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sexta-feira, 13 de maio de 2016

"No Muro": um conto.


Este conto foi publicado originalmente em 2012 na colecção Biblioteca Digital do Diário de Notícias, numa iniciativa conjunta desse jornal e da Escritório Editora, que reuniu contos originais de vários escritores portugueses. Porque hoje me falaram nesse título, lembrei-me de publicá-lo aqui nos Cadernos de Daath para que possam relê-lo ou descobri-lo. Gosto muito de todos os contos que escrevi para a Escritório Editora (a minha obra preferida desse conjunto será, provavelmente, Réptil, que podem encontrar no livro Contos de Terror do Homem-Peixe, uma co-edição de 2007 com o MOTELx, o festival de cinema de terror de Lisboa) e este No Muro é, para mim, bastante especial. 


No Muro
A primeira vez que ele abriu um livro, descobriu uma nota disfarçada entre as folhas: crestada como uma flor prensada, parecia mais velha que o volume, porém, na sua cabeça, infinitamente mais valiosa. De pé, sozinho na biblioteca que o pai lhe legara, ele desfolhou o livro em busca de mais notas, mas não encontrou nenhuma; escolheu outro título e procurou novamente.
Nenhuma nota. Só palavras.
A biblioteca era enorme, homomérica, e, sob o ruído do desumidificador que estava sempre ligado, ele especulou sobre as estantes desquiciadas pelo peso e compreendeu o trabalho que teria para folhear todos os livros à cata de mais notas. Enfiou a mão no bolso e, para ganhar coragem, agarrou aquela que achara há uns instantes. Só havia uma maneira de realizar a tarefa sem enlouquecer: todos os dias subiria até à biblioteca e, durante uma hora, sentar-se-ia no chão diante de uma pilha de livros para manuseá-los à procura de dinheiro escondido. Seria como se tivesse um trabalho a meio-tempo – e, como tal, prometera a si próprio que nunca subiria à biblioteca aos fins-de-semana.
Como se fosse um faroleiro de outrora, que todas as manhãs oleava as lâmpadas, polia as lentes e soava, se fosse caso disso, o sinal de alerta de nevoeiro, ele subia diariamente à biblioteca, antes de ir para o escritório, e no decorrer de uma hora revistava com zelo duas ou três dezenas de livros. No final da primeira semana de pesquisa, achou um marcador, um bilhete de eléctrico, um pedaço rasgado de papel com um número de telefone apontado a esferográfica e um bilhete-postal por ortografar. Conheceu a caligrafia do pai no pedaço de papel rasgado, mas não reconheceu o número de telefone.
O cheiro dos livros era diferente do dos arquivos do escritório onde trabalhava: aquelas narrativas e aqueles ensaios, lidos de passagem nas matutinas montivagações, não tinham o mesmo cheiro dos recibos e das cópias dos contratos impressas em papel-químico. E, no entanto, tudo isso era feito de papel. Já matara imensos peixinhos-de-prata, asilados da luz entre os livros, mas no escritório, também empanturrado de papel, não havia nenhuns. Porquê? Estava a aprender que nem tudo o que era feito de papel era da mesma ordem – e ao folhear os livros, uns a seguir aos outros, aprendia mais coisas. Aprendia que os homens, todos feitos da mesma carne, tal como os livros e os recibos eram feitos do mesmo papel, não eram iguais: havia homens que eram mais como os livros e existiam outros homens que eram mais como os recibos e separavam-nos uma distância intransponível, uma trágica incomunicabilidade.
E ele estava a aprender a qual dos lados pertencia.
A biblioteca não tinha sido criada pelo pai, mas fora este que a reunira, logo havia nela um resquício de humanidade: uma bibliopagia antropodérmica. Poderia ele partilhar dela? Da humanidade do pai? Ter dentro de si uma faúlha de física quasi-divina ou, por outro lado, ser tão destituído desse dom quanto os livros estavam, aparentemente, desprovidos de notas?
Quantos mais investigava, mais compreendia o quão lhe faltava em cultura, em inteligência. Em poucos meses, a lembrança da nota iniciática, guardada numa gaveta da mesa-de-cabeceira, quase se esvaecera e o vero propósito das deslocações à biblioteca tinham, cada vez mais, a mira do estudo. Não consistia numa leitura atenta, antes a que um pássaro faria se conseguisse ler: saltitando de tomo em tomo, ora debicando mais num, ora menos em outro; todavia, desse modo, sem qualquer sistematização temática, autoral ou editorial, ele satisfazia em pleno a recém-adquirida curiosidade. Às vezes, lembrava-se de uns livros, vistos há muitos anos nas mãos do pai, mas ficava na dúvida se, com efeito, reparara neles ou não. Provavelmente, reconhecia-os apenas das suas observações peripatéticas diante das estantes. Ainda guardava tudo aquilo que ia encontrando entre as páginas e, certo dia, espantou-se ao achar um velhíssimo bilhete de identidade de um indivíduo que nunca tinha visto: o tempo tornara a foto num tasselo mal distinto, em que mancha e luz teimavam em não se aglutinar, logo criando abismos em que borrões brancos ofuscavam a fisionomia do fulano; também a assinatura desaparecera, à excepção de caracteres oxígonos que nem a graptomancia seria capaz de desvendar. Que relação existira entre o seu pai e aquele sujeito? Arrepiou-se-lhe a espinha com uma emoção terrível, regressada da infância, que sentia quando via os pais a falar com estranhos: de facto, eram estranhos para ele, porque para os pais eram amigos. Só através do contacto com os estranhos é que se percebe o quanto não se sabe tudo acerca daqueles que conhecemos – e, nesse sentido, todos os livros eram estranhos para ele: amigos do pai, nunca seriam, verdadeiramente, seus amigos. O que não impediu que ele se lhes afeiçoasse, como as meninas se afeiçoavam aos prometidos maritágios.
Tanto se apegou à colecção que, a dada altura, durante a noite, despertou com um pavor insuportável: e se os livros pegassem fogo? Ou fossem roubados? A grande sala no piso superior da casa não era um lugar suficientemente livre de perigo para a biblioteca, mas para onde poderia transferi-la? Com surpresa, a solução surgiu-lhe de repente: já formada, transparente, sem ter sido sequer metodizada – como ele gostava.
Construiria um muro.
Nesse dia, consultada a lista telefónica e contactados os serviços de que precisava, deu início à tarefa de carregar todos os livros para o jardim. Em frente do velho muro que o circulava, levantaria um novo, feito de tijolos ocos – e em cada tijolo guardaria um livro. Uma vez terminado, o muro inexpugnável conservaria a biblioteca de uma maneira mais segura que qualquer aposento. Evidentemente, não poderia voltar a olhar para os livros, mas, bem vistas as coisas, essa perspectiva agradava-lhe: pertencentes somente à memória, as palavras lidas ganhariam um cunho sagrado – sagrado, porque devotando-as ao enclausuramento, as sacralizaria.
Perdeu a noção do tempo gasto a erguer o muro, mas não seria improvável que tivesse passado todo o Verão no jardim a assentar tijolos, porque os dias murcharam – e não podia ser um efeito iatroquímico, criado pela fadiga em conjunção com os raios do Sol em relação à altura do muro, porque este era mais comprido que elevado. Subiu pela última vez à sala do andar superior e observou o muro desse nobre – e vazio – ponto de vista. A verdadeira biblioteca estava em baixo, no jardim, dentro do muro: palavras envoltas pelo barro.
No fundo, não era isso um homem?
Palavra enroupada pelo barro, feito, temporariamente, carne?
Esta retornaria ao pó após a morte, mas e a palavra? A palavra não retornaria a parte alguma, pois de nenhuma parte viera: ia. Ia e reverberava pelo cosmos – se não infinitamente, quase. E o bom de ser-se quase infinito é que, desse modo, é-se eterno.
Quando ele morreu, o muro manteve-se no jardim. E manteve-se depois do jardim ter desverdecido e, em redor, a casa ter-se deteriorado e perdido a beleza. O musgo mimava o muro e entre as frinchas dos tijolos também cresciam pequenas flores parasitas. Os miúdos agarravam-se a elas ao transpô-lo e, ao descer, arrancavam-nas.
Tinham-se habituado a fumar às escondidas, encostados ao muro; riam alto e divertiam-se a pintar personagens de banda desenhada nos tijolos. À noite, casais saltavam o muro para namorar, também às escondidas, encostados aos tijolos, recheados de livros, e neles riscavam os nomes e votos de cumplicidade. Do mesmo modo que, às escondidas, as milícias do partido autoritário, que, entretanto, conquistara o poder nas eleições mais recentes, gostavam de executar a tiro os indesejáveis contra o muro: em principal, os escritores, os pensadores.
Abatiam-nos e queimavam-lhes os livros.
Um livro ao ser incendiado dá sempre mais cinzas que as palavras que tem: monossílabos cinisíacos – forragem para cinorécticos. Em pouco tempo, deixou de haver livrarias, de haver bibliotecas – só havia columbários.
Aquela propriedade abandonada por todos e por tudo, escutara vozes de alegria, murmúrios de intimidade, estrompidos de armas e quase imperceptíveis gemidos de padecimento. No entanto, o musgo não se ia embora, nem as flores deixavam de brotar pelas frinchas entre os tijolos. O muro perdurava: picado por projécteis, salpicado de sangue, garatujado de personagens infantis e nomes riscados com canivetes e moedas. Sob essa crosta derivativa, estavam os livros invioláveis.
Uma emparedada e secreta biblioteca.
A única que existia.
Preciosa.
No muro.
Aquele era um lugar tremendo de transgressão, amor, insegurança e morte – mas era, talvez por isso, sagrado.
Um lugar que tinha como alma a Palavra.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Contos de horror com o Jornal i

Em parceria com a Escritório Editora, o Jornal i vai disponibilizar alguns livros de contos em que participei: Contos de Terror do Homem-Peixe, Brinca Comigo! e Outras Estórias Fantásticas com Brinquedos e Ficções Científicas e Fantásticas. Na minha opinião, os contos de horror que publiquei nestes livros (Réptil, Um Erro do Sol e O Holocausto e o Testamento de Laura Carvalho, respectivamente) contém algumas das minhas ideias mais subversivas e, claro, recomendo-os com entusiasmo. Por conseguinte, de 17 de Setembro a 1 de Outubro, poderão levar estes livros convosco para casa.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

«Tertúlia Assombrada» nesta sexta-feira no bar 100 Artes


Nesta sexta-feira, dia 6, às 18H00, estarei no bar 100 Artes (Rua dos Fanqueiros, 162, Lisboa) como convidado especial da segunda edição da Tertúlia dos Contadores de Histórias, organizada pela filial lisboeta da iniciativa Timebank.cc, e que terá o Horror como tema: será a Tertúlia Assombrada.

Consistirá, pois, numa sessão de leituras de contos de horror, lidos pelos diversos participantes no evento.
Eu irei ler o conto Os Filhos Que a Lua Dá: ou, Problemas De Um Projeccionista de Pornografia (que foi publicado na revista LOUD! do passado mês de Maio).

Sobre a organização da Tertúlia dos Contadores de Histórias, informo que a iniciativa Timebank.cc consiste numa forma de economia alternativa ou complementar. Diferencia-se dos chamados mercados de trocas, por não implicar uma troca directa (nem imediata, nem recíproca), e das ditas moedas comunitárias, por haver uma rigidez quanto à unidade de câmbio: neste caso, tanto o crédito quanto o débito são contabilizados de acordo com o tempo dos serviços prestados pelos utilizadores, independentemente das suas naturezas. Havendo sempre a necessidade de um "banco" central que faça a gerência da quantidade de horas em circulação, mais o registo de créditos de cada utilizador, o Timebank.cc distingue-se pelo facto de disponibilizar uma gestão online.

Conto com a vossa presença e agradeço a divulgação do evento. Deixo-vos com um trecho do conto Os Filhos Que a Lua Dá: ou, Problemas De Um Projeccionista de Pornografia, que irei ler:
«Concentrando-se no projector para não ver nem o filme, nem os espectadores, Albuquerque interrogou-se sobre qual seria a razão pela qual o onanismo não era um dos Sete Pecados Mortais, posto que Deus até assassinara um homem por culpa disso. Seria o Oitavo Pecado: uma nova venialidade, incrustada entre a luxúria, a ganância e a gula. ‘Oito pecados mortais’, pensou Albuquerque. ‘Oito caminhos para o Inferno.’ Qual seria o castigo infernal para os fricativos? Na costumeira coerência contrapassiana com que eram elaborados esses suplícios, teriam de se polir com fogo até a vergonha incendiada tornar-se tão catóptrica quanto metal lustroso. Humiliate pene vestra. O ritual masturbatório era feiticista, de facto – e, assim sendo, feiticeiresco. Que sortilégios pretenderiam os velhos operar com as efusivas esfregações? Que autoridade encoberta se revelava nas suas varinhas viris? Seria o sexo uma arte mágica, como as banais benzeduras e as venerações dos videntes? De cabeça baixa, Albuquerque apercebia-se das moções projectadas no lençol como se fossem sombras dançarinas nas paredes do seu crânio: afinal, que culto venéreo se prestava naquela praça, sob a égide do faliforme tóteme tartéssico? Seria clarividente o suficiente para descortinar se era um sonho ou o “agora”? No lençol, a mulher curvou-se para desencobrir a virilha do homem, a imagem ampliou-se e os velhos viram-se estupefactos diante de um grande olho. O espanto da assistência despertou Albuquerque das suas contemplações: achou que aquilo era estranho, mas não deu importância.»
   

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Novo conto original na Biblioteca Digital do Diário de Notícias


A partir de hoje, e até dia 30 de Janeiro de 2013, a versão online do jornal Diário de Notícias, em parceria com a Escritório Editora, abre as portas de uma exclusiva e gratuita Biblioteca Digital, composta por trinta e um contos originais, disponibilizados às quartas-feiras e sábados e escritos por autores portugueses. Para lerem estes trabalhos basta registarem-se no site do Diário de Notícias; a ligação para a página oficial da Biblioteca Digital é a seguinte: http://www.dn.pt/Especiais/bibliotecadigital.aspx

O meu conto será publicado no dia 29 de Dezembro (espécie de prenda de Natal para os meus leitores) e intitula-se No Muro. Publico, em seguida, um excerto:

«O cheiro dos livros era diferente do dos arquivos do escritório onde trabalhava: aquelas narrativas e aqueles ensaios, lidos de passagem nas matutinas montivagações, não tinham o mesmo cheiro dos recibos e das cópias dos contratos impressas em papel-químico. E, no entanto, tudo isso era feito de papel. Já matara imensos peixinhos-de-prata, asilados da luz entre os livros, mas no escritório, também empanturrado de papel, não havia nenhuns. Porquê? Estava a aprender que nem tudo o que era feito de papel era da mesma ordem – e ao folhear os livros, uns a seguir aos outros, aprendia mais coisas. Aprendia que os homens, todos feitos da mesma carne, tal como os livros e os recibos eram feitos do mesmo papel, não eram iguais: havia homens que eram mais como os livros e existiam outros homens que eram mais como os recibos e separavam-nos uma distância intransponível, uma trágica incomunicabilidade.
E ele estava a aprender a qual dos lados pertencia.»

No Muro, o meu novo conto original, ficará, repito, disponível no dia 29 de Dezembro na página da Biblioteca Digital

terça-feira, 19 de abril de 2011

A Caixa


Não, não é a peça de Hélder Prista Monteiro, mas um conto de Richard Matheson que intitula esta antologia de contos de horror, publicada este mês pela Saída de Emergência. A Caixa é, pois, um compêndio de alguma da melhor ficção curta do autor norte-americano Richard Matheson, escolhida e traduzida por mim.

Mais conhecido do público português pelos argumentos que escreveu para séries de televisão (como The Twilight Zone, por exemplo), Matheson também é o autor do romance I Am Legend, já editado pela Saída de Emergência.
A prosa de Matheson é propositadamente minimalista. A minha ideia é que ela consiste numa estratégia de diferenciação dos estilos mais carregados de escrever horror, popularizados por autores como Lovecraft, e, com este conhecimento em mente, é fácil perceber o modo como Matheson nos quer pôr a pensar. Ele não é um grande estilista, é preciso ser sincero, mas é um eficaz inseminador de ideias, de conceitos.

Quem não sentiu ansiedade ao vislumbrar pelo espelho retrovisor o enigmático camião de Duel, de Steven Spielberg, a assomar ao fundo da estrada? A culpa é de Matheson, argumentista do filme e autor do conto original que serviu de base ao seu argumento.
Quem não sente ainda calafrios ao lembrar-se da famosa história sobre o passageiro de avião, interpretado por William Shatner, que, num seminal episódio da série The Twilight Zone, se apercebe em absoluto desespero que é o único capaz de ver um monstro que tenta arrancar a fuselagem da asa do avião, em pleno voo? Esta história também se encontra em A Caixa.

Com efeito, o horror de Matheson é sempre cosmopolita - um horror suburbano, doméstico, familiar, muito cá de casa - e os elementos "exóticos" (como a viagem de avião ou a presença de um boneco tribal) não deixam de ser absorvidos por esse sentimento de domesticidade, tornando-se até "hiper-domésticos", no sentido braudrillardiano de "mais domésticos que o doméstico real". Um exemplo perfeito, e desconcertante, dessa premissa é o conto Fúria Íntima, que quase faz lembrar uma peça de teatro do absurdo, ao melhor estilo de Ionesco.

Esse é o maior valor das histórias de Matheson: sendo tão "despojadas" é espantoso que não tenham espaço para o supérfluo, para o artificial.
Esta A Caixa pode não ser a homónima e vanguardista peça de teatro do absurdo escrita por Monteiro, mas é uma antologia de contos em que o burlesco, o absurdo e o horror do quotidiano se mesclam num estilo seco que nos cai no colo sem decorações - sem, lá está, ersatzes.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Regresso de "As Trevas Fantásticas"


Nas vésperas da publicação do meu quarto livro de contos, A Luz Miserável (Saída de Emergência), o meu segundo livros de contos, As Trevas Fantásticas (Edições Polvo), voltará a estar disponível nas livrarias.
Quem me garantiu foram as próprias Edições Polvo (editora especializada em banda desenhada - são a editora portuguesa de Marjane Satrapi, por exemplo) que, contando com uma nova distribuidora, recolocarão no mercado alguns dos seus títulos mais importantes; entre os quais este livro de contos de horror que foi lançado no primeiro Fórum Fantástico, em Novembro de 2005, com apresentação de Luís Rodrigues.

É, pois, com grande alegria que notifico os leitores que me enviam regularmente emails, a perguntar-me como podem encontrar este livro, que ele voltará a estar disponível. (Em meados do próximo mês.)

«Cada vez que se lembrava da figura suja do vampiro escritor, o cheiro do homem acompanhava as imagens como uma pista sonora e, nesse momento, compreendeu que o cheiro é o sentido que mantém uma relação mais íntima com a memória. Memória para vampiros era imortalidade e o cheiro, singularmente, era a consciência. Se ficasse sem olfacto seria uma catástrofe, tornar-se-ia um náufrago, um turista das superstições alheias, um satélite de vidas que não pertenciam à sua órbita. Seria o fantasma de uma pulga.»

(Excerto de Pela Mão de Um Vampiro, in As Trevas Fantásticas.)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Capa e sinopse de "A Luz Miserável"


Eis a capa do meu novo livro de contos, A Luz Miserável (Saída de Emergência), que será apresentado em exclusivo no próximo Fórum Fantástico. Fiquem atentos, porque em breve darei início a um passatempo, no qual podem ganhar um exemplar deste livro. Até lá, fiquem com a sinopse.

O horror está de volta.
Nestas três histórias, David Soares (O Evangelho do Enforcado, Lisboa Triunfante, A Conspiração dos Antepassados) apresenta imagens de luz e trevas que não deixarão nenhum leitor indiferente. Desde o ambiente exótico de A Sombra Sem Ninguém, passando pelos interiores claustrofóbicos de A Luz Miserável, até à extravagância macabra de Rei Assobio, os leitores vão conhecer personagens inesquecíveis, como um homem “quase” invisível, três soldados amaldiçoados e um velhote mutilado e vingativo.
Do suspense ao splatterpunk, A Luz Miserável é um livro de contos de horror provocadores, diabólicos e literários. Uma viagem vertiginosa ao lado negríssimo da imaginação.

«O mais importante escritor português de Fantástico da actualidade.»
Os Meus Livros

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

"A Luz Miserável" no Fórum Fantástico 2010


«Enquanto esperava por Joni, o grupo reunido na suite do último andar do hotel procurava decifrar os sons remissos que atravessavam o chão alcatifado. Mulheres elegantes, acompanhadas por homens vestidos com roupas escuras, olhavam para as pontas dos sapatos, e consultavam os relógios, enquanto dois serviçais deambulavam pela sala com tabuleiros nas mãos: um com comida e outro com bebidas; hoplitas do catering. Atrás da assistência disposta em círculo no centro da sala, em volta de um candelabro com velas acesas, as janelas estavam fechadas e o calor, mesmo com o ar condicionado ligado, era torturante. Um homem novo levantou-se da cadeira para que um velho, suado e cansado de esperar em pé, se sentasse e fez sinal ao criado para pedir uma flute de champanhe. O ruído dos hóspedes do piso inferior continuava a arrogar as atenções dos convidados e a despertar-lhes os nervos: era possível distinguir música e algo orgânico escondido entre as notas; como larvas alimentando-se de uma carcaça. Encostado a uma parede, um dos homens escrevia uma mensagem no telemóvel; outro chocalhava suavemente o porta-chaves que tinha no bolso. Então, Joni entrou na suite. Mortellite não vinha com ela.
'Boa tarde’, disse. ‘Obrigado por terem vindo.' Caminhou até ao centro da sala e esclareceu: ‘A Madame Mortellite não se sente bem, mas realizará a sessão. Peço-vos que aguardem uns minutos.'
'Que se passa?', perguntou uma mulher, com sotaque americano. 'Adoeceu?' A anfitriã respondeu:
'Felizmente, não.' Joni sabia que Mortellite estava deitada no quarto, cheia de dores menstruais. 'Ela está a caminho.' Agradeceu a paciência do público e saiu.
Desceu as escadas e avançou pelo corredor bem iluminado até ao quarto de Mortellite onde a encontrou de pé junto à janela. Estava a vestir um blazer branco.
'Podes fazê-lo?'
'Claro', anunciou a outra. 'A dor ajuda.' Puxou as mangas da camisa e compôs o blazer. Entrou na casa de banho por uns momentos e saiu com o cabelo amarrado num rabo-de-cavalo. O seu perfume cheirava a madeira verde. Bateu palmas e fez sinal a Joni para que abrisse a porta.
'Comeste alguma coisa?', perguntou-lhe Joni, apontando para o cesto cheio de frutas que estava em cima da cama, ainda com o revestimento de celofane inviolado.
'Não’, respondeu Mortellite. ‘Não comi.’ Subiu as escadas atrás de Joni, em direcção à suite onde os convidados a esperavam; olhou para a superfície espelhada das fotos penduradas nas paredes em busca da sua própria imagem, mas o vidro era anti-reflector.
Quando entrou no aposento sentiu a antecipação da assistência e alguma raiva. Avançou até ao centro, abanando a luz das velas com o vento dado pela sua deslocação, e, sem dizer nada, fitou com os olhos bem abertos os pavios incandescentes. Uma cãibra beliscou-lhe o ventre e o mênstruo verteu-lhe para as cuecas: esquecera-se de usar um tampão. Antes do silêncio submergir a suite, ouviu um homem ser calado de modo brusco por uma mulher; o ruído que assolava do piso inferior desapareceu progressivamente, como música afastando-se dos tímpanos de um ouvinte para seduzir outro. Enquanto se concentrava, viu um homem nu, encostado à parede do fundo da sala. Tinha cabelo e barba brancos e parecia exausto. Não estranhou a presença dele.
Encostada à porta, atrás do público, Joni apagara as luzes e observava o espectáculo: os pormenores fantásticos nunca falhavam em capturar a imaginação. Tudo tinha início inesperadamente, como se o momento tivesse esperado uma parteira desde sempre. Sentia um amor impetuoso durante as sessões. Poderia o interior do seu corpo preencher-se de amor como o fumo de tabaco preenche uma suite? Se sim, talvez fosse melhor deitar fora as fotografias e substituí-las por radiografias.
Uma matéria branca apareceu de repente sobre as pessoas.
Assustadas, elas levantaram-se das cadeiras, mas Joni sossegou-as.
'Sentem-se, por favor', disse com um sorriso. 'Não lhe toquem...', e apontou para a substância que rolava no ar. Cheirava a baunilha. 'E não serão tocados.'
Alheia aos movimentos do público, Mortellite continuava a dormir de olhos abertos. Estendeu os braços, mostrando a mão direita enluvada de branco, e a bola de matéria flutuou na sua direcção. Desfez-se em fatias como um novelo de minhocas sobre as palmas e assumiu rapidamente outra forma. Mais manifestações de matéria principiaram a aparecer na sua órbita; e no momento em que terminou a metamorfose, solidificando-se numa morfologia artropodiana, elas também se ossificaram em silhuetas raras, boiando no ar quente da respiração dos convidados: a excitação contida nesse bouquet podia ser provada.»

Um excerto do meu novo livro de contos de horror, editado pela Saída de Emergência, que será apresentado em exclusivo no próximo Fórum Fantástico.
O livro intitula-se A Luz Miserável e será composto por três contos: A Sombra Sem Ninguém (do qual é retirado o excerto reproduzido acima), A Luz Miserável e Rei Assobio.
Fiquem atentos porque, em breve, darei mais novidades sobre este lançamento.

(Imagem: The Witch of Endor Raising the Spirit of Samuel. William Blake, 1800)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Horror


«Tornar-se lenda é a ambição de todas as histórias.
Mas alguns homens também se tornam lendas. As suas vidas desaparecem e, transformados em lenda, tornam-se em histórias. E a ambição dos homens que se tornam histórias é serem boas histórias.
Todos conheciam a história do corcunda com a gaita.
Chegava de noite, embrulhado em treva como o Diabo que, certamente, adorava. Não falava. Não atacava ninguém. Penava pelos campos cultivados e pelas aldeias, tocando a gaita: um instrumento que assobiava como uma cobra e que chorava como uma criança.
As crianças, ouvindo o som da gaita, levantavam-se das camas e saíam de casa para seguir o músico até ao Inferno. Apenas as que dormiam um sono leve despertavam e as outras, acordando de manhã sem a companhia dos irmãos, sabiam que nunca mais os iriam ver. As famílias envergonhavam-se e mentiam, criando desculpas de doenças e acidentes, mas essas sepulturas eram sempre cenotáfios.
Uma vez, uma mulher encontrou uma flauta enquanto semeava o campo e fugiu. O marido correu para o lugar onde ela achara o objecto e apanhou-o: só podia ser uma das gaitas do corcunda, caída do instrumento quando ele passara ali de noite. Era feita de osso. Não soube explicar de que animal. Pensou em tocá-la, mas uma vertigem impediu-o de plantar os lábios no bocal. Suou. Estava cheio de medo! Partiu a flauta e enterrou os fragmentos no campo. Outros arrogavam que também tinham visto o corcunda desgrenhado; alguns admitiam ter falado com ele. Uma história acaba sempre por gerar outras piores, mas as crianças é que não deixavam de desaparecer.
Aquilo que a lenda conta é que as crianças fogem das casas onde são maltratadas, que são enviadas para viver com os tios na cidade porque os pais pobres não podem garantir-lhe o sustento, que são vendidas para servirem de serventes.
A história verdadeira é diferente.
As crianças desaparecem porque vão ao encontro dos monstros durante a noite. As crianças desaparecem porque são comidas por monstros durante a noite – monstros com fome de crianças. Monstros com fome de crianças e que as comem com presas e garras e esporões. As crianças desaparecem porque acreditam em histórias.»

O texto acima é um excerto do meu novo livro de contos de horror, a ser apresentado em exclusivo no próximo Fórum Fantástico, numa edição da Saída de Emergência. Fiquem atentos, porque em breve divulgarei o título do livro e outras novidades.

(Imagem: Poika ia Pääkallo de Magnus Enckell. 1893.)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Novo livro de contos de horror


«Quando a luz dos faróis dos automóveis incidia na fachada do hospital criava a ilusão de que as janelas eram olhos que piscavam aos condutores; como se a casa dos doentes fosse uma prostituta que procurasse clientes, à beira da estrada. Elevando-se pela encosta, a estrada encaracolava até ao cume, antes de endereçar-se até à vila mais próxima, entornando-se como enol entre os edifícios. Em andamento, atravessava um apoucado arvoredo que sulcava um septo entre o desusado sepulcrário e o aquartelamento abandonado: no Verão era vulgar ver joggers a correr entre ambas as ruínas, quais formigas farejando feromonas.
O sistema imunológico do hospital defendia-o das doenças dos acamados e apenas a ferrugem, que brotava nas articulações antigas, consumia-o em acerbas dentadas; às vezes com violência, mormente quando o metabolismo de madeira e betão agia como um antídoto contra a moléstia que feria o ferro. Caibros tortos, rombos pelo peso, suportavam as camas e as salas de intervenção cirúrgica. Os elevadores tossiam gotas de óleo tão espessas como banha. Na morgue, cujo cheiro dos cadáveres nos gavetões refrigerados fazia lembrar o do taboulé, a tinta descascava-se das paredes em pétalas sarapintadas de humidade. No telhado, um ninho abandonado de cegonha sacrificava raminhos ao vento – ex-votos secos.
Deitado, Fortunato olhou para o saco de soro que comunicava com ele através de um cateter. Abanou o braço e a bolsa balouçou, como um cacho de pérolas, iluminada pela luz dos faróis que era empurrada pelas frestas das persianas e fazia feridas douradas na parede à sua frente. Estava sozinho num quarto com seis camas, oculto por uma cortina que não o deixava ver a porta. Mas por mais eficaz que aquele biombo fosse, não seria impermeável à morte e Fortunato sabia que ela estava a caminho. Talvez já estivesse escondida, à espera do momento certo para romper a cortina e mostrar-lhe o sorriso escaveirado que iria sugar-lhe a vida. Ou talvez a morte estivesse dentro dele, aninhada na concha escura que era a sua mente, envenenando-o com pesadelos. O homem virou a cabeça para o outro lado da cama e esticou o braço para agarrar um copo de água. Passou a vista pelas sombras: não sabia onde a morte estava, mas sabia que não tardava.
Por acidente, observou o seu reflexo no espelho que tinha na mesa-de-cabeceira e não se reconheceu. Não tinha dado conta que o horror se apoderara dele: as pupilas eram poças baças e os olhos pareciam escoar para dentro da cabeça. Os pulsos tremiam-lhe, criando cordilheiras de suor no lençol; ouviu o tubo do soro bater repetidas vezes no suporte de aço inoxidável, como se fosse um código do Inferno. Há quantas horas estaria assim? Desde aquela noite em África, de certeza, mas só o compreendeu naquele momento: a doença, como ácido precipitado sobre uma placa de cobre, derretera o supérfluo – a esperança – e depurado o essencial – o desespero –, criando-lhe uma tremenda máscara de medo na cara.
Pensou em estrelas e em fagulhas cuspidas de uma fogueira, nadando no éter como girinos incendiados. Ouviu latidos guturais que soavam como se tivessem sido ladrados por lobos, mas que saíram das gargantas de crianças. A Lua estava vermelha e inchada, como um planeta cheio de sangue. Morria de calor. Agarrou um gafanhoto que lhe subia pelo pescoço e espremeu-lhe as tripas. Olhou para a palma da mão. Estava limpa. O quarto pareceu-lhe mais pequeno. Só existia a sua cama. A cama e a janela. Uma silhueta infame floresceu nas feridas luminosas na parede.
Ele vem a caminho, pensou, rangendo os dentes. Vem mesmo.
E a certeza foi seguida por uma dúvida: se ele vem, será que eles também vêm?»

O texto reproduzido acima é um excerto do novo livro de contos de horror que irei lançar, pela Saída de Emergência, em exclusivo no próximo Fórum Fantástico.

Mais novidades em breve.

(Imagem: Têtes de Suppliciês, Théodore Géricault.)