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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Humano no Fantástico


Várias vezes defendi a adaptação cinematográfica do livro The Hobbit, de J. R. R. Tolkien, realizada em três filmes pelo cineasta neozelandês Peter Jackson, e ao ver a versão "estendida" de The Battle of the Five Armies (escrevi "estendida" entre aspas, porque as versões alargadas, editadas em DVD, são, na verdade, as originais, que serviram de matriz às mais curtas, exibidas nos cinemas) compreendo que estes filmes não poderiam, de facto, ter sido feitos de outra forma, pois compõem uma sequência perfeita que completa, em estilo, tonalidade e lógica narrativa, a trilogia anterior (The Lord of the Rings). Deste ponto de vista, penso que os problemas de percepção que The Hobbit cultivou, desde a estreia da sua primeira parte, relacionam-se com uma certa deslocação de expectativas: sob o espectáculo deslumbrante dos superlativos efeitos especiais (à la Ray Harryhausen do século XXI), existem apontamentos e ideias de uma fina subtileza que são continuamente interpretados de maneira oblíqua por um público cuja definição de "fantástico" presente na sua constelação cultural é paupérrima. Essa palavra ("fantástico") é dinâmica, evidentemente: tem-se transfigurado no desenrolar das décadas, assim como outros conceitos mais estruturantes (o princípio setecentista de "mal" difere em quase tudo da sua acepção contemporânea, assim como o modo como se vivia a morte no início do século XX é dissemelhante daquele que caldeia o início deste).

No fundo, prefiro designar o imaginário tolkiano por "mitologia fundacional", posto que aquilo que a maioria do público entende por "fantástico" somente se relaciona com ele por via de algum mimetismo estético: essa pseudoliteratura feita por colagens sincréticas e apressadas dos arquétipos tolkianos, pontuada por uma intrínseca imaturidade, que em nada tem contribuído para a credibilização dos universos da imaginação junto de um público e de uma crítica mais sofisticados. Com efeito, o dito "fantástico" é incomensuravelmente maior que o nicho criado por Tolkien e seus imitadores, mas é, precisamente, esse nicho que chega mais vezes e mais depressa ao grande público - ora, talvez seja atempado e útil remir Tolkien desse nicho, com o qual ele apenas se aparenta superficialmente. Talvez seja atempado e útil deixar de ler Tolkien à luz de alguns anacronismos e preconceitos que têm obstaculizado a sua interpretação e cotejá-lo com os textos das cosmogonias das sociedades pré-clássicas, por exemplo, com os quais, em bom rigor, patenteia muita paridade. Existe um lirismo em Tolkien que nada tem a ver com o receituário patético que a sua obra, infelizmente, criou, mas que se une, profundamente, aos grandes mitos fundacionais.

Para além disso, sob as vestes diáfanas da fantasia, Tolkien cria retratos autênticos da natureza humana. A esse título, observe-se o cenário plasmado em The Hobbit: um tirano ocupa ilegalmente um território rico em recursos, expulsando os seus habitantes que, anos mais tarde, intentam recuperar essa terra prometida; uma vez eliminado esse tirano, assiste-se a uma vera pulverização de poderes, com diversos grupos locais, cada qual à sua maneira e com diferentes motivos, tentando agarrar o controlo desse território. Em paralelo, nas fímbrias do palco, um novo candidato a tirano arrebanha radicais tropas de elite que, sob bandeiras negras, só tem como objectivo a hegemonia global sobre todos os restantes grupos que, note-se, parecem mais interessados em digladiar-se por miríficas riquezas do que em unir-se para combater a ameaça comum.

Sim, Tolkien não tem, de maneira nenhuma, nada a ver com a realidade e a experiência humanas.


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Não farás lixo


À semelhança daquilo que acontece em outras cidades europeias, em Lisboa já está a ser aplicada a nova hierarquia de recolha semanal de lixo, segundo a qual cada condomínio é presenteado com dois recipientes para resíduos recicláveis de plástico e de papel (substitutos dos anteriores contentores de rua), enfileirados junto ao caixote de lixo que tinham nos seus rés-do-chão e que, a partir de agora, serve, em exclusivo, de recipiente de lixo doméstico não-reciclável.

Tenho tantas coisas para dizer sobre isto que, sinceramente, nem sei bem por onde começar. Para já, servirá a breve constatação de que quando falo em hierarquia de recolha semanal de lixo, é mesmo essa palavra que desejo empregar, pois subjacente à política europeia de gestão do desperdício doméstico (atenção que a palavra-chave desta designação oficial é desperdício: não é lixo, não é resíduos, mas desperdício, que carrega um mais pesado lastro "moralizante") encontra-se uma criação bem interessante, saída dos campos sempre férteis dos pseudoconhecimentos, chamada hierarquia de desperdícios: uma inovação da velha tríade de «reduzir, reutilizar, reciclar», que foi moda até há bem pouco tempo, e que tem como objectivo alcançar a utopia urbana de desperdício zero. Ou seja: a ideia é que os indivíduos façam menos lixo; neste caso, que não façam nenhum.
Considerando que o ser humano e a maioria dos animais não possuem poderes autotróficos, o que significa que não são capazes de produzir os seus próprios alimentos, tal como as plantas, será muito difícil não produzir, também, algum lixo.

De acordo com o cardápio desanimador da hierarquia de desperdícios, o lixo orgânico passa a ser recolhido pelos serviços camarários de limpeza somente às terças-feiras, às quintas-feiras e aos sábados. Por conseguinte, se tiverem amigos ou família para jantar num sábado à noite, somente na terça-feira seguinte é que poderão deitar fora o lixo produzido no fim de semana. De facto, isto é um problema, porque obriga os indivíduos a pensar num modo de conservar com segurança em casa o lixo orgânico durante quase três dias (porque a recolha de lixo é nocturna). Só na minha área de residência tenho encontrado caixotes a transbordar de lixo não-recolhido, caixotes cheios de lixo que estão "trancados" com as faixas adesivas aplicadas pelos serviços de fiscalização, por terem sido colocados na via pública em dias nos quais não está programada a recolha de lixo orgânico (corrijo, não-reciclável) e, o que é pior, sacos, saquinhos e lixo espalhados pelos passeios - situações que nunca ocorreram no período anterior à aplicação destas novas recolhas hierarquizadas. É óbvio: os indivíduos precisam de deitar fora o seu lixo todos os dias e as cozinhas e as despensas não foram desenhadas para ser lixeiras. Bem sei que em certos países do Norte da Europa não existe o hábito de cozinhar comida fresca todos os dias e que, nesses sítios, a maioria do lixo é composta por embalagens (de comida de micro-ondas, maioritariamente, mas também latas, frascos, pacotes de bolachas, etc.), logo a gestão hierárquica de desperdício será um pouco mais fácil de conseguir; porém, em países como Portugal, que tem hábitos domésticos e alimentares diferentes (ou vai tendo), a medida surge como artificial e impraticável (falando em países do Norte da Europa, a Dinamarca, por exemplo, o caso paradigmático que tantos países tentam emular, em tantos aspectos diferentes, está-se borrifando para esta história e incinera todos os seus resíduos - talvez por ter compreendido que os métodos recorrentes de reciclagem são muitíssimo onerosos, consomem mais energia e acabam por poluir mais do que aquilo que se pensa. Já agora, a reciclagem, esse cavaleiro-branco dos verdes de pacotilha, que transforma não-sei-quantas tampinhas de garrafas de plástico em vinte e cinco elefantes ou qualquer monstruosidade semelhante, figura bem baixo na pirâmide da hierarquia de desperdícios: o ápice é ocupado pela «prevenção», ou seja, por não se fazer lixo de todo).

O mais tragicómico é que a tal hierarquia de desperdícios e a teoria do desperdício zero (é mesmo a sua definição: teoria) são, somente, media darlings, filosofias vápidas embandeiradas em arco por quem acha que iniciativas como a Hora da Terra servem para resolver problemas de contaminação ambiental e de escassez de recursos energéticos, mas continua a trocar de smartphone ou de tablet a cada seis meses, contribuindo vigorosamente para a enchente muito insustentável de metais pesados que são enterrados clandestinamente em certos países africanos, onde envenenam lençóis de água e vão matar mais leões e elefantes que os caçadores parolos que as redes sociais adoram vilipendiar, ou, simplesmente, são deitados no Índico ou no Pacífico. Outra situação bem caricata é a de que o criador e principal pugnador desta fantochada da teoria do desperdício zero é um senhor que aparece pouquíssimo na televisão, chamado Paul Connett, autor do livro «A Solução do Desperdício Zero»: um obcecado por diversas teorias das conspirações, em principal a de que os governos esterilizam os indivíduos e lhes diminuem as capacidades mentais recorrendo ao flúor na água canalizada. Por conseguinte, alguém credível que merece toda a nossa atenção.

Algumas ligações interessantes para quem estiver, minimamente, preocupado em saber de que cabeças vêm determinadas ideias que nos afectam a todos:

- «Towards a circular economy: A zero waste programme for Europe»: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?qid=1415352499863&uri=CELEX:52014DC0398R%2801%29

- Site da organização Zero Waste International Alliance: http://zwia.org/

- Sobre Paul Connett no reputado site Quackwatch: http://www.quackwatch.org/11Ind/connett.html

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Anacusia


Wittgenstein escreveu que se um leão pudesse falar nós não seríamos capazes de entendê-lo. Sim, o dentista norte-americano também não entendeu o que lhe disse o leão que alvejou com uma flecha, atingiu de balas e cuja cabeça, em seguida, decepou. Sejam quais forem as circunstâncias, aqueles que, por uns instantes, se vêem com domínio sobre os outros têm sempre muita dificuldade em escutar e compreender aquilo que lhes dizem aqueles que sofrem. E, no entanto, tanto pelas vozes dos grandes como pelas dos pequenos, a linguagem do sofrimento é sempre igual, sempre as mesmas três plangentes toadas: tenho frio, tenho fome, não quero ficar sozinho.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Canivete-suíço digital


O smartphone actual é, bem avaliadas as coisas, uma espécie de reinvenção digital do canivete-suíço: uma panóplia portátil de um florilégio de funções (entre outras, relógio, calculadora, bloco de notas, câmara fotográfica, rádio, vídeo, navegador de Internet, gravador de voz, mapa, e, claro, telefone), reunidas num único aparelho muitíssimo transportável, cujas dimensões o tornam afectuoso e intimíssimo -- contudo, a palavra "funções" deve ser considerada com cristalina prioridade; ao contrário de um canivete-suíço, em toda a glória victorinoxidável, não existem objectos num smartphone. Apenas existem funções desincorporadas dos objectos (como fantasmas capturados por uma armadilha de muões).

No que concerne às morfologias física e digital, o smartphone (designação criada em meados da década de noventa do século passado), na sua, já arquetípica, encarnação desenhada pelo quimérico Jonathan Ive, vai ao encontro da comum calculadora: em especial, mimetiza a aparência da calculadora desenhada por Dieter Rams para a outrora teutónica e titânica Braun, uma pequena maravilha de elegância e depuração. É provável que essa ausência de objectos num smartphone nunca passe, sequer, pelas cabeças dos utilizadores; no entanto, quando se pensa nela, curiosas questões ontológicas medram na mente.

Por exemplo: até que ponto são utilizáveis essas funções-fantasmas?

Pense-se no tradicional canivete-suíço: serão os seus objectos, ocultos em estreitas bainhas (que nem pinturas escondidas em cortes dianteiros de livros, relevadas quando se repelam as páginas) -- frágeis ersatzs miniaturizados de ferramentas úteis, como tesouras, chave de fendas, saca-rolhas, abre-latas, corta-unhas, alicate, palitos e talheres --, verdadeiramente úteis? Ou, por outro ponto de vista, serão uma selecta sincrética que, somente, tem como objectivo compor um objecto singular para fetichistas de MacGyver? Conservem esta concepção enquanto observam as funções desincorporadas que um smartphone possui e a problemática adquire uma perspectiva totalmente nova: esses aparelhos estão cheios de funções que nunca são usadas -- ou usadas uma ou duas vezes. Ninguém, realmente, usa essas funções para realizar trabalhos sérios: elas são, como os objectos algo caricaturais de um canivete-suíço, um conjunto de características curiosas.

Funções desincorporadas dão-me pistas importantes para pensar na demanda pela inteligência artificial: é absurdo achar que um programa informático venha a reunir as condições necessárias para desenvolver uma inteligência de tipo humano sem que o seu hardware seja humanizado primeiro. O temporizador do smartphone informa-nos sobre as horas, é muito certo, mas não é nenhum relógio: é, isso sim, a função desincorporada de um relógio. Logo, não será possível criar uma mente humana artificial, sem criar-se, primeiro, um invólucro antropomórfico para a albergar, porque a mente humana é o somatório do cérebro e do corpo humanos -- se fosse possível transplantar-se com sucesso um determinado cérebro para um corpo diferente, em pouco tempo esse órgão, em parceria com o novo corpo, reestruturaria uma nova mente e passaria a pensar de uma maneira diferente. O cérebro evoluiu para pensar, tal como os pulmões evoluíram para oxigenar o sangue, mas não pensa sozinho. No limite, poderá imitar-se a função dessa inteligência, mas, obviamente, ela nunca será real. Apenas um palito de canivete-suíço.

Não deixará de ser anacrónirónico que, daqui a umas duas ou três gerações, nenhum indivíduo terá conhecimento algum dos objectos analógicos para os quais as funções desincorporadas dos seus aparelhos digitais remetem: habituámo-nos a ver objectos obsoletos nos museus, mas as nossas casas já são museus.

Vós sois livres de pensar se isso é uma coisa boa ou uma coisa má.

(Foto do meu canivete-suíço, tirada com a função de câmara fotográfica do meu smartphone e dulcificada na aplicação Instagram.)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Sobre a (Des)União Europeia


Pense-se na câmara fotográfica digital, que funciona de modo totalmente diferente da analógica. Com efeito, nada daquilo que faz uma câmara fotográfica tradicional ser uma câmara fotográfica tradicional se relaciona com o vero funcionamento de uma câmara fotográfica digital. Num determinado aspecto, as possibilidades deixadas em aberto pela miniaturização de componentes técnicos digitais, mais similares a bairros citadinos ligados por estradas e travessas do que às engrenagens mecânicas dos anteriores modelos exclusivamente manuais, que tinham tudo a ver com a lógica de organicidade fabril, na qual diversos componentes isolados concorriam, em harmonia, para criar um corpo organizado - tanto no sentido de coerente, como no de provido de órgãos - não libertaram o design industrial das amarras do funcionalismo: ou seja, se uma câmara fotográfica digital funciona de um modo muito diferente de uma analógica, então a sua forma não precisaria de mimetizar a desta para justificar a sua existência ou, sequer, para funcionar. Uma câmara fotográfica digital poderia ser-nos apresentada segundo uma lógica de desenho e de utilização totalmente inédita; todavia, as expectativas do público, em relação à imagem arquetípica que uma câmara fotográfica deve ter para ser considerada, de facto, uma câmara fotográfica, tolhe, liminarmente, quaisquer audácias prototípicas com que um aparelho dessa natureza poderia consubstanciar-se nas oficinas das grandes marcas. Uma câmara fotográfica digital comum, daquelas que podemos comprar em qualquer loja de centro comercial ou hipermercado, ainda arreigada ao fenótipo das analógicas, sem, verdadeiramente, de precisá-lo, é, assim, um objecto de transição - sendo que "transição", neste sentido específico, não envolve nenhum real comprometimento com uma hipotética ligação entre um pretérito estado analógico e uma actual maneira de ser digital, porque essa ligação não existe, de todo. O que existe é mero disfarce. Um disfarce conveniente às vendas, porque o público que se dirige às lojas para comprar uma câmara fotográfica, seja digital ou analógica, não quer, em suma, ser confrontado com surpresas ou ambiguidades.

Será, pois, útil pensar nesta União Europeia, sobre a qual vemos e ouvimos na comunicação social, como uma entidade equivalente: tal como a câmara fotográfica digital somente se adapta por mimetismo à aparência da câmara fotográfica analógica, para ir ao encontro das expectativas do público, também esta União Europeia pouquíssimo ou nada terá a ver com aquela que existia há umas décadas, dando a entender que somente vai imitando, de maneira postiça, a aparência desta para ser capaz de manter-se operante diante do público. Os seus componentes internos, a sua fisiologia de funcionamento já mudou - como mudaram umas câmaras fotográficas para as outras - e nós, pobres cidadãos europeus, em certa medida iludidos pela carapaça benfazeja das fronteiras abertas e de todos os autênticos progressos do passado recente, não nos apercebemos disso - a tempo útil, pelo menos.
Assim, a poucos dias do referendo na Grécia, as horas são, em simultâneo, de perplexidade e de ansiedade. Portugal, por tudo o que se sabe, deveria estar muitíssimo atento aos próximos desenvolvimentos desta situação, mas, provavelmente, não valerá a pena manter ilusões nenhumas acerca da conjecturada camaradagem europeia, porque esta União Europeia, a destes indivíduos tão empáticos quanto torradeiras (e igualmente frios e automatizados) que nos entram em casa pelas televisões adentro, já demonstrou, activa e consecutivamente, que não é a da solidariedade e a da confiança e a da irmandade. Na verdade, tem demonstrado reiteradamente, e com timbre de torcionário, o contrário: que aquilo que continua a existir parece ser, afinal de contas, a mais prosaica e brutal razão de estado, prosseguida pelos estados-nações mais fortes nas mesmas fórmulas egoístas e desapaixonadas do passado, excepto o, vá lá!, avanço ético, diga-se assim, de não o procurarem fazer pela guerra, mas com armas também destrutivas e, demasiadas vezes, mortíferas (que o digam os gregos, cujo tecido social se encontra completamente esfarrapado pelas medidas austeras do chamado Consenso de Washington: camisa de forças, de medida única, fornecida pelo FMI, com a ajuda dos seus parceiros, que não se compadece com as idiossincrasias e fragilidades de cada país em que é aplicada).

Enquanto Portugal faz figura de Pobre Diabo no palco do teatro internacional, cujos críticos não lhe perdoarão a interpretação miserável que está a desempenhar, a Grécia prepara-se para, sem muito tempo para reflexão, servir de exemplo histórico àqueles que ousarem enfrentar o Leviatã. Continuo a acreditar num projecto europeu e continuo a ser, como é óbvio, um europeísta, mas tenho cada vez mais dificuldades em reconhecer-me nesta desgraçada União Europeia na qual as políticas, manifestamente, são as da profunda hipocrisia e as da exploração - física e moral - dos países fracos. Algo de novo - e mais justo - é necessário, com total urgência.

sábado, 27 de junho de 2015

Sobre a queima do gato em Mourão

 
Os mouranenses que com exultação participaram na sua tradicional queima do gato, no decurso de uns divertimentos regionais em celebração do feriado de São João, não serão, certamente, facínoras sanguinários e muito menos psicopatas: encontram-se é empapados numa mundividência primitiva, muitíssimo liminar entre os códigos da bruxaria e da religiosidade mais sincréticas e desregradas, segundo a qual um gato não é um ser vivo consciente, com uma vida mental sofisticada, mas, somente, um autómato movido por instinto; tal como, até há poucos anos, se consideravam as crianças e as mulheres.

Folguedos brutais, de natureza idêntica ou análoga à deste, foram – e ainda são – comuns em toda a Europa: o jogo cruel de atiçar animais domésticos e selvagens uns contra os outros nas praças das vilas; de pô-los a lutar com homens armados ou desarmados em picadeiros improvisados; ou, simplesmente, a tortura espectacular, encenada em contextos de catarse social, deliciaram os nossos antepassados, rurais e cosmopolitas – satisfações das quais não esteve ausente uma forma diferente de estabelecer a fronteira que aparta o humano do não-humano. Com efeito, aquilo que é considerado não-humano pode ser tratado desumanamente; seja um animal ou uma pessoa (como os trágicos genocídios do século passado vieram, cabalmente, demonstrar). No final do século XVIII, o filósofo inglês Jeremy Bentham lançou o argumento seminal sobre o qual foi edificado o movimento oitocentista de promoção dos direitos dos animais, que sustentou no seu seio elementos tão díspares e com ideologias tão contraditórias quanto humanitaristas, utilitaristas e vegetarianos; além das disparidades de objectivos nutridos por cada grupo, deles nos chegou a noção de que os animais, afinal de contas, não são coisas. Na verdade, o ser humano, criatura muito recente do ponto de vista evolutivo, partilha o mesmo tipo de sistema nervoso que a maioria das existentes espécies animais.

Hoje, sabe-se que entre gato e homem existem supinas similitudes neurológicas, ao nível daquelas que estreitam a distância entre nós e alguns dos grandes símios, tanto na geografia cerebral, como no modo como o córtex, a camada superior do cérebro, se encontra desenvolvido. Os gatos são criaturas sensíveis e imaginativas: sonham muito e criam laços afectivos fortíssimos. No entanto, os ailurófobos (ailurofobia é o nome da fobia ou do terror a gatos, com base em aielouros, o nome grego para gato e que significa cauda abanicante) sempre foram mais militantes que os ailurófilos: queimar gatos vivos nas praças de vilas e cidades foi, até recentemente, um divertimento de massas, no qual participava toda a gente. Os detalhes mudam, de acordo com as localidades, mas tudo se resumia à acção de deitar directamente gatos vivos, fechados em sacos ou cestos, para uma grande fogueira (como o rei Luís XIV, de França, preferia) ou, então, na criação de situações em que eles caíssem sozinhos em cima dela (como no caso da queima do gato da localidade transmontana de Mourão). Acrescente-se que massacrar gatos à cacetada foi um passatempo de luxo para animar a corte portuguesa nos intervalos das longas touradas que, outrora, duravam horas a fio. Todas estas práticas, que consideramos bárbaras, tinham em comum a ideia de que era aceitável lidar de modo desumano com o não-humano.

A sociedade ocidental – é preciso, de facto, sublinhar que ela tem sido pioneira neste aspecto (e noutros também importantes) – tem vindo, num ritmo lento, mas seguro, a incluir um número cada vez maior de não-humanos na esfera de direitos que até há pouco tempo protegia, em exclusivo, alguns humanos, aleitando uma cultura de respeito e de valorização de vidas, criminalizando práticas consideradas naturais há uma ou duas gerações (como neste atávico caso mouranense, que desrespeita a legislação sobre maus-tratos a animais domésticos que entrou em vigor a 1 de Outubro de 2014). Haverá sempre indivíduos para quem a violência e o sadismo serão aceitáveis, mas, globalmente, aquilo que empurra as massas (e as elites) para o entretenimento atroz é a prosaica ignorância. Permanecer ofuscado pelo falso entendimento de que os animais são pouco mais do que objectos (em paralelo, já se acreditou, até, que as mulheres não tinham almas, por exemplo), concepção ainda fortalecida pela crença de que os todos os frutos da terra, diga-se assim, são dados por Deus ao homem para que ele disponha deles do modo que achar mais conveniente, é um puro exercício de anacronismo que não tem mais lugar numa sociedade esclarecida. No meu ponto de vista, o somatório é claro: entretenimentos que tenham como móbil a tortura directa ou outro carácter caviloso de sofrimentos físicos e psicológicos de animais e pessoas são crimes inaceitáveis. Assim, sujeitar um gato à clausura num pote de barro e a uma queda potencialmente fatal provocada por um ardil incendiário é um crime inaceitável.

Em 2001, um grupo de arqueólogos do Museu de História Natural de Paris encontrou na aldeia neolítica de Shillourokambos, na ilha de Chipre, um túmulo datado de 7500 a. C.: lá dentro, descobriram as ossadas intactas de um esqueleto humano, acompanhadas pelas ossadas intactas de um esqueleto de um gato. (Este, não deveria ter, ainda, um ano de idade quando foi enterrado.) Avaliando o espólio que rodeia o esqueleto humano pode especular-se com propriedade que seria um chefe ou, no mínimo, um indivíduo muitíssimo importante: nesse feitio, quando morreu, foi enterrado com o seu gato. É, na verdade, a mais antiga inumação conhecida de um humano com o seu gato de estimação. Obviamente, os serventes mataram o gato para enterrá-lo com o amo, mas, ainda assim, o que esse acto revela é a ideia de que aquele dono seria mais feliz no além-túmulo se tivesse a companhia do seu animal – e que este, presume-se, também seria mais feliz se fosse acompanhar o dono, em vez de ficar sozinho. Nas fímbrias pré-históricas da antecâmara do nosso mundo vê-se aqui o nascimento da consciência de que, mais do que ser uma mascote, aquele gato era parte da família. E, em suma, é desse modo que a maioria dos donos actuais vêem os seus gatos: como sendo parte das suas famílias. Fará sentido de outra maneira?
Se nos tempos arredados do Neolítico já havia quem se comportava assim, é provável que haja esperança para os infelizes campónios contemporâneos de Mourão, no sentido de progredirem a sua visão das coisas e perceber que é mais enriquecedor brincar com um gato do que queimá-lo.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Serradura e Barro: ou, Os Materiais e as Ideias


É tentador colacionar os polímates oitocentistas William Morris e Rafael Bordalo Pinheiro: nascidos no eixo do século XIX, num momento em que os remanescentes resquícios do Antigo Regime estavam a ser soprados para o passado por novos ventos - malquistos para uns, benfazejos para outros -, ambos observavam com desconfiança e desânimo a emergência da industrialização e a conjuntura capitalista em crescimento, ambos dedicaram os últimos anos de vida a produzir arte para as massas e, claro!, ambos adoravam gatos - o design delicado do lápis de Morris e a contundente caricatura criada pelo buril de Bordalo encontram um pouco esperável equilíbrio híbrido num discreto desenho feito a carvão por Morris, que mostra um gato sonolento, diante de uma toca de rato aberta num rodapé: o perfil felídeo fascina-nos com um feitio horaciano de risum teneatis que, em regra, está ausente na restante obra morrisiana, mas que consiste na mot d'ordre de Bordalo.

Não obstante, Morris rejeitou o método de produção em massa a que o desenvolvimento industrial deu o ensejo, preferindo manufacturar peças decorativas e de mobiliário segundo métodos antigos, em esquadria com desenhos e materiais tradicionais. Por sua escala, Bordalo adoptou à medida do seu projecto de neocerâmica caldense as fórmulas fabris, subordinando-as, para o efeito, à estética e discurso artesanais, mostrando que o ritmo de repetição e montagem que viria a assinalar, ainda no seu tempo, o arranque veloz do chamado taylorismo - epíteto que, mais tarde, Gramsci transmutaria em fordismo - não significava, em regra, a dissolução da identidade, subjacente aos artigos de consumo desenhados de modo "autoral" - no fundo, descobria-se que arte e design são, bem vistas as coisas, palavras com significados diferentes. Assim, tanto Morris, como Bordalo foram, em simultâneo, artistas e designers: ou seja, estetas por mérito próprio e, ainda, criadores conformes ao imperativo industrial; ambos sequestraram a doxa do domínio da produção em massa para os paraísos feéricos das suas imaginações. O projecto de Bordalo, contudo, intersecciona-se em maior envergadura com o de Christopher Dresser, outro contemporâneo. Um dos designers industriais mais influentes, tanto na Europa, como, depois, no Japão, Dresser deslumbrara-se, com dezassete anos de idade, no ventre do Crystal Palace, qual Jonas dentro do estômago da baleia, com a rutilância da grande exposição industrial de 1851 e essa experiência sensacional alentou-o a criar peças artísticas para a classe média, concebendo objectos de funcionalismo análogo aos de Morris e Bordalo (bibelôs, baixelas, papéis de parede, mesas e cadeiras, etc.), pese a enorme diferença estética: onde Morris é pastoril e Bordalo é popular, Dresser é quase pós-funcionalista, em sentido contrário, portanto, ao gosto neo-rococó que marcou os últimos lustres de oitocentos.

Avançando para o gonzo oleado a sangue e petróleo do século XX, foi, também, na encruzilhada entre o maquinal e o manual que uma descoberta baseada nos resíduos da marcenaria e da olaria viria a beneficiar os bichanos de todo o mundo - algo que, sem dúvida, faria a felicidade de Morris e Bordalo, eles que foram, às suas maneiras, marceneiro e ceramista.
Em Janeiro de 1948, na vila de Cassopolis, no estado norte-americano do Michigan, a dona de casa Kay Draper descobriu que a temperatura hibernal do início do ano inutilizara a areia usada para a caixinha do seu gato; nesse momento, percebeu que tinha de encontrar uma substância alternativa. Dessa sorte, experimentou serradura, adquirida numa estância da vizinhança, mas não ficou satisfeita com o resultado. Em seguida, o filho do dono da estância, Edward Lowe, com vinte sete anos de idade, persuadiu Draper a experimentar outro material, que ele tinha em abundância: uma espécie de fragmentos secos de barro, chamado Terra de Fuller, que estava a ser paulatinamente aplicado como sendo um absorvente industrial que substituía com segurança a serradura (a serradura é inflamável e o seu armazenamento nas fábricas era arriscado); Lowe tentara, sem êxito, vender Terra de Fuller a criadores de galinhas, como material ignífugo de nidificação - foi, consequentemente, por culpa do stock encalhado resultante desse fracasso que a senhora Draper pôde levar uma amostra para testar em casa, na caixinha do gato. A conclusão, adivinha-se, é histórica: nos primeiros dez sacos de Terra de Fuller que embalou para ir bater às portas das lojas de artigos para animais, Lowe escreveu com um lápis de cera o nome improvisado de Kitty Litter.

A invenção do Kitty Litter operou uma revolução no modo como os indivíduos se relacionavam com os gatos: até à data, pouquíssimos lares possuíam as chamadas caixinhas de areia e era comum os gatos fazerem as necessidades no exterior - o gato era, por esse motivo, uma criatura semi-selvagem, que ainda passava muito tempo fora de casa. Nos meses de Inverno, algumas famílias usavam tabuleiros ou caixas com terra retirada da rua ou areia para que os gatos não tivessem de sair com chuva e neve. Disseminado o uso do Kitty Litter, foi possível manter os gatos dentro de casa por períodos mais longos, contribuindo para a sua, cada vez maior, longevidade - e popularidade enquanto animal de estimação.
A respeito dessa popularidade, os cientistas começaram a estudar os gatos com mais atenção, compreendendo como, de facto, estes se comportavam e descobrindo aquilo que mais necessitavam para ser felizes. Nessa sequência, ocorreu outra revolução que contribuiu fulgurantemente para esse desiderato: a invenção da comida industrial exclusivamente desenvolvida para gatos, a partir da década de 70 do século passado. Descobrindo que os gatos precisavam de uma dieta diferente da dos cães e, sobretudo, de componentes vitamínicos e minerais específicos, muito difíceis de administrar em regimes feitos de comida confeccionada propositadamente em casa ou de restos de qualidade nem sempre ideal (que eram, até à data, os mais frequentes), a metodologia industrial de produção vilipendiada por Morris, tolerada por Bordalo e abraçada por Dresser estabeleceu o início do melhor tempo que os seus adorados gatos estão a viver. Foi, pois, a fortuita invenção artesanal/industrial do Kitty Litter, improvisado com resíduos de origem cerâmica, que possibilitou esse progresso - hoje, melhorado com a descoberta da bentonite, uma qualidade ainda mais absorvente de barro, que se aglomera compactamente em contacto com líquidos.

No cruzamento da serradura e do barro, da marcenaria de Morris e da cerâmica de Bordalo, co-tangente ao interstício do artesanal com o industrial, a alquímica amálgama do engenho e do tempo precisa, sempre, de materiais e de ideias. Quando se vive num tempo em que há ideias, mas faltam materiais, tudo parece estagnado, mas pior é viver num tempo em que até existem alguns materiais, mas faltam ideias. Quando há ideias, do pouco se faz muito; por outro lado, quando não há ideias, pode ter-se cofres cheios, que isso não levará a lado nenhum.

terça-feira, 3 de março de 2015

O novo pão e o novo circo


É provável que a ubiquação de diversos programas televisivos sobre gastronomia, aliada à inegável popularização e hegemonia da figura contemporânea do chef de restaurante, criatura híbrida entre o cozinheiro fino e o empreendedor finório, seja sinal de que existe um processo de retrocesso a um tempo em que a comida se consistia como um poderoso indicador classista. Com efeito, aquilo que se come e como se come ainda distingue, vestigialmente num feitio tradicional, certas heterodoxias humanas, como preferências de grupos demográficos, étnicos ou emblemas de filiações ideológicas de múltiplas ordens; no entanto, assiste-se ao ressuscitar de uma nova-velha era em que a comida volta a ser símbolo sistemático, basilar, até, do valor e do lugar dos indivíduos na mesologia social em que estão inseridos.

Assim, mantimentos de primeira necessidade são vendidos nas superfícies comerciais com selos de dita marca branca, de proveniência obscura e manufacturados com matérias-primas de difícil identificação, muitas vezes ao lado de artigos alimentares apresentados com auras luxuosas nas quais os rótulos tranquilizam os consumidores com mais poder de compra com avisos de que esses produtos não se encontram à venda sob outras marcas ou denominações. Tal como a roupa barata se estraga mais depressa que aquela que é vendida a um preço mais elevado, também a comida barata serve para alimentar de farrapos as massas que ginasticam os seus ordenados de sobrevivência. Fora da esfera doméstica, o restaurante -- palavra cuja significação etimológica se relaciona com o restabelecimento da saúde -- apresenta-se cada vez mais como apogeu das mais ambiciosas aspirações do dia-a-dia: interrupção feérica do tempo rotineiro durante a qual é possível, em princípio, degustar não uma refeição, mas uma experiência sensorial transcendente, idealizada pelo 'chef' consagrado à especialidade dessa eucrasia. Há muito que o chef substituiu a figura do médico, já outrora substituído pelo nutricionista, na psique popular. Neste cintilante e espectacular universo gastronómico, a doença não é mais a fome, mas a pobreza, da qual aquela procede, pois a nova roda dos alimentos está fatiada de acordo com a quantidade de moedas que cada bolso contém, como é curial de um tempo neo-romano em que tudo tem de ser etiquetado com um preço e posto à venda.
Se Juvenal fosse transplantado para estes dias, diria que o pão e o circo não desapareceram, mas que ambos pioraram muitíssimo de qualidade.

(Imagem: O País da Cocanha, de Pieter Bruegel, o Velho. 1567.)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sobre o Syriza

 
O encontro entre o ministro grego das finanças, Yanis Varoufakis, e o presidente holandês do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem (o do mestrado falso, ao que parece) tornou-se um poderoso símbolo de resistência face à ortodoxia monetarista que organismos como o FMI representam; com efeito, não é com leviandade que emprego a palavra "ortodoxia" e sublinho o carácter quasi-religioso que ela comporta.

A ortodoxia, aqui, consiste no chamado "Consenso de Washington": designação pela qual ficou conhecida (desde os anos oitenta do século passado) a receita neoliberal para resgate das economias em apuros, fórmula única de desmantelamento dos estados em benefício dos sectores privados, independentemente das diferentes condições sociais e políticas dos países. A economia não é uma ciência e, nesse feitio, toda a canga pseudocientífica que se lhe coloque não passa de artigos de fé - e, no que diz respeito à fé, a ortodoxia não gosta de heresias.

O impacto que a eleição do Syriza está a ter, observando o autêntico histerismo da maioria da Direita, pode ser equiparado à anexação das noventa e cinco teses de Martinho Lutero na porta da igreja do castelo de Wittenberg: ai, meu Deus, que a casa (a Europa) vem abaixo.

Para já, temos o que era preciso: uma contracorrente forte e com ideias, capaz de mobilizar os descontentes que estão longe de ser radicais (a vitória do Syriza deve-se ao eleitorado do Pasok, como é evidente). Veremos como, afinal de contas, todas estas questões aparentemente científicas ou técnicas não passavam de teimosias de uma fé ortodoxa no "Consenso de Washington" e numa visão quasi-neodarwinista aplicada ao mercado. A gente esquece-se que, tudo somado, as ideologias ainda mandam muito.

Resta descobrir se o estado de graça "luterano" do Syriza (e dos seus aliados de sinal político oposto) não terminará num perigoso caos absurdo à la João de Leiden (para lembrar outro heterodoxo) em Münster. Confiemos, portanto - mas atentos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sobre a criatividade e a escola e a criatividade na escola: uma perspectiva pessoal


Anda circulando um debate em diversas frentes virtuais e não-virtuais, nacionais e internacionais, sobre o facto da escola, enquanto conceito, estar, supostamente, organizada de modo a cercear a criatividade dos jovens; ou, no mínimo, de sustentar uma ambiência que não lhe é conveniente. Penso que existe alarmismo nesta(s) premissa(s) e que, mais uma vez (como em outros campos), se está a pedir demasiado à escola, no sentido de esperar que ela se comporte de modo diferente à sua natureza, que é, em essência, a de transmitir conhecimentos. Evidentemente, a escola tem de promover e fortalecer nos alunos um espírito inquisitivo, inquieto e indómito, mas desde quando é que essas qualidades passam directamente pela criatividade, no sentido artístico da palavra ou em outro sentido análogo? Se se espera que seja a escola a tornar mais criativos as crianças e os jovens, mais vale esperar-se sentado, porque a criatividade não nasce em viveiros de quaisquer géneros: ou se é criativo ou não se é criativo -- ou se é artista ou não se é artista. É tão simples quanto isso.

A minha experiência e as minhas interrogações pessoais sobre a criatividade enquanto problema têm-se inscrito numa idiossincrática axiologia, segundo a qual tento observá-la como sendo um valor em si, livre para se correlacionar com outros, como a Beleza, a Verdade e o Saber, mas, sobretudo, livre para existir por mérito próprio, sem depender de nenhum saco vitelino. Assim, entendo que a criatividade assume diferentes faces, consoante as áreas com as quais se vai entrosando e, nesse feitio, contribuindo para os seus êxitos, mas, acima disso, ela é um absoluto. A imaginação abstracta será, certamente, a qualidade mais humana possível e é a partir dela que podemos assistir ao apuramento da criatividade. Sozinha, a imaginação não passa de uma quimera sem valimento: é preciso trabalhar a imaginação para criar o objecto de arte. A criatividade é, por conseguinte, imaginação e acção, porque um objecto feito sem imaginação dificilmente será arte, por laboriosa que tenha sido a sua realização. É neste sinal do binómio imaginação-acção que envisiono que a escola (em principal, as escolas relativas às artes) poderá contribuir para uma cultura da criatividade: ensinando os conhecimentos técnicos indispensáveis a cada linguagem artística. Quanto ao outro sinal, o da imaginação, cabe a cada indivíduo, se for essa a vocação, cuidar dele.

Lembro aos mais distraídos que falo com conhecimento da matéria: a relação que tenho com a minha imaginação é longa e muitíssimo saudável e nunca esperei que a escola fosse minha conselheira imaginativa ou me inspirasse a criatividade. Pelo contrário: compreendi desde muito cedo -- e da maneira mais dura possível -- que a escola podia ser um local terrível para quem, como eu, se atrevia a imaginar.
Expressei esse conhecimento numa sequência do meu livro de banda desenhada Palmas Para o Esquilo (Kingpin Books, 2013), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa. Às tantas, numa das reminiscências da personagem principal, pode ler-se como ela, enquanto criança, sofreu a humilhação de ver um seu desenho rasgado por uma professora do primeiro ano do ensino básico, somente porque este não se adstringia às balaustradas por ela anunciadas no início do exercício. O episódio é real: aconteceu comigo, tal qual se encontra representado no livro, numa das primeiras aulas do meu primeiro ano de escolaridade. Quando entrei para a escola já sabia ler e já imaginava e desenhava as minhas primeiras tentativas de histórias. Nunca precisei da escola para ser criativo. Considero até que esse momento tão terrível e estúpido (quantas vezes o verdadeiro terror anda aliado à mais elementar estupidez) em que vi o meu desenho ser rasgado foi a vacina que me permitiu criar defesas contra a crueldade e a estultícia daqueles que, por não serem capazes de criar, fazem da destruição o seu ofício. Existem vermes que se deleitam nesse prazer bem miserável -- e nem sempre se denunciam tão alarvemente quanto professoras do ensino básico com noções muito particulares sobre como um bom desenho deve ser.

Não se interprete o relato exposto acima como sendo uma demonização da escola. Longe disso: como também escrevi, e vale a pena repetir (vale sempre a pena repetir), os inimigos da imaginação estão por todo o lado. O que quis dizer com este texto é que será errado querer fazer da escola uma incubadora ou viveiro de criatividade. Não é essa a sua função -- e quanto mais funções estranhas à escola lhe formos adicionando, ela deixará, mais tarde ou mais cedo, de ser escola.
Já andámos mais longe disso, suspeito, mas espero estar enganado.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Nós somos os romanos; ou, votos de Bom Ano Novo


O Fim do Ano nunca me evocou a inverniça imagem da decrepitude ou senescência de Chronos, mas a de florescências quasimicológicas, que nem bolor gerando-se geometricamente numa caixa de petri: pesadelos escatológicos dos esporos anunciantes daquilo que o Ano Novo poderá conter. É uma época em que vates vencidos pela vida hipnotizam leitores e espectadores com os mais diversificados augúrios, que se elencam num espectro que se estende entre o humorístico e o horroroso, mais parecendo diversas espécies de aves canoras pousadas em poleiros de diferentes alturas dentro da mesma gaiola -- umas chilreiam, outras grasnam. Feche-se os olhos e irá sentir-se o pivete pungente do inconfundível bouquet, mesclado de matéria cloacal e qliphoths de alpista, que denuncia o facto da gaiola precisar urgentemente de uma limpeza -- uma Daath em cada casa, cortesia de... Cortesia de nós todos, bem vistas as coisas: é espantosa a velocidade a que a escória do ainda infante século XXI se acumula à nossa volta com o nosso complacente consentimento.

Vivemos num período neo-romano, digo-o há muitíssimo tempo: neste período antipancalista, no sentido em que o Belo não é mais o valor fundamental, o harmonioso só terá licença para existir se for útil -- ou, pior (porque é verdade), utilitário. Os romanos achavam que o belo devia ser utilitário. Os romanos faziam telhas em cima do joelho e, de facto, nestes dias, tudo é feito em cima do joelho, apressadamente, sem respeito pelo suor e cultura que permitem aos anões actuais subir aos ombros de gigantes com cujo cotejo palidejam: qualquer ser pensante não passa de um clandestino nesta realidade desquiciada dos gonzos, mantida em pé, teimosamente, por uma espécie de milagre de feira chamado Mercado. Todos os artigos dispostos nas bancadas dos bufarinheiros do sistema têm de ser produzidos em massa, numerados, etiquetados com um preço injusto e postos à venda. Quando falo em artigos, incluo as pessoas: as pessoas, hoje, não passam de mercadorias. Quando deixam de ser úteis -- utilitárias -- são deitadas ao lixo, que nem electrodomésticos avariados. Com efeito, sem-abrigos, idosos, desempregados são, tal como electrodomésticos, formas de vida baseadas em algo que difere do carbono: são peças mecânicas de uma engrenagem inumana que começou a espiralar infernalmente com força há algumas décadas.

Não quero viver num mundo que deita pessoas para o lixo -- é tão simples quanto isso.
Rejeito um mundo em que o valor humano de um indivíduo é avaliado pela quantia que existe numa conta bancária e no qual os pobres têm, mais uma vez, de ser escravos ou gladiadores para sobreviver.
Sim, a cartilha da competitividade neoliberal transforma-nos a todos em gladiadores do empreendedorismo: directores de empresas lêem Sun Tzu na diagonal e sussuram entre dentes nas casas de banho dos seus gabinetes que assim é que se fazem ofertas públicas de aquisição. A plutocracia nunca foi tão palpável. Tão vaidosa.

Os anos anteriores provaram que a vida é vitrificável quando exposta às altas temperaturas da austeridade e da instabilidade: carne transmuta-se numa finíssima e dura membrana e parte-se. Há pessoas a passar fome e a desaparecer -- ali, ao dobrar da esquina. E, no entanto, a cultura neo-romana infiltra-se em todas as áreas da vida: é um veio que agarra em tudo para desenhar um único e unidimensional organismo, achatado e polinervado como uma folha. Sem mais do que uma dimensão para viver, perde-se o horizonte, perde-se a faculade de erguer a cabeça e olhar para cima. Estamos todos a olhar para o chão.

Os meus votos de Bom Ano Novo para 2015 é que se pare de olhar para o chão e se ganhe a coragem de criar um horizonte. Isso só acontecerá se se rejeitar a hegemónica cultura neo-romana que nos ensopa e, em vez de aceitarmos ser escravos ou nos resignarmos a ser gladiadores, nos atrevermos a ser filósofos.
Não vai ser de um dia para o outro; nem será ao mesmo ritmo para toda a gente. É provável que haja quem não consiga (ou não queira, sequer, tentar). Não obstante, não existe outra solução: é preciso tornar belas as coisas que são meramente utilitárias. Quem não entender isto não entenderá que já perdeu tudo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Lisboa, a cobaia


Estou habituado a ter opiniões que vão no sentido oposto ao da moda: para o efeito, não existe da minha parte nenhuma inclinação, nem nenhum apetite singular - simplesmente, recuso observar o mundo pelas lentes que o populismo e a transitoriedade impõem.

Hoje é notícia que Lisboa irá proibir no centro da cidade a circulação de veículos automóveis com matrículas anteriores ao ano 2000: medida que prossegue a proibição gradual de circulação automóvel na Baixa e centro da cidade iniciada em 2011 com outras medidas, igualmente restritivas, que, somadas a esta, só poderão ter como objectivo de curto-prazo a proibição completa de circulação automóvel no centro da cidade, excepto transportes públicos. Não deixa de ser curioso ler esta notícia em paralelo com outra, publicada ontem, que anunciou a expansão das coroas da rede de transportes públicos, assim como o aumento dos preços dos passes para os utentes.

Os transportes públicos de Lisboa são caros. Já andei de transportes públicos em diversas capitais europeias, de países do Sul e do Norte, e, provavelmente, Lisboa será aquela que, à luz do valor do salário mínimo nacional e da média dos restantes ordenados, tem os títulos de transportes públicos mais caros - e sublinhe-se que consiste numa rede de transportes públicos de percursos planeados de modo pedestre (trocadilho não-intencional).
Um bilhete de autocarro custa 1,85 euros, um bilhete de eléctrico custa 2,85 euros e um bilhete de ascensor custa 3,60 euros (preços de uma única viagem; ou seja, caso se pretenda efectuar uma viagem de ida e volta, o custo duplica). Um bilhete de metro custa 1,40 euros e tem um prazo de validade de sessenta minutos: caso se pretenda mais tempo de viagem existe a modalidade do bilhete diário, que custa 6,00 euros. Preços nas proximidades dos 3,00 ou dos 4,00 euros poderão parecer baratos, mas, na verdade, são preços turísticos cobrados a utentes que, na maioria, não são nenhuns turistas: são residentes de Lisboa que utilizam diariamente os transportes públicos no decurso das suas habituais rotinas.
Os percursos dos autocarros de Lisboa são demasiado longos - e, em alguns casos, até suburbanos -, logo não causará nenhum espavento que um cidadão prefira deslocar-se no seu automóvel dentro da cidade para ser capaz de chegar com maior rapidez ao seu destino. Aliás, as diferenças entre as médias dos preços dos bilhetes, dos passes e dos parques subterrâneos de estacionamento são tão ténues que mais vale uma deslocação de carro e pagar-se o estacionamento no parque, porque isso poderá corresponder a uma economia de tempo na ordem dos quarenta e cinco minutos a sessenta minutos de viagem - principalmente nas horas de ponta. Quem não entende isto não sabe o que é morar numa grande cidade.

Não me escapa a eventualidade de eu estar errado sobre este assunto e, por ignorância temporária ou limitação intelectual de longa duração, manter-me do lado negro da linha que separa os pragmáticos dos idealistas. Na realidade, não encontro idealismo nenhum na moda de, forçosamente, se querer ser popular sendo "verde", seja lá isso o que for.
A quasi-isotrópica demonização dos automóveis e a conspícua elegia das bicicletas, descritas nas bulas da comunicação social como sendo um remédio saudável e moral (a tónica colocada na moralidade é mais importante do que, à partida, se poderá pensar - andar de bicicleta à solta entre automóveis, sem respeitar o código da estrada, é um modo barato de indivíduos sem imaginação se sentirem superiores aos outros) contra a miríade de malefícios do mundo contemporâneo, irá, espero, estilhaçar-se como o pé de barro que é quando se compreender que as bicicletas são anticomércio e anti-serviços. (Já se levou alguém para o hospital numa bicicleta?)
Se, no que concerne à circulação de veículos automóveis, o objectivo é transformar Lisboa numa cidade como Londres, na qual é inaudito ver-se no centro da cidade um veiculo automóvel que não seja um transporte público (autocarros e táxis), terá de se reformular a totalidade do desenho dos actuais percursos de autocarros de Lisboa, de modo a garantir, tal como em Londres, um fluxo ininterrupto de transportes à disposição, situação que não é aquela que os utentes verificam diariamente. Verifica-se, até, o oposto: a semana passada, por exemplo, estive quase uma hora à espera de um autocarro - numa hora "morta" e numa popular zona da cidade com um volumoso trânsito turístico.

O sangue de uma cidade não são os turistas. São os habitantes e os lisboetas precisam de melhores condições de usufruto dos seus transportes públicos: bilhetes e passes mais baratos - e estacionamentos mais baratos para os automóveis - seria um excelente começo. A alternativa a soluções destas naturezas e à insistência na cristalização de uma Lisboa exclusivamente para turistas poderá ser um êxodo gradual dos jovens lisboetas (principalmente) para as vilas de dormitórios da periferia, agravando ainda mais a desertificação de uma cidade outrora vicejante, mas tornada em sede de escritórios extintos, centros comerciais fantasmas e domicílios devolutos que se erguem como dentes cariados ao lado de renovados blocos de apartamentos de luxo, acessíveis apenas a quem, em última análise, se estará nas tintas para Lisboa enquanto autêntico local de residência.
A Lisboa actual é uma Lisboa deformada: cobaia que, cada vez mais, agoniza em comportamentos absurdos.

Quem quer ser "verde" fará melhor em deixar os veículos automóveis em paz e preocupar-se, antes, com a questão do lixo electrónico, que é o grande flagelo invisível do século XXI, contaminando, a ritmos avassaladores, lagos, rios, oceanos e solos com um espectro assustador de metais pesados (chumbo, mercúrio, cádmio, entre outros) e materiais plásticos muitíssimo resistentes à erosão.
Pensem nisso sempre que, a cada seis meses, mais ou menos, pedalarem de bicicleta até à Baixa para comprar mais um novo modelo de smartphone ou tablet - deixem de ser ridículos e pensem. Bem sei que pensar poderá ser difícil, sobretudo para quem não está habituado, mas, em suma, é como andar de bicicleta: uma vez aprendido como se faz, nunca mais se esquece.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sobre instrumentos medievais e modernos de tortura


Neste momento, no Edifício da Alfândega do Porto, o público pode ver mais uma das exposições de ditos objectos e mecanismos medievais e modernos de tortura, usados, alegadamente, entre outros organismos, pelas inquisições. Exposições desta natureza são frequentes e eu já visitei muitas, em Portugal e no estrangeiro: todas muito parecidas - algumas até davam a ideia de apresentarem as mesmas colecções, com um punhado de peças diferentes, consoante os locais de mostra ao público. O problema destas exposições - que são um excelente entretenimento, para quem aprecia a temática tétrica (eu, sem dúvida, que aprecio) - é que fortalecem e divulgam continuamente ideias erradas sobre a história medieval e a história das inquisições. A verdade é que a maioria dos comuns instrumentos medievais e modernos de tortura que preenchem o imaginário popular, graças a este e outros tipos de veículos de entretenimento, NUNCA EXISTIRAM: são absolutamente FALSOS.

Nunca - NUNCA - existiu a Dama de Ferro, a Pêra de Tortura, a Cadeira Inquisitorial (que ilustra o anúncio da exposição) e tantos outros artifícios angustiantes. As inquisições nunca os usaram para extrair confissões. De facto, aquilo que o público pensa que sabe sobre tortura inquisitorial ESTÁ ERRADO. Sim, as inquisições torturavam indivíduos para extrair confissões - e detinham engenhosos estratagemas legais para que as sessões de tortura de um determinado indivíduo se pudessem repetir (isto, porque de acordo com os regimentos cada indivíduo só podia ser torturado uma vez) -, mas somente usaram dois métodos: a polé e o potro - métodos que não vertiam sangue, porque as inquisições estavam proibidas de verter sangue.

As torturas na polé e no potro estavam muitíssimo longe de ser arbitrárias: eram reguladas com rigidez por um conjunto intrincado de correspondências entre a solidez das suspeitas e a gravidade das acusações, sendo que a cada sessão de tortura era atribuído um grau em especial; por exemplo, um indivíduo podia ser sentenciado a uma tortura de grau três no potro, o que corresponderia, somente, a que tivesse as cordas amarradas no corpo sem que estas fossem apertadas. Na maioria das vezes, os acusados eram condenados a, simplesmente, olhar para os instrumentos de tortura - o que, quase sempre, resultava em confissões (verdadeiras ou inventadas). A tortura na polé era, de certa forma, mais violenta: quem não teria hipótese de aguentá-la (um médico avaliava sempre o estado de saúde dos acusados antes das sessões de tormento) era condenado a ser torturado em grau equivalente no potro. Não estou a branquear as inquisições: isto é a mais pura verdade histórica e todos estes factos podem ser comprovados. As torturas no potro e na polé eram terríveis, que isso fique retido, e os indivíduos podiam ficar estropiados para o resto da vida, mas a lenda negra do sadismo inquisitorial, tal como é veiculada pela indústria cinematográfica e por exposições como a que serve de mote a este artigo, é uma completa e desavergonhada ficção.

Os falsos instrumentos medievais e modernos de tortura foram inventados nos séculos XVIII e XIX por alguns antiquários e outros brincalhões, provavelmente com a intenção de titilar as audiências e lucrar com a sua exposição: em pleno decurso do Iluminismo (que não foi igual por toda a Europa, note-se; nem sequer foi sempre deísta ou "libertino", como se chamava a um pensador-livre - um "enciclopedista" - na altura: também houve Iluminismo Católico) essas criações serviriam de contraponto ideal, colocando em paralelo o barbarismo medievo com a justiça social e o progresso cultural dos novos tempos. Foram tão eficazes que ainda hoje a maioria do público acredita que foram reais.

Recomendo a visita a este tipo de exposições - umas mais fidedignas que outras, é certo -, porque são excelente entretenimento, mas no que diz respeito ao rigor e à veracidade histórica estão para estes como o antigo Comboio Fantasma da Feira Popular de Lisboa estaria.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Geração Única


O jornal Público está a publicar uma série de artigos que reflectem sobre problemáticas de confrontos geracionais com a contemporaneidade portuguesa: o primeiro artigo intitula-se GERAÇÃO 45-64: Vinte anos para gozar a vida de reformado; o segundo, adoptando o título de Criados para aquilo que não podem ou não querem ser, analisa a geração nascida entre 1965 e 1981. Eu nasci no dia 17 de Abril de 1976, por conseguinte - por comodidade discursiva - pertencerei à geração que o fotógrafo húngaro Robert Capa apelidou de Geração X, referindo-se à juventude do período pós-Segunda Grande Guerra: designação que, depois disso, passou a conhecer o significado que hoje lhe é atribuído.

Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.

Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.

A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A bodega de Lisboa

Não há outra forma de dizê-lo e tentá-lo seria, ao mesmo tempo, uma hipocrisia e uma perda de tempo: este texto que o The New York Times publicou sobre Lisboa é uma bela bodega.

Aqui, pode ler-se a apologia de uma espécie de turismo rural olisiponense, no qual a cidade, longe de possuir uma história antiquíssima (Lisboa foi fundada em 1200 a.C.) que urge descobrir, irrompe como uma simples e simpática aldeiazinha alcandorada ao Tejo, que convida o turista - cansado da história e da cultura que encontra em outras cidades europeias mais interessantes - ao ócio desmiolado, em restaurantes e ostarias hipster que, ainda por cima, como Portugal atravessa uma crise economico-financeira, são muito mais baratos que os das restantes capitais. Ena, pá! Sobretudo, nesta visão miserabilista sobre Lisboa, a cidade é minúscula: adstrita ao Parque Eduardo VII - onde pululam cachorros amestrados (tão giro que isto é) -, às ruas da Baixa - onde pululam serventes amestrados (tão prático que isto é) - e à colina do Castelo - onde pulula a parenética amestrada sobre o território (tão conceptual que isto é) - , como se o resto não existisse. Aos olhos de Frank Bruni, antigo crítico de restauração do The New York Times, Lisboa é um diorama sem delínquio, simplesmente porque não exige nada ao visitante: segundo o cronista, não tem locais de relevo para visitar, não tem museus, não tem sítios com interesse artístico e histórico, não tem nada a não ser dois restaurantes do caraças e meia-dúzia de hotéis super-chiques (onde também pululam os serventes amestrados). O Rei Midas iria gostar da talha dourada da Igreja de São Miguel, escreve Bruni: aqui já se está no campo da alta literatura, pelos vistos. É comovente, assim como comove a abulia que, segundo Bruni, é o trunfo de Lisboa.

Lisboa é descrita como sendo o castelo da Fera do filme de animação Beauty and the Beast, dos estúdios Disney, durante o segmento musical «Be Our Guest»; é tão fácil imaginar o cronista sentado à sossega, ao entardecer, numa das esplanadas in dos hóteis que cita no artigo, enquanto a fauna mágica da criadagem lisboeta se desunha para o deslumbrar com as suas qualidades subservientes: «be our guest, be our guest, put our service to the test, tie your napkin round your neck, cherie, and we provide the rest». Eu acho isto digno de dó. Aliás, vou reformular o que escrevi no primeiro parágrafo: o artigo não é uma bela bodega. É uma grande merda.


E aqui está, como complemento, uma bucólica cena recente, observada pela manhãzinha no último Mega Picnic, na Avenida da Liberdade. (O The New York Times iria gostar.)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Coincidentia oppositorum

 
A gente vai envelhecendo e dá conta da fenomenicidade que é viver-se em tempo histórico e que, daqui a uma década ou duas, no mínimo, se irá ler sobre a actualidade do mesmo modo que, hoje, se lê sobre os meados do século XX. Quando somos jovens não nos apercebemos disso, porque o tempo demora muito a passar e tudo parece cristalizado num eterno presente - é um tempo de vista larga. Em oposição, quando o tempo passa mais depressa coarcta-nos o horizonte do visível; daí que as coisas terríveis e as coisas belas que, a esta altura, parecem ser produzidas por propulsões irreconciliáveis serão reunidas pela história do futuro próximo numa espécie de coincidentia oppositorum - menos mística que a boehmeana, mas, ainda assim, espera-se, liberta do ludíbrio.


sábado, 21 de junho de 2014

Nazis e desinformação histórica


Mais desinformação, cortesia do Canal História, desta vez pugnando a velha ideia de que os nazis foram pagãos e obcecados com o oculto, noção totalmente errada, mas cuja integração ideológica no imaginário popular parece ter sido feita a ferro quente. Uma dilucidação exige-se: os nacionais-socialistas - que, para começar, nem sequer se chamavam, entre eles, de nazis, porque nazi era uma alcunha pejorativa, inventada pelas massas, cujo significado pode traduzir-se por campónio ou saloio e que eles, simplesmente, odiavam - nunca foram "pagãos" (designação que, acrescento, é totalmente desprovida de conteúdo e de sentido quando usada fora do restrito contexto dicotómico que existiu entre a religião romana imperial e a paleo-cristã no dealbar mais primitivo do cristianismo), mas cristãos.

Os nacionais-socialistas foram cristãos e, sobretudo, tiveram o objectivo de criar um cristianismo novo, de massas, e por eles "purgado" daquilo que entendiam ser influências judaicas, chamado Cristianismo Positivo. O próprio Hitler foi cristão e considerava que o culto odínico era um embaraço e uma perda de tempo. Apesar de cristão foi anticatólico; no mínimo, não considerava com bons olhos o catolicismo e a sua animosidade contra o catolicismo foi sismográfica consoante os anos. De onde provém, então, a tal ideia que os nacionais-socialistas foram "pagãos"? Provém, pela medida grande, pelas mãos dos plumitivos e poetastros neonazis de meados do século XX em diante - como Savitri Devi ou Miguel Serrano, entre outros - que, pelas mais variadas razões, inventaram histórias sensacionalistas e fantasiosas nas quais os nacionais-socialistas contactam e instrumentalizam, dos mais variados feitios, forças sobrenaturais ou energias de origem extraterrestre. Foi esse caldo cultural marginal e politicamente mefítico que chegou até às décadas mais recentes e influenciou produtos de entretenimento de grande mediatismo, como o primeiro e o terceiro filmes da tetralogia de Indiana Jones, por exemplo. Filmes e livros que apresentam conceitos dessa natureza, ou similar, não possuem nenhuma relação com a verdade histórica daquilo que foi o fenómeno nacional-socialista e, com efeito, reduzir esse fenómeno à caricatura anti-heroística é desvirtuar a memória e extirpar-lhe a componente criminosa - quando não se projectam, de todo, no mais despudorado revisionismo.

A verdade é que de todo o aparelho nacional-socialista só Himmler e Rosenberg, provavelmente, namoraram, à sua maneira, com o oculto, mas, ainda assim, de um modo muito diferente daquele que é apresentado em produtos como o documentário The Nazi Gospels produzido pelo Canal História e por ele transmitido. Himmler não foi "pagão" e não quis criar nenhum culto "pagão" em volta da SS (informo que se diz "a SS" e não "as SS"): o seu flirt ocultista foi, sem dúvida, motivado pelo fascínio pelo bizarro e pelo sensacionalista, sem qualquer programa definido que o suportasse. O seu mentor, Willigut, também chamado de "o Rasputine de Himmler" não teve, ao fim e ao cabo, tanta influência como aquela que lhe imputam e, de qualquer das formas, essa influência operou por via do velho ariosofismo cunhado por Guido von List e por Lanz von Liebenfels: os avôs do chamado "ocultismo nacional-socialista", que acreditavam que Cristo fora ariano e que a Bíblia tinha sido escrita na Alemanha, antes de ser corrompida pelas influências dos antepassados dos judeus modernos.
Aliás, Liebenfels na revista Ostara escreveu várias vezes que era preciso exterminar todos os judeus, porque eles obstaculizavam o verdadeiro Cristianismo Ariano - Liebenfels que, ainda por cima, fingia ter sangue-azul e fingia ser um herdeiro da autêntica tradição templária. Isto porque ele foi monge cisterciense e após ser expulso dessa ordem criou a espúria Ordi Novi Templi, a primeira organização de língua alemã a ter uma bandeira com uma suástica (tinha um fundo amarelo com uma suástica vermelha). Foi, por conseguinte, no espírito da admirada Ordi Novi Templi que Himmler pensou em ritualizar alguns aspectos da SS: dar-lhe um certo ar de ordem cavaleiresca, aristocrática, mas sem a tal tónica "pagã" ou heliólatra que alguns nela querem ver.

Outro mito: a infame Sociedade de Thule, por exemplo, na qual estariam embebidas em ocultismo todas as cabeças do partido nacional-socialista, nunca existiu. Pelo menos nos moldes que é representada, geralmente. Em síntese, a verdade é que nunca passou de um ramo semi-obscuro, em Munique, da, mais conhecida - e, já nessa altura, bafienta - Germanenorden, mas baptizada com um nome individual por Rudolf von Sebottendorff para parecer mais moderna e apelativa a novos membros. Aparentemente, pouca influência - ou nenhuma - teve sobre o partido nacional-socialista, apenas contando com Rudolf Hess e, provavelmente, Hans Frank, como membros. Sebottendorff nunca se filiou no partido nacional-socialista, sequer. A chamada Sociedade Vril, que os fãs do "nazismo oculto" tanto gostam nunca existiu: é uma completa ficção.

Compreender o nacional-socialismo requer muitas e intensas leituras de materiais exigentes e o público comum não está disposto a realizar esse esforço, nem sequer terá, bem vistas as coisas, um conhecimento histórico basilar suficiente para isso, a verdade tem de ser dita. Será, no fundo, mais simples dizer-se que os nacionais-socialistas praticavam ritos de magia negra e que usavam tecnologia extraterrestre e que o genocídio dos judeus foi uma espécie de sacrifício de sangue aos deuses "pagãos" que idolatravam. Essa é a linguagem do comércio sensacionalista e do revisionismo. Não é a linguagem do rigor. É preciso lembrar que num dos infames discursos de Posen, Himmler pediu a Deus - ao deus cristão, não foi a Odin - que desse forças aos nacionais-socialistas para que eles conseguissem terminar o Holocausto («que Deus nos ajude»). O Holocausto foi o culminar tenebroso da velha escalada de violência anti-semita que o cristianismo/catolicismo europeu usou contra os judeus. Como disse o historiador Raul Hilberg, os nacionais-socialistas não inventaram nada: apenas decidiram que não bastava os judeus estarem proibidos de circular entre os cristãos ou confinados a guetos murados em bairros das cidades, como decretou Roma tantas vezes - mais do que apartá-los a todos, era preciso exterminá-los a todos, ponto. O discurso, como escrevi anteriormente, quando falei em Liebenfels, já estava feito: faltava quem tratasse da prática. Foi o que aconteceu, embora no início dos anos cinquenta do século XX começasse logo a aparecer quem dissesse que era tudo mentira, como, entre outros, Paul Rassinier, que escreveu o vergonhoso A Mentira de Ulisses, livro que se tornou muito popular rapidamente nos Estados Unidos e consiste no gérmen dos movimentos que negam a existência do Holocausto.


sexta-feira, 20 de junho de 2014

Laranjada*


Confesso o meu mau feitio: não considero que países cujas formas de governo se apresentem como sendo monarquias constitucionais sejam democracias autênticas. São monarquias: somente não são absolutistas, mas não deixam de ser monarquias. No entanto, a democracia é, mais do que um sistema de governo, o múnus de um certo estado de coisas. Por exemplo, Portugal, que é um país democrático - para ser mais preciso, é uma república semipresidencialista - ainda possui certos tiques pouquíssimo democráticos (como, aliás, se pode ir vendo, infelizmente). Tudo isto para comentar os recentes acontecimentos políticos de Espanha.

Ora, a Espanha só é Espanha, propriamente dita, desde 1876, porque somente em Junho desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente Espanha: até aí era o Reino das Espanhas, que é algo bem diferente. De facto, até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma: existiram vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar no século XVI a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Existe documentação portuguesa (e não só) coeva em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de marketing - que funcionou. Existem países que ainda pensam que Portugal faz parte de Espanha ou que se tornou independente dela há pouco tempo, mas a verdade é que a Espanha é que foi criada "ontem" e colada com pouquíssima convicção, como se torna evidente pelos actuais ânimos catalães e outros (Madrid já se pronunciou contra o referendo que a Catalunha quer fazer a 9 de Novembro pela sua independência).
Enfim, a cerimónia de proclamação de Felipe VI foi algo anacrónica, um pouco beata, mas "democracia" não foi palavra que, em definitivo, me veio à lembrança, apesar de ser conspícua no discurso da comunicação social que, deslumbrada, comentava o evento.


E a imagem do Manuel Godoy é só para lembrar aos mais distraídos que existe ainda uma questão chamada Olivença. Parecendo que não, aborrece um bocadito.

* Em calão quinhentista português, uma laranjada não é a bebida feita com o sumo de laranjas espremidas, mas o nome que se dá ao acto de atirar uma laranja - podre, de preferência - à cara de alguém. Isto em referência à chamada Guerra das Laranjas, que os mais historicamente atentos deverão conhecer.
 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Homens sem mestres


O modo como a história, de Portugal, em principal, é tratada nestas linhas assoma a uma leviandade que quase se transfigura em objurgação, bem vistas as coisas: só quem não sabe nada sobre a história oitocentista de Portugal pode ser tentado a levar a sério este discurso que, entre outras coisas, pretende transplantar para esse período um ponto de vista, maioritariamente, contemporâneo sobre o que significa ser-se de Direita, que neste artigo se encontra reduzido ao prosaico conservadorismo. Neste momento, naquilo que é, acima de tudo, uma partilha, não terei espaço para explanar, nem sequer superficialmente, o quanto o artigo erra quando vai por esses caminhos quasi-revisionistas (bastaria, para o efeito, lembrar uma data - 1828 - e um número - 12.000 indivíduos exilados, enforcados e decapitados), mas tenho latitude para lançar uma interrogação: existem intelectuais de Direita e intelectuais de Esquerda ou, por outro lado, existem intelectuais, ponto? Com efeito, quando o pensamento se põe ao serviço da política passa a chamar-se propaganda: até pode ser uma propaganda que vai na direcção dos nossos gostos, mas não deixa de sê-lo.

Para mim, um verdadeiro intelectual, público ou não-público, de Direita ou de Esquerda, define-se - sempre - por aquilo que John dos Passos chamou a Thorstein Veblen na biografia The Bitter Drink que sobre ele escreveu: «um homem sem mestres». O resto são fogos-de-vista lançados ao ar para vender jornais e para, como sempre foi o objectivo das forças reaccionárias portuguesas, desde os tempos do absolutismo, saciar as vontades das classes hegemónicas cultivando a total alienação daquilo a que elas chamam plebe. Não mudámos nada - nada.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Breve observação sobre a santa que derrubou uma constituição

 
Não se pense que o desgosto pela constituição é um fenómeno contemporâneo. Na realidade, desde que Manuel Fernandes Tomás redigiu a primeira constituição portuguesa, em 1822, que diversas facções direitistas, conservadoras, reaccionárias e tradicionalistas tentaram, unanimemente, por vários meios contra-ideológicos, desde o púlpito aos pasquins de contrafacção política, desacreditar o projecto constitucional e difamar os seus defensores. O que existiu nessa altura é, em suma, aquilo que ainda pode ser observado hoje: um conflito irreconciliável entre duas visões de fazer política, sendo que uma apoia-se na edificação de um estado de direito, no qual o poder político se subordina à lei - e a expressão máxima dessa lei é a constituição -, e outra que crê num neo-absolutismo, legitimado pressurosamente pelo sufrágio democrático, como se a concepção de democracia aí se esgotasse - uma espécie de "democracia possível" (sendo que possível, aqui, deva ser lido à lente do significado que lhe imprimiu Lucien Goldmann) que recua, de imediato, ao mínimo entrechoque com a vontade do poder.

Esse primevo esforço constitucional de oitocentos terminou, em definitivo, com a chamada Vilafrancada, uma insurreição direitista, contra-revolucionária, liderada por D. Miguel, a 27 de Maio de 1823. Porém, cerca de um ano antes, a 28 de Maio de 1822, ocorreu um espaventoso milagre que serviu de rastilho à imaginação popular e fortaleceu muitíssimo a ressonância reaccionária das massas, travejando o terreno para se reerguer o empoeirado absolutismo. Hoje, esse acontecimento está quase esquecido, mas eu venho lembrá-lo, porque considero-o de uma pertinência acutilante. Para comodidade de leitura, abrevio a sequência dos acontecimentos numa linha cronológica simples.
O bispo de Vila Viçosa e o cardeal-patriarca de Lisboa recusaram jurar as bases da novíssima constituição e o segundo calhou a ser deportado para fora do reino por culpa disso; em seguida, numa lapa do chamado Sítio da Rocha (hoje, Linda-a-Pastora, no concelho de Oeiras), à margem do Rio Jamor, foi encontrada uma imagem espectacular da Nossa Senhora da Conceição, entidade que é padroeira de Portugal desde 1646. A descoberta da imagem foi, num ápice, interpretada pelos rústicos e pelos escribas direitistas como sendo um sinal de que a padroeira estava descontente com o desterro do cardeal-patriarca e com o curso das mudanças politico-sociais do seu reino: até porque a imagem original da padroeira encontrava-se (e encontra-se) no santuário de Vila Viçosa; logo, era uma demonstração de santa solidariedade pelas posições políticas do bispo de Vila Viçosa e do cardeal-patriarca de Lisboa. Tanto que a imagem foi transladada da mefítica margem jamoriana para o interior da Sé de Lisboa - não antes da lapa se ter transformado num popular ponto de culto contra-revolucionário: a Nossa Senhora da Conceição da Rocha, como foi cognominada, convertera-se em vera padroeira da contra-revolução, granjeando até a devoção de D. Miguel, cuja mãe, D. Carlota Joaquina, também se recusara (em Outubro de 1822) a jurar a constituição (a imagem que ilustra este artigo mostra-o, mais as irmãs, a rezar à Nossa Senhora da Conceição da Rocha, na Sé de Lisboa).
Este popularíssimo culto religioso contra-revolucionário insuflou velas largas e foi, ao seu advento, descrito e romanceado em dezenas de folhetins e artigos de jornais, consistindo num dos acontecimentos simbólicos que contribuíram com mais importância para a queda do Vintismo. Não é claro de que forma foi forjado este culto, nem por quem, mas, como se costuma dizer, foi a ideia certa no momento certo (infelizmente).

Creio que será prematuro rirmos dos nossos antepassados, que, com diligência, ingenuidade ou manha, acreditaram prontamente neste milagre forjado para fins políticos, instrumentalizando-se para o efeito a superstição e a bisonhice em que os portugueses, exauridos e analfabetos, estavam ensopados. Centro e quatro anos depois, em outro 28 de Maio, outros santos contra-revolucionários (também de inspiração mariana, curiosamente) foram inventados para derrubar o governo republicano presidido por António Maria da Silva, aproveitando, novamente, o misoneísmo dos portugueses. No fundo, os nossos pontuais episódios democráticos costumam ser interrompidos pelo avanço de energias conjuntas de sinal oposto e de maior duração.
Estamos, pois, a pouco mais de uma década de mais um aniversário desta bonita tradição hagiológica que mescla o sagrado de pendor popular e a política de pendor populista - os santos contemporâneos contra-revolucionários que espumam vitupérios contra a obstaculizante constituição estão todos na praça pública a competir pelo altar. Quem sabe qual deles será a nova Nossa Senhora da Conceição da Rocha e quem sabe qual deles será o novo Salazar?