Miranda. Binmarder da Silba cruza, ainda, duas personae literárias: o escritor quinhentista português Bernardim Ribeiro e De Selby, o filósofo fictício inventado pelo escritor irlandês Flann O’Brien no romance The Third Policeman. Nesse livro, De Selby, filósofo preferido da personagem principal, aparece apenas nas profusas notas de rodapé e, às tantas, o leitor descobre que ele sonha em destruir o mundo em nome de Deus com uma substância misteriosa, chamada D.M.P., por ele engendrada. Existe, assim, um paralelo entre De Selby e da Silba, por via da Peçonha Branca: droga com a qual Sá de Miranda, em Lisboa Triunfante, se intoxica para escrever e para se relacionar sexualmente com a prostituta Aurélia. A Peçonha Branca foi uma verdadeira droga muito popular na Lisboa Quinhentista e cujos efeitos Sá de Miranda testemunhou e registou. No trecho que se segue, o fictício da Silba conjectura sobre a origem da Peçonha Branca – droga que, em rigor, ainda não se sabe a origem e a forma:

Um artigo muito raro do filósofo Binmarder, publicado pela primeira vez no raríssimo Novas Horas Douradas (1487); incunábulo mais antigo que o Tratado de Confissom (impresso em Chaves no ano de 1489 e, erroneamente, apontado como sendo o mais antigo livro impresso em língua portuguesa). Num estilo proto-humanista, que rejeita a escolástica e antecipa os melhores trabalhos de André de Resende e Garcia da Horta, o visionário Binmarder ousa trazer para a filosofia a tradição satírica dos trovadores goliardos; o que, de certo modo, é a pedra basilar do estilo humanista, já que a glória das letras não passa de um substituto da antiga nobreza cavaleiresca. Enquanto escritor – e filósofo – Binmarder tece nos seus ensaios uma filigrana vaidosíssima que se preocupa em glorificar Minerva e Mercúrio; ou seja: o Intelecto, na pele dos pensadores, e o Comércio, na pele da nova classe burguesa. Neste ensaio sobre, precisamente, a branqueza da peçonha branca, ele coloca a Razão acima do Sentimento para perceber como os efeitos do estupefaciente mais popular do tempo dele estão relacionados com a propriedade principal que é a cor. Transcrevo de “A Branqueza da Peçonha”, retirado de Novas Horas Douradas de Binmarder Da Silba (Vol. II, pag. 157):

«O autor anónimo de O Atlas do Mal, livro que considero a primeira análise metafísica sobre a Sátira porque ao escarnecer dos meus ensaios satíricos ele está, enfim, a julgar esse género literário. A melhor constatação que retiro da leitura do texto enfadonho de O Atlas do Mal é que o autor não tem sentido de humor. Em primeiro lugar, ele acusa-me de ser um viciado em peçonha branca (!) e que a substância querida não só é responsável pela minha péssima prosa (aos olhos dele) como, ainda, a causa da minha fealdade (!!) e dos meus problemas de gota (!!!). Gostava de esclarecer que não sou um viciado. Sou um utilizador, porque a dita droga não rouba o ânimo para me dedicar a outro tipo de tarefas que não sejam o consumo (tarefas como escrever). Não é o local indicado para discorrer sobre a origem farmacológica da peçonha branca, misto do Vegetal e do Mineral, nem do intrincado processo através do qual ela se adapta ao dispêndio humano. (Basta dizer que, de acordo com as crónicas apócrifas de João de Barros - A Ásia Oculta –, toda a peçonha branca que se encontra disponível neste momento provém de um lote imenso que foi produzido há mais de trinta anos na Índia. O motivo da quebra de produção poderá ser a extinção das Centopeias Gigantes do Ganges, bizarros animalejos aquáticos que eram usados pelos fabricantes para pisotear as pétalas da flor da peçonha até estas se transformarem num pó fininho. A extinção das criaturas é justificada com uma inesperada intolerância à água conspurcada pelos indígenas que nela se banham amiúde.) O que me interessa é precisar o modo como a branqueza da peçonha é ela mesma um factor decisivo no modo como afecta o peçonhento (aquele que fuma ou ingere por outros meios – conheço, inclusive, um grande senhor do nosso Reino, que toma a peçonha por via anal com clisteres). A cor branca é, em muitas culturas, sinónimo de beleza ou de pureza. Ao transpor esse ideal para a actividade do peçonhento é legítimo afirmar que a cor não só é uma garantia que o material consumido é puro como a própria prática de o consumir é benta: purificada – e espécie de renúncia ascética ao alimento ordinário por outro mais espiritual (porque comunica com o sentido da visão interior). Os deuses não comem senão ambrósia e o peçonhento sabe que a satisfação que o pão oferece ao esfomeado de comida nada é comparada com o sentimento de satisfação que a peçonha presenteia ao esfaimado de sonhos! Então qual é a simbologia que esconde a flor branca e a peçonha magnífica que é seu sucedâneo? Que grande milagre é (ou era…) realizado pelos milhares de pezinhos das Centopeias Gigantes do Ganges? O que é que elas faziam? Pisavam as pétalas, somente? Ou possuíam um segredo mais elevado como o das abelhas laboriosas? Por que motivo desapareceram? Saberiam demais? Qual o segredo máximo da peçonha branca? É essa resposta que o peçonhento almeja conhecer quando se intoxica: a fé que a generosidade imensa da Natureza, expressa sempre nos feitios mais subtis, lhe mostre o real sentido do acto ao qual é – porque não dizê-lo? – misticamente orientado. Não se trata de preencher o tédio desta vida cada vez mais arreigada do pensamento com novas formas de arrumar as ideias: é buscar na comunhão com a substância secreta a raiz de uma essência! Não anda Sua Majestade em busca do Reino do Preste João? Se tomasse peçonha branca iria encontrá-lo mais depressa, de certeza. Ontem dei peçonha branca ao meu gato. Acho que ele gostou, mas terá compreendido a essência? E se ao tomarmos peçonha branca perdemos aquilo que faz de nós homens e começamos a ser mais como as centopeias que devem, sem dúvida, ter deixado algo de seu na mistela? (Pensem que uma delas escorregava e caía. Acham que a produção parava para que a ajudassem a levantar? Claro que não! Seria, isso sim, impiedosamente espezinhada.) Ou a ser mais como a própria flor que constitui o produto? Então que dizer sobre a terra e a água que nutriram a planta? Onde é que paramos? Em DEUS!... Deus é uma centopeia. Ou uma flor. Não há meio-termo. E tomar peçonha branca é uma experiência de comunhão com Ele.»

quarta-feira, 25 de junho de 2014

«Apocalipse em Azul»


Uma pequena banda desenhada escrita por mim e desenhada por André Coelho foi compilada recentemente no segundo volume da antologia Heróis de BD no Século XXI, publicação organizada e editada por Geraldes Lino (figura incontornável do universo da banda desenhada portuguesa), que irá estender-se por seis volumes. Esta antologia reúne diversos autores que contribuem com histórias de uma única prancha sobre as suas personagens preferidas, inseridas num contexto contemporâneo ou futurista que, em muitos casos, é inédito ou estranho aos seus universos originais, provocando, quase sempre, um efeito irónico ou satírico, mas sempre em tom de homenagem. Orientada por esse espírito, a minha homenagem é feita aos Estrumpfes, de Peyo, e intitula-se Apocalipse em Azul. Desfrutem. (Informações sobre como adquirir este e os restantes volumes da antologia podem ser pedidas pelo endereço de email: geraldes.lino [at] gmail.com).


terça-feira, 24 de junho de 2014

Hoje, prosa e poesia no Bairro Alto



Hoje, às 21H30, haverá tertúlia e spoken word no espaço cultural Buédalouco Pharmácia de Cultura (Rua do Norte, 60), no Bairro Alto, em Lisboa, comigo e com Charles Sangnoir. O Bairro Alto será alvo de uma pós-cirurgia e revisitar-se-á um lado mais humano e menos conhecido de Fernando Pessoa, com a interpretação musicada de trechos escolhidos a dedo. Por conseguinte, divulguem e apareçam. Para evocar a aura do espectáculo de hoje, deixo um registo em vídeo de parte do espectáculo de apresentação do disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (2012), escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir.


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Franjas Sonoras do Século XX: uma formação


João Morales (Revista Os Meus Livros, Festival Literário Livros a Oeste) está a organizar uma formação histórica sobre algumas correntes musicais do século XX, chamada Franjas Sonoras do Século XX. O local onde decorrerá a formação será o Fórum Dança (Travessa do Calado, nº26B, em Lisboa) e o horário será das 10H30 às 12H30 e das 13H00 às 15H00, nos dias 5 e 6 de Julho. (Até dia 27 de Junho, o custo da inscrição será de 40 euros; depois dessa data será de 45 euros).

Será uma boa oportunidade para melómanos e amantes mais generalistas deste espectro musical enriquecerem os seus conhecimentos.

Agradeço a divulgação.



sábado, 21 de junho de 2014

Nazis e desinformação histórica


Mais desinformação, cortesia do Canal História, desta vez pugnando a velha ideia de que os nazis foram pagãos e obcecados com o oculto, noção totalmente errada, mas cuja integração ideológica no imaginário popular parece ter sido feita a ferro quente. Uma dilucidação exige-se: os nacionais-socialistas - que, para começar, nem sequer se chamavam, entre eles, de nazis, porque nazi era uma alcunha pejorativa, inventada pelas massas, cujo significado pode traduzir-se por campónio ou saloio e que eles, simplesmente, odiavam - nunca foram "pagãos" (designação que, acrescento, é totalmente desprovida de conteúdo e de sentido quando usada fora do restrito contexto dicotómico que existiu entre a religião romana imperial e a paleo-cristã no dealbar mais primitivo do cristianismo), mas cristãos.

Os nacionais-socialistas foram cristãos e, sobretudo, tiveram o objectivo de criar um cristianismo novo, de massas, e por eles "purgado" daquilo que entendiam ser influências judaicas, chamado Cristianismo Positivo. O próprio Hitler foi cristão e considerava que o culto odínico era um embaraço e uma perda de tempo. Apesar de cristão foi anticatólico; no mínimo, não considerava com bons olhos o catolicismo e a sua animosidade contra o catolicismo foi sismográfica consoante os anos. De onde provém, então, a tal ideia que os nacionais-socialistas foram "pagãos"? Provém, pela medida grande, pelas mãos dos plumitivos e poetastros neonazis de meados do século XX em diante - como Savitri Devi ou Miguel Serrano, entre outros - que, pelas mais variadas razões, inventaram histórias sensacionalistas e fantasiosas nas quais os nacionais-socialistas contactam e instrumentalizam, dos mais variados feitios, forças sobrenaturais ou energias de origem extraterrestre. Foi esse caldo cultural marginal e politicamente mefítico que chegou até às décadas mais recentes e influenciou produtos de entretenimento de grande mediatismo, como o primeiro e o terceiro filmes da tetralogia de Indiana Jones, por exemplo. Filmes e livros que apresentam conceitos dessa natureza, ou similar, não possuem nenhuma relação com a verdade histórica daquilo que foi o fenómeno nacional-socialista e, com efeito, reduzir esse fenómeno à caricatura anti-heroística é desvirtuar a memória e extirpar-lhe a componente criminosa - quando não se projectam, de todo, no mais despudorado revisionismo.

A verdade é que de todo o aparelho nacional-socialista só Himmler e Rosenberg, provavelmente, namoraram, à sua maneira, com o oculto, mas, ainda assim, de um modo muito diferente daquele que é apresentado em produtos como o documentário The Nazi Gospels produzido pelo Canal História e por ele transmitido. Himmler não foi "pagão" e não quis criar nenhum culto "pagão" em volta da SS (informo que se diz "a SS" e não "as SS"): o seu flirt ocultista foi, sem dúvida, motivado pelo fascínio pelo bizarro e pelo sensacionalista, sem qualquer programa definido que o suportasse. O seu mentor, Willigut, também chamado de "o Rasputine de Himmler" não teve, ao fim e ao cabo, tanta influência como aquela que lhe imputam e, de qualquer das formas, essa influência operou por via do velho ariosofismo cunhado por Guido von List e por Lanz von Liebenfels: os avôs do chamado "ocultismo nacional-socialista", que acreditavam que Cristo fora ariano e que a Bíblia tinha sido escrita na Alemanha, antes de ser corrompida pelas influências dos antepassados dos judeus modernos.
Aliás, Liebenfels na revista Ostara escreveu várias vezes que era preciso exterminar todos os judeus, porque eles obstaculizavam o verdadeiro Cristianismo Ariano - Liebenfels que, ainda por cima, fingia ter sangue-azul e fingia ser um herdeiro da autêntica tradição templária. Isto porque ele foi monge cisterciense e após ser expulso dessa ordem criou a espúria Ordi Novi Templi, a primeira organização de língua alemã a ter uma bandeira com uma suástica (tinha um fundo amarelo com uma suástica vermelha). Foi, por conseguinte, no espírito da admirada Ordi Novi Templi que Himmler pensou em ritualizar alguns aspectos da SS: dar-lhe um certo ar de ordem cavaleiresca, aristocrática, mas sem a tal tónica "pagã" ou heliólatra que alguns nela querem ver.

Outro mito: a infame Sociedade de Thule, por exemplo, na qual estariam embebidas em ocultismo todas as cabeças do partido nacional-socialista, nunca existiu. Pelo menos nos moldes que é representada, geralmente. Em síntese, a verdade é que nunca passou de um ramo semi-obscuro, em Munique, da, mais conhecida - e, já nessa altura, bafienta - Germanenorden, mas baptizada com um nome individual por Rudolf von Sebottendorff para parecer mais moderna e apelativa a novos membros. Aparentemente, pouca influência - ou nenhuma - teve sobre o partido nacional-socialista, apenas contando com Rudolf Hess e, provavelmente, Hans Frank, como membros. Sebottendorff nunca se filiou no partido nacional-socialista, sequer. A chamada Sociedade Vril, que os fãs do "nazismo oculto" tanto gostam nunca existiu: é uma completa ficção.

Compreender o nacional-socialismo requer muitas e intensas leituras de materiais exigentes e o público comum não está disposto a realizar esse esforço, nem sequer terá, bem vistas as coisas, um conhecimento histórico basilar suficiente para isso, a verdade tem de ser dita. Será, no fundo, mais simples dizer-se que os nacionais-socialistas praticavam ritos de magia negra e que usavam tecnologia extraterrestre e que o genocídio dos judeus foi uma espécie de sacrifício de sangue aos deuses "pagãos" que idolatravam. Essa é a linguagem do comércio sensacionalista e do revisionismo. Não é a linguagem do rigor. É preciso lembrar que num dos infames discursos de Posen, Himmler pediu a Deus - ao deus cristão, não foi a Odin - que desse forças aos nacionais-socialistas para que eles conseguissem terminar o Holocausto («que Deus nos ajude»). O Holocausto foi o culminar tenebroso da velha escalada de violência anti-semita que o cristianismo/catolicismo europeu usou contra os judeus. Como disse o historiador Raul Hilberg, os nacionais-socialistas não inventaram nada: apenas decidiram que não bastava os judeus estarem proibidos de circular entre os cristãos ou confinados a guetos murados em bairros das cidades, como decretou Roma tantas vezes - mais do que apartá-los a todos, era preciso exterminá-los a todos, ponto. O discurso, como escrevi anteriormente, quando falei em Liebenfels, já estava feito: faltava quem tratasse da prática. Foi o que aconteceu, embora no início dos anos cinquenta do século XX começasse logo a aparecer quem dissesse que era tudo mentira, como, entre outros, Paul Rassinier, que escreveu o vergonhoso A Mentira de Ulisses, livro que se tornou muito popular rapidamente nos Estados Unidos e consiste no gérmen dos movimentos que negam a existência do Holocausto.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Laranjada*


Confesso o meu mau feitio: não considero que países cujas formas de governo se apresentem como sendo monarquias constitucionais sejam democracias autênticas. São monarquias: somente não são absolutistas, mas não deixam de ser monarquias. No entanto, a democracia é, mais do que um sistema de governo, o múnus de um certo estado de coisas. Por exemplo, Portugal, que é um país democrático - para ser mais preciso, é uma república semipresidencialista - ainda possui certos tiques pouquíssimo democráticos (como, aliás, se pode ir vendo, infelizmente). Tudo isto para comentar os recentes acontecimentos políticos de Espanha.

Ora, a Espanha só é Espanha, propriamente dita, desde 1876, porque somente em Junho desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente Espanha: até aí era o Reino das Espanhas, que é algo bem diferente. De facto, até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma: existiram vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar no século XVI a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Existe documentação portuguesa (e não só) coeva em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de marketing - que funcionou. Existem países que ainda pensam que Portugal faz parte de Espanha ou que se tornou independente dela há pouco tempo, mas a verdade é que a Espanha é que foi criada "ontem" e colada com pouquíssima convicção, como se torna evidente pelos actuais ânimos catalães e outros (Madrid já se pronunciou contra o referendo que a Catalunha quer fazer a 9 de Novembro pela sua independência).
Enfim, a cerimónia de proclamação de Felipe VI foi algo anacrónica, um pouco beata, mas "democracia" não foi palavra que, em definitivo, me veio à lembrança, apesar de ser conspícua no discurso da comunicação social que, deslumbrada, comentava o evento.


E a imagem do Manuel Godoy é só para lembrar aos mais distraídos que existe ainda uma questão chamada Olivença. Parecendo que não, aborrece um bocadito.

* Em calão quinhentista português, uma laranjada não é a bebida feita com o sumo de laranjas espremidas, mas o nome que se dá ao acto de atirar uma laranja - podre, de preferência - à cara de alguém. Isto em referência à chamada Guerra das Laranjas, que os mais historicamente atentos deverão conhecer.
 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Tertúlia literária de amanhã adiada

Caros, a tertúlia literária Poesia e Arte agendada para amanhã, às 21H30, comigo e com Charles Sangnoir, no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60), foi adiada para dia 24 de Junho, à mesma hora, por motivo de última hora. Reagendem e divulguem, por favor. Obrigado.


Homens sem mestres


O modo como a história, de Portugal, em principal, é tratada nestas linhas assoma a uma leviandade que quase se transfigura em objurgação, bem vistas as coisas: só quem não sabe nada sobre a história oitocentista de Portugal pode ser tentado a levar a sério este discurso que, entre outras coisas, pretende transplantar para esse período um ponto de vista, maioritariamente, contemporâneo sobre o que significa ser-se de Direita, que neste artigo se encontra reduzido ao prosaico conservadorismo. Neste momento, naquilo que é, acima de tudo, uma partilha, não terei espaço para explanar, nem sequer superficialmente, o quanto o artigo erra quando vai por esses caminhos quasi-revisionistas (bastaria, para o efeito, lembrar uma data - 1828 - e um número - 12.000 indivíduos exilados, enforcados e decapitados), mas tenho latitude para lançar uma interrogação: existem intelectuais de Direita e intelectuais de Esquerda ou, por outro lado, existem intelectuais, ponto? Com efeito, quando o pensamento se põe ao serviço da política passa a chamar-se propaganda: até pode ser uma propaganda que vai na direcção dos nossos gostos, mas não deixa de sê-lo.

Para mim, um verdadeiro intelectual, público ou não-público, de Direita ou de Esquerda, define-se - sempre - por aquilo que John dos Passos chamou a Thorstein Veblen na biografia The Bitter Drink que sobre ele escreveu: «um homem sem mestres». O resto são fogos-de-vista lançados ao ar para vender jornais e para, como sempre foi o objectivo das forças reaccionárias portuguesas, desde os tempos do absolutismo, saciar as vontades das classes hegemónicas cultivando a total alienação daquilo a que elas chamam plebe. Não mudámos nada - nada.


Bairro Alto: Uma Pós-Cirurgia - amanhã às 21H30

 
 
Lembro que amanhã, às 21H30, eu e Charles Sangnoir seremos os convidados especiais da tertúlia literária Poesia e Arte, que se reúne todas as terças-feiras no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60), no Bairro Alto, em Lisboa. Iremos reinterpretar a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia (escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir), composta originalmente para as comemorações do quinto centenário do Bairro Alto e apresentada ao público no Palácio Quintela, em Dezembro de 2013. Também se irá ler poesia e prosa de Fernando Pessoa (figura sobre a qual já escrevi no meu romance A Conspiração dos Antepassados). Apareçam.

Deixo-vos com um excerto de Bairro Alto: Uma Cirurgia:

«O Bairro Alto podia muito bem ter definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade, remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco. Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade; tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.
      
Escalavraduras estendendo-se pelo estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo, próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal, mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão, espalham-se graffiti nas paredes: equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos. Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que comunica connosco em código.

O Bairro Alto é uma cirurgia.

Mas que cirurgia é esta?

Por que é que somos, irresistivelmente, atraídos por ela?

Estas ruas centenárias, que resistiram incólumes a vários terramotos, moradas mórbidas de desesperos e desejos, são os liçaróis e os liços da urdidura central olisiponense: sem o Bairro Alto como tear, a manta de retalhos que é a Lisboa contemporânea nunca teria sido meselada; nunca teria perseguido, sôfrega, o Sol na sua libitina trajectória ocidental. Sem esse primitivo modelo, o levantamento da Lisboa Pombalina não teria acontecido: toda a Lisboa imitou o Bairro Alto, olhou para ele e ficou estupefacta com o futuro que ela própria já encerrava – ficou de queixo caído à margem do Tejo e nem Cristino da Silva nem França Borges foram fortes o suficiente para o lacerar. Persistindo incólume às calamidades provocadas por deuses e homens, ele é o único grande fóssil vivo de Lisboa – tão assombroso e anacrónico quanto um variegado celacanto. Mas não se pode compreender essa cirurgia sem uma iniciática diérese territorial.»


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Autógrafos na Feira do Livro de Lisboa no próximo Domingo


Os vencedores do desafio relacionado com o meu romance Lisboa Triunfante já foram anunciados. Entretanto, aqui fica, também, uma foto minha, tirada enquanto escrevia esse romance, algures no primeiro semestre de 2008.
É uma boa imagem para lembrar que no próximo Domingo, dia 15, estarei na Feira do Livro de Lisboa, junto ao pavilhão da distribuidora Europress, adjacente à Praça Amarela, entre as 17H30 e as 19H00, para assinar os meus livros, os de prosa e os de BD. Apareçam.

Vencedores do desafio «Lisboa Triunfante»


Os vencedores do desafio que lancei esta semana, relacionado com o meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008), foram os leitores Inês Duarte (Torres Vedras), Marta Mortágua (Alcabideche), Inês Raquel (Agualva) e Humberto Morais (Beja). Parabéns - e, como diz a Raposa, atrevam-se a imaginar.

(Inês Duarte)

(Marta Mortágua)

(Inês Raquel)

(Humberto Morais)

Em breve, receberão pelo correio um exemplar do disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012), escrito e interpretado por mim e musicado por Charles Sangnoir (de La Chanson Noire), que, tal como Lisboa Triunfante, consiste numa autópsia psicogeográfica sobre essa cidade.


Entretanto, informo todos os leitores que no site das edições Saída de Emergência está disponível para download gratuito um companion que escrevi sobre Lisboa Triunfante, no qual discorro com profundidade - e sem spoilers - sobre as temáticas e escolhas que nortearam a escrita desse romance: para o efeito, basta que se registem, também gratuitamente, no site da editora para descarregar o ficheiro nesta ligação.


quinta-feira, 12 de junho de 2014

Tertúlia literária com David Soares e Charles Sangnoir


Na próxima terça-feira, dia 17 de Junho, às 21H30, eu e Charles Sangnoir seremos os convidados especiais da tertúlia literária Poesia e Arte que se reúne regularmente no Bairro Alto, em Lisboa, sempre às terças-feiras, no espaço cultural e de convívio Buédalouco Pharmácia da Cultura (Rua do Norte, 60): iremos reinterpretar a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia, escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir, que apresentámos pela primeira vez no Palácio Quintela, no âmbito das comemorações do quinto centenário do Bairro Alto. Desta vez, a componente musical será tocada ao piano, num formato acústico, conveniente ao intimismo do evento. Acrescento que esta edição da tertúlia Poesia e Arte centrar-se-á na obra poética de Fernando Pessoa, que revisitarei em interpretações também musicadas.

Quem ainda não conhece a força e originalidade da parceria entre mim e Sangnoir poderá descobri-las, por exemplo, ouvindo o nosso disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012). Deixo-vos a ligação para o tema A Lua do Loreto, pertencente a esse trabalho, e convido-vos a assistir à nossa interpretação na próxima terça-feira.

terça-feira, 10 de junho de 2014

«Terminal Tower» de André Coelho e Manuel João Neto


O meu cúmplice André Coelho acaba de publicar um novo livro de banda desenhada, em colaboração com Manuel João Neto, intitulado Terminal Tower, uma observação apocalíptica que, certamente, J. G. Ballard ou até Thomas Pynchon gostariam de ter imaginado. Eu li e recomendo. Aliás, já escrevi sobre ele para o catálogo do Festival Internacional de BD de Beja deste ano. Deixo-vos com esse texto, intitulado O Apocalipse é Fácil. Em seguida, leiam Terminal Tower, que é bom que se farta (uma edição Associação Chili Com Carne, 2014).

O Apocalipse é Fácil

A vida é líquida: derrama do corpo quando este fica repleto de memórias e cheio de perguntas. Não haverá dias melhores: apenas ausência. E confusão para quem permanece.

Quando os organismos morrem, ficam mais pequenos. Que lhes falta? Alma? Ou, apenas, informação? Vimos ao mundo somente para largar informação: genes e obras de arte – crianças, livros. Fósseis resgatados pelos corifeus do progressismo como provas de passados gloriosos; no entanto, quem os deixou não manteve nenhuma revivescência como horizonte. Não pode predicar-se o passado – nem o futuro – dessa forma.

Todas as culturas atribuíram um papel ominoso à ameaçativa estrutura que é a torre, símbolo da húbris, da catástrofe – cunha que se intromete nas rachas da cultura de modo a alargar o estrago e acelerar a queda das sociedades. Capciosamente, transformámos essa representação em transmissor de informação. Contrário ao sinal, o ruído é unidimensional. Contrária à vida, a morte é unidimensional. A vida é um esforço para criar relevo. Isto é Babel: relevo na desértica paisagem achatada; alto o suficiente para alcançar o empíreo. Os batimentos cardíacos no ecrã retinto do monitor são pequenas torres, coruscantes sismografias, avisando que ainda se está vivo, que ainda se comunica. E o mais admirável é a nossa inflexível esperança de que ALGUÉM ESTÁ A OUVIR!...

A esfera, o sólido perfeito, o corpúsculo, o ponto, o elemento constituinte da matéria, é, afinal de contas, unidimensional. Todos os mitos recipiendários têm origem no surgimento da esfera – nunca existiu uma tabula rasa, mas uma orbis rasa. A esfera e a torre são a estilização gráfica da iniciática emissão que perdura em nós. Somos ecos. Somos apenas cópias. Imperfeitas, mas algumas são ainda mais defeituosas. Algumas são monstros.

Os monstros habitam as margens dos sistemas e invadem o centro quando este adoece. Ciápodes – ciclopes: o monstruoso representa uma deformação da unicidade, uma visão unária, indeclinável. Autocrática. Não é à toa que os ditadores são monstros, turiferando um discurso monossilábico até que a informação se transforme em ruído. A forma mentis do monstro fá-lo surgir no folclore como arauto do cataclismo, como mordomo do apocalipse, porém, na vida verdadeira, os monstros não irrompem antes, mas depois. Depois da bomba, os estropiados – depois da expilação nuclear, os mutantes. A monstruosidade é uma sátira cruel à diversidade, uma fantochada feita de ruído. Não tem beleza. Não tem significado. A não ser a beleza do aleatório e o significado que decidimos impor. Criar relevo é inventar significados: vivemos numa realidade imaginada, mas as ficções que criamos não são mentiras, são exofenótipos – não se pode ser humano sem uma torre, mas aceitar a torre é aceitar o monstro. Aceitar o apocalipse. Nada é mais fácil.

Nada é mais terminante.