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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Humano no Fantástico


Várias vezes defendi a adaptação cinematográfica do livro The Hobbit, de J. R. R. Tolkien, realizada em três filmes pelo cineasta neozelandês Peter Jackson, e ao ver a versão "estendida" de The Battle of the Five Armies (escrevi "estendida" entre aspas, porque as versões alargadas, editadas em DVD, são, na verdade, as originais, que serviram de matriz às mais curtas, exibidas nos cinemas) compreendo que estes filmes não poderiam, de facto, ter sido feitos de outra forma, pois compõem uma sequência perfeita que completa, em estilo, tonalidade e lógica narrativa, a trilogia anterior (The Lord of the Rings). Deste ponto de vista, penso que os problemas de percepção que The Hobbit cultivou, desde a estreia da sua primeira parte, relacionam-se com uma certa deslocação de expectativas: sob o espectáculo deslumbrante dos superlativos efeitos especiais (à la Ray Harryhausen do século XXI), existem apontamentos e ideias de uma fina subtileza que são continuamente interpretados de maneira oblíqua por um público cuja definição de "fantástico" presente na sua constelação cultural é paupérrima. Essa palavra ("fantástico") é dinâmica, evidentemente: tem-se transfigurado no desenrolar das décadas, assim como outros conceitos mais estruturantes (o princípio setecentista de "mal" difere em quase tudo da sua acepção contemporânea, assim como o modo como se vivia a morte no início do século XX é dissemelhante daquele que caldeia o início deste).

No fundo, prefiro designar o imaginário tolkiano por "mitologia fundacional", posto que aquilo que a maioria do público entende por "fantástico" somente se relaciona com ele por via de algum mimetismo estético: essa pseudoliteratura feita por colagens sincréticas e apressadas dos arquétipos tolkianos, pontuada por uma intrínseca imaturidade, que em nada tem contribuído para a credibilização dos universos da imaginação junto de um público e de uma crítica mais sofisticados. Com efeito, o dito "fantástico" é incomensuravelmente maior que o nicho criado por Tolkien e seus imitadores, mas é, precisamente, esse nicho que chega mais vezes e mais depressa ao grande público - ora, talvez seja atempado e útil remir Tolkien desse nicho, com o qual ele apenas se aparenta superficialmente. Talvez seja atempado e útil deixar de ler Tolkien à luz de alguns anacronismos e preconceitos que têm obstaculizado a sua interpretação e cotejá-lo com os textos das cosmogonias das sociedades pré-clássicas, por exemplo, com os quais, em bom rigor, patenteia muita paridade. Existe um lirismo em Tolkien que nada tem a ver com o receituário patético que a sua obra, infelizmente, criou, mas que se une, profundamente, aos grandes mitos fundacionais.

Para além disso, sob as vestes diáfanas da fantasia, Tolkien cria retratos autênticos da natureza humana. A esse título, observe-se o cenário plasmado em The Hobbit: um tirano ocupa ilegalmente um território rico em recursos, expulsando os seus habitantes que, anos mais tarde, intentam recuperar essa terra prometida; uma vez eliminado esse tirano, assiste-se a uma vera pulverização de poderes, com diversos grupos locais, cada qual à sua maneira e com diferentes motivos, tentando agarrar o controlo desse território. Em paralelo, nas fímbrias do palco, um novo candidato a tirano arrebanha radicais tropas de elite que, sob bandeiras negras, só tem como objectivo a hegemonia global sobre todos os restantes grupos que, note-se, parecem mais interessados em digladiar-se por miríficas riquezas do que em unir-se para combater a ameaça comum.

Sim, Tolkien não tem, de maneira nenhuma, nada a ver com a realidade e a experiência humanas.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Manoel de Oliveira (1908-2015)



A última longa-metragem de Manoel de Oliveira, O Gebo e a Sombra (2012), que adapta uma peça teatral de Raul Brandão, é uma súmula espantosa do seu cinema, com um engenhoso equilíbrio imagético e verbal e uma fotografia lindíssima. A melhor homenagem que podem dar a Manoel de Oliveira é ver, rever e descobrir sempre coisas novas nos seus filmes: filmes que, sublinhe-se, recusam o mimetismo naturalista, sob o qual a arte tem de aproximar-se da vida. Não existem âncoras, no sentido de peso e de fixação que a palavra comporta, no cinema de Oliveira. Pode gostar-se menos ou mais da estética especial que ele inaugurou, ou apreciar-se mais uns filmes do que outros, como é natural, mas é inegável que Oliveira é um caso singular no cinema português e internacional. Poucos cineastas evocam, à partida, uma ideia análoga de liberdade cinematográfica, porque o cinema de Oliveira é totalmente livre. Talvez Kiarostami ou Dryer, que são os nomes que, neste momento, me surgem na lembrança (outros haverá, certamente). Empatizo totalmente com a estética oliveiriana, diga-se assim, de recusar liminarmente a velocidade: não a velocidade do dinamismo e da compreensão arguta, que essa está lá, mas a velocidade distractiva e superficial do frenético êxtase das montagens ultra-rápidas que nem sequer nos deixam observar convenientemente aquilo que está a ser mostrado. Entrar num filme de Oliveira é sempre entrar num espaço de pensamento, como num museu ou num templo: entra-se e cala-se para deixar falar a voz da inteligência. Quando se assimila esse preceito, o cinema de Oliveira é uma enriquecedora experiência.

quinta-feira, 19 de março de 2015

«Nosferatu» musicado por Charles Sangnoir: amanhã no Seixal


Amanhã, dia 20, às 21H00, na Praça Luís de Camões, no Seixal, Charles Sangnoir, de La Chanson Noire, irá oferecer um espectáculo singular, musicando ao vivo o filme mudo Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau, cineasta pioneiro do movimento estético cinematográfico que ficou conhecido pela designação de "expressionismo alemão". A entrada é livre. Divulguem e apareçam.

segunda-feira, 2 de março de 2015

1ª Bolsa de Guiões Fantasporto


No âmbito da programação da trigésima quinta edição do Fantasporto, Festival Internacional de Cinema do Porto, irá ocorrer na próxima quarta-feira, dia 4, das 15H00 às 18H00, no Teatro Rivoli, a primeira Bolsa de Guiões Fantasporto.

Esta inspirada iniciativa, organizada pelo escritor e jornalista Octávio dos Santos e por Beatriz Pacheco Pereira, co-directora do Fantasporto, consiste numa sessão de análise e debate de diversos textos de cariz fantástico, escritos por autores portugueses, com o objectivo de encontrar-se sinergias, entre escritores e cineastas, que confluam em posteriores adaptações cinematográficas dos materiais literários em observação.

O meu conto No Muro (que escrevi propositadamente há três anos para a iniciativa Contos Digitais do Diário de Notícias, em parceria com a Escritório Editora) é um dos títulos reunidos nessa amostra.

Estão todos convidados a aparecer e, como habitual, agradeço a divulgação.
 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Vício da Gravidade


Em 2009, assim que saiu, li o romance Inherent Vice, de Thomas Pynchon, um dos autores que mais admiro, mas, admito, tenho pouquíssimas memórias desse livro atípico na obra do escritor norte-americano. Tenho uma noção diluída do enredo e de algumas personagens e situações que considerei mais interessantes, mas teria de relê-lo para refrescar a memória, quanto ao panorama. O problema é que o livro -- para o padrão fixado por Pynchon -- é demasiado ligeiro e até superficial: é, somente, uma história rocambolesca, semipolicial, semi-humorística, sobre alguns arquétipos da subcultura norte-americana de inícios da segunda metade do século XX e, sobretudo, demasiado esquecível, se é que me faço entender. Depois da publicação do genial e muito bem arquitectado Against the Day, um extraordinário romance, gigantesco em páginas e em ambição, este Inherent Vice foi uma desilusão e pêras.

Penso que Pynchon, conhecido por estar muitos anos sem publicar nenhum romance novo, quis, dessa vez, reduzir o tempo de espera dos seus leitores publicando um novo título -- apressado -- apenas com três anos de intervalo em relação à obra anterior (entre Against the Day e Mason & Dixon estão, retrospectivamente, nove anos de distância -- e dezassete anos entre Vineland e Gravity's Rainbow). Daí que não me surpreende que Inherent Vice, um "Pynchon light", seja a primeira escolha de Hollywood para uma adaptação cinematográfica do universo autoral deste escritor singular.

Todavia, para o espectador comum, Inherent Vice, realizado pelo interessante Paul Thomas Anderson, não será tão ligeiro quanto isso, porque o filme está a ser criticado por ser demasiado complexo e não-linear. Ora, bem: palavras como "complexo" e "não-linear" são música para os meus ouvidos, por isso lá terei de ir ao cinema comprovar se os críticos e o público têm razão.


Gostava, não obstante, que Hollywood tentasse filmar uma adaptação de Gravity's Rainbow, publicado em 1973 e rejeitado para o Prémio Pulitzer por culpa de uma sequência sadomasoquista de sexo coprofágico entre as personagens Katje Borgesius (uma agente dupla holandesa que é, em simultâneo, uma escrava sexual de um oficial da SS) e o submisso Brigadeiro Ernest Pudding; acrescente-se os laivos de zoofilia que envolvem pelo pescoço e pela cintura a bombástica Katje Borgesius e o estrambótico polvo Grigori, condicionado pavloviamente para atacá-la numa praia da Côte d'Azur (evento do qual é salva pelo protagonista Tyrone Slothrop, que distrai Grigori com um apetitoso caranguejo) -- uma passagem que evoca, de imediato, a arte shunga (estilo erótico japonês, cognato da nossa palavra chunga, que significa reles ou ordinário) do artista japonês Hokusai; em principal, a peça oitocentista Tako te Ama (O Sonho da Mulher do Pescador), mas, de igual modo, certas capas de revistas pulp norte-americanas, como a Spicy Adventure Stories, acervo de bizarras aventuras lascivas, editada nos anos trinta pela Culture Publications.

Considerando que Gravity's Rainbow data de 1973 e as mangas revolucionárias de Toshio Maeda, pai do género Hentai de banda desenhada japonesa, só apareceram em meados dos anos oitenta e inícios dos anos noventa, Pynchon será, na verdade, o primeiro autor a introduzir o sexo tentacular na cultura ocidental -- e, de chofre, no campo da literatura erudita. Aliás, tenho quase a certeza que os bonzos bem-pensantes que gostam muito de apregoar à boca cheia a sua admiração por Pynchon, enquanto crachá cultural, nunca leram, de facto, as tropelias tentaculíferas e escatofágicas de Gravity's Rainbow (entre outros desatinos de alto apuro que lá se encontram), com mais pontos em comum com os universos marginais de alguma literatura fantástica do que com a comoditização de costumes e conceitos domesticados que, hoje, infelizmente, passa por "boa" literatura.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Sobre a hexalogia de Peter Jackson


Vistos todos os filmes da hexalogia tolkiana de Peter Jackson confirma-se que ele é um visionário e um cineasta mais subtil do que aquilo que a canga de efeitos visuais desses filmes deixa observar.

O trabalho de adaptação efectuado por Jackson e seus co-argumentistas nesta série é extraordinário e, sinceramente, custa-me levar a sério algumas das críticas que têm sido feitas na imprensa especializada -- muitas delas fazem-me especular sobre se, com efeito, os críticos leram os livros de Tolkien que estão nas bases destas adaptações cinematográficas. Como já tive oportunidade de escrever em outro artigo, não sou, propriamente, um amante, diga-se deste modo, do universo tolkiano e nem sequer cresci com este imaginário; condições que, não obstante, estão longe de não me deixarem apreciar estes livros e filmes de modo absolutamente franco.

Uma leitura comparada do livro The Hobbit e dos três filmes com que Jackson o adaptou demonstram, sem margem para dúvida, que estes seguem-no de muito perto, tanto no conteúdo como na cronologia: o livro é pequeno e os filmes são grandes, mas, como já declarei anteriormente, contar algo em imagens é mais demorado que contar algo por palavras -- e é espantoso regressar ao livro e constatar que os filmes são totalmente fiéis à linha narrativa; excepções feitas a alguns desvios, inventados por razões de transposição do material da sua linguagem literária original para a cinematográfica e suas particulares exigências de forma e de expectativas. Simplesmente, criticar a trilogia cinematográfica de The Hobbit dizendo que é um exercício cínico de insuflar um livro pequeno para três filmes elefantinos é, no mínimo, simplista e, no máximo, um disparate: desafio os detentores desta opinião a reler (ou a ler...) o livro e a esboçar um modo de colocar todo o texto num único filme sem que o resultado não se apresente num feitio apressado ou, pior, elíptico. Esse juízo do "livro pequeno e dos filmes grandes" é, erroneamente, fortalecido pelo facto da trilogia de filmes que adaptou The Lord of the Rings coincidir em número com os livros, mas, lá está!, outra leitura atenta revela um caso oposto ao de The Hobbit: Jackson deixou muito texto de fora quando filmou os três filmes de The Lord of the Rings. Em The Hobbit, pelo contrário, como o livro é mais pequeno, foi capaz de seguir de perto praticamente tudo aquilo que está escrito.

No fundo, quem odeia Tolkien, pelas mais diferentes razões (ou porque acha que ele escrevia mal ou porque acha que ele era reaccionário ou porque acha que ele era misógino ou por-dar-cá-aquela-palha), irá sempre reclamar seja do que for que esteja relacionado com ele: filmes ou livros. Por outro lado, os fanáticos de Tolkien, que até lhe atribuem um papel que ele nunca teve ou, no mínimo, nunca procurou, também irão sempre reclamar, porque nada estará suficientemente bem adaptado para agradar-lhes. Porém, aqueles que, como eu, se encontram a meio-caminho, não sendo sicofantas nem elogiastas, encontrarão diversas razões para gostar bastante destes filmes e destes livros, descobrindo neles leituras interessantíssimas em sintonia total com as coordenadas histórico-sociais que lhes serviram de berço.

Os três filmes de The Hobbit e os três filmes de The Lord of the Rings são dos títulos mais importantes, entusiasmantes e essenciais das últimas décadas. E o facto de serem, desavergonhadamente, sobre anões, hobbits, orcs, dragões, elfos e feiticeiros enche-me de esperança, porque se um punhado de filmes de fantasia é capaz de transmitir algumas das mais belas imagens que já tivemos oportunidade de ver em cinema e alguns dos retratos mais pungentes da natureza humana alguma vez postos em película, então é possível que, afinal de contas, a nossa capacidade de imaginar não esteja de todo perdida. Pessoalmente, prefiro ver vezes sem conta um dragão eloquente como Smaug a discorrer sobre a avareza ou Gandalf a espadeirar contra o Balrog enquanto ambos se precipitam no abismo, do que um único episódio da sobrevalorizada série televisiva Game of Thrones, que, um pouco por todo o lado, é mais ou menos laureada como sendo "fantasia feita para a malta que pensa". Se rabos e mamas a dar com um pau é aquilo que a malta que pensa quer ver, então considero-me, sem nenhum complexo, estúpido para lá de qualquer hipótese de recuperação.

Obrigado, Jackson. Obrigado, Tolkien.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Antiwagner


Esta semana estreia a terceira parte da trilogia de filmes realizados por Peter Jackson que adapta cinematograficamente o livro The Hobbit, de J. R. R. Tolkien. Esta nova trilogia tem sido criticada, em principal, por ser, enfim, uma trilogia. Sem querer defender a escolha de adaptar The Hobbit em três filmes, cujas razões financeiras são, por si só, evidentes, gostava de esclarecer algo que somente quem trabalha profissionalmente em narrativa sequencial sabe: contar uma história com imagens gasta mais papel (ou película) do que contar a mesma história somente com palavras.

Sublinhando a negrito o facto de que a banda desenhada e o cinema são linguagens muito diferentes (a banda desenhada é uma linguagem literária -- o cinema, não), posso informar que contar uma determinada sequência de eventos em banda desenhada demora muito mais tempo. Se for adaptado a banda desenhada, aquilo que pode ser transmitido em uma ou duas frases de prosa terá, necessariamente, de ser sequenciado em muitas vinhetas e em muitas mais páginas. O que importa reter é a realidade de que as linguagens que contam histórias em imagens -- ou em palavras e imagens juntas -- serão sempre menos elípticas do que aquelas que somente contam histórias com palavras. Ora, as versões alongadas da trilogia cinematográfica The Lord of the Rings têm durações maiores do que aquelas que estrearam nos cinemas -- de facto, foram as primeiras versões desses filmes, posteriormente cortadas para terem durações que distribuidores, exibidores e público achassem mais simpáticas. Em suma: a trilogia cinematográfica The Lord of the Rings ainda é maior do que aquilo que a generalidade do público pensa. Sob esta óptica, a escolha de filmar The Hobbit em três partes não provoca tanto espavento quanto isso.

Não sou um apreciador, diga-se assim, dos livros de Tolkien, mas estou longe de desgostar deles: simplesmente, não cresci com esse imaginário. As minhas referências literárias são outras e isso, no fundo, faz diferença; não obstante o facto de encontrar muitas qualidades nesses livros. Às vezes, fico estupefacto com certas críticas que lhes são feitas, quando, ao mesmo tempo, outros títulos mais ou menos similares -- mas vergonhosamente menores e piores -- são laureados como sendo obras de maior valimento (alguns até já adaptados para imagens em movimento). Apesar de tudo, penso que as obras de Tolkien estão em desarmonia com o compasso deste tempo demasiado cínico e inculto -- demasiado cínico e inculto, convém bisar para bater certo -- para compreender-se determinados tropos tolkianos, que se relacionam com códigos comportamentais cristalizados num mundo que foi menos veloz e menos complexo que o nosso. No entanto, esse mundo foi tão perigoso quanto aquele em que nos encontramos e, por essa via, Tolkien, pese ter envelhecido mal, não perdeu nenhuma pertinência. É por essa razão que a maior parte da fantasia contemporânea é formada por imitações reles, e formuladas lavradeiramente de modo consciente, do edifício que Tolkien deixou. É verdade que não existe nenhuma grande narrativa de pendor fantástico que possa reclamar este período -- o nosso -- como seu. Acrescente-se a isso que o caso de The Lord of the Rings foi, vale a pena lembrar, fortuito: começou por ser uma sequela despreocupada para The Hobbit (dividida tectiformemente por opção editorial); todavia, por força do fantasma do seu tempo, Tolkien foi transformando-a num testamento antiwagneriano, cujos contornos alegóricos por ele rejeitados são, ainda assim, evidentes. No âmago, The Lord of the Rings é Wagner para democráticos: uma história de perfeito antiautoritarismo contada do modo mais absolutista possível -- o título da terceira parte intitula-se The Return of the King e não The Return of the President, afinal de contas.

Sabe-se quais os efeitos que a primeira trilogia da saga Star Wars operou na cultura popular contemporânea, mas ainda será prematuro predizer quais os operados pelos seis filmes tolkianos de Peter Jackson, os únicos que, presentemente, conseguem rivalizar em alcance e impacto prolongado para além da recepção inicial com os três filmes originais idealizados por George Lucas. Quer goste-se ou não de certos títulos literários ou cinematográficos, as consequências provocadas pela sua exposição às massas é um importante fenómeno cultural que não pode ser ignorado. A sociedade também é assim formatada e até remodelada. Logo, arrisco com reservas que os filmes de Jackson irão influenciar sintomas interessantes de se observar: a sua Terra Média é uma sociedade altamente estratificada, é certo, mas na qual, surpreendentemente, nunca se fala em dinheiro e ele não têm importância nenhuma para o modo como os indivíduos se relacionam uns com os outros; na qual não existe religião de espécie alguma e ninguém parece preocupado sequer com ela; e na qual, sem dúvida, há liberdade individual e de expressão.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Uma simetria bela

 
Na passada terça-feira, dia 2 de Dezembro, celebrou-se os duzentos anos do aniversário da morte de Donatien Alphonse François, Conde e Marquês de Sade, indivíduo cuja vida e obra cunharam, posteriormente, a palavra sadismo. Assim, em jeito de contributo celebratório, recupero um ensaio que escrevi há uns tempos sobre o filme Salò, o le 120 Giornate di Sodoma, realizado em 1975 por Pier Paolo Pasolini. Confesso, em abono da honestidade, que o imaginário burlesco e libertino (no seu significado contemporâneo) do Marquês de Sade, com efeito, não me fascina particularmente, mas este filme de Pasolini é, sem dúvida, um dos meus preferidos -- e um que revejo diversas vezes. Hoje, Salò mantém o poder de chocar; o que é extraordinário, face aos excessos actuais. Salò é, para mim, o snuff movie quintessencial: ou, traduzindo para linguagem mais acessível, um snuff movie para intelectuais. Revejam-no -- ou vejam-no pela primeira vez -- nesta efeméride da morte de Sade, lembrando que para o ano que vem, no dia 2 de Novembro, será o quadragésimo aniversário da morte de Pasolini, assassinado em circunstâncias que ainda aguardam clarificação. Os dias 2 de Novembro e Dezembro estão, neste feitio, reservados a dois criadores, malditos nos seus tempos e (um pouco menos) malditos neste momento. Nisto há simetria e onde há simetria há beleza.


A Burocratização do Mal

«O horror inventado pode ser avassalador», escreveu Susan Sontag em Regarding the Pain of Others. Salò, o le 120 Giornate di Sodoma, filme realizado por Pier Paolo Pasolini, é uma obra dessa estirpe.

A natureza da arte é criar beleza; e o cinema, como a fotografia, fá-lo de um modo descomplexado, inclusive quando a matéria apresentada prima por um insustentável grau de violência (Witkin, Peckimpah, Verhoeven). Quer se trate de instantâneos capturados no campo de batalha ou cenas gravadas numa cela escura de uma instituição punitiva existe sempre uma composição vestigial mecanizada pelo fotógrafo ou pelo cineasta, uma certa direcção artística. Mas em Salò não existe nenhuma beleza; no mínimo, beleza envernizada. As imagens do filme são baças e estáticas. Sobretudo não indicam um juízo de valor e isso é confuso o suficiente, pois essa nudez quasidocumental faz do espectador um cúmplice.
Num pequeno documentário que integra os extras da edição em DVD da Costa do Castelo Filmes, a realizadora de Romance, Catherine Breilat, diz que Salò é uma obra cinematográfica que oferece uma experiência impossível de ser alcançada ou ultrapassada pela leitura. Sinto-me inclinado a concordar, pois considero que a imaginação individual é, por vezes, demasiado pobre em experiências alarmantes para fabricar imagens que consigam evocar sentimentos semelhantes àqueles que assolam o espírito e o corpo diante de obras como Salò. Não obstante, discordo, em igual medida, de Breilat, porque o filme de Pasolini é, na sua máxima espessura, uma obra literária.

O realizador da Trilogia da Vida é, acima de tudo, um escritor e os filmes que nos deixou, mais que imagens sobre enredos, são contos ilustrados por imagens animadas. Esta desventura que nos conta a história de quatro italianos, pertencentes à elite fascista, que decidem acabar os seus dias numa propriedade isolada de modo a dedicarem-se a ininterruptos exercícios de crueldade é toda contada em pequenos episódios, seja pelas prostitutas incumbidas de abrir as sessões orgiásticas com relatos titilantes ou por farrapos que parecem ter caído de um caderno de apontamentos, como são exemplo os diálogos delirantes entre os velhos pederastas. É uma espécie de A Grande Farra às avessas.
Acredito que as alacridades perpetradas pelos carcereiros são comentários aos contos das prostitutas: a personagem interpretada por Umberto Paolo Quintavalle, ele próprio um escritor sem experiência de representação, convidado por Pasolini em virtude da sua compleição doentia, interrompe o relato da primeira prostituta e exige que ela seja pródiga em pormenores. Só dessa forma, explica, pode ele, e os colegas, retirar o combustível necessário às diabruras.
«É aceite entre os verdadeiros libertinos que as sensações comunicadas pelo ouvido são as mais vivas.»(1) 
O conto de prostíbulo é a primeira obra e a sevícia imaginada em seguimento é, dessa forma, o comentário o segundo texto. O homem que corrompe o corpo do adolescente que escolheu para vítima é, apenas, um crítico, um teórico que intenta complementar o opúsculo original e explorar as possibilidades gramaticais que este deixou em aberto.
Acentuei gramaticais e não semânticas, pois as brincadeiras ofensivas não visam a pessoalidade da vítima, nem a intimidade que poderia ter-se desenvolvido entre ela e o carrasco. A violência dirige-se ao corpo; e ao corpo enquanto aparelho composto por peças (mãos, boca, órgãos genitais) que podem ser substituídas por outras se manifestarem defeito. Um bom exemplo dessa lógica industrialista é uma cena iniciática na qual um dos fascistas recusa uma rapariga durante uma mostra, porque lhe descobre um dente cariado. Não existe qualquer desejo em Salò e nenhum ódio. Existe burocracia.

  
Uma vontade de parar o tempo histórico exterior aos muros da propriedade tornada campo de concentração e que anuncia a capitulação do fascismo que protege a República de Salò criada por Mussolini. O que os quatro fascistas tentam fazer é cristalizar o fluxo; ou melhor, fazê-lo circular como o tempo vivido pelas sociedades primitivas. Justifica-se, assim, a escolha do calendário dantesco (os Círculos das Manias, da Merda e do Sangue) que orienta os dias deles de volta ao primeiro instante – à inauguração: a esse momento recheado de novas possibilidades e novos corpos prontos a ser abraçados. Os fascistas de Salò não temem o tédio, pois sabem que tudo irá recomeçar: o tempo é o seu palimpsesto. 
«Belo e certo céu, vê-me a ser diferente! Após tanto orgulho, tanto e estranho ócio, carregado embora de estranhos poderes, faço a minha entrega ao espaço brilhante, sobre o lar dos mortos corre a minha sombra (…)»(2)
O Mal que respira em Salò e argumentar que conceitos de Bem e de Mal não se aplicam a este filme é falacioso é um terror despersonalizado; no sentido da não-encarnação. É um ectoplasma indistinto que voga sobre os indivíduos, moldando-lhes o comportamento, como o clima. É o mesmo tipo de mal que encontro nos aparelhos punitivos das histórias de Kafka e nas figuras intersticiais dos Ringwraiths de The Lord of the Rings de Tolkien: uma presença que mais que testemunhada é sentida.
A burocratização do mal, epígona da metade do século XX, não é fruto da hierarquia que se instaura no interior da propriedade, e que rege tanto o escritório como o excretório, mas, possivelmente, contingência de um fenómeno mais antigo: o advento do Iluminismo e a cessação das metanarrativas (mitos) de ordem religiosa. Com efeito, a imagem analógica do campo de concentração endémico do período da Segunda Grande Guerra é o Inferno. 
«Tem-se falado muito da solidão e da desorientação do homem desde a época em que o Paraíso deixou de ser objecto de uma crença activa. Conhecemos o vazio neutro dos céus e o seu terror. Mas talvez a perda do Inferno tenha sido mais devastadora ainda. Talvez a transformação do Inferno em pura metáfora tenha deixado uma lacuna formidável nas coordenadas do reconhecimento espacial e psicológico do espírito do Ocidente. A ausência dos condenados familiares escavou um vórtice que o Estado totalitário contemporâneo terá vindo preencher. Não temos Paraíso nem Inferno é ficarmos intoleravelmente despojados e sós num mundo sem espessura. Dos dois reinos perdidos, verificou-se que era o Inferno o mais fácil de recriar. (As suas descrições tinham desde sempre sido mais precisas.)»(3) 
A casa de Salò é um Inferno miniaturizado e as quatro personagens que a governam são embaixadores dos poderes institucionais: temos um juiz, um bispo, um duque e um político. Todos eles casados com as filhas uns dos outros, como que para sublinhar o pacto – a consanguinidade – entre os departamentos. A fenomenologia da hierarquia é a dominância, claro, mas mais que o simples jugo dos indivíduos, sob graus de exigências, é a domesticação do desconhecido. Numa hierarquia cada um tem o seu lugar cativo e as relações entre constituintes cumprem-se pela correspondência. Ora, o Homem hierarquizou o Inferno em círculos, em diversos níveis de torturas para os pecados mais exóticos, regidos por castas demoníacas de diferentes importâncias para o conhecer: para negociar com o Inominável.
O Diabo que atende o sacrifício do nobre é superior ao Familiar que auxilia a bruxa e, assim, cada qual controla o seu medo do desconhecido com um sistema de correspondências que não assusta ninguém, pois reproduz o modelo feudal terreno. A perda de todo esse sistema deixou, com toda a certeza, cicatrizes profundas no nosso tecido cultural. A transcrição de George Steiner aponta um efeito dessa queda, mas haverá outros.

Baseado no livro homónimo escrito pelo Marquês de Sade, Salò suplanta esse trabalho literário e apresenta-se como um objecto mais lúcido: o humor do filme é sempre acidental, inversamente ao humor de Sade que é propositado e procura ser constante. Pasolini cita Pierre Klossowsky, irmão de Balthus Klossowsky, e o seu Sade, Mon Prochain (título que evoca S. Bento Labre que comia as lombrigas expulsas nas próprias fezes), Roland Barthes e Sade, Fourier, Loyola, entre outros autores. Curiosamente, olvidou, intencionalmente ou não, o ensaio de Bataille em La Littérature et le Mal. O enredo de Salò pode ser entendido como uma sátira (grotesca) à erotização da relação que se estabelece entre professor e aluno. Como se os assassinos procurassem discípulos dignos entre as vítimas e as torturas fossem uma correspondência desproporcional com os ritos de passagem arquetípicos que os neófitos precisam cumprir para ganhar a confiança dos Mestres e garantir o treino intelectual ou físico. A ir por esse caminho, também ele legítimo, encontro nesta transcrição de Yukio Mishima o exemplo perfeito dessa premissa: 
«Ele é o homem mais livre do mundo... Ele acumula o Mal e ergue-se sobre ele. Se quisesse, poderia tocar a Eternidade com as pontas dos dedos levantados. Ele que fez santidade da imundice.»(4) 
Os celerados de Salò afundam-se na bebida e em acesas discussões filosóficas sobre a natureza do Mal. É preciso não esquecer que são eles a elite do seu país: aqueles que lêem e têm acesso à cultura estrangeira, alvo da censura imposta pelo regime. Assistimos à aniquilação da civilidade do Homem de Cultura, pois ele não previne a barbárie e acaba, enfim, por se perder em prejuízo de rituais sem sentido que têm como objectivo iluminar o seu espírito sobre um conhecimento mais elevado, mais transcendental. Sob a égide de que nada deve ser proibido se for excessivo, os fascistas de Salò almejam a ascese, mas o próprio movimento circular em que estão imersos regurgita-os sempre à ignorância. O Homem Clássico foi, em certa medida, um felizardo, pois nunca travou conhecimento com a face mais desumana do seu descendente.
Salò pertence a uma escola de cinema que se extinguiu. O casting de Pasolini é correctíssimo: as composições dos quatro fascistas são verdadeiramente repulsivas. Neste filme tudo é feio – até atonal.
No cinema, o texto literário é, cada vez mais, somente uma legenda para a imagem projectada. Em Salò as imagens ferem, é certo, mas quem deixa marcas é a palavra. Mandatório. Nem que seja visto só uma vez.


1) Marquês de Sade, Les 120 journées de Sodome, ou l'École du libertinage.
2) Paul Valéry, Le cimetière marin.
3) George Steiner, In Bluebeard's Castle: Some Notes Towards the Redefinition of Culture.
4) Yukio Mishima, Sado Kōshaku Fujin.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sadomasoquismos novos e velhos

 
Ao abrigo da temática tortural, iniciada com a publicação anterior, abro um pequeno intermezzo tragicómico para comentar o nádir em que, mais uma vez, se escava a cultura popular, qual escaravelho coprófago, em busca de húmus ainda mais fétido; desta feita, com a estreia anunciada para breve (Fevereiro de 2015) do filme sadomasoquista 50 Shades of Grey, adaptação cinematográfica do pasquim pseudoporno cozinhado sem gosto e sem requinte pela maître de cuisine inglesa Erika Leonard James: originalmente uma receita que consistia numa fanfiction da tetralogia Twilight de Stephenie Meyer. O trailer já disponibilizado é uma explosão de cabotinice como há muito não se via, pelo simples facto de se querer levar totalmente a sério. O filme erótico será sempre, por natureza, um produto saloio: o género pornográfico é mais honesto e, às vezes, um barro esteticamente mais interessante para se moldar (as experiências cinematográficas de Catherine Breillat, Lars Von Trier, entre outros, vêm à memória), embora também se esgote em si mesmo nas suas evidentes limitações. No entanto, aquilo que provoca maior estupefacção em objectos da estirpe de 50 Shades of Grey é um certo discurso invisível que transmitem, segundo o qual vêm quebrar com pompa e circunstância todos os tabus erguidos diante da sexualidade por uma sociedade bafienta e timorata. Apresentam-se como campeões da liberdade (e da libertinagem). Ora, isto não podia estar mais longe da verdade: filmes e livros como 50 Shades of Grey não só se inserem na esteira de uma longa tradição de obras populares pornográficas, como, ainda por cima, perdem na comparação com estas no que concerne à malandrice e à perversidade.

Nem sequer vale a pena ir buscar os exemplos mais conhecidos - e mais escabrosos. Recupero umas transcrições de um curioso opúsculo que, infelizmente ou felizmente, tem andado um bocado esquecido, autorado em 1799 pelo frade oratoriano Teodoro de Almeida e intitulado Elogio da Ilustríssima e Excelentíssima Senhora D. Ana Xavier de Assis Mascarenhas, Baronesa de Alvito e Condessa de Oriola. Esta narrativa conta como a referida senhora «ocultava ao seu ilustre esposo as penitências que ela fazia» e que consistiam em «tomar disciplina na companhia de umas devotas mulheres», em usar «frequentemente de cilícios de ferro e nos seus tenros e ainda bem delicados membros os apertava com estranha crueldade». Mas há mais: «havendo de fazer uma jornada a cavalo levava o cilício cingido na cintura: e usava dele nas circunstâncias em que esta penitência era mais penosa...» [leia-se, quando estava grávida]. A luxúria masoquista da baronesa-condessa não ficava por aqui: «quando se lhe descobria e tirava o instrumento das frequentes disciplinas, inventava outras das quais ninguém suspeitou o ministério para que se deputavam, tomando com eles novenas de disciplinas de sangue». Embriagado de embevecimento, Teodoro de Almeida expõe ainda que a baronesa-condessa «usava de uma pequena tenaz de ferro, que com os dentes agudos prende onde a largam por causa de uma mola, que continuamente força» e ainda que havia um outro instrumento do qual ela «se valia com muita frequência, buscando de propósito partes onde a sensação fosse mais delicada». A nossa baronesa-condessa setecentista faz engolir em seco as personagens de
50 Shades of Grey, com a vantagem acrescida que, na sua situação, a figura de poder é ela: sozinha ou entre as tais «devotas mulheres». Ou seja: o relato do oratoriano Teodoro de Almeida consegue ser mais feminista e subversivo que as fantasias ingénuas com que sonham as Anastasias Steeles contemporâneas, desejosas de encontrar uns Christians Greys que lhes abram as portas das suas câmaras secretas das dores prazerosas (basta ver o trailer do filme para entender o que isto é).

Os únicos tabus que filmes e livros como
50 Shades of Grey vêm quebrar são os da ignorância, quando alguém (como eu fiz agora) olha para o passado e diz nihil novi ub sole.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

As serpentes também vêm connosco


Noé, de Darren Aronofsky, é capaz de ser um filme visionário. É composto por espantosos elementos visuais, cujos modelos e modos de plasmar na tela já vimos em outros filmes realizados por cineastas de culto (Peter Jackson e George Miller, por exemplo), mas é o modo como esses elementos se conjugam que faz de Noé um filme intrigante. Não é um filme bíblico, no sentido em que o são Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille, A Bíblia de John Huston ou até A Paixão de Cristo de Mel Gibson, mas as maiores derivações ao cânone nem sequer são as sequências que o público poderia achar (e achará) mais fantasistas, como a presença dos Vigilantes, retirados literalmente do Livro do Génesis e dos textos apócrifos judaico-cristãos, como o Livro de Enoch (pai de Matusalém, avô de Noé), entre outros: é a dinâmica emocional entre Noé e a sua família, inclusive a sua emergente dúvida sobre se valerá a pena conservar a espécie humana no mundo lavado de malevolência, algo que está ausente da história original, embora o modo como se apresente retenha uma autenticidade "bíblica" enorme - quase que poderia estar escrito. De qualquer das formas, a história de Noé é um dos episódios mais heterodoxos da Bíblia, tendo sido costurado a partir de várias histórias diferentes sobre dilúvios e redenção, imaginadas pelas diversas culturas que povoaram o Próximo Oriente. É uma história que transcende o bioma judaico-cristão.

O filme de Aronofsky é ambíguo sobre o espaço e o tempo em que a narrativa ocorre: Noé tanto pode ser interpretado como tendo lugar nos tempos veterotestamentários, como num futuro muito distante ou até em outra dimensão. Um detalhe que provocou a minha imaginação foi a presença conspícua de estrelas brilhantes no céu diurno: servem para reforçar a ideia de que Noé se passa num outro mundo ou, simplesmente, é uma forma de representar o céu mais límpido dos nossos antepassados pré-revolução industrial? Seja como for, o efeito é de grande beleza.

A primeira metade do filme é mais bem conseguida que a segunda e este contém mensagens (se forem mensagens) com as quais eu discordo totalmente: leia-se, uma quasicolagem ao ambientalismo extremo que, quando advogado por figuras sinistras e psicologicamente perturbadas como Les U. Knight e Petti Linkola, se transforma em algo que pouco se relaciona, de facto, com o ambientalismo e tem tudo a ver com o anti-humanismo. No entanto, o filme não vai tão longe e, no final, quando a survivor's guilt de Noé começa a dissipar-se, ele compreende o valor da vida humana, que foi a vida que, afinal de contas, foi capaz de salvar todas as outras.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Manda-chuva



A maioria dos filmes de super-heróis é péssima, mas, raras vezes, lá estreia um ou outro que consegue ter algo de interessante para mostrar (falo em mostrar, porque, a esta altura, já dou de barato o contar, para as fracas expectativas não serem ainda mais arrombadas). O único filme de super-heróis que, de facto, me surpreendeu nos últimos tempos foi Homem de Ferro 3: sim, a terceira parte do franchise desta personagem é um filme bastante interessante, que consegue equilibrar o aparato espectacular dos seus efeitos visuais com um enredo inteligente e, ao mesmo tempo, com muita piada. Arrisco a hipótese de Homem de Ferro 3 ser uma espécie de acidente de percurso numa cascata de produtos menores de entretenimento, mérito de ter Shane Black ao leme, um dos mais irreverentes argumentistas de filmes de acção que já apareceram em Hollywood (Arma Mortífera, A Fúria do Último Escuteiro, O Último Grande Herói, Kiss Kiss Bang Bang), e, ainda, de ter como protagonista Ben Kingsley como o vilão Mandarim, numa composição estupenda.

Tudo isto para informar que a Marvel apresentou recentemente uma curta-metragem com o Mandarim, disponível apenas nas versões para download e em Blu-Ray do filme Thor: O Mundo das Trevas. Esse minifilme, intitulado All Hail the King, convida-nos a acompanhar o dia-a-dia do Mandarim, trancado a sete-chaves na cadeia, e a perceber as consequências de uma estranha entrevista que lhe querem fazer para um programa de televisão. Sem desvendar o grande segredo da personagem (revelado ao final de Homem de Ferro 3), deixo-vos com a curta-metragem: consiste numa versão preparada para evitar problemas de copyright, mas pode entender-se perfeitamente o conteúdo. Fãs do Mandarim, este é o filme que esperavam: qual será, afinal de contas, o mistério que esta figura encoberta? 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Um encontro significante


Saving Mr. Banks, de John Lee Hancock (argumentista de A Perfect World, de Clint Eastwood - filme que a revista Cahiers du Cinéma elegeu como o melhor de 1993 - e argumentista e realizador de The Blind Side), é uma ficção sobre como a escritora Pamela Lyndon Travers (pseudónimo de Helen Lyndon Goff) e o realizador e produtor de cinema de animação Walt Disney colaboraram na adaptação cinematográfica das histórias de Mary Poppins.

Enquanto escritor senti emoções ambíguas em relação a este filme. Tenho a maior empatia pelo retrato de P. L. Travers, interpretada por Emma Thompson, e pela sua busca - às vezes irracional - para que o filme sobre Mary Poppins seja fiel à sua visão autoral, mas, de igual modo, tenho a maior empatia por Disney, interpretado por Tom Hanks, um visionário que devotou a vida a produzir alguma da melhor animação jamais feita e que, neste caso, está genuinamente interessado em criar um filme memorável. O facto é que Mary Poppins (realizado por Robert Stevenson e estreado em 1964) é espantoso e um triunfo da imaginação: poderá não ser um decalque fidedigno do mundo criado por P. L. Travers, mas não é por isso que deixa de ser maravilhoso. Os livros de Travers são fortemente influenciados por ideias esotéricas, em principal as de George Gurdjieff, que ela conheceu e admirava (algo de que Saving Mr. Banks apenas dá um apontamento muito passageiro), logo é possível que grande parte dos sentimentos negativos que ela nutriu em relação ao filme tivessem florescido por essa via, pelo receio de que a mensagem espiritual dos seus textos se perdesse. Não se sabe de que forma Disney convenceu Travers a ceder os direitos para que a produção avançasse (embora existisse um pré-acordo assinado uns meses antes da visita da escritora aos Estados Unidos) e ainda não está esclarecida a relação de amor-ódio que ela manteve com o filme: aparentemente, rejeitou-o (na estreia terá falado com Disney, à saída da sala de cinema, exigindo-lhe que cortasse a sequência animada, entre outros pormenores), mas foi vê-lo diversas vezes e acabou por concordar que, somente enquanto filme e não enquanto adaptação dos seus livros, era um trabalho bem feito.

Acho que Saving Mr. Banks deveria ser visto por escritores e cineastas, porque suscita algumas interrogações interessantes - e importantes - sobre matérias muito sérias, como integridade artística, visão autoral e como conceber uma digna adaptação cinematográfica de um livro. Saving Mr. Banks é um grande filme, realizado com muito coração. Não tem absolutamente nada de postiço, de cínico ou de oportunista: pelo contrário, é desarmante, franco e emocionante. Para mim, a cena que encerra tudo aquilo que há para dizer sobre ele é a seguinte: à chegada à estreia de Mary Poppins, o motorista de P. L. Travers (interpretado por Paul Giamatti) percebe o desconforto que a escritora sente naquele ambiente que lhe é tão estranho e diz-lhe que foi ela que tornou aquele acontecimento possível, que nada daquilo existiria sem ela; em seguida, ainda sozinha na passadeira vermelha, P. L. Travers é abordada pelo Rato Mickey (por um figurante vestido de Rato Mickey), que lhe oferece o braço e entra com ela no cinema. Ou seja: mais do que ser sobre o choque de personalidades entre Travers e Disney, o filme é, sobretudo, sobre o encontro das suas imaginações - nesse sentido, é particularmente simbólico que seja Mickey a entrar com Travers no cinema. E é tão bom sentir que também nós entramos com eles.
Não percam este filme: vejam enquanto ainda está em cartaz.

 

sábado, 12 de outubro de 2013

Gravitas


Acho que Gravidade, de Alfonso Cuarón, é um bom filme, mas não fui capaz de emocionar-me como esperava. Para começar, o argumento é quase inexistente e a maioria dos diálogos só existe para preencher o silêncio sepulgrave do cosmos: ainda no preâmbulo da provação que se seguirá, a personagem interpretada por George Clooney alerta a personagem interpretada por Sandra Bullock sobre a conveniência de estar-se sempre a falar, mesmo que não se diga nada de concreto, de modo a que a estação terrena da NASA dê pelas suas presenças. E, com efeito, a maioria dos diálogos surge somente como um farol que vai piscando no meio do breu, embora, na minha opinião, isso não seja o maior problema do filme, porque, desde o início, somos levados pela mão com inegável mestria por uma história de pura sobrevivência, na qual a própria sobrevivência, num ambiente ultra-hostil, é, sem decorações, o único móbil. Mas, nesse sentido, o filme deveria assumi-lo sem complexos: ou seja, a haecceitas de Gravidade é, sem dúvida, a luta pela vida travada pela cosmonauta corporizada por Bullock que, ultrapassando o velho tropo do "homem (ou da mulher) contra o mundo", surge como alguém que precisa de derrotar o universo. Escreveu Catão-o-Velho, «rem tene, verbas sequentur» («agarra o tema e as palavras seguir-se-ão»), mas, em específico, o tema da sobrevivência solitária não precisa de palavras. Talvez não sejam os exemplos ideais de comparação para este caso, mas filmes como Few of Us (1996) de Sharunas Bartas ou Mãe e Filho (1997) de Aleksandr Sokurov já demonstraram como o silêncio pode ser tão conducivo da contemplação como inquietante e aquilo que falta a Gravidade é, sobretudo, inquietação. No seu quasi-hibridismo entre o ficcional e o documental, o filme de Cuarón falha em inquietar o espectador, constantemente posto fora do filme por culpa dessa indecisão que rompe toda a cumplicidade, e, por ironia, o momento mais perturbador dos seus noventa minutos de duração passa-se na Terra.
A duração do filme é, de facto, outro problema: Gravidade precisava de mais espaço - e isto não é nenhum trocadilho. Porém, é possível que o público contemporâneo não esteja preparado para fôlegos "kubrickianos", porque aos primeiros minutos do "longo" plano de sequência do início dei por mim a ouvir murmúrios de impaciência de outros espectadores - a montagem frenética dos vídeos musicais que foi transposta para o cinema na segunda metade dos anos noventa do século passado formatou toda uma geração à velocidade vertiginosa do teledisco e do videojogo, obrigando muitos realizadores a caminhar cada vez mais nessa direcção. À luz disso, este esforço de Cuarón até é heróico, contextualizado no espectro do cinema norte-americano, produzido pelos grandes estúdios: será, provavelmente, o filme-contemplativo possível, hoje em dia... Aliás, Cuarón é um cineasta de grande calibre: falando em planos de sequência, recorde-se o exemplo notável de equilíbrio de tempo e de espaço, e muitíssimo bem interpretado por Clive Owen, que pode ser visto perto da conclusão de Os Filhos do Homem (2006). De igual modo, Bullock e Clooney (ambos capazes da pior canastrice) são exemplares na composição das personagens semi-unidimensionais que lhes são dadas, granjeando sem dificuldade a nossa empatia, ficando provada a qualidade de Cuarón como director de actores.
Feito com o rigor científico possível (contornando-o quando este poderia tornar-se um obstáculo à própria linguagem do cinema, porque, no espaço, aquilo que apelidamos de "senso comum" não existe e seguir a realidade resultaria num espectáculo bizarro para o espectador), suportado por interpretações desarmantes e filmado com muita arte, Gravidade é o filme que eu ansiava por ver há bastante tempo (sóbrio, maduro, inteligente), mas, ainda assim, é demasiado curto e circunspecto para que brilhe todo o potencial que encerra, o que é uma pena. No entanto, para quem achou que Avatar, de James Cameron, foi um fiasco de filme (eu acho que Avatar é péssimo), Gravidade será o colírio certo: eye candy de elevadíssima qualidade, embora servido com um inesperado sentido de discrição.
  

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Música para voar alto

Sempre considerei o Super-Homem como sendo uma personagem cheia de enorme potencial mítico, mas nunca a vi escrita ou representada de um modo que fosse ao encontro dessa possibilidade, ficando-se a maioria das bandas desenhadas e das adaptações cinematográficas ao nível da exploração, às vezes mais e às vezes menos, ingénua dos efeitos espectaculares dos super-poderes. Não entendo a sobrevalorização dos filmes realizados por Richard Donner e Richard Lester, em 1978 e 1980, respectivamente (fui ver o segundo ao cinema, quando estreou em 1981), que são puros exercícios caricaturais - bem sei que os tempos eram outros, mas, ainda assim, contêm elementos que já eram imperdoáveis no início dos anos 80 - além de que Margot Kidder interpreta uma péssima Lois Lane. (Quanto às terceira e quarta partes, nem vale a pena falar sobre elas.) Em seguida, o filme de Bryan Singer, de 2006, em vez de procurar um novo caminho, insiste em resgatar da arca circense alguns elementos campy já apalpados por Donner, embora os apresente com uma sofisticação que está ausente nos filmes de 1978 e 1980.

Na minha visão, o Super-Homem é uma personagem crística: em linhas gerais, é alguém que foi enviado para a Terra por uma civilização física e tecnologicamente mais avançada que a nossa, ao ponto de um indivíduo vulgar dessa sociedade ser como um deus quando comparado connosco; e, adoptado por um casal terrestre, é educado como uma criança comum até dar conta das suas origens e poderes. Cristo é uma manifestação carnal do divino que está - que quer - entender o que consiste, afinal de contas, ser-se humano. Mas se Cristo - sobrenatural - é uma personagem que almeja descobrir o que é o sofrimento e o que é a morte, condições ausentes na sua esfera de origem, o Super-Homem - orgânico - parece imune a tudo. O seu papel não é tornar-se um homem para compreender o que é ser-se humano: é inspirar os homens a tornarem-se, aos poucos, deuses. É, como Cristo, uma representação do arquetípico Deus-Sol.

Neste momento, ainda não sei se o novo filme sobre o Super-Homem, que estreia hoje, realizado por Zack Snyder, vai nessa direcção, mas seria interessante que fosse, em vez de investir na bonomia de Feira Popular; que, ao que parece, ainda provoca nostalgia a muita gente, no sentido em que as críticas negativas que o filme já teve são unânimes em desgostar dele porque, aparentemente, não tem humor, nem cenas românticas (no sentido mais elementar da palavra, presume-se). É a tal sobrevalorização dos protótipos donnerianos e lesterianos, que, no meu entender, é incompreensível.

Mas apesar de ainda não ter visto o filme, já ouvi a banda-sonora e é refrescante constatar que o tom da música é muito mais etéreo do que bombástico, o que me parece uma decisão adequadíssima, à luz do que escrevi acima. Assim, deixo duas ligações: uma para a banda-sonora integral e outra para um dos temas que mais me chamaram a atenção.




     

sexta-feira, 12 de abril de 2013

«A Melhor Oferta»


Estreou ontem A Melhor Oferta, de Giuseppe Tornatore, realizador de, entre outros filmes, Cinema Paraíso. Com Geoffrey Rush e Donald Sutherland, dois dos meus actores preferidos, que aqui, longe da pipoquice hollywoodiana em que pontualmente participam, compõem duas grandes personagens, plenas de intrigantes subtilezas, devedoras de teatro da melhor cepa. A Melhor Oferta é um grande filme, artístico e alegórico, cujo argumento me fez lembrar algumas inclinações temáticas dos escritores Jerome Charyn e Gerard Reve (mas sem a tónica homossexual deste). Não estamos, exactamente, no campo do chamado "realismo mágico", nem da simples alegoria, mas num mundo ficcional muito parecido com o nosso, embora permeável a elementos que, em outro contexto e apresentados com outro peso, se poderiam denominar como sendo pertencentes ao Fantástico. É, também, um filme que beneficiaria de um olhar mais gélido, mais negro, porque, com efeito, é desse território que estamos a falar. Tornatore é, ainda assim, e apesar da sua finura de esteta, capaz de criar-nos angústia: o seu filme é, pois, como um quadro tenebroso, pintado à moda clássica - impressiona pela riqueza de detalhe e pelo elevado grau de perfeição, mas não horripila, verdadeiramente. Um dos melhores filmes que poderão ver, nestes dias, em exibição - e, já, um dos melhores deste ano.

domingo, 11 de novembro de 2012

Entrevista com António de Macedo - 3ª Parte

Com a publicação da terceira parte da longa e pormenorizada entrevista que fiz ao cineasta e escritor António de Macedo cessa o intervalo um pouco mais prolongado do que o previsto desde a publicação da segunda parte da entrevista até este momento. Porém, creiam que valeu a pena esperar - até porque esta parte da conversa que mantive com Macedo adquire um cunho especialíssimo na conjuntura bem desgovernada que, presentemente, atravessamos: a coragem intelectual, artística e cívica de Macedo é uma lição.

Poderão ler (ou reler) as partes anteriores nesta ligação e aqui. Em breve, publicarei a quarta parte desta entrevista que, atrevo-me a dizer, já é um documento imprescindível para os numerosos admiradores da obra de António de Macedo. A ler, portanto, com muita concentração.


(continuação da 2ª parte)

David Soares – Diga-me, na sua óptica, como é ser-se um homem de cultura, sensível, inteligente, à frente do seu tempo, numa conjuntura espácio-temporal absolutamente sufocante e cheia de indivíduos que… olhe, que não percebem nada. Como é que se consegue lutar contra isto?

António de Macedo – Não se consegue, digo-lhe já, honestamente. Não se consegue. De qualquer maneira, a sensação que eu tenho, é a de que nasci no país errado, no planeta errado… no tempo errado, provavelmente… E não digo isto para me vangloriar, não é que eu seja melhor do que os outros: é uma questão de sensibilidade, de maneira de ser. Cada macaco no seu galho… e, se calhar, eu fiquei pendurado no galho errado. Não é que eu seja pior macaco ou melhor macaco do que os outros. Isso não me impede de ir fazendo, porque penso que há outras pessoas que estão numa situação semelhante. É isso que noto, através das reacções de contactos e amizades e tudo isso. O simples facto de estarmos aqui a conversar prova que estamos no mesmo galho, o que é porreiro. Embora possamos ter opiniões diferentes e até divergentes nisto ou naquilo, entendemo-nos porque temos um ideal que nos é comum, o elevado ideal que nos põe no mesmo galho! E não é assim um caso tão raro como isso, obviamente. Embora não seja frequente. Em dez milhões de portugueses, provavelmente, pessoas como nós serão poucas. Mas existem! Se calhar, só por causa dessas, vale a pena continuar a puxar a carroça. A carroça dos dez milhões… Vamos continuando a puxar a carroça, até porque não temos outra coisa a fazer. Isso é que é dramático. Estamos aqui, é aqui que temos de trabalhar, é aqui que temos de construir e que temos de criar a nossa própria realidade que é, no fundo, aquela realidade fantástica – ou não… A tal realidade dos interstícios entre as assimptotas… E se isso ajudar a melhorar, nem que seja um bocadinho, o planeta inteiro… por que não?... Já terá valido a pena termos nascido no sítio em que nascemos e na época em que nascemos. É a única consolação que eu tenho. Vamos continuando.

DS – O certo é que todas as épocas, enfim… Esta época tem, de facto, coisas muito hostis à inteligência e à sensibilidade, mas o certo é que todas as épocas são más. Não existiram épocas ideais.

AdM – Não existiram. Sempre houve gente a queixar-se.

DS – Mas parece que há épocas que vão mais ao encontro de certas ideias e de certas formas de fazer. Vivemos numa época um bocadinho hostil…Há pouco falávamos do som… Eu acho que, hoje em dia, vivemos numa época muito emocional…As pessoas valorizam muito a emoção, mas a emoção fácil…

AdM – Exactamente.

DS – …o sentimentalismo de pechisbeque… As pessoas valorizam muito isso e eu acho que é uma consequência de… Aviso que esta é uma ideia completamente heterodoxa… É uma consequência de, desde umas décadas para agora, vivermos numa sociedade que tem, lá está!, que tem música de fundo por todo o lado.

AdM – É verdade. Isso é verdade.

DS – O António sabe isto muito bem. Num filme, por exemplo, vemos uma cena dramática… Se for uma cena sem música, podemos sentir menor ou maior tristeza, mas se a cena tiver uma banda-sonora adequada ficamos derrotados.

AdM – É a experiência, que eu costumo dizer, de se ver um filme de terror sem som: não mete medo a ninguém.

DS – Hoje em dia, temos banda-sonora em todo o lado: nos elevadores, nos centros comerciais, nos autocarros… Isto condiciona as pessoas a não pensar – e a sentir.

AdM – Exactamente. E a não ver: também condiciona a não ver.

DS – E obras como a do António pedem pensamento. Pedem reflexão da parte de quem as vê…

AdM – E de quem as ouve.

DS – E de quem as ouve. Acho que, cada vez mais, vivemos numa época pouco propícia a que se façam este tipo de obras, que pedem pensamento. O cinema, hoje em dia, é uma coisa muito diferente, por exemplo.

AdM – É muito diferente. Até pelas tecnologias. Hoje em dia existem tecnologias que tomara eu que tivessem existido no meu tempo. Eu tinha ideias, recordo de ter tido ideias para fazer certas coisas nos meus filmes e que não consegui, porque não havia tecnologia e, hoje, quando vejo certas coisas que os programas de computador fazem, penso “se eu já tivesse isto no meu tempo, o que eu teria feito…” Quer dizer… Eram ideias que me vinham à cabeça, coisas mirabolantes, mas a que eu não podia dar concretização. O cinema hoje é muito diferente.

DS – Há cinema esotérico, hoje em dia?

AdM – É uma boa pergunta.

DS – Por exemplo, costuma-se dizer que o David Lynch faz uns filmes meio-esotéricos. Eu acho que não, mas…

AdM – No caso da ficção científica, quem era esotérico, verdadeiramente, era o Philip K. Dick, que era um gnóstico. Assumido. A gente lê o «VALIS» e outros livros dele… Por exemplo, «A Transmigração de Timothy Archer» é um romance profundamente esotérico e, de modo geral, todos os romances dele são altamente esotéricos. Quando nós vemos os filmes feitos a partir desses romances percebemos que as histórias perderam o esoterismo todo. Os filmes sobrevalorizam o aspecto espectacular. Por isso é que a herdeira dele proibiu, a partir de uma certa altura, que os livros fossem adaptados para cinema: porque não estavam a reproduzir o verdadeiro espírito da obra do Philip K. Dick, isto é extremamente interessante. Depois, há um cinema esotérico estranho, que é o caso do «The Matrix», que é altamente esotérico, também.

DS – Além de ser muitíssimo derivativo. É sincrético.

AdM – Pois.

DS – Vai buscar umas coisas aqui, outras ali… E plagia altamente outras obras de ficção que passaram mais abaixo do radar. Mas quando penso nos filmes do António… Acho que o António era o cineasta perfeito para adaptar ao cinema o romance «A Voyage to Arcturus» do David Lindsay. É um fabuloso romance gnóstico, esotérico, apesar de ser uma ficção científica. O crítico de literatura que escreveu o «The Western Canon», o Harold Bloom, tentou armar-se em romancista com uma sequela para esse romance, intitulada «The Flight to Lucifer: A Gnostic Novel». É uma sequela não-oficial de «A Voyage to Arcturus».

AdM – Não conhecia esse livro.

DS«A Voyage to Arcturus» consiste numa história em que duas personagens vão, obviamente, para a estrela Arcturus… Viajam numa espécie de multiverso gnóstico-cabalístico, é muito interessante. E é verdadeiramente esotérico, não usa o esoterismo como uma pátina.

AdM – Ora aí está! Como disse, não conheço esse livro, mas pelo que me diz, isso está certo e faz muito sentido. Por outro lado, em termos de esoterismo… Não é uma coisa muito bem vista. Ou é usado num sentido banal, ou seja, paranormal… até há por aí uma quantidade de filmes e séries de televisão paranormais que nunca mais acabam e que, às duas por três, acabam por ser vagamente esotéricos, mas pela rama, porque só roçam o esoterismo, não são esotéricos no núcleo… Aliás, o verdadeiro esoterismo é indissoluvelmente iniciático, tem de estar ligado à superação de provas e à correlativa iniciação nos Mistérios. Não conheço, assim, nenhum filme cem por cento esotérico. Com os romances é diferente, ainda há alguns… do século XIX e do século XX… Os livros do Thomas Mann têm muito esoterismo, o «Doutor Fausto», por exemplo. «O Eleito», também dele, é um romance altamente esotérico… Tal como, ou mais ainda, o romance «Zanoni», de Bulwer-Lytton, ou os romances cabalístico-iniciáticos de Gustav Meyrink. E até do Bulgakov, que era comunista, temos o «Margarida e o Mestre», a maneira como tudo está composto no livro, a corte diabólica transposta para a modernidade, com as palhaçadas modernas… São romances que de uma forma mais ou menos explícita, ou mais ou menos implícita, incluem sempre uma proposta iniciática… Há, de facto, um certo esoterismo, talvez disfarçado, que anda por aí em algumas obras, mas, curiosamente, ele não é assumido e a crítica literária quando se refere a essas obras não refere o seu lado esotérico, refere outros. O lado fantástico, eventualmente, e o lado… Como é que eu hei-de dizer?... Levam essas fantasias como se fossem críticas a realidades que não estão bem.

DS – É a velha história de que o fantástico só é válido enquanto alegoria de situações sociais.

AdM – Para desmontar coisas que não estão bem e que, então, se levam para o lado do fantástico, de maneira a gozar com elas, para demonstrar que são um disparate. Agora, uma coisa esotérica pelo esoterismo… Ou se cai numas chachadas, como em alguns romances portugueses… Uma pessoa até começa a chorar, porque são de uma esoterice tão imediatista que acabam por ser só pirosos. Não são livros subtis. Quando a editora Hugin funcionava, por exemplo… eu era muito amigo deles… pediram-me para apresentar um romance esotérico de uma autora portuguesa. Fui ler o romance e ia morrendo de susto: era altamente esotérico, mas de um esoterismo bê-á-bá!… Parecia uma novelização daqueles manuais de ocultismo-de-quiosque que se vendem por aí a granel. Era muito mau. E eu pensei: “ninguém vai engolir isto, é uma vergonha completa…” Eu já não podia dizer não e tinha de apresentar o livro. Ora, como é que eu descalcei esta bota? Geralmente, quando se apresenta um livro de que a gente gosta, diz-se que o livro é bom, explica-se porquê e citam-se excertos. Quando a gente não gosta… Aliás, felizmente, foi a única vez que me aconteceu não gostar de um livro que apresentei… Então, como é que fiz? Do que é que eu me lembrei? O tema que a autora abordava era um tema esotérico e por acaso, como tema, até era interessante: então, comecei a falar sobre esse tema e sobre autores que já o tinham abordado e nunca referi o livro dela. Fiz a apresentação toda sem falar no livro apresentado, somente à volta do tema que a autora escolheu e sobre autores, este e aquele, que mais ou menos tinham falado do mesmo tema. Mas romances esotéricos não há muitos. Há é ensaios. Sobre o quinto-império, por exemplo. O Fernando Pessoa também andou nessas áreas e tem uma série de lucubrações sobre isso, algumas muito interessantes, mas quando se entra pela ficção, propriamente dita, seja na literatura ou no cinema… Cinema português esotérico, não conheço nenhum. Fantástico, sim, há umas coisas, não muitas, mas esotéricas, que me lembre, não conheço nenhumas. E mesmo no estrangeiro, no cinema estrangeiro, não me lembro de nada verdadeiramente esotérico, no sentido iniciático do termo, tirando, talvez, como disse, «The Matrix», apesar das reservas, bem observadas, que o David levantou, e, curiosamente, toda a proposta estrutural da série de filmes «Star Wars»…. Mas o facto de eu não me lembrar de outros não quer dizer nada, porque não conheço tudo. Se calhar até há muitas coisas interessantes. Como, aliás, agora o David me apresentou o autor da «A Voyage to Arcturus», que eu não conhecia. É um exemplo.

DS – Quando o António chegou à altura funesta de não conseguir filmar, pode dizer-se que continuou a explorar os seus temas na escrita ou ela já o acompanhava?

AdM – Já acompanhava.

DS – Mas, de certa forma, o que é que o António encontra na escrita que não encontra no cinema? Ou as mesmas linguagens conseguem servir o mesmo propósito? Conseguem transmitir a mesma mensagem?

AdM – Não. São veículos diferentes. Eu comecei pela escrita, como costumo dizer, quando tinha oito anos, nove anos de idade. Escrevia histórias aos quadradinhos. Portanto, a imagem e a escrita acompanhavam-se. Mais tarde, quando comecei a fazer cinema, a escrita acompanhou-me sempre. Eu sempre escrevi os meus próprios guiões. Nunca fiz um filme com um guião escrito por outra pessoa, como é muito corrente… Alguém escreve o guião e depois vem o realizador e filma-o… Isso nunca aconteceu comigo. Eu era escritor. Mesmo que as ideias de raiz não fossem minhas, como em alguns casos em que filmei adaptações, como o «Domingo à Tarde», que se baseia num romance, ou «A Promessa», que se inspira numa peça de teatro, eu sempre escrevi os guiões: para mim, escrever, sentir a plástica da escrita, a plástica da palavra, é muito importante. E eu transmiti isso para os guiões. Digamos que sempre fui romancista – ou ficcionista literário. A parte literária é muito importante para mim. A dimensão audiovisual do cinema era um certo tipo de extensão que ajudava a transmitir de outra maneira o que eu dizia em literatura. Em teatro dizem-se as coisas de uma maneira, numa certa forma de expressão, no cinema dizem-se de outra e em literatura em outra. Há certas coisas que digo literariamente que não consigo dizer em cinema. E inversamente: há coisas que faço e transmito em cinema que não consigo transmitir literariamente. São meios diferentes, artes diferentes, têm lógicas comunicacionais diferentes, e é por isso que certas adaptações de romances para cinema desagradam a muitas pessoas. Porque quando leram os romances visualizaram as coisas de uma maneira que não corresponde àquilo que vêem, depois, nos filmes… os actores não se parecem com as figuras que imaginaram, por exemplo… E, depois, não gostam dos filmes, que até podem ser muito bons, enquanto cinema. Trabalhar no cinema foi uma experiência muito importante para mim, porque me permitiu criar um tipo de formas de expressão, para transmitir determinadas coisas, que foram fascinantes de descobrir. Não consigo exprimir literariamente certos sentimentos que consigo colocar em filme com um actor, se ele for bom e eu souber dirigi-lo bem. O actor, com um simples piscar de olhos, uma expressão, uma contracção no rosto ou outro movimento, transmite sentimentos que dificilmente seriam descritos ou dificilmente ficariam tão bem num romance, ou então exigiriam páginas e páginas de descrição literária. O cinema teve essa importância, mas, ao mesmo tempo, fui sempre escrevendo: nunca deixei de escrever ficção. Não publicava, porque, fazendo cinema, tinha de viver dele. E muitas das coisas que filmei nem sequer foram coisas que me interessaram muito: era o chamado “cinema alimentar”, era um cinema que me permitia pagar a renda da casa e alimentar a família, documentários promocionais ou cinema publicitário…. Pronto, lá realizava, de vez em quando, uns filmes de longa-metragem que tinha interesse em fazer, mas nunca deixei de escrever. Contudo, nunca me preocupei em publicar. Tinha muita coisa escrita, novelas, contos, até um romance começado, mas não tinha tempo de procurar editor. Quando o cinema começou a abrandar… Porque não foi cortado de repente… o corte aconteceu a pouco e pouco. Foi, praticamente, desde que fiz «Os Abismos da Meia-Noite» que começou a haver uma relutância da parte dos júris do Instituto de Cinema em financiar aquele tipo de cinema “esquisito”. Aliás, com «Os Abismos da Meia-Noite» já tive dificuldade, porque o próprio Ministério da Cultura da altura… Imagine!, houve uma directora-geral que se meteu com o argumento do filme, contestando-o: “mas isto sai muito caro, estes cenários, esta fantasia toda”… E eu lá tive de argumentar com uma senhora, uma funcionária que eu nem sabia quem era – e já não estava no tempo da censura, que, nesse tempo, eu tinha mesmo de argumentar, senão os gajos cortavam tudo. Entre esse filme e «Os Emissários de Khalôm»«Os Abismos da Meia-Noite» estreou em 1984, mas é de dois anos antes, por aí, e «Os Emissários de Khalôm» é de 1987, por isso está a ver que têm cinco anos de diferença, cinco anos que passei sem filmar. Quer dizer, sem filmar, não, porque filmei que nem um desesperado, para sobreviver. Fiz programas para a televisão, documentários, fiz trinta-por-uma-linha, mas não fiz o cinema que eu queria. Depois, lá consegui fazer «Os Emissários de Khalôm», com muita dificuldade, porque o júri estava muito relutante. A seguir, se não me engano, fiz «A Maldição de Marialva», que foi uma encomenda da RTP, curiosamente. Tive sorte, porque não tive de passar pela aprovação de nenhum júri do Instituto de Cinema… Eu prefiro chamar-lhe Instituto de Cinema, genericamente, porque aquilo foi mudando de nome: era IPC, depois passou a ser IPACA, depois foi o ICAM, agora é o ICA… Eu chamo-lhe apenas Instituto de Cinema. O filme «A Maldição de Marialva» foi uma encomenda da RTP, feita no tempo em que o Fernando Lopes era director da programação da RTP2, se não me engano, quando o canal entrou num convénio com seis televisões europeias para se fazer uma série, a tal série «Sabbath», em que cada uma… a francesa, a italiana, a espanhola, a alemã… produzia um filme sobre um tema fantástico do seu próprio lendário tradicional, de referência. Depois, que faziam? Cada televisão oferecia uma cópia do seu filme às outras: ou seja, cada televisão produzia um único filme e recebia seis! É um esquema inteligente. Por acaso, é interessante. A RTP alinhou nisso e calhou-me «A Dama Pé-de-Cabra». Foi o João Palma Ferreira que escreveu uma espécie de sinopse que eu depois desenvolvi num guião, mais uma vez todo escrito por mim, diálogos e tudo, mas essa ideia básica, essa tal sinopse, foi do João Palma Ferreira. Mas o Instituto do Cinema não teve nada a ver com este filme, portanto não houve júri, foi uma escolha directa. Ou seja, quando a RTP teve essa ideia para essa encomenda perguntou-se “bom, então qual vai ser o tema português?” e o Fernando Lopes, que estava na direcção de programas e era muito amigo do João Palma Ferreira, como eu, veio dizer-me que ele tinha uma ideia, tinha uma sinopse para uma nova versão de «A Dama Pé-de-Cabra». Uma versão popular que o Palma Ferreira tinha ouvido na Beira Alta. Aliás, na zona de Linhares da Serra, de Trancoso, e da vila de Marialva, na Beira Alta, onde a gente filmou. Essa ideia foi aceite pelo produtor internacional, que estava a tomar conta desse projecto europeu, um espanhol chamado Antonio Cardenal, que até era um gajo porreiro. Contactei com ele muitas vezes, fomos a Madrid várias vezes por causa disto… Ora, ele perguntara “então quem é que vai escrever o guião e realizar o filme, da parte portuguesa?” e o Fernando Lopes respondera-lhe “aqui em Portugal só há um maluco capaz de fazer isto, que é o António de Macedo”. Foi assim que vieram ter comigo, perguntando-me se eu queria fazer um filme sobre aquele tema. Disse-lhes que sim. Já tinha, portanto, a sinopse… escrevi o guião, que foi aprovado internacionalmente pelo tal consórcio, e, pronto, fiz o filme, que ficou a chamar-se «A Maldição de Marialva». A seguir, fiz outro filme, «O Altar dos Holocaustos», que também foi uma encomenda para televisão, para a RTP, que é uma série de três filmes, mas, no fundo, todos somados, dão um filme só. É um tema fantástico, esotérico, passado na véspera de Natal, com todas as implicâncias místico-mágicas que isso tem… E, entretanto, eu continuava a concorrer todos os anos aos financiamentos do Instituto do Cinema. Entre 1987, com «Os Emissários de Khalôm», até 1989 ou 1990, com «A Maldição de Marialva»«O Altar dos Holocaustos» foi em 1992, por aí… Ou seja, todos esses anos fui concorrendo com vários projectos e fui, sempre, levando sopa – já com o argumento de que o meu cinema era um tipo de cinema que não interessava ao cinema português, que era muito esotérico, fantasioso de mais, não interessava a ninguém, etc. Mas, entretanto, como eu tinha recebido aquelas encomendas, «A Maldição de Marialva», «O Altar dos Holocaustos», mantive-me a trabalhar, incluso em publicidade audiovisual. Finalmente, houve um ano em que um dos guiões que eu apresentei, o «Chá Forte Com Limão», foi aprovado. Já tinha sido chumbado nos anos anteriores, mas naquele ano foi aprovado em virtude de uma circunstância inesperada e curiosamente divertida… O júri desse ano… O ano de 1992, se não me engano… era constituído, como de costume, por aqueles “intelectuais” que detestavam o tipo de cinema que eu fazia, mas estava lá um músico, o João Paes, que nessa altura trabalhava como compositor para os filmes do Manoel de Oliveira – ou seja, seria a última pessoa de quem eu poderia esperar que tivesse qualquer interesse nos meus filmes. Mas, é estranho, porque esse João Paes, que até compôs a música de, entre outros filmes, «Os Canibais», aquela cine-ópera do Oliveira, leu esse meu guião – que já tinha sido reprovado nos anos anteriores, mas, enfim, foi naquele ano que o João Paes foi jurado – e lutou sozinho contra os outros quatro ou cinco membros do júri para o impor, porque gostou muito do texto. Ele não me conhecia e eu só o conhecia de nome como sendo o músico das fitas do Oliveira. Ora, como ele se impôs de tal maneira, o que é que aconteceu? Como era o compositor do Senhor Manoel de Oliveira, os outros jurados não tiveram coragem de contrapor e agacharam-se. Assim, o «Chá Forte Com Limão» passou: porque o João Paes gostou do guião e, praticamente, impôs-se!… Quer dizer, ele não precisou de se impor, se calhar nem pensou nisso, mas como era compositor do Senhor Manoel de Oliveira, os outros membros do júri calaram-se e deixaram que o guião fosse aprovado. Eu fiz o filme, mas, a partir daí, já não houve nenhum “João Paes”. Não tive mais essa sorte.

DS – Foi uma angústia enorme.

AdM – Foi, em parte.

DS – Como se sentiu?

AdM – Senti-me irritado – ouça, e irritado de tal maneira que, desde essa altura, entre 1992 até ao ano 2000 ou 2001, estive numa guerra imparável, porque todos os anos concorria e todos os anos levava sopa. Em todos os variados projectos que apresentei. Um deles foi «O Pastor e o Magarefe», sobre o Frei Gil de Santarém, essa extraordinária figura do nosso lendário nacional (que existiu historicamente!), precursor e talvez inspirador do mito do Fausto e do seu pacto com o diabo.

DS – Que, depois, deu origem ao seu romance «As Furtivas Pegadas da Serpente».

AdM – Exactamente. Deu origem a esse romance. Isso aconteceu várias vezes: quando eu não conseguia fazer um filme, pegava no respectivo guião e transformava-os num romance. «A Sonata de Cristal» também é um exemplo desses: foi um guião que eu submeti, levando sopa dois ou três anos seguidos, e eu, depois, evidentemente, peguei nele e transformei-o num romance. O que aconteceu na década de noventa, e que, curiosamente, coincidiu em paralelo com a minha actividade de cineasta, é que uma colectânea de contos minha, «O Limite de Rudzky», que eu já tinha escrito anteriormente, ganhou uma espécie de menção honrosa num dos concursos de ficção científica da Editorial Caminho, ao qual concorri. Pensei: “olha, já agora, vou concorrer, para ver o que acontece”. Foi no ano em que o Luís Filipe Silva concorreu com «O Futuro à Janela». E foi assim que conheci o Belmiro Guimarães, que era director da colecção de fantástico e de ficção científica da Caminho. Eu não conhecia o Luís Filipe Silva, nem fazia ideia de quem era o Belmiro Guimarães – que me telefonou a dizer que eu não tinha ganho o prémio por uma unha negra, porque o júri ficara dividido entre dois textos, que, dos quarenta ou cinquenta que tinham sido recebidos naquele ano, eram os melhores. Os jurados ficaram divididos entre um trabalho e outro. Até que lá houve um desempate e optaram pelo livro do Luís, o que eu achei muito bem, porque o livro dele era muito bom e ele era um jovem, enquanto eu já tinha feito cinema, já tinha feito muita coisa. O Luís estava a começar, por isso ainda bem que o prémio foi para ele, mas como o júri também achou que o meu texto era bom… bom, enfim, quer dizer, pelo menos do ponto de vista deles… então decidiram recomendá-lo para publicação. Foi assim que o livro foi publicado, foi recomendado pelo júri. Coincidiu mais ou menos com a preparação do «Chá Forte Com Limão», que foi aprovado graças ao João Paes. Eu fiquei muito contente, porque o meu livro tinha sido editado. Assim, podia trabalhar em dois veículos: por um lado o cinema, por outro a literatura e em cada um deles eu podia transmitir coisas próprias de cada um; ou seja, complementavam-se. Como já tinha outro romance pronto, intitulado «Contos do Androthélys», aconteceu uma coisa que eu nem fazia ideia… Pensei “bom, agora tenho o romance pronto, lá tenho de andar outra vez a bater às portas dos editores”… E, enquanto pensava nisto, falei com a Rita Pais, que nessa altura era a revisora da Caminho… no fundo, era mais do que revisora, era aquilo que no meio editorial anglo-americano se designa por editor, que é um papel raro neste país, mas no qual ela era muito boa e até excelente, porque era compreensiva com os autores. Ela lia os textos dos autores e dava as correcções que tinha de dar, de acordo com aquilo que cada autor, realmente, queria dizer. Não impunha, como fazem os nossos revisores, que impõem as suas próprias manias, que é o pior que pode haver… como de costume, à portuguesa! Ela, não. Ela trabalhava à inglesa: lia o texto dos autores e aquilo que sugeria era aquilo que convinha, realmente, transmitir-se da melhor maneira, transmitir-se de maneira mais eficaz aquilo que os autores queriam dizer mas não tinham sabido lá muito bem. Ela ajudou-me muito nisso. Portanto, eu falei com a Rita Pais e disse-lhe “por acaso, agora, tenho outro romance, não sei o que lhe hei-de fazer”… O que é que eu pensava? Que tinha de andar, outra vez, a bater às portas dos editores. E ela diz-me: “então, mas você já publicou um livro connosco, publicámos «O Limite de Rudzky», você passou a ser um autor da Caminho”. Eu não sabia que eles tinham este esquema, nessa altura. “Passei a ser um autor da Caminho?” “Pois, agora é assim: qualquer original que você tenha, entrega aqui e a gente publica. Nem discutimos.” E eu disse: “Isto é genial.” E assim foi. Foi assim que eu percebi que tinha ali uma porta aberta, que, ainda por cima, tinha o beneplácito do Belmiro Guimarães, que se tornou um grande amigo nosso, quer dizer, da malta da ficção científica dessa época, e passámos todos a editar lá: o Luís Filipe Silva, o João Barreiros, eu, o Daniel Tércio, a Maria de Menezes, o José Manuel Morais, o Luís Sequeira… Editei por eles o romance «Contos do Androthélys», um calhamaço de trezentas e tal páginas… Entretanto, estreou o «Chá Forte Com Limão»: não teve sucesso nenhum. Esteve em exibição durante uma semana inglória no Cinema São Jorge, um bocado às moscas. As pessoas acharam-no detestável. Teve críticas horríveis que diziam que era um disparate pegado, de uma ponta à outra, que não tinha graça nenhuma. Portanto, a coisa morreu por ali… Em termos de cinema, continuei a concorrer ao Instituto de Cinema com guiões para mais filmes, como «O Pastor e o Magarefe», falámos dele há pouco, e outros… «A Pomba», também… e um outro, «Apaga a Lua e vem p’rà Cama»… Vários guiões, todos a levarem sopa, sempre com o mesmo argumento: o de que era um cinema que não interessava ao cinema português, que era um cinema “desligado das realidades”. E isto era feito de uma maneira tão despudorada que dava para ver claramente as manipulações dos júris sucessivos, pelos vários anos. Depois deu-se aquela cena desgraçada de eu reunir uma volumosa documentação para provar as manipulações e as fraudes e as corrupções que iam pelos júris, que eram descaradas, perfeitamente vergonhosas. Reuni essa documentação, entreguei-a toda ao provedor de justiça e fiz queixa, apresentei uma queixa formal. Isto já no ano de 2000 ou 2001, e o provedor de justiça demorou seis meses para responder-me e respondeu que estava tudo de acordo com a lei. Ora, que estava de acordo com a lei sabia eu, o problema era outro, era a lei que estava corrupta e prestava-se às manipulações mais vergonhosas. Porque a lei dizia que a apreciação dos júris é feita segundo tais e tais critérios, “qualidade artística e cultural”, “potencialidades estéticas”, “qualidade de comunicação com o público”, etc. … uma porção de coisas profundamente subjectivas às quais qualquer júri podia dar “pontuação zero” ou dar “pontuação dez” e estar sempre certo. Não sei se está a ver o grave que isto é. É evidente que critérios destes se prestam a ser manipulados, e a favorecer o “clube de amigos”. Portanto, eu fiz queixa formal e o bom do provedor, seis meses depois, responde-me que “não podemos fazer nada, porque está tudo de acordo com a lei”… Eu disse: “oh, senhor provedor, que está de acordo com a lei, sei eu… O senhor é provedor de justiça, não é provedor de leis: já o Platão sabia distinguir entre as leis, que são humanas e falíveis, e a justiça que é divina. Portanto, o senhor é provedor de justiça, quero que o senhor diga ao governo que esta lei está corrupta, que é uma lei que se presta a manipulações e tem de ser mudada.” Não me respondeu. A partir daí, não consegui fazer mais nada. Desisti. Até porque começou a ser caro apresentar um projecto: era preciso apresentar o projecto em oito ou nove exemplares, para os jurados e mais não sei para quem, com o guião completo, orçamento completo, os diálogos, as localizações, o dossiê de produção… Ficavam uns oito ou nove calhamaços que custavam aí uns trinta contos nessa altura e nós, na Cinequanon, não tínhamos dinheiro para estar a investir, constantemente, cerca de trinta contos de cada vez para ir tudo para o cesto. A partir daí, desisti. Pensei: “desisto de fazer cinema, continuo a escrever”. Porque, entretanto, fui publicando vários romances na Caminho. Publiquei o último em 2004, que foi a altura em que eles começaram a entrar no Grupo Leya e, a partir daí, fiquei sem editor: a Caminho enfeudou-se à Leya e o Belmiro Guimarães adoeceu gravemente e reformou-se e ele é que era o nosso sustentáculo lá dentro, era ele que gostava de ficção científica e de fantástico, porque os outros gestores da Caminho detestavam esse tipo de literatura “de género”. De maneira que, mal ele se reformou, os outros venderam-se à Leya e acabaram com a Colecção Caminho Ficção Científica, foi imediato. Sucedeu-se aquela história que já lhe contei, deles deitarem fora todos os livros que tinham nos armazéns, meus e de outros autores: foram todos destruídos. Ainda consegui publicar «A Conspiração dos Abandonados» na Zéfiro e «O Sangue e o Fogo» na Saída de Emergência e, agora, não sei… Agora estou à espera, estou pendurado. Estou assim… Ando a ver… Mas, de qualquer maneira, isto vinha a propósito da pergunta se houve um desgosto muito grande, digamos assim, do facto de não ter continuado a fazer cinema, devo dizer que sim e que não. Porquê? Digo que sim, porque, de certa maneira, foi um dos veículos através dos quais eu podia transmitir um certo tipo de coisas que em literatura talvez não conseguisse, mas, por outro lado, digo que não, isto é… Até senti um certo alívio, porque com o correr do tempo e com as dificuldades progressivas… É assim: este país foi-se afastando. Nos anos trinta e quarenta o cinema português era igual em qualidade técnica ao cinema europeu que se fazia nessa época. Você vê um filme português dos anos trinta e quarenta, como o «Inês de Castro» ou o «Camões», os filmes de grande espectáculo do Leitão de Barros, ou o cinema do António Lopes Ribeiro e do Jorge Brum do Canto, mesmo as comédias musicadas do Cottinelli Telmo, do Chianca de Garcia, do Arthur Duarte, e percebe logo que o preto-e-branco desses filmes tem uma grande qualidade técnica e que a movimentação de câmara e a música, não ficavam abaixo de um filme europeu da mesma época. Mas com o correr do tempo foi-se dando uma divergência cada vez maior entre o cinema português e o estrangeiro – de Badajoz para lá! E eu fui sentindo isso, cada vez mais acentuadamente, à minha própria custa: isto é, os nossos laboratórios e estúdios iam ficando cada vez piores à medida que o tempo avançava. Nos anos sessenta, consegui fazer um certo tipo de efeitos especiais nos laboratórios da Tóbis e da Ulyssea Filme, nos anos setenta, também, e nos anos oitenta, mas já com mais dificuldade… Nos anos noventa com maior dificuldade ainda… Foi preciso vir o apoio de Espanha para fazer certo tipo de efeitos para «A Maldição de Marialva», porque cá já não os conseguiam fazer – e mesmo assim não ficaram bem. A divergência – o sacrifício – de fazer cinema em Portugal foi-se acentuando. A partir do ano 2000 já não me apetecia fazer cinema em Portugal, porque sabia que não iria conseguir fazer aquilo que eu queria transmitir, por falta de substrato tecnológico, para não dizer económico. Ia ficar restringido a fazer umas coisinhas que coubessem numa caixa de sapatos e eu não estava interessado nisso. De maneira que o desgosto foi-se atenuando, porque fui passando para a literatura, que era uma coisa que já vinha de trás. Mas em relação à “censura” das candidaturas, sabe o que ela é? Acho que é uma desculpa estúpida da parte de quem não se quer maçar. Quer dizer, ter ideias dá trabalho, ter ideias é cansativo e gerir ideias novas é um frete do caraças: assim, se tudo não passar de uma espécie de papa de linhaça cinzenta é óptimo.

DS – Falando em cinzentismo, como é que o António conseguia fugir à outra censura, a dos cortes?

AdM – Era por subterfúgios, evidentemente, e, em outros casos, era mesmo por guerras. Havia guerras. Em alguns casos, não consegui. Foi o caso do «Nojo aos Cães», de 1970, que foi totalmente proibido. Só depois do 25 de Abril de 1974 é que começou a ser visto. E nem sequer passou nos cinemas: só passou, vagamente, na televisão, na RTP2, a uma hora assim um bocado tardia… Mas, em outros casos, era pela estupidez dos censores, que não viam certas coisas. Como, por exemplo, no caso de «Sete Balas Para Selma», que é de 1967. Há três canções, cantadas pela Florbela Queirós, e uma delas faz uma alusão ao Bertolt Brecht, que era uma figura maldita, e à música que o Kurt Weill compunha para as peças dele. Aliás, os censores tinham listas com os nomes proibidos: eles já nem liam qualquer texto desses autores, eram logo para cortar. E o Brecht estava na lista de autores que eram imediatamente cortados, tal como as canções do Weill. Ora, uma das canções cantadas pela Florbela… o Alexandre O’Neill, que era malandro e até estava, mais ou menos, ligado ao partido comunista que, nessa altura, ainda estava na clandestinidade, disse-me: “tenho aqui uma ideia…” Tinha uma espécie de pequeno poema, que pediu para ser musicado – a música é do Quinteto Académico –, uma espécie de homenagem à «Ópera dos Três Vinténs» do Brecht, a «Die Dreigroschenoper», musicada pelo Kurt Weill. Há uma personagem, o chulo, que é o… como é que ele se chama?... É o Mackie Messer, que na versão em inglês dessa ópera, a «The Threepenny Opera», se chama Mack the Knife. Na versão francesa é Maquereau, que, em francês, quer dizer “carapau”, mas também é o termo que eles utilizam para “chulo”. E o Alexandre O’Neill achou, em colaboração comigo, que íamos pôr a Florbela a cantar uma canção com frases musicais da balada «Mack the Knife» do Kurt Weill. É aquela canção muito conhecida. Portanto, o Quinteto Académico compôs uma música, com indicação minha e do O’Neill, com umas referências musicais à «Die Moritat von Mackie Messer», no original, e a própria letra do O’Neill dizia “O Maque, o Maquereau, que ninguém ama, ninguém amou”“Quando entra na sala, esvazia a sala à bala”… Ora bem, o censor deixou passar tudo.

DS – Porque não conhecia.

AdM – Porque não conhecia. Nem sequer sabia o que queria dizer Maquereau, porque, em português, “maque, maque, maquereau” até é uma coisa que fica gira. Bom… E eu lembro-me que, nessa época, o francês era a língua culta, o inglês não era muito usado, mas o francês sim e toda a gente sabia que Maquereau era o chulo, não é? Mas o censor não sabia, pronto. Isto só para dizer que há certo tipo de subterfúgios que podiam ser utilizados. Como aquilo não falava em Brecht, era só uma referência musical, o censor fez lá ideia!... Quem visse a fita reconhecia, de imediato, o que se estava a passar, mas o censor não reconheceu e deixou passar. Em alguns casos, não passou: no «Domingo à Tarde» queriam cortar-me quatro cenas, tive uma guerra com eles, ficaram duas… É claro, felizmente, eles não cortavam o negativo, portanto as versões que estão agora a ser exibidas no ciclo na Cinemateca são as integrais. Mesmo aquelas que foram cortadas pela censura estão a passar na integral, porque eles cortavam o positivo, que era a cópia de exibição, mas não tocavam no negativo, o que era óptimo! Com «A Promessa» foi muito complicado, porque eles queriam cortar duas cenas grandes ao filme, que são duas cenas muito importantes, a do diálogo dos padres e a final. Isso dava-me cabo do filme. Aquela fita sem aquelas duas cenas ficaria… E, aí, foi uma guerra em que fui eu e o Fernando Lopes, nessa altura presidente do Centro Português de Cinema, que era o produtor do filme, fomos discutir com o Moreira Baptista, que era Ministro do Interior. Depois de uma guerra muito grande, que durou uma tarde inteira a chatearmos a cabeça ao homem, ele por fim, já farto de nos aturar, sobrepôs-se à censura, mas avisou: “se alguém se queixar, eu tiro a fita de cartaz imediatamente”. Felizmente, ninguém se queixou, veio o 25 de Abril logo a seguir, porque a fita estreou em Fevereiro de 1974, e esteve não-sei-quantas semanas em cartaz e não houve problema nenhum.

DS – Apesar disso, o António nunca colocou ou, pelo menos, não imprimiu, uma tónica política muito forte nos seus filmes.

AdM – Não, porque, vamos lá a ver, a política estava implícita, porque naquela situação a política só podia ser uma: era lutar contra o regime. Depois criava-se uma monotonia e isso era visível em certas…

DS – A monotonia da oposição?

AdM – É um bocado isso, porque era sempre o mesmo Salazar.

DS – Ser subversivo já era aderir ao regime?

AdM – De certa maneira. Isso é muito óbvio num filme do Artur Ramos, uma pessoa de quem eu era muito amigo, o «Pássaros de Asas Cortadas», uma adaptação de uma peça de teatro do Luiz Francisco Rebello, que era um homem oposto ao regime, declaradamente oposicionista, com colaboração no guião do Luís de Sttau Monteiro, outro grande oposicionista ao regime. O próprio Artur Ramos era do partido comunista, na clandestinidade, claro. E o filme, todo ele, trata da luta de classes, chamemos-lhe assim. Tem a criadagem, por um lado, o chauffeur, depois os senhores ricos… Mas tudo isso para poder passar na censura acaba por ficar uma coisa… Bom, há para ali uns criados, há uns senhores… às vezes discutem… O filme é interessante, bem feito… O Artur Ramos fazia os filmes com muito cuidado, com um apurado perfeccionismo, digamos… Depois a censura cortou-lhe uma coisita ou duas, uma cena em que havia um quadro com um antepassado que está com ar de gozo enquanto uma personagem diz uma frase politicamente mais “ousada”, mas não muito… Ficou-se por ali, quase nem se nota que é um filme oposicionista. Outro em que se passou o mesmo foi «O Recado» do José Fonseca e Costa, que tem a ver com a clandestinidade do partido comunista. Há, assim, uns fulanos que desembarcam de noite e são perseguidos pela polícia e tal… Uma pessoa vê esse filme e a intenção, na ideia do Fonseca e Costa, é que aqueles tipos eram uns comunistas que queriam fugir para o lado de lá da fronteira e estavam a ser perseguidos pela Pide. Mas ninguém percebe nada. Dizia até o João César Monteiro, com aquela verrina que lhe era muito própria, que “bem, aquilo, no fundo, vê-se que é uma polícia de fronteira a perseguir o Partido Contrabandista Português”… andam uns contrabandistas por ali e a polícia de fronteira persegue-os. Quer dizer… O problema de fazer um cinema francamente político desembocava nisto: quer a gente quisesse, quer não. Isso não me interessava, era uma banalidade muito grande. Até porque dizer mal do regime era banal, tudo aquilo era obviamente banal, não acrescentava nada. Dizer-se “vivemos num regime de opressão”… Pois vivemos!... Em vez de estar a dizer o óbvio, preferi fazer um filme como «Nojo aos Cães», em que a opressão é dada de outra maneira. Tudo aquilo é subversivo, até os próprios estudantes que são subversivos acabam à porrada uns aos outros, às duas por três, porque não se entendem… Quer dizer, a subversão já está dentro da subversão: os próprios opositores também já não se entendem – o que, aliás, era verdade: a seguir ao 25 de Abril, com a liberdade declarada, as fricções vieram ao de cima, a UDP não se entendia com o PC, o POUS e o PCP-ML não se entendiam com o PC nem com a UDP, o MRPP não se entendia com a UDP nem com o PC nem com ninguém… No fim resultava uma palhaçada que não fazia muito sentido. E o «Nojo aos Cães» é, um bocado, o reflexo disso: tanto é que foi todo completamente proibido pela censura, como é evidente.

DS – Observando toda a sua carreira, o António comprometeu-se com que objectivo? Qual é a mensagem que a sua obra tem? Ou seja, agarrando em todos os filmes, todos tão diferentes, qual é o seu único compromisso?

AdM – O meu único compromisso é a liberdade de expressão. A liberdade do criador. Fundamentalmente, é isso. É o artista ter uma ideia, seja ela qual for: política, esotérica, metafísica, não importa, materialista… O artista tem uma ideia e tem de ser livre para exprimir essa ideia até ao limite da imaginação. O problema é quando não se tem nada para… Há um autor espanhol, não me recordo do nome dele, mas é muito conhecido, que diz “maldito o artista que não tem nada para dizer”. É esta a minha grande mensagem, também. Faço minhas as palavras deste autor anónimo, cujo nome não recordo com muita pena.

DS – Mas quem não tem nada para dizer não é artista.

AdM – Ah, mas aí é que está… Nós vemos muitas obras que estão por aí, obras artísticas, filmes… até bons filmes… Mas espreme-se aquilo e… A “Nouvelle Vague” toda, na minha opinião, é uma cosmética.

DS – Foram experiências.

AdM – Foram experiências, mas cosméticas que, no fundo, estão a disfarçar…

DS – Agora vamos filmar com a câmara aqui, agora assim…

AdM – …estão a disfarçar a falta de ideias. Repare que a gente vê os filmes da “Nouvelle Vague” e vê que eles não têm, rigorosamente, ideias nenhumas. Têm ideias estéticas, sim senhor, experiências, uma maneira fresca e nova de dizer as coisas, como não se dizia antigamente… Falam com muita graça e sensibilidade sobre coisa nenhuma.

DS – É como a experiência do Guericke, do Otto von Guericke, a dos hemisférios de Magdeburgo, agarrados pelo vácuo… O vácuo tem uma força extraordinária.

AdM – Exactamente!

DS – O vazio tem uma força extraordinária!

AdM – Exactamente, lá está! É a força do vazio. É isso mesmo. Há muitos filmes e romances que a gente espreme e diz “espera lá, o que é que este gajo quis dizer com isto?…” Vemos uns filmes muito bonitos, muito bem feitos, bem filmados, à francesa, não é?, com uns diálogos que até têm graça, mas o que é que eles querem dizer? Não querem dizer nada. Zero. Não têm uma única ideia por trás. Isso é que me horroriza. O artista tem de ser livre: que diga o que quiser, desde que tenha coisas para dizer. “Maldito o artista que não tem nada para dizer.” Há artistas que são artistas e não têm nada para dizer, é horrível. Têm só o prazer de mexer na matéria. Ou escrevem muito bem ou pintam muito bem ou filmam muito bem, mas não têm nada para dizer. E o que eu quero transmitir com os meus filmes é o seguinte: é preciso ter ideias! Mesmo que sejam contestáveis, mesmo que não sejam certas, mesmo que sejam grandes disparates. Podem ser, mas desde que dêem discussão, desde que ponham as pessoas a pensar, quer estejam de acordo ou não estejam. Alcança-se um objectivo. É isto que eu quero transmitir, que é muito importante: artistas, sejam livres! Esgotem a imaginação até ao máximo dos limites – para além dos limites, de preferência.

(Continua.)