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terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Crítica ao ruinismo da contemporaneidade
Seguindo na esteira dos esforços sinceros, mas, por vezes, pouco sistemáticos, dos antiquários que o precederam, Piranesi foi, na minha opinião, o artista que com mais argúcia e persistência aperfeiçou um estilo de desenho que se poderá denominar de ruinismo, ou seja, a representação indefectível da corrupção do passado, tal qual podia ser observada num momento presente; desiderato que comporta, em suma, a transferência de um espelho temporal para o plano moral, integrando a ruína na topografia metafórica, à guisa de alegoria da corrosão do indivíduo. No fundo, haveria gérmen para o efeito, não obstante o intrínseco homomerismo das estruturas em decomposição, nas quais parece só existir um todo, nunca as partes: espécie de fractais, cuja formulação fora prematuramente interrompida.
Porém, foi Goya o tradutor, em caliginosos ensaios, do ruinismo individual (e colectivo) do humano: fui sendo atraído pela vontade de ver em Goya um Piranesi do ser humano, um ruinista do homem — mas onde o olhar pacífico de Piranesi se deixa preencher pela flora esparrinhada em volta da pedra e do ferro (e ainda bem, pois poucas composições serão mais hostis à harmonia que o hibridismo entre pedra e metal), em jeito de nevoeiro enviado por Atena a Odisseu para protegê-lo dos perigosos feaces, guindando a sua pena ao serviço do todo, Goya é obcecado pelas partes: só existem partes nos desenhos e pinturas negríssimas de Goya, por vezes partes na mais imediata acepção dessa palavra — partes humanas, espetadas em ramos e lâminas. Partes, outras, de zoomorfismos e teriomorfismos variegados, amoldados em lúgubres grotesquerias: nunca me abandonará o desconforto sentido quando vi pela primeira vez o bisonho e patético lobisomem que observa uma bruxa numa vassoura a subir por uma chaminé, qual Anúbis castrado e esfolado, ao qual só faltaria uma coleira para ser bicho de trazer por casa. Horrendos são os seus duendes e diabretes, mas repare-se que certos fenótipos dessas aberrações se aproximam daquilo que viria a ser o figurino tolkiano do orco, espécie de criatura miserável que é, na origem, o ruinismo do elfo.
Com efeito, no imaginário de Tolkien, os orcos foram fabricados pelo poder das trevas a partir dos elfos, os primeiros seres da criação: arruinados — e aplico programaticamente esta palavra —, eles são versões ruinistas de uma melhor intenção, propositadamente corrompida para servir de instrumento da deterioração. Assim, os "orcos" semi-humanos de Goya, que se deleitam nos mais abjectos actos que a sua astúcia de animal perverso é capaz de conceber, expressam, tal como em Tolkien, uma visão pessimista da humanidade transfigurada — não pela tragédia —, mas pelo arbitrário absurdo de pequenas violências que se vão acumulando, que nem as partes amorfas de uma ruína, concorrendo para um todo cada vez mais uniforme na sua colossal deformidade física e moral.
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terça-feira, 4 de dezembro de 2018
A filosofar contra o capote*
Assistir na televisão a emissões do programa Prós e Contras sobre o tema das touradas já se vai tornando, por mérito próprio, uma espécie de para-tradição; ontem à noite*, mais uma vez os defensores e os opositores da dita festa brava esgrimiram veementemente argumentos antagónicos sem que se chegasse a qualquer tipo de conclusão. Do meu ponto de vista, ambas as trincheiras projectaram metralha: entenda-se, nuvens fragmentárias de munição pulverizada, eficaz em fazer estrago imediato, mas quiçá inútil em ganhar a guerra — que é outra forma de dizer que foram quase sempre argumentos improvisados a partir das palavras dos adversários, em vez de teses bem concertadas e impactantes.
Um dos erros frequentes, nesse debate e não só, é confundir-se constantemente a violência da tourada (no caso português, em menor grau que em outros países também tauróctonos) com um espírito passadista, caquético. Com efeito, o espectáculo da tourada possui muitos elementos anacrónicos e repetitivos, mas a violência não é um deles, pois esta é, em virtude da sua natureza, quase sempre revolucionária. Ou seja, não é pela via da crueldade e da exposição da carne coreotransmutada que a tourada estará ultrapassada. No actual panorama cultural, no nosso particular epocalismo, a violência é ritualizada, higienizada e adstrita a áreas exclusivas — à memória, assoma o trabalho seminal de Norbert Elias, Desporto e Sociedade, entre títulos diferentes de outros autores. Destapada da estanque caixa de Petri em que a enclausuramos, a violência patenteia o seu ethos mercurial, corrosivo e, sobretudo, incontrolável.
O erro de percepção permanece, por exemplo, nas comuns interpretações do fascismo que, nas últimas semanas, têm preenchido as páginas dos jornais e os ecrãs televisivos. Na entrevista que deu na edição do jornal Público do passado dia 5 de Novembro, Madeleine Albright reitera a acepção de que o fascismo é violento, porque é reaccionário, um tipo de retrocesso a um tempo de barbárie, mas se esse binómio pode ser atractivo para alguns leitores, não se sustenta à observação mais rigorosa do carácter revolucionário do fascismo e do projecto fascista de renovação de uma sociedade liberal de entre-guerras considerada fracassada e decadente; assim, a violência no fascismo que Albright traduz sob o signo do atavismo é, na verdade, uma ferramenta transformativa. Em simetria, a mesma lógica se encontra em outros projectos político-messiânicos e revolucionários do século XX, como o comunismo soviético, chinês e cambojano e no nacional-socialismo alemão: a violência ritualizada, mas jactante, abrupta, é, nestes campos, um éter que suporta o espírito de um tempo industrializado, eléctrico, um relâmpago de ruptura.
Ora, a violência na tourada é, também, revolucionária, no sentido transformativo: no livro O Processo Ritual, Victor Turner falava do espectador desta estirpe de espectáculos como um ser liminal, à beira da transformação — e, na verdade, pouco existirá de projecção mútua entre espectador e touro no que concerne aos valores que subjazem à tourada enquanto cápsula do tempo; em suma, só a regeneração catártica da violência se encontra, ainda, operativa. Só ela se afirma, pois as restantes dimensões históricas, até religiosas, quem sabe?, que coalesceram o espectáculo desapareceram.
Para ilustrar essa ideia recupero uma imagem do filme Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci, sobre a emergência do fascismo. O filme é politicamente comprometido e o retrato histórico que se quer fidedigno apresenta-se, em demasiados aspectos, caricatural; contudo, lembrei-me dele em virtude da infame cena em que a personagem interpretada por Donald Sutherland, um fascista recém-saído do casulo, pendura num cabide com o auxílio do seu cinto um gato que desfaz com uma cabeçada para mostrar aos seus gemebundos colegas a maneira correcta de lidar com os comunistas. Ignoro o grau de conhecimento histórico que o realizador e argumentistas teriam das tradições populares italianas, mas calculo que entre os espectadores mais idosos tenha existido quem recordasse uma velha tradição italiana que consistia, precisamente, em amarrar gatos a postes ou troncos para, de seguida, cabeceá-los até à morte.
Em determinados períodos, esta prática revestiu-se de contornos de concurso e os participantes, de mãos atadas atrás das costas e cabeças rapadas, tentavam não ser gazofilados pelas garras enquanto procuravam esmagar com a testa os crânios dos gatos. Em tempos mais recuados, usavam capacetes pontiagudos, pelo que pode arguir-se, com cinismo, que o novo figurino, de mãos atadas e cabeças nuas, foi um encontro a uma contenda mais justa, de molde a que os gatos melhor mostrassem a sua bravura. Todavia, o que pretendo reter desta memória histórica — que, certamente, tem passado ao lado de quem viu o filme ou se dedica à sua crítica — é o facto de a violência, mesmo quando irrompe por via do atavismo, que neste caso é a tradição miserável de cabecear gatos, tem como horizonte a transformação, como no caso do fascismo de Novecento. A personagem de Sutherland não se vê como um agente a soldo do passado — pelo contrário, despreza-o e intenta ultrapassá-lo.
Não estou, de modo algum, a criar pontes entre fascismo e tourada: estou, sim, a reforçar a noção que a violência é sempre actual, futurista. Mesmo quando parece prisioneira de velhíssimas tradições rurais. Ao contrário do que pensam os detractores das touradas, é precisamente pela via da violência que esta mantém a sua actualidade.
*Artigo publicado originalmente a 20 de Novembro na minha página de Facebook.
Em guerra com o epocalismo
Nas últimas semanas, passada a efeméride do armistício da Primeira
Grande Guerra, tem-se difundido a ideia errada que essa foi a primeira
guerra "moderna" ou "industrial", quando, na verdade, não foi nem uma
coisa, nem outra, muito menos a primeira guerra "mundial".
Quanto
à última classificação, essa deverá ser atribuída à Guerra dos Sete
Anos, de 1756 a 1763, conflito que, à época, envolveu toda a Europa e as
suas dependências ultramarinas, num inédito cenário global (a sátira Cândido, ou O Optimismo de Voltaire, publicada em 1759, tem como pano de fundo este confronto).
No que concerne aos primeiros dois epítetos, pertencerão à Guerra Civil
Americana, de 1861 a 1865, na qual figuraram profusamente granadas,
metralhadoras, bombas, caminhos de ferro, telégrafos, barcos couraçados e
submarinos. Aquilo que esta guerra perde em expansão continental
recupera em sanguinolência, pois também aqui se estreou o conceito de
"guerra total" (embora sem esse nome, que só apareceria na Primeira
Guerra Mundial).
Na realidade, a Primeira Guerra Mundial —
espécie de grande guerra civil europeia — deixou ainda bastantes
terrenos incólumes que, um pouco mais à frente, outra catástrofe de
contornos maciços tratou de terraplanar sem piedade: o impacto — este,
sim, autenticamente global — do 'crash' da bolsa de valores americana,
cuja reverberação afectou economias que a Primeira Guerra Mundial não
ameaçara drasticamente; e, sobretudo, teve um efeito devastador na
economia alemã — mais que a obrigação de pagar as reparações de guerra
estipuladas no tratado de Versalhes.
Para não complicar demasiado as coisas, nem sequer falei na Guerra da Crimeia, de 1853 a 1856...
terça-feira, 6 de novembro de 2018
A Ignota Ilha Digital; ou, O verdadeiro Fernão de Magalhães que se levante, por favor
Ontem, na abertura oficinal (não se trata de erro: quis, de facto, usar esta palavra, que melhor expressa o aspecto de receituário técnico exudado por esse protocolo), do Web Summit, o presidente da câmara municipal de Lisboa Fernado Medina comparou Paddy Cosgrave, criador do evento, a Fernão de Magalhães, assinalando-o com a oferta em palco de um retrato desse navegador português. Segundo as palavras de Medina, agora Lisboa abre fronteiras por mérito de Cosgrave.
A partir daqui, interessa-me uma observação mais rigorosa sobre o generalizado fenómeno da importância desmesurada que é atribuída às tecnologias digitais — sobretudo quando o seu poder é comparado a uma ruptura epistemológica que, na verdade, não precisou de Internet para coisa alguma: a da navegação astronómica dos seculos XV e XVI, desenvolvida, em principal, por navegantes portugueses, com o auxílio de ferramentas bastante simples. Com efeito, as técnicas e instrumentos que permitiram o descobrimento de novas rotas marítimas durante esse período da expansão portuguesa — e que serviram, de facto, para desencravar o mundo — estão em oposição às tecnologias digitais, que, por mais complexas que sejam as suas cabalísticas linguagens, somente compreendidas na totalidade por engenheiros informáticos e programadores especializados, se cifram em atalhos comunicacionais que, quase sempre, se tornam a si próprios obsoletos. Como se se operasse em smartphones e tablets uma senescência programada da mesma ordem que aquela que delimita a vida útil de outros electrodomésticos menos vistosos, como torradeiras e máquinas de lavar louça.
Em suma, a vantagem do uso das tecnologias digitais está em alcançar de modo mais veloz, imediato e, em alguns casos excepcionais, exacto, tarefas que, no fundo, poderiam perfeitamente continuar a ser realizadas de maneiras analógicas. Inversamente à ruptura epistemológica estreada com o advento da navegação astronómica (ao nivel do impacto que tiveram os desenvolvimentos das concomitantes artilharia móvel e imprensa de caracteres móveis), essa madrinha da Modernidade, o surgimento da Internet ainda não trouxe nenhum mundo novo ao Mundo. E se a estética digital se arroga, por vezes de modo precipitado, de tropos pertencentes a alguma cinemática ficção científica para se apresentar num jaez mais profético (Steve Jobs desempenhava muito bem esse papel de pajé, revelando no ecrã gigante as visões com que a Deusa Tecnologia o havia honrado), esse desiderato desaba no instante em que recordamos que para ir várias vezes à Lua a humanidade não precisou de Internet para nada: bastou-lhe utilizar com arte e coragem ferramentas relativamente simples, tal como bastou aos navegadores quinhentistas. Não há, bem vistas as coisas, um antes e um depois da Internet, do mesmo modo que houve um antes e um depois da roda, um antes e um depois da passagem do cabo Bojador ou um antes e depois de Gutenberg. Tudo o que há é a ágil reprodução de mecanismos que, até há pouco tempo, eram analógicos.
Assim, comparar Cosgrave a Magalhães, navegador que encetou a grande viagem de circum-navegação do planeta (descoberta que faz parte da supramencionada ruptura epistemológica) — e que morreu violentamente no decurso desse empreendimento (uma atitude que se caracteriza por aquilo a que o autor Nicholas Nassim Taleb chamou no seu livro mais recente de skin in the game) — pode consistir numa manobra de marketing que dá nas vistas (o que é completamente legítimo, note-se...), mas falha em estabelecer um verdadeiro vínculo entre uma actividade e outra.
Não é de espantar que assim seja: Magalhães e outros seus próximos orientaram-se por estrelas; estes epígonos hodiernos são orientados pelo estrelato — que até soa parecido, mas é algo muitíssimo diferente.
terça-feira, 30 de outubro de 2018
Sobre forças primordiais
O filósofo inglês John Gray escreve sobre a actualidade:
«Ours is an era in which political ideology, liberal as much as Marxist, has a rapidly dwindling leverage on events, and more ancient, more primordial forces, nationalist and religious, fundamentalist and soon, perhaps, Malthusian, are contesting with each other. In retrospect, it may well appear that it was the static, polarized period of ideology, the period between the end of the First World War and the present, that was the aberration. (...) that beneficent catastrophe will not inaugurate a new era of post-historical harmony, but instead a return to the classical terrain of history, a terrain of great-power rivalries, secret diplomacies and irredentist claims and wars. (...) At the worst, America faces a metamorphosis into a sort of proto-Brasil, with the status of an ineffectual regional power rather than a global superpower. (...) the days of liberalism are numbered. Especially as it governs policy in the United States, liberalism is ill-equipped to deal with the new dilemmas of a world in which ancient allegiances and enmities are reviving on a larger scale.»
Na verdade, estes trechos não pertencem a nenhuma reflexão sobre a
actualidade, mas a uma especulação escrita em 1989 e dirigida ao artigo
ensaístico intitulado The End of History? que o politólogo americano
Francis Fukuyama deu à estampa nesse ano na revista The National
Interest - e que serviu de base para a escrita do seu conhecido livro
homónimo, publicado em 1992. Quase trinta anos depois, o retrato vertido
por Gray em afilada e presciente lucidez é uma silhueta que cai de modo quase
perfeito nos contornos da nossa actualidade. Nós somos este mundo
descrito em 1989. Face a este retrato límpido e repungente como
mercúrio, os imediatos discursos dos dias, sejam eles de que sinal
forem, são apenas formas transitórias e insubstanciais que falham
teimosamente - quiçá, ideologicamente - em fixar-se no essencial.
(Na imagem, de 1545, Herácles/Hércules assassina Caco, pela mão do artista bávaro Sebald Beham. Um episódio importante do repertório mitológico europeu que, se calhar, vale a pena resgatar para reflectir. Sobretudo, quando se pensa que no século XVI, quando esta imagem foi criada, Herácles/Hércules estava a ser reavaliado pelos humanistas num autêntico sentido greco-romano que havia ficado esquecido: não o de herói poderoso, mas o da personificação da ignóbil força bruta. Assim, a luta entre o patético Herácles/Hércules e o abjecto Caco parece simbolizar um qualquer enunciado difícil de decifrar.)
(Na imagem, de 1545, Herácles/Hércules assassina Caco, pela mão do artista bávaro Sebald Beham. Um episódio importante do repertório mitológico europeu que, se calhar, vale a pena resgatar para reflectir. Sobretudo, quando se pensa que no século XVI, quando esta imagem foi criada, Herácles/Hércules estava a ser reavaliado pelos humanistas num autêntico sentido greco-romano que havia ficado esquecido: não o de herói poderoso, mas o da personificação da ignóbil força bruta. Assim, a luta entre o patético Herácles/Hércules e o abjecto Caco parece simbolizar um qualquer enunciado difícil de decifrar.)
terça-feira, 23 de outubro de 2018
José Agostinho de Macedo: o inventor das 'Fake News'
Confiando no limite que a minha memória alcança, é seguro avançar com a
hipótese que o inventor da insólita expressão Fake News (que tanto tem
dado que falar) foi o nosso padre polemista José Agostinho de Macedo,
um dos anti-heróis mais fascinantes da nossa história contemporânea e
personagem paradoxal que tem merecido o meu estudo.
Se não me precipito, creio que a supramencionada expressão se estreia no verrinoso opúsculo Cordão da Peste; ou, Medidas Contra o Contágio Periodiqueiro, escrito em Fevereiro de 1821. Aí, sob o pseudónimo de Corcunda de Boa-Fé, Macedo escreveu o seguinte [actualizei a grafia]: "Como se pode combinar a estabilidade do governo, o sossego público, o amor da ordem, a observância das leis do novo regime, com a inquietação, que nos ânimos derramam tantas ideias destampadas, tantas NOTÍCIAS FALSAS, tantos projectos loucos, tanta flutuação de ideias, tanta contrariedade de doutrinas, e tão encontrados gritos dos incansáveis Periodiqueiros? Quem por eles saberá o que deve pensar, e o que deve fazer?"
quarta-feira, 20 de junho de 2018
Novas rotas de medo e interdição
A cultura de entretenimento agiliza-se em detectar renovações prototípicas nos procedimentos psicossociais das comunidades; sob esse enunciado, uma tendência que está a consolidar-se, em determinados filmes e livros de terror e de ficção científica, é a comutação do espaço, enquanto porosa fronteira do desconhecido, pela – igualmente inescrutável – imensidão virtual contemporânea; somando-se-lhe todo o costumeiro repertório de acessórios tecnológicos que a ela estão associados, como robôs, computadores, programas informáticos.
Provavelmente, a mais incontestável exteriorização desta mudança de pólo magnético encontra-se nos filmes que Ridley Scott se encontra a realizar actualmente no âmbito do mundo das personagens que concebera no filme Alien (1979): a nova grelha de referências aplicada em Prometheus (2012) e Alien: Covenant (2017) flutua como escuma sobre a nova psique global que, aceleradamente, abandona a noção de que o perigo reside sob formas extraterrestres no bioma espacial, em favor do fatalismo sentido à aproximação de ameaças procedentes de supositícios progressos nos campos da robótica e da inteligência artificial. Não deixa de ser curioso que a efeméride dos duzentos anos da publicação de Frankenstein de Mary Shelley escorregue neste momento por baixo da baia que delimita um terror do outro, à guisa de emblema do período neo-paracelsiano que atravessamos, no qual o horror homuncular se cifra como astro-rei – pois o que são os antropomorfizados cérebros electrónicos e robôs da hodiernidade, plenos de percepções, instintos e motivações puramente humanos, senão novíssimas representações do mito da concepção na retorta?
O labéu que perpassa toda a condenação moral do ofício paracelsiano sustenta-se na noção que a criação de um homem artificial – ou de uma inteligência artificial – por outro homem será sempre um empreendimento torpe e ímpio, destinado ao fracasso; mas, facto que não escapará aos observadores atentos, o processo da selecção natural depende, em exclusivo, de fracassos pontuais: leia-se, de mutações – imperfeições.
Em suma, a vida deseja a imperfeição; em última análise, nem sequer existe sem ela.
O que diferencia as diversificadas criações naturais das criações operadas por mão humana não é, como se poderia pensar, a imperfeição destas face àquelas, mas o problema de uma delineação inicial: é que no mundo sujeito à selecção natural, a forma antecede a função; no sentido que uma qualquer imprevista imperfeição numa cópia de material genético pode apresentar-se vantajosa para que, num curto intervalo de tempo, o indivíduo que dela concorra possa antecipar-se aos outros na propagação do seu próprio material genético imperfeito. Ora, no múnus da criação paracelsiana – artificial, mecânica, industrial, científica – é sempre a função que antecede as formas: não existe desenho sem objectivo, a forma subordina-se à função. Porém, na natureza, não existe nenhuma contiguidade pré-planeada ou fabricada que aproxime, a priori, objectos tão dissemelhantes como causa e consequência, forma e função. A beleza e o sucesso da criação por selecção natural reside na sua cega arbitrariedade: de facto, a forma vem primeiro – depois logo se verá o que é possível fazer-se com ela.
Na tradição esotérica, os homúnculos costumam, em regra, ser representados como tendo somente quatro dedos em cada mão: a razão para que isto aconteça relaciona-se directamente com a ideia numinosa de o número de cinco dedos ser a marca do ser humano – logo, um homem artificial, fruto da concepção laboratorial, seria imperfeito, exibindo apenas quatro dedos. Os velhos caricaturistas e autores de banda desenhada conheciam esta noção e é por isso que as personagens mais antigas, em particular homúnculos de jaez zoomórfico, como o Rato Mickey ou o Pato Donald, para restringir a amostra a algumas das mais conhecidas, só têm quatro dedos em cada mão. Pelo contrário, homúnculos actuais, como os robôs David 8 e Walter 1 dos recentes filmes de Scott, assumem uma extrema contiguidade com o molde humano – ao ponto de, no caso de Walter 1, serem capazes de digerir alimentos orgânicos sólidos, truque que, dispensado pela ausência de biologia, só se justifica pela função de mimarem, na perfeição, o humano. Na criação paracelsiana, artificial, a função precede e subordina a forma.
À medida que, gradualmente, o elemento robótico (que aqui nem sequer nada tem de orgânico, compondo-se, totalmente, de constituintes sintéticos) vai ocupando o espaço outrora reservado aos antagonistas alienígenas, compreende-se a mudança que efervesce na mente do público, habitante num mundo globalizado por canais virtuais de comunicação: já não é o mundo que é estranho, muito menos o espaço, mas os próprios canais. Estes, virtuais, ariscos, volúveis, é que são, em simultâneo, as rotas recém-descobertas e as áreas em branco povoadas por dragões.
O xenomorfo mete menos medo que o robô. Este é um poderoso sinal dos tempos.
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quarta-feira, 5 de julho de 2017
In Hell
I'm doubting if knowledge killed religion and pushed Western civilization to the path of scientific bliss. This may be pure historical interpretation through commonplace, an effect Arendt already warned about. Inasmuch as the hegemony of a knowledge based intelectual structure versus some religious based emotional structure, we might be seeing it all wrong, for to what extent is knowledge no more a process? In so far as we having come to terms with this process — for it is one—, it should be useful to keep in mind that in every period people thought of themselves as infinitely wiser than forerunners from past societies, which rings as a cautionary tale against the hubris of half-knowledge or, worst!, of philistinism, the crudness of pure ignorance.
This age is plagued by
all the artlessness, all the inelegances of yesterday — the worst being
the kind of Halo Effect operated by dilletantes and media darlings in
the semi-private, semi-public, space of virtual communication. There
really seems to exist some type of maladroitness endemic to this
mucoidal space we call the social network — mucoidal in the sense of
being porous, like the mouth or the anus; a liminal proscenium —
pregnable and retentive, both. It is in this frontispiece that we stand
civilized as in a public space, but, nonetheless, as oafish as one can
be when unobserved in the recesses of domiciliary space. It is in this
fake frontier that we gather to conform and to feel the amniotic freedom
of bashing the ones marginalized by whatever consensus society chooses
to structure itself around in any given moment, since bashing, in
itself, is no longer considered a civilized behaviour, except when
feigned as indignation.
In this regard I don't
think we live in a more enlightened age than before or that the religion
of progress will take care of all our problems. The past is full of
examples in which consensus got it wrong — in some cases, harrowingly
so. We suffer from shortsightedness and the desire to belong to whatever
the consensus might be — myopia and monomania are this age's fifth and
sixth horsemen. We lost the capabiity of discerning right from wrong,
substantial from superfluous, valuable from vapid — and the nakedness of our
dispensation from it, of our withdrawl from it, signals at last the true
and only exclusivity of our time. The fact that we didn't kill Hell,
like we would like to think: we just made it into a kiddie-ride.
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quinta-feira, 17 de novembro de 2016
Esboços sobre o Ontem e o Hoje (perspectivas)
No final do século XX, em Portugal, estabeleceram-se, definitivamente, ao alcance do grande público, duas tecnologias que, de facto, operaram uma mudança na sociedade: o telemóvel e a internet; dois eixos de modernidade que, hoje, se encontram, até, mais consonados do que alguma vez se pôde pensar, na configuração do smartphone, aparelho que é um verdadeiro canivete suíço digital. A concomitância do advento destas tecnologias com o final do século XX e com o final do segundo milénio da Era Comum (escrevo concomitância, porque, aqui, a palavra simultaneidade comportaria um incorrecto lastro de intencionalidade) emprestou-lhes um determinado nimbo parusístico - como se, a partir daqui, os cenários mais empolgantes e optimistas, teorizados pelos teólogos da religião do Progresso, estivessem, de facto, a dois dedos de distância da singularidade. Hoje, passada a embriaguez da novidade, percebe-se que não é - não será - assim (tão fácil). Contudo, o que interessa reter é que, após o estabelecimento dessas tecnologias, a paisagem humana mantém-se relativamente estável, no que às mudanças estruturais diz respeito.
Ou seja: pode falar-se num antes e num depois, considerando a ruptura provocada pela introdução nas nossas vidas dos telemóveis e da internet, mas reiniciando a contagem a partir daí detecta-se a homogeneidade dos costumes: os chamados nativos-digitais terão uma experiência do mundo muito diferente das gerações que os antecederam, no aspecto em que estas assistiram a algumas sismografias - a saltos na criação, para ser metafísico - que, desde 2001 para cá, ainda não encontraram ocorrências análogas. A cada ano, surgem novas versões de programas digitais, aplicações e equipamentos, mas, na verdade, as tecnologias de finais dos anos noventa do século XX permanecem as mesmas: um telemóvel (misto com computador pessoal - que é um artefacto ainda mais antigo) e a internet. A ser-se obrigado a elencar, precipitadamente, outro item igualmente impactante teria de referenciar-se a rede social.
No entanto, a rede social, enquanto princípio, tem mais semelhanças com os nossos velhos hábitos do que se poderia, à partida, pensar. Já tenho escrito, desde há muito tempo, que estabelecer ligação a uma rede social é muito parecido ao acto de ir a um café conversar com um grupo conhecido de pessoas: entramos, sentamo-nos à mesa com quem lá se encontrava antes de nós, vamos conversando; à medida que uns se vão ausentando outros vão chegando, criando-se conversas paralelas entre indivíduos que estão na mesma mesa, entre pessoas que estão nas mesas do lado e tudo se vai entrecruzando. Observa-se isso no modo como, por exemplo, se vão desenvolvendo os comentários nas publicações de Facebook, nos espaços previstos para o efeito. Até a publicidade que vai aparecendo nas margens e nas molduras das janelas de navegação equivale à televisão ligada no café ou aos jornais e revistas folheados por quem está ao nosso lado e que vão, pontualmente, concorrendo para chamar-nos a atenção. Uma das grandes diferenças entre ambas as experiências - o ir-se a um café para conversar ou aceder a uma rede social para conversar por escrito (ou não) - reside no feitio como se desdobram as consequências e o fenómeno do inesperado.
No mundo físico, as consequências são imediatas - demasiado, até. No mundo digital, as consequências são distantes - demasiado, também. Isto significa que apesar de a rede social transportar com sucesso para uma esfera digital um simulacro de uma experiência física, com todos os equivalentes a que já se aludiu, ela é incapaz de transpor a distância encurtada pelo imediato, no sentido em que este e o imprevisto são apanágio daquilo que é orgânico. O orgânico emite, constantemente, mensagens, sinais, reinterpreta a cada momento o que é emitido e o que é recebido, tudo mescla em diferentes linguagens (oral, corporal, abstracta) e níveis de entendimento (esotérico, exotérico, intrínseco e extrínseco) - e rapidamente, imediatamente. Até em relações mais especiais, inter-espécie - há uma matriz comum que pertence, em exclusivo, ao orgânico. O digital é incapaz de reproduzi-la. Espera-se demasiado do digital, tal como se esperou demasiado do telégrafo, do telefone, da televisão, das torradeiras e dos aspiradores. A comunicação está mais rápida, em certos casos, mas a consequência - ou, para ser ainda mais explícito, a inscrição - está sempre à distância. Uma distância desincorporada, como um segmento de recta a flutuar no éter: uma distância que desconhece pertença.
Desde 2001 que se anda a viver num segmento de recta desse jaez: enquanto ele flutuar num mar de equanimidade, manter-se-á a ilusão de estabilidade em que se está a tentar construir um presente. Um sintoma de que estamos a solidificar - em sublimação, do estado gasoso do incremento tecnológico estrutural de final do milénio e final de século para o actual estado sólido, em que tudo se vai sucedendo, mas em repetição, em versões actualizadas, mas sem autêntica novidade - é o do desaparecimento da especulação científica no discurso do entretenimento popular. Os indivíduos dos anos cinquenta do século passado sabiam que a ameaça nuclear era orgânica - tão orgânica quanto as torradas comidas ao pequeno-almoço. Hoje, as ameaças dos nossos dias continuam a ser orgânicas, mas vive-se, cada vez mais, na transplantação desse orgânico para um incipiente devir digital; logo, elas inscrevem-se cada vez menos: não é tanto apatia generalizada, ou anquilosamento ético, mas muito mais um desencontro entre planos ortogonais de existência que se aproximam sem se cruzar. Que se observam, lá está!, à distância.
O modelo digital é o da compartimentalização: hoje, compartimentalizamos tudo, sem que exista comunicação entre as categorias estanques em que se arrumam diferentes elementos.
(Imagem: Alegoria da Simulação. Lorenzo Lippi, 1640.)
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quarta-feira, 20 de julho de 2016
Virtude e efeméride sobre a alunagem de 1969
É muito importante lembrar que hoje se assinala a inaugural alunagem de 20 de Julho de 1969, servindo a efeméride de líquido de contraste à angiografia destes tempos retrocessuais em que vivemos. Sobretudo, deve deter-nos a atenção no facto de que não precisámos de nenhuma Internet para o efeito: somente recursos elementares e muita audácia. Com um objecto tão simples quanto um quadrante descobriram os portugueses metade do globo. Não vivemos, pois, no fim da história, num tempo em que tudo se encontra descoberto e num tempo em que a tecnologia hodierna parece esgotar-se a si mesma num autofágico universo referencial, guindado sobre as massas pela alavanca do consumismo mais primário; pelo contrário, vivemos, como em todos os períodos, num tempo de charneira. O tempo, seja ele qual for, é sempre, determinantemente, uma dobradiça que se inclina para o futuro e se recolhe sobre o passado: os gonzos em que apoia esse movimento são os homens.
Assim, evocando o heroísmo dos primeiros selenautas, proponho o optimismo: não a postiça alegria do tolo que fecha os olhos diante da catástrofe, mas a virtude corajosa do homem que decide, conscientemente, heroicamente, viver de modo positivo. Essa é, afinal, a autêntica acepção de virtude. As forças dominantes de uma sociedade são as da sua classe dominante: ascendamos, pois, a esse desiderato. Sejamos, constantemente, virtuosos, mesmo que achemos irrelevante esse esforço. O exemplo contagiará e propagar-se-á. Se algo ético pode ser retirado da alunagem evocada é que há luz na treva: o espaço é escuro, mas polvilhado de estrelas. Que é outra forma de dizer que há outras intenções neste mundo, que não as más: a luz, é, em grande parte, a claridade nascida da nossa passagem.
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terça-feira, 12 de julho de 2016
Reflexão sobre futebol
A atenção sem precedentes com que vi o jogo da final do campeonato de
futebol Euro 2016 entre as equipas portuguesa e francesa, assim como as
subsequentes celebrações, deram-me oportunidade de reflectir com
novidade sobre o fenómeno futebolístico. Assim, ao mesmo tempo que
constatei que, para a minha sensibilidade, o futebol, como outros
desportos, em geral, é aborrecido (os elementos excêntricos - dir-se-ia
quasi-narrativos - presentes no desafio, como a presença insólita das
traças, a dramática lesão de Ronaldo, logo no ínicio, as defesas
infalíveis do nosso guarda-redes, o golo da vitória tão puxado a ferros e
marcado habilmente por um jogador que, até ao momento, não figurava na
galeria de favoritos de ninguém, foram, com efeito, aqueles que motivaram o meu interesse), também compreendi o motivo pelo qual ele é
tão cativante - universal e transversalmente. O fascínio do futebol
opera-se ao nível do da música.
O futebol tem personagens, tem
espaço e tempo, tem contexto histórico e social, mas tudo isso lhe é,
com justiça, acessório: tudo isso é subsidiário daquilo que perdura após
a visualização de um jogo, que é, diga-se desta forma, o andamento.
Andamento, em sentido musical, incorpóreo, abstracto. No futebol, tudo
se faz de cores planas, na acepção de não-misturadas: são cores
aplicadas na tela, exactamente tal qual saem do tubo. Não há autêntica
expressão individualizada: há regra, há improviso, mas não há estilo. No
desporto não há noção de estilo, em feitio artístico: só há regra e riffs sobre essa regra - dá vontade de falar em Jazz, mas,
possivelmente, precipito-me. De qualquer das formas, o que permanece do
futebol é o andamento: é a pauta feita durante noventa minutos de
duração.
De um ponto de vista metafísico, arrisco a hipótese de
cada jogo de futebol, assim como cada prova desportiva, ser uma espécie
de comentário a uma forma ideal de jogo de futebol plasmado pelas regras
e, assim sendo, inacessível e modelar - em profunda analogia com a
disciplina medieval do comentário escolástico, em que duas equipas de
alunos de uma escola monástica comentavam, ao despique, ao desafio, e
cada qual com a sua estratégia, a matéria imutável, inquestionável, dada
pelo mestre; por conseguinte, regra e comentário, sendo que, aqui, o
comentário não tem como objectivo a procura da originalidade, nem a
produção de novo conhecimento, mas, somente, o consolidar a matéria
apresentada por meio de um texto clássico estruturado e terminado pela
autoridade. Assim é o futebol; assim é, pela larga medida, o desporto:
regra e desafio - matéria e comentário. Quem ganha é sempre o próprio
conceito de desporto.
Cântico de coreografia muscular e
velocidade, feito de técnica, ritmo e de tonalidades facilmente
reconhecíveis, o futebol age no mesmo plano da música. Não é,
verdadeiramente, visual, como um filme do qual, algum tempo depois do
visionamento, se memoria cenas preferidas ou que provocaram impacto,
perfeitamente cristalizadas na mente; nem é, verdadeiramente, verbal,
como trechos de um texto que, verbatim, se decoraram. É como a música.
Opera, em exclusivo, no plano emocional: pode-se assobiar o andamento
futebolístico, quase.
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terça-feira, 28 de junho de 2016
A história e a fortuna
Faz hoje 102 anos que Gavrilo Princip espoletou a Primeira Guerra Mundial. Nem uma única alma poderia imaginar o que aí viria: Princip foi, bem avaliadas as coisas, a verdadeira, a autêntica, parteira do século XX. Um século tem sempre dois inícios: o inscrito no calendário, iniciado no primeiro ano de cada nova centúria; e outro, orgânico, que se relaciona com mudanças intensas, estruturais, que o transfiguram e, impelindo-o a abandonar a casca, o obrigam a um inexorável caminho às cegas. Às vezes, os dias em que isso acontece são reconhecíveis, mas na maioria das vezes nem se dá por isso, suave que é a maturação das eras - como trombas de água bebés, ainda mansas sob a imperturbável cútis oceânica. George III de Inglaterra terá deixado passar em branco um momento assim, quando a 4 de Julho de 1776 redigiu no seu diário «hoje não aconteceu nada importante». Dá que pensar o facto de que, hoje, com a disponibilidade veloz de informação que possuímos, andamos tão às cegas quanto George III e quanto os europeus de 1914. A história não tem um tufo de cabelos na testa em jaez igual à fortuna: ela passa e não se deixa agarrar. Só é possível ver o rasto da roda vincado na terra e esse é frio, mudo e críptico, tremendamente.
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sexta-feira, 24 de junho de 2016
No tempo dos minotauros
Neste momento, em que escrevo este apontamento, não se sabe, não sei, qual será ou já é o resultado sobre o referendo sobre a permanência da Inglaterra na União Europeia. Este instante de incerteza demonstra o quanto é instável a maioria daquilo que consideramos garantido: nada o é - em principal, aquilo que é recente. Ora, a Europa é velha, mas a União Europeia apareceu ontem, de um ponto de vista cronológico mais alargado. Nada garantia ou garante que continuará connosco por mais ou menos tempo e elevo a toada cassândrica deste argumento por culpa da provável saída da Inglaterra da União Europeia, que se cifrará num acto, mais do que simbólico (que o será), análogo ao da queda da primeira peça de dominó que precipitará a das mais próximas. Assim, há que amadurecer o pensamento político e ético e aceitar sem falsas justificações o facto de que a burocraticamente labiríntica União Europeia tem criado monstros de diversos feitios - chamemos-lhes minotauros. Esses monstros têm obstaculizado a soberania dos estados-membros e, se não na prática em espírito, a dignidade dos indivíduos. Alguma espécie de retribuição, justa ou não-justa, instrumentalizada ou não-instrumentalizada, seria sempre de esperar. Fomos todos ingénuos? É provável. No entanto, tal como foi fácil ignorar os monstros do labirinto europeu também é fácil ignorar aquilo que de melhor e mais luminoso saiu desse labirinto: porque num labirinto não há somente treva, há, às vezes mais que uma, saída para a luz. Assim, é fundamental, além da manutenção do espírito crítico, a preservação das resplandecentes conquistas que a União Europeia nos tem proporcionado: todo esse capital humanitário, social e cultural que fez da Europa o melhor continente do mundo para se viver tem de ser conservado preciosamente, sob o perigo de, em caso de alienação, em situação-limite de 'tabula rasa', sermos forçados a recomeçar do zero, do desolador nádir do barbarismo mais aviltante. Seria, de facto, constrangedor que toda a experiência acumulada nas últimas décadas se fossilizasse em vida, que nem um desgraçado celacanto, que ainda nada, mas num mundo que não lhe reconhece lugar; ou, pior, se transformasse numa relíquia, como a representação de Europa e seu touro, aqui reproduzida em anexo: em suma, num tóteme de puro balastro mítico, apenas valorizado por um punhado de indivíduos que, vá lá saber-se como, ainda detêm memórias vestigiais de um período em que o seu valor era absoluto. Novos tempos exigem sempre novos valores. Já temos um pé no Tempo dos Minotauros. Esperemos que ainda se vá a tempo de o retirar.
Adenda: já se sabe que a Brexit ganhou, por uma percentagem aproximada de 52%. Infelizmente, neste caso, o meu texto tornou-se ainda mais relevante.
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quarta-feira, 25 de maio de 2016
Sobre os livros de bolso em Portugal
À aproximação da Feira do Livro de Lisboa, algumas observações de
relance sobre um assunto que ainda me estupefacta e para o qual ainda
não encontrei uma resposta satisfatória (e acreditem que tenho pensado
muitíssimo nisto, desde há anos): porque é que em Portugal não há um
mercado saudável de livros de bolso?
A natureza do livro de bolso
é ser um livro barato, que possa ser lido durante o dia-a-dia: nos
transportes públicos enquanto se vai para o trabalho; nos bancos de
jardim, à hora-de-almoço; e, evidentemente, em casa. É um livro feito a
pensar em quem, de facto, deseja o conteúdo e não a forma; embora se
possa privilegiar uma edição de bolso anotada ou comentada por
especialistas, se for caso disso - facto que, em regra, não encarece em
nada a publicação. Com efeito, são as sumptuosas tiragens dos livros de
bolso - na ordem das dezenas ou das centenas de milhares de exemplares
impressos - que baixam totalmente os custos de produção; os quais
decrescem pelo facto de que, como consistem em livros de pequeno formato
- octvavos ou quartos, por exemplo (e o quarto não é assim tão pequeno
quanto isso) -, não precisam de encadernações robustas (que são caras).
Basta-lhes uma simples capa de cartolina, colada na lombada. Olhando por
cima do ombro para o passado recente lembro-me de algumas editoras que
fizeram um magnífico trabalho na edição de livros de bolso, mas quando
olho em frente, para o presente, não vejo um labor idêntico (em número
de editoras e em número de edições). O livro comum posto à venda em
Portugal é um livro de médio formato, com valores de produção médios ou
baixos e com um preço de venda ao público que se aproxima, na maioria
das vezes, dos vinte e cinco euros. O preço relaciona-se directamente
com a tiragem (em teoria..): um título do qual se imprime mil ou mil e
quinhentas cópias - três mil, vá lá - não pode ter o mesmo preço de
venda ao público que um título do qual se imprima cem mil ou trezentos
mil exemplares. Isso é perfeitamente razoável, como é evidente. O que já
não é tão evidente assim é a razão pela qual, no tal passado recente
(vinte, trinta anos atrás), se podia encontrar uma deslumbrante oferta
de livros de bolso nas livrarias.
Havia leitores para eles?
Se sim, onde estão?
Nunca existiram e editava-se por carolice - ou (colocando a questão de uma forma mais nobre) por espírito de missão? Seria proveitoso descobrir respostas expressivas para estas interrogações.
Havia leitores para eles?
Se sim, onde estão?
Nunca existiram e editava-se por carolice - ou (colocando a questão de uma forma mais nobre) por espírito de missão? Seria proveitoso descobrir respostas expressivas para estas interrogações.
Por outro lado, o
livro de bolso, infelizmente, nunca se libertou - em Portugal, pelo
menos - da aura de coisa ordinária - de res rasca - que o impregna;
pois, nas mentes da maioria dos indivíduos, se algo custa barato é
porque não tem qualidade. Isto não é totalmente axiomático, pois cada
objecto é orbitado por uma espécie de preço invisível, perspirado à sua
aproximação e que alarma quando se está a pedir demasiado ou
pouquíssimo: em ambos os casos, desconfia-se. O bom consumidor é, pois,
uma criatura do médio, nunca dos extremos. Nessa óptica, se o tal livro
comum descrito acima (de preço de capa de vinte e cinco euros) fosse
apresentado a custar sete seria, imediatamente, recebido com sobrolho
sublevado: sete euros será um preço natural, acessível ou convidativo,
mas não é um preço, digamos, "prestigiante" (leiam, entre outros,
Torsten Veblen ou Joseph Schumpeter para aprofundar esta problemática).
As respostas são esquivas, é certo. Mas também é certo que a cultura do
livro de bolso, seja lá porque razão for, nunca medrou entre nós. Entre
outros livros, resta-me comprar nos alfarrabistas essas pequenas e
portáteis preciosidades editadas em antanho; e que, por vezes, até são
as únicas edições que existem de determinados títulos que, entretanto,
nunca mais foram eleitos para reedição - o que é lamentável.
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segunda-feira, 16 de maio de 2016
O verdadeiro campeão
Para que não haja engano, declaro, à partida, que não gosto de futebol e desconsidero profundamente a incultura - de gestos, cânticos, coreografias - que lhe está associada. Não me orgulho, particularmente, de pertencer à classe dos intelectuais que odeiam futebol, porque também odeio lugares-comuns, mas, como quem dá o que tem a mais não é obrigado, parecer-me-ia ainda pior esconder as minhas convicções por receio de sofrer com os efeitos da impopularidade. Já Lucrécio, em tempos de antanho, falava na importância das palavras que vêm do coração e, neste caso, é mesmo daí que vêm as seguintes.
Entristece-me e revolta-me ver a massa de gente que, a esta altura, na Praça do Município, celebra, como se fosse algo verdadeiramente importante, a vitória de um clube de futebol no final de um campeonato futebolístico, quando, na verdade, nem um par de boas almas se dignaria a mostrar a cara para homenagear no mesmo local eventos ou indivíduos que foram fundamentais para a história de Lisboa. Aceito que a minha perspectiva sobre este assunto possa encontrar-se desviada pelas convicções a que aludi no primeiro parágrafo deste texto, mas considero lamentável a febre futebólica que desde sexta-feira tomou de assalto a comunicação social e que culmina, hoje, com a homenagem na câmara municipal de Lisboa.
Gostaria que milhares de pessoas arvorassem um gáudio da mesma intensidade para, por exemplo, homenagearem, entre outros, Júlio de Castilho, o pai da olisipografia, que morreu em condições miseráveis e cuja deterioração da sua última morada - na intersecção da Rua Pena Montero com a Calçada do Picadeiro, na freguesia do Lumiar - se mantém como escandaloso opróbrio que fere o coração de quem por lá passa e sabe qual foi a importância desse atlante campeão - esse, sim, autêntico campeão - de Lisboa. Poucos - pouquíssimos - fizeram tanto quanto ele pelo conhecimento e amor por Lisboa. Hoje, quem se lembra dele? Quem é que sabe o nome dele? E quem é que sabe de cor e salteado os nomes de todos os jogadores de futebol - e de participantes em reality shows?
As imagens aqui publicadas são: uma aguarela da sua casa pintada pelo próprio Júlio de Castilho (que além de extraordinário escritor e investigador, também era pintor); e uma imagem recente do estado actual da mesma casa. São duas visões que aqui deixo para fazer pensar: quem tiver sensibilidade que pense.
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sábado, 14 de maio de 2016
Mal por mal, antes Pombal
Discordo profundamente que a Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa,
continue a ser utilizada para celebrar vitórias futebolísticas,
sobretudo, quando estas se fazem sob reforçada vigilância policial;
circunstância que demonstra - caso prova fosse precisa - de que estes
festejos não são de natureza pacífica (são de natureza catártica) e
consistem num poderoso sinal de que a sociedade está doente, pois a
catarse tem, precisamente, o propósito de purificar os órgãos, o
aparelho, o sistema. Em suma: quando se
está bem, não se procura a catarse - esta é apanágio de estados
avançados de morbidez, de inveterada doença. Não tenho a certeza sobre
se o futebol é uma doença, mas não duvido de que a exaltação febril,
violenta, que provoca, é, de facto, uma doença. Infelizmente, quem não
gosta de futebol, tem de submeter-se a situações aviltantes, por culpa
daqueles que gostam; como, por exemplo, não poder circular livremente em
determinadas zonas da sua cidade ou ter o desagradável dissabor de ver
um monumento nobre ser dessacralizado por bandos de aficionados da
catarse, munidos de vexatórios vexilos, garrafas de cerveja, latas de
tintas em aerossol e porretes. Sinto um desprezo extraordinário pelo
labroste catecismo de pacotilha que homogeneíza comportamentos sob os
mesmos estribilhos e os mesmos gestos, como se somente em feitios desse
jaez fosse legítimo comemorar a vitória de um clube futebolístico sobre o
outro; como se os indivíduos se sentissem completos e satisfeitos por
coreografarem dessa forma tão estandardizada e superficial - e a maioria
sentir-se-á mesmo completa e satisfeita, o que é desanimador. Sempre
que espreito as imagens televisivas das hordas em êxtase na Praça do
Marquês de Pombal sinto-me romano a ver os bárbaros a invadir o fórum,
pois, para mim, é do triunfo do barbarismo que se está a falar.
Barbarismo sancionado e observado com paternalismo podre por servir de
válvula de escape a milhares de indivíduos.
Ainda por cima, como já escrevi em outras ocasiões, o Marquês de Pombal odiava futebol e proibiu que fosse jogado aos dias de semana, de acordo com o Capítulo 32 - «Postura dos Que Jogão à Bolla Pela Semana» - das posturas públicas pombalinas, publicadas entre 1982 e 2000 pela Câmara Municipal de Oeiras nos três volumes intitulados Memorial Histórico ou Colecção de Memórias sobre Oeiras: quem fosse apanhado a jogar à bola num dia e numa altura que não fosse Domingo depois da missa matutina, ia preso e tinha de pagar quinhentos réis de multa. Mal por mal, antes Pombal, dá vontade de dizer.
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quarta-feira, 4 de maio de 2016
Ainda sobre a estátua destruída de D. Sebastião
O Jornal da Noite, da SIC (foi o telejornal que vi), não falou - nem
sequer em rodapé - do crime de lesa-património em que consistiu a
destruição da estátua de D. Sebastião (colocada na fachada da estação
ferroviária do Rossio, em Lisboa) por um debilóide que a atirou ao chão
ao guindar-se à consola que a sustentava para tirar uma selfie com a
câmara fotográfica do telemóvel. Também já circulam pela Internet e sua
nativas redes sociais diversas paródias feitas em Photoshop alusivas ao
crime, nas quais se veiculam mensagens aviltantes à figura de D.
Sebastião, transmitindo a ideia de que quebrar-se uma sua estátua é
coisa engraçada ou sem importância; noção que se correlacionará,
suspeita-se facilmente, com a noção errónea de que D. Sebastião foi um
rei que submergiu o país nas trevas filipinas e que é, de alguma forma
atávica, o culpado pela(s) subsequente(s) crise(s) portuguesa(s).
O problema português não reside na figura de D. Sebastião - da qual,
aliás, devíamos ter comiseração, porque teve uma vida miserável -, mas
na incapacidade dos portugueses aprenderem a história do seu país, o que
os leva, demasiadas vezes, a trocarem o factual pelo anedótico e o
racional pelo emocional. D. Sebastião não foi um rei perfeito (até
fisicamente seria muito desproporcionado - consequência de vários
casamentos consanguíneos na família), mas a verdade é que não existiram
reis portugueses perfeitos, logo eleger D. Sebastião como arquétipo do
Mau Rei Português é precipitado e até errado, porque houve soberanos
piores que, hoje, passam no exame dos portugueses com notas mais
elevadas (basta falar em D. Afonso VI, para citar um caso extremo de
incapacidade). De facto, o desastre de Alcácer-Quibir, em 1578, teve
como principal motor ideológico o facto de a nobreza da altura nunca ter
sido capaz de engolir o sapo das praças portuguesas baldadas no Norte
de África por D. João III - praças que não eram precisas para nada.
Ansiosa por glórias anacrónicas e saques imaginários, essa nobreza de
câmara fez constantemente em água a cabeça de D. Sebastião até que,
enfim, lá apareceu uma oportunidade para se ir em grande número até
Marrocos para a desforra. Em seguimento, o advento filipino poderia ter
sido evitado por quem de direito, se tivesse existido espírito para tal
(mas isso são outros quinhentos); de qualquer forma, D. Filipe II de
Espanha e I de Portugal, que era tio de D. Sebastião - logo, candidato
legítimo à sucessão - não só não foi nenhum usurpador espanhol, como nem
sequer era espanhol, de todo: era meio-alemão e português. De espanhol
não tinha nada. É fácil de ver que a maior ameaça à soberania portuguesa
teria sido D. FIlipe V de Anjou: para este, que era francês (o nome dá a
entender, caso não se tenha percebido), todos os peninsulares eram
espanhóis (inclusive os portugueses, presume-se), daí que quando se
sentou no trono em Castela principiou logo em tratar da saúde à
brincadeira de existirem diversos reinos peninsulares, que isto de haver
um só reino era bem mais simples. É a partir daqui (século XVIII) que
começa a despontar a ideia de uma Espanha verdadeiramente una: a Espanha
só é Espanha, propriamente dita, desde 1856, porque somente em Junho
desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente «España». Até aí
era o "Reino das Espanhas", que é a designação que surge nas
constituições espanholas de 1812, 1814, 1834, 1837 e 1845: só na de
1856, como disse, é que aparece a designação «dominios de España» em vez
da tradicional «las Españas».
Ou seja: até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma - existiram, sim, vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Desde o século XVI que existe documentação portuguesa (e não só) em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de 'marketing' político.
Felizmente, quando D. FIlipe V ascendeu ao
trono castelhano nós já tínhamos feito a Restauração, defenestrando no
Terreiro do Paço o castelhanófilo Miguel de Vasconcelos (em 1640), e
vencido a Batalha dos Montes Claros, perto de Borba (em 1665), que
solidificou em definitivo - até quando, logo se verá - a independência
portuguesa. Por isso é precipitado e até errado dizer que D. Sebastião
nos introduziu nas trevas espanholas.
Usar essa incorrecção para desculpabilizar - ou justificar - a destruição da sua estátua por um paspalho é apanágio de atraso mental misturado com má-fé. Na verdade, nem que fosse uma estátua de Miguel de Vasconcelos: a história faz-se com aqueles que a constroem, não com aqueles que a destroem.
Quebrada a estátua de D. Sebastião da estação ferroviária do Rossio
Ontem à noite, um energúmeno de vinte e quatro anos de idade destruiu
totalmente a estátua de D. Sebastião, esculpida em 1887 por Simões de
Almeida, que se encontrava na fachada da entrada fronteira da estação
ferroviária do Rossio, em Lisboa. Dizem as agências de comunicação que a
deitou ao chão quando tentou empoleirar-se na consola que sustentava a
escultura para tirar uma selfie. Sinto-me chocado com este crime de
lesa-património contra um dos ícones mais queridos e distintivos da
cidade de Lisboa.
Pelas inefáveis caixas de comentários dos sites de Internet de diversos jornais que, entretanto, noticiaram o crime, já pode ler-se opiniões desculpantes que colocam sobre o acontecimento uma tónica digna de dó, argolada na suposta falta de segurança pública em que consistia uma estátua que caiu tão facilmente, ignorando que em quase cento e trinta anos de existência foi preciso esperar que um debilóide se guindasse na peanha em que a escultura assentava para que esta, de facto, caísse ao chão e se quebrasse em pedaços. Não duvido que se o paspalho se tivesse lembrado de trepar, por exemplo, pela estátua do Eusébio e a tivesse danificado de algum modo, por mais incipiente que fosse, as opiniões expressas nas caixas de comentários seriam bem diferentes; pois não me liberto da ideia de que neste abjecto período que atravessamos, em que a história é observada como sendo inútil e se faz diariamente a apoteose de outro tipo de expressões e (des)valores, como a promoção contínua da vapidez, da cupidez e da estupidez pelos vários veículos da comunicação social e pela indústria do entretenimento, se perdeu totalmente a vergonha e, pior!, a noção mais rudimentar do que é importante, salutar, vivífico. Para mim, que vivo constantemente de imaginário pajão na mão a tentar - às vezes, sem êxito, o que é angustiante - afastar da minha pessoa as tais vapidez, cupidez e estupidez, é cada vez mais difícil viver - conviver, então, é absolutamente penoso - num mundo que, por culpa de crimes deste tipo e por culpa da indulgência com que são observados e punidos, se torna inexoravelmente mais pequeno, mais homogéneo, mais irrelevante. Gostava que o pedaço de asno que destruiu a estátua tivesse uma punição exemplar - repito, uma punição exemplar -, mas, enfim, não criar expectativas em relação a nada tem-me servido bem, daí que farei o mesmo neste caso.
Quanto à escolha difícil das imagens aqui publicadas, a razão foi a seguinte: mostrar a escultura de D. Sebastião, tal como ela, até esta data, deveria ser para a maioria dos indivíduos - ou seja: uma coisa antiga, nebulosa, sem valor que por ali estava, sem sequer se dar por ela - e confrontar esse imago com os cacaréus em que foi transformada por um marginal mental. Em anexo, fica, para quem ainda reserva um pingo de indignação, a imagem que resta, também da autoria de Simões de Almeida, de um D. Sebastião, ainda infante, lendo Os Lusíadas, esculpida dez anos antes da estátua colocada na fachada da estação ferroviária do Rossio e que pode ser vista no Museu do Chiado.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Sobre a sobrevivência da Calçada Portuguesa em Lisboa
Extrair a chamada Calçada Portuguesa dos pavimentos públicos pedonais
de Lisboa com base no argumento de que é legítimo fazê-lo porque ela
não é tão antiga quanto se pensa, como se apregoa nos meios de
comunicação, é, com efeito, errado, já que uma maior distância temporal
que separe um determinado objecto histórico deste momento presente não
confere nenhuma especial autoridade a esse objecto em relação a outros
que sejam de lavra mais recente: sobretudo no que concerne à
transformação do espaço urbano, ao longo das eras, pelos indivíduos que o
foram habitando – tudo é histórico.
Por conseguinte, numa
perspectiva histórica, a oitocentista calçada portuguesa, composta por
mosaicos decorativos feitos de pedras calcárias pretas e brancas, é tão
importante quanto o quinhentista Mosteiro dos Jerónimos: monumento cujo
recorte inconfundível para todos os observadores locais e todos os
visitantes estrangeiros deve, hoje, muito mais a profundos restauros
oitocentistas do que ao seu desenho original – assim como a
acarinhadíssima Torre de Belém, ainda mais totalmente reincorporada de
elementos decorativos e estruturais oitocentistas que, para a maioria
dos lisboetas e demais portugueses, são ainda vistos como sendo
iniciais. Nestes casos, em que pouquíssimo resta de original – leia-se
quinhentista – nas suas composições, também será legítimo removê-los – o
Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém – por consistirem em
recriações recentes (e absolutamente contemporâneas dos primeiros
assentamentos lisboetas de Calçada Portuguesa)?
Justificações de
remoção de um objecto histórico baseadas na suposta autoridade ou
não-autoridade concedidas pela calandragem do tempo são espúrias.
Suspeito que o facto de, cada vez mais, existirem pouquíssimos
calceteiros qualificados para fazer a conservação de um objecto tão
ornamental e difícil de burilar como a Calçada Portuguesa torne muito
caro o seu emprego; assim, imagino que cada vez que se rompa um rego na
Calçada Portuguesa para remendar um cano, ou cada vez que tenha de
desfazer-se o puzzle da Calçada Portuguesa para obras de natureza
diversa, seja mais utilitário (vulgo, barato) substitui-la por prosaicos
pavimentos lisos, de cimento branco.
Soluções rápidas e simples deste jaez quase nunca se relacionam com motivos mais nobres que o elementar economicismo: é este – e não outro – que subjaz à sanha sarcótica de querer remover a Calçada Portuguesa das ruas de Lisboa. Nesta óptica, o tal argumento de que não faz mal que a Calçada Portuguesa desapareça, porque ela não é assim tão antiga quanto isso ainda poderá servir para derrubar o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém quando os corifeus do economicismo aprenderem um pouco de história e ganharem a noção de que esses monumentos também são reconstruções oitocentistas, coevas das primeiras pavimentações de Calçada Portuguesa em Lisboa.
Onde se traça, afinal de contas, a
linha temporal aceitável para que um objecto histórico tenha licença
para continuar a existir? Aparentemente, nem objectos mais antigos
escapam à cupidez e à estupidez: basta lembrar que a escadaria
seiscentista do ducentista Mosteiro de Alcobaça foi quase totalmente
coberta de cimento quando, há uns anos, se produziu a nova praça que lhe
é dianteira.
A beleza da Calçada Portuguesa revela-se com
deslumbrância quando é contemplada de cima, mas aí reside outro grande
obstáculo à sua sobrevivência no período que, infelizmente,
atravessamos: é que gente menor é incapaz de olhar seja o que for de um
ponto de vista elevado.
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sábado, 2 de janeiro de 2016
'Best of' de 2015 de artigos no Cadernos de Daath
Segue um best of composto por alguns dos artigos mais populares que publiquei durante o ano passado no blogue Cadernos de Daath. Agrupei-os em sete temas, por ordem cronológica: Obra (sobre os meus livros), Cultura, Actualidade, Literatura, Cinema, História e Teorias das Conspirações. Convido-vos, pois, à releitura ou à descoberta de algumas das minhas inquietações, realizações e predilecções de 2015.
- Obra:
Vídeo da palestra À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal Europeia e Portuguesa na Prática e na Cultura na edição de Abril do primeiro ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas.
Vídeo da sessão de Julho da tertúlia literária Recordar os Esquecidos com as participações de Fernando Pinto do Amaral, David Soares e moderação de João Morales.
Vídeo do lançamento do livro O Poema Morre, escrito por David Soares e desenhado por Sónia Oliveira, no Amadora BD, com as participações dos autores e moderação de Mário Freitas, editor da Kingpin Books.
Vídeo da palestra À Mercê da Medicina: Farmacologia Canibal Europeia e Portuguesa na Prática e na Cultura na edição de Abril do primeiro ciclo de palestras sobre horror Sustos às Sextas.
Vídeo da sessão de Julho da tertúlia literária Recordar os Esquecidos com as participações de Fernando Pinto do Amaral, David Soares e moderação de João Morales.
Vídeo do lançamento do livro O Poema Morre, escrito por David Soares e desenhado por Sónia Oliveira, no Amadora BD, com as participações dos autores e moderação de Mário Freitas, editor da Kingpin Books.
- Cultura:
- Actualidade:
Terrorismo e Populismo.
O Novo Pão e o Novo Circo.
Sobre a Queima do Gato em Mourão.
Sobre a (Des)União Europeia.
O Novo Pão e o Novo Circo.
Sobre a Queima do Gato em Mourão.
Sobre a (Des)União Europeia.
- Cinema:
- Teorias das Conspirações:
Sobre Teorias das Conspirações.
Neonazismo na Cultura Popular no Aniversário dos Setenta Anos da Libertação de Auschwitz.
Sobre Gigantes Perdidos e Achados.
Sobre Teorias das Conspirações.
Neonazismo na Cultura Popular no Aniversário dos Setenta Anos da Libertação de Auschwitz.
Sobre Gigantes Perdidos e Achados.
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