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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Sobre os livros de bolso em Portugal

À aproximação da Feira do Livro de Lisboa, algumas observações de relance sobre um assunto que ainda me estupefacta e para o qual ainda não encontrei uma resposta satisfatória (e acreditem que tenho pensado muitíssimo nisto, desde há anos): porque é que em Portugal não há um mercado saudável de livros de bolso?

A natureza do livro de bolso é ser um livro barato, que possa ser lido durante o dia-a-dia: nos transportes públicos enquanto se vai para o trabalho; nos bancos de jardim, à hora-de-almoço; e, evidentemente, em casa. É um livro feito a pensar em quem, de facto, deseja o conteúdo e não a forma; embora se possa privilegiar uma edição de bolso anotada ou comentada por especialistas, se for caso disso - facto que, em regra, não encarece em nada a publicação. Com efeito, são as sumptuosas tiragens dos livros de bolso - na ordem das dezenas ou das centenas de milhares de exemplares impressos - que baixam totalmente os custos de produção; os quais decrescem pelo facto de que, como consistem em livros de pequeno formato - octvavos ou quartos, por exemplo (e o quarto não é assim tão pequeno quanto isso) -, não precisam de encadernações robustas (que são caras). Basta-lhes uma simples capa de cartolina, colada na lombada. Olhando por cima do ombro para o passado recente lembro-me de algumas editoras que fizeram um magnífico trabalho na edição de livros de bolso, mas quando olho em frente, para o presente, não vejo um labor idêntico (em número de editoras e em número de edições). O livro comum posto à venda em Portugal é um livro de médio formato, com valores de produção médios ou baixos e com um preço de venda ao público que se aproxima, na maioria das vezes, dos vinte e cinco euros. O preço relaciona-se directamente com a tiragem (em teoria..): um título do qual se imprime mil ou mil e quinhentas cópias - três mil, vá lá - não pode ter o mesmo preço de venda ao público que um título do qual se imprima cem mil ou trezentos mil exemplares. Isso é perfeitamente razoável, como é evidente. O que já não é tão evidente assim é a razão pela qual, no tal passado recente (vinte, trinta anos atrás), se podia encontrar uma deslumbrante oferta de livros de bolso nas livrarias.
Havia leitores para eles?
Se sim, onde estão?
Nunca existiram e editava-se por carolice - ou (colocando a questão de uma forma mais nobre) por espírito de missão? Seria proveitoso descobrir respostas expressivas para estas interrogações.

Por outro lado, o livro de bolso, infelizmente, nunca se libertou - em Portugal, pelo menos - da aura de coisa ordinária - de res rasca - que o impregna; pois, nas mentes da maioria dos indivíduos, se algo custa barato é porque não tem qualidade. Isto não é totalmente axiomático, pois cada objecto é orbitado por uma espécie de preço invisível, perspirado à sua aproximação e que alarma quando se está a pedir demasiado ou pouquíssimo: em ambos os casos, desconfia-se. O bom consumidor é, pois, uma criatura do médio, nunca dos extremos. Nessa óptica, se o tal livro comum descrito acima (de preço de capa de vinte e cinco euros) fosse apresentado a custar sete seria, imediatamente, recebido com sobrolho sublevado: sete euros será um preço natural, acessível ou convidativo, mas não é um preço, digamos, "prestigiante" (leiam, entre outros, Torsten Veblen ou Joseph Schumpeter para aprofundar esta problemática).

As respostas são esquivas, é certo. Mas também é certo que a cultura do livro de bolso, seja lá porque razão for, nunca medrou entre nós. Entre outros livros, resta-me comprar nos alfarrabistas essas pequenas e portáteis preciosidades editadas em antanho; e que, por vezes, até são as únicas edições que existem de determinados títulos que, entretanto, nunca mais foram eleitos para reedição - o que é lamentável.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Sobre a origem das tatuagens em Lisboa


Fracção integrante da imagética da cultura musical a que pertencem os diversificados universos sonoros que a revista LOUD! referencia são as tatuagens, plasmadas nas peles de artistas, fãs e jornalistas, produtores, editores e promotores, desde logótipos de bandas e reproduções de capas de discos, até desenhos de variadas estirpes que, uns desde os primórdios, outros de adopção mais recente, se tornaram universalmente identificáveis como incumbentes das estéticas e atitudes relacionadas, de maneira geral, com o Metal. Pese a frequência desanimadora de um punhado de lugares-comuns e ideias pré-fabricadas sobre as tatuagens que, ainda, teimam em criar ruído junto da opinião colectiva, é salutar observar-se que nas passadas décadas evoluiu muitíssimo o discurso antropofilosófico que sobre elas discorre, caminhando em consonância com a vulgarização das próprias tatuagens pelo grande público, consequência da sua popularidade entre as mais espectaculares estrelas de cinema e as do mundo do desporto. De mérito desigual, as lojas e as oficinas de tatuadores amadores e profissionais fixaram-se como parte indelével da contemporânea paisagem cosmopolita, assim como da versão açucarada da realidade que é encenada por dezenas de reality-shows, transmitidos pelos canais televisivos. Porém, a esta distância, impõe-se – ou, pelo menos, imponho eu, por gosto e inclinação pessoais – uma inquietação, que é a de especular sobre quais serão as origens das tatuagens nas nossas vistas urbanas portuguesas: a esse respeito, sou capaz de puxar o lustro aos umbrosos limiares históricos das tatuagens em Lisboa, um tema que, certamente, será tão aliciante quanto obscuro.

Os primeiros tatuadores de Lisboa, artistas anónimos que nasceram e morreram nos tempos anteriores ao grande terramoto de 1 de Novembro de 1755, foram viajantes castelhanos que se dedicaram ao ofício algo ingrato da “picadura” e que se fixaram na vizinhança da Ribeira Velha, ao Terreiro do Paço; para utilizar um pionés mais cirúrgico, é válido desvendar que montaram os seus ateliês ao ar livre no adro da quinhentista – e inexistente – Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia: sumptuoso templo de contextura e recorte manuelinos, nessa altura somente secundarizado pelo Mosteiro dos Jerónimos e situado não muito longe do local onde, hoje, na Rua da Alfândega, se pode admirar o soberbo portal da fachada da Igreja da Conceição Velha. (Na verdade, esse trabalho compósito foi montado com porções, arquivoltas e tímpano do portal lateral da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, destruída quase totalmente pelo magno terramoto.)

Aí, sentados no muro raso que circundava o adro da igreja, os “picadores”, munidos de agulhas com cabos de madeira e pigmentos feitos à base de pólvora moída, tatuaram os lisboetas de seiscentos e início de setecentos. Penduradas em cravos de galeota pregados nas frinchas da silharia da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, encontrava-se em exposição o catálogo de tabuinhas decoradas, pelas quais os clientes escolhiam os desenhos que desejavam ver tatuados: cruzes ornamentais de diversificados feitios ocidentais e orientais, signos-saimões, rostos crísticos, alegorias religiosas, corações incendiados e motivos relacionados com a cultura do mar. Os aristocráticos adoptaram a prática – chique nesse tempo – de serem “picados” nas costas das mãos, entre as bases do dedo indicador e do polegar. Ontem, como hoje, não faltou quem se arrependesse posteriormente de desenhos escolhidos aleatoriamente ou de maneira apressada e esfregava-se furiosamente com sumo de limão a pele “picada” para tentar apagá-los – popular recurso mezinheiro de ineficácia quase completa.

Versáteis, os adros das igrejas fizeram de fórum, mercado, miradouro da vida diária e cemitério: o da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia parece ter sido especialmente predestinado às profissões ligadas à cromofilia, pois fora, desde o século XVI, o principal mercado lisboeta de venda de flores e, depois dos tatuadores o deixarem, em definitivo, acolheu os ambíguos passarinheiros alemães – que aproveitaram os cravos abandonados pelos tatuadores para pendurar as gaiolas, algumas com aves pintadas com pigmentos garridos para passarem por exóticas. Outro tipo de tatuagem, portanto, mas, até este momento, a vocação histórica dessa geografia mantém-se interrompida: o terramoto de 1755 foi o liquidante epitáfio das energias histológicas.

(Crónica publicada originalmente na revista LOUD!​ de Abril de 2015.)


sábado, 23 de abril de 2016

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor


Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor ou dia do nascimento do dramaturgo inglês William Shakespeare - que, pese as teorias das conspirações pugnadas por indivíduos que, na maioria, não têm a mais ténue noção sobre o que é escrever, realmente existiu e foi o autor das famosas peças teatrais que lhe são justamente atribuídas.
Mas sobre a formulação da efeméride supracitada inicialmente, há um interessante erro de percepção; pois se a primeira parte do enunciado consiste em «Dia Mundial do Livro», porque não se redigiu deste modo a segunda?: «e dos Direitos do Escritor». É que autores há de vários tipos, mas só uma determinada estirpe desse conjunto escreve livros: os escritores. Infelizmente, não falta e não faltará quem seja tão escritor quanto uma cadeira se possa denominar ainda de árvore, mas isso são outros quinhentos.
Gostava de esclarecer que na minha relação com os livros não me considero um bibliófilo, porque, no meu livro de estilo, um bibliófilo é, sobretudo, um coleccionador que procura e adquire livros segundo exigências muito específicas: primeiras edições; encadernações de um ou outro feitio ou oficina exclusivos; somente edições diferentes do mesmo título ou apenas edições dos trabalhos de um único autor ou temática. Seja em que caso for, o labor do coleccionismo comporta-se como um percolador, que distingue particularismos restritos. A minha relação com os livros faz-se pela via do conteúdo: eu procuro o conhecimento; o que me interessa num livro não é o livro como objecto, mas a erudição. Assim, gostava de evocar aqui a ideia de que o Dia Mundial do Livro deverá ser de todos os livros, sem quaisquer tipos de cegueira ditados por decíduas modas, cartilhas de fátuos fazedores-de-opiniões ou constrangimentos mercantilistas - desde o livro de bolso ao incunábulo. E escolham com sabedoria, porque não há tempo para ler-se tudo.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Entrada de peso no Ano Novo

Para começar 2016 em peso, a revista LOUD! apresenta-se com o (já) mítico Abbath na capa e em entrevista. Além disso, há, evidentemente, o Balanço de 2015, com os melhores discos nacionais e internacionais escolhidos pelos colaboradores da revista (incluindo este vosso amigo); sempre uma excelente oportunidade para recordar ou descobrir discos que poderão ter escapado à atenção. Acrescento que este número traz a minha crónica bimestral, Consultor Funerário, desta vez sobre o fenómeno das chuvas de sangue -- em Portugal. Vão rápido que a esta hora ainda apanham um quiosque aberto, vão.



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Diário Plutónico #2: O Gato Que Tinha Estrelas


O rabo do gato preto e branco mete respeito: inteiriçado como um ponto de exclamação, lustroso como orleã, não é uma cauda verdadeira, mas uma lembrança do nascimento do universo.
No princípio era o miado!
Um miado assertivo.
Birrento.
Um miado primitivo que pôs a poeira estelar em marcha – o miado divino.
Soou há pouco tempo, quando a Grande Mãe Gata teve uma nova ninhada. Dar à luz universos cansa, porém os gatinhos têm toda a energia – toda a que existe e que alguma vez existirá.
O nosso gato preto e branco, de cauda alçada, coça-se: este felino cosmogónico não tem pulgas, mas estrelas – polvilhadas pela pelagem lorigada e coruscantes como corindo em pó. Uma pata risca essa escuridão, faiscando um cometa sob a abóbada extramundana, feita de pêlo, e a comichão fulgente mergulha no mar como um ex-voto extinto. Saibam que é quando os gatinhos pretos e brancos andam no encalço das suas estrelas, com as garras e com os dentes, que nascem todas as estrelas cadentes.
Os sábios sabem que o universo está em expansão, mas desconhecem a razão.
É porque ele é um gato preto e branco que enfuna o pêlo para parecer maior… É um universo bebé, o gatinho, e na sua pequenez encontra-se a grandeza do Todo: planetas, meteoritos e constelações – borboletas, manuscritos e tubarões.
Que nome tem, este hipnopompo? O único que lhe serve: Plutão. Repousa (como lousa) num volume de velo venusto. Empandeira o rabo – pompadourante –, chilreando, longitroante.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Diário plutónico #1

Há catorze dias que sou dono de um gato preto e branco, com (mais ou menos) três meses de idade, a que chamei Plutão. Embora tenha alguma experiência a lidar com gatos, este é o primeiro que possuo e o mais novo com que contactei até hoje: foi-me oferecido por uns amigos, que o recolheram da rua.

No que concerne aos feitios, existem dois tipos de gatos: os tímidos e os curiosos. Plutão é muitíssimo curioso, o que é óptimo, porque, em regra, os gatos curiosos são os mais amistosos. Escrevi «mais amistosos», porque um certo grau de indocilidade será sempre de esperar. Os gatos não são como os cães: não fazem nada para agradar aos donos e é inútil castigá-los quando se portam mal. Estas idiossincrasias relacionam-se com um facto muito simples: os gatos comuns ainda não foram totalmente domesticados e retêm todos os comportamentos do gato selvagem africano, do qual descendem.
Qualquer domesticador de grandes felinos (leões, tigres, leopardos) sabe que castigar esses animais durante os treinos é uma perigosa perda de tempo, porque eles não entendem o conceito e apenas se tornam mais violentos. Os animais selvagens (incluindo os semi-selvagens gatos comuns) só reagem bem diante de reforços positivos: comida e carícias (preferem comida, todavia).
Os cães, por exemplo, foram domesticados muitíssimo antes dos gatos serem adoptados como animais de companhia e o apuramento de diversas raças domésticas de gatos é uma prática que remonta há, apenas, cento e cinquenta anos - é por essa razão que os gatos comuns e os gatos selvagens africanos são, praticamente, idênticos (inversamente aos cães e aos lobos).
Os cães foram seleccionados artificialmente para serem bons soldados, para terem um elevado sentido de obediência e tolerância total para com os caprichos dos donos que, hierarquicamente, lhes são superiores. Evoluíram para criar relações verdadeiramente simbióticas com as pessoas, ao ponto de algumas raças caninas terem desenvolvido sobrancelhas proeminentes de modo a serem capazes de comunicarem com mais eficácia: estes animais sabem interpretar expressões faciais humanas e como agir em conformidade com elas, mesmo que nenhum comando verbal ou gestual lhes seja dado pelos donos. Por outro lado, os gatos têm rostos inexpressivos e também não distinguem os rostos humanos uns dos outros, por isso é inútil avaliar o comportamento ou o estado emocional de um gato através do seu rosto ou tentar que ele nos entenda por via das nossas expressões faciais.
Os gatos comunicam connosco, quase em exclusivo, através de linguagem corporal: temos de aprender a interpretar os gestos que fazem com as orelhas e com as caudas. Alguns são idênticos aos da linguagem corporal canina, mas os significados são muito diferentes; por exemplo, os cães abanam horizontalmente as caudas para demonstrar contentamento, mas quando os gatos fazem o mesmo gesto estão a demonstrar irritabilidade ou ansiedade. Ao contrário dos cães, os gatos não entendem o gesto humano de apontar-se com um dedo certos objectos ou locais: apenas fitam o dedo, como se seguissem uma presa (e, às vezes, atiram-se a ele). Quando se quer chamar a atenção de um gato para alguma coisa é preciso olhar directamente para ela ou atraí-lo nessa direcção com um brinquedo para gatos.
É verdade que são muito teimosos, porque os lobos frontais dos seus cérebros são pequenos, o que significa que quando se fixam num determinado comportamento demoram muito tempo para esquecê-lo, porque não são capazes de pensar em mais nada - o multitasking não é para eles. Um gato assustado ou furioso é capaz de permanecer nesses estados durante um dia inteiro. 

Porém, os gatos são criaturas sociais, embora de uma ordem diferente da dos cães. O gato selvagem africano evoluiu para caçar presas pequenas, como insectos, pássaros e ratos, e é por essa razão que os gatos, ao contrário dos leões - ou dos lobos - não caçam em grupo: não faz sentido caçar-se um rato em grupo, porque ele é uma presa que, por culpa do seu tamanho, somente alimentará um predador. Ora, quando não existe a necessidade de caçar em grupo, deixa de existir a necessidade de organizar o bando numa hierarquia rígida (como uma tropa) e é por essa razão que as colónias de gatos selvagens e as de gatos ferais (gatos outrora domésticos que reverteram para o estado selvagem) possuem estruturas sociais muito mais plásticas que as alcateias. Ainda assim, os gatos comuns são animais territoriais e hierárquicos e os donos que tenham cautela ao ignorar essas naturezas.
Ainda não se sabe como é que gatos e pessoas se aproximaram, mas é possível que tenham sido úteis para manter pragas à margem dos núcleos habitacionais. Esta explicação é satisfatória, porque esclarece a razão pela qual os gatos ainda hoje se mantém semi-selvagens: em essência, foram adoptados para fazerem por nós aquilo que já faziam por eles próprios; logo, nunca existiu pressão para tornarem-se mais sociais. Adoptámos os gatos para serem caçadores, o que tem funcionado bem, porque os gatos vivem para matar pequenas presas - sempre. É a alegria deles. Se não têm presas pequenas à disposição, irão inventá-las. Para caçá-las, têm garras muito afiadas.
Os gatos não têm unhas: têm garras - tal como os leões e os tigres. Elas são como anzóis, evoluíram para a predação e irão ser usadas, dê por onde der. Extrair cirurgicamente as garras de um gato é um acto bárbaro que implica a amputação das falanges e cria animais mutilados e miseráveis que nem sequer são capazes de usar uma caixa de areia para eliminarem os seus dejectos: quem não quiser ter um gato com garras é melhor não ter um gato.

Os gatos bebés (até um ano de idade) são muito rebeldes, mas, ao crescerem, criam laços emocionais intensos com os donos, principalmente com os indivíduos que os alimentam. (É o reforço positivo de que falei há umas linhas.) São criaturas sensíveis que somente dão o que recebem: nesse aspecto, um animal inesperado com o qual podem ser comparados é o camelo. De todos os animais semidomesticados, os camelos são extremamente intolerantes a maus tratos e vingam-se sem hesitações de quem se esquece de abordá-los com delicadeza. (Talvez ferver em pouca água seja uma prerrogativa de animais que evoluíram em climas quentes.)

Seja como for, ter um gato é como ter em casa um pedacinho de um mundo ainda selvagem: um mundo onde felinos intrépidos subjugam répteis lendários.
   

segunda-feira, 29 de julho de 2013

LOUD! de Agosto nas bancas


"Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno", diz o pregão - e o olhar lapidescente de Phil Anselmo, capaz de gelar a espinha a um senhor feudal, diz-nos que nem sequer precisamos de consultar o almanaque Borda d'Água para nos certificarmos que esta entrada no oitavo mês de 2013 não contradirá a sabedoria popular: no universo da música pesada, a atmosfera está bem abacinada, como é costume e como deve ser.
Assim, creiam que a LOUD! de Agosto já é a nuvem mais negra de um Verão que todos os prognosticadores caracterizaram de "anti-Verão", por excelência: ora, nenhum deles previu que a tempestade traria, de uma só vez, entrevistas com Watain, Gorguts, Deafheaven, Revocation e, sobretudo, com Phil Anselmo, conhecido do público generalista por ter sido o vocalista de Pantera, mas que, nos últimos anos, revelou ser uma das personalidades mais versáteis e criativas do Metal. O mote para a entrevista exclusiva, de seis páginas, que deu à LOUD! é a edição do seu novo disco a solo Walk Through Exits Only.

Para tornar o clima ainda mais castigador, este número da revista traz uma crónica minha, como é habitual, na minha secção Consultor Funerário. É uma observação histórica para ser lida em cotejo com os acontecimentos recentes das últimas semanas: consiste num contributo para que ao mesmo tempo que se tire a areia das sandálias também se tire a areia dos olhos. Ou seja: que a rentrée nos encontre a todos ainda mais argutos, informados e inconformados do que temos estado.
 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Anjos, Velhos e Novos


Quando alguns leitores de 1955 leram os trechos respeitantes ao exército espectral de Dunharrow, instrumentalizado por Aragorn para derrotar os corsários de Umbar, no recém-publicado livro The Return of the King, de J. R. R. Tolkien, a terceira parte da trilogia de literatura fantástica The Lord of the Rings, deverão ter-se lembrado naturalmente dos ainda eminentes “Anjos de Mons”, os reforços celestiais que acudiram a um pequeno corpo expedicionário britânico, ajudando-o a fugir com segurança das mais numerosas tropas alemãs, na batalha travada perto da cidade belga de Mons, a 23 de Agosto de 1914.
Essa soldadesca sobrenatural era constituída por arqueiros ingleses mortos na Batalha de Agincourt, ocorrida a 25 de Outubro de 1415, no local onde hoje se situa a contemporânea cidade e comuna de Azincourt, no Norte de França. Nessa batalha – episódio da famosa “Guerra dos Cem Anos” (na verdade, durou cento e dezasseis anos) –, o jovem rei inglês Henry V derrotou o numeroso exército francês liderado por Charles I de Albret, condestável da França, inaugurando um interregno na imperante hegemonia francesa; a fortuna de ser-se salvo por corajosos companheiros de armas, provenientes do outro mundo, inspirou, pois, a imaginação inglesa nas trincheiras da Primeira Grande Guerra.
            O relato estreou-se a 29 de Setembro de 1914 no jornal vespertino inglês The Evening News (o primeiro jornal do mundo a ter telefone), editado nessa altura pelo jornalista Walter J. Evans, mas não menciona nenhuns anjos; com efeito, a notícia, intitulada The Bowmen, descreve de modo explícito que os agentes sobrenaturais «cintilantes» são os arqueiros fantasmas de Agincourt, liderados por São Jorge (de modo geral, os santos são personagens que não gozam de grande popularidade no culto inglês, mas, enquanto ícone nacionalista, São Jorge beneficiava do afecto popular). O bosquejo dos archeiros fantasmagóricos como sendo anjos foi desenhado pelos eclesiásticos que, poucos meses após a publicação da notícia, disseminaram-no entre as suas paróquias sob a forma de panfletos. Em principal, o relato intitulado A Troop of Angels, publicado a 3 de Abril de 1915 no jornal paroquiano Hereford Times do condado de Herefordshire, foi decisivo em estabelecer a identidade angélica dos intervenientes além-tumulares: nessa narração, uma jovem chamada Miss Marrable conta as experiências que dois soldados ingleses, presentes no corpo expedicionário salvo por “anjos” em Mons, lhe confidenciaram, inclusive uma descrição de como as tropas alemãs se paralisaram pelo terror ao serem acostadas pelo magote miraculoso.
Diversos jornais britânicos também reproduziram o texto original, discorrendo sobre ele com as mais imaginativas interpretações – chegou a revelar-se que o exército alemão ocultara a informação de que se encontraram flechas nos corpos dos soldados mortos a 23 de Agosto de 1914. Isolado no onfalo da voragem dessecretista, o autor da notícia continuava a ser interrogado por leitores ávidos de mais pormenores, porém o texto não era notícia nenhuma, mas um conto: uma ficção inventada pelo conhecido escritor galês Arthur Machen, que, desde 1910, trabalhava como jornalista para o The Evening News.
Machen sempre disse que o seu conto The Bowmen era apenas uma ficção, sem nenhum referente real, mas isso não impediu que a lenda dos “Anjos de Mons” ganhasse com rapidez um ímpeto e uma dimensão incomuns, firmando-se com solidez na psique popular como um verdadeiro episódio de intervenção divina – aliás, não faltou quem insultasse o próprio autor por tentar denegrir com calúnias a verdade sobre os “anjos patrióticos” e até alguns soldados ingleses, sobreviventes da Batalha de Mons, contaram à impressa que os “anjos”, de facto, os ajudaram a retirar-se do campo de batalha. Também em 1915, o conhecido escritor conservador Edward Harold Begbie publicou um livro intitulado On the Side of Angels, no qual acusou Machen de lucrar com verdadeiras visões espirituais, transmitidas telepaticamente por desgraçados soldados na frente de batalha e que ele sintonizara.
Em tempos de carestia, como o da Primeira Grande Guerra, é natural que os indivíduos desesperados sintam maior disponibilidade para encontrarem conforto junto de ideias marginais que refutariam em melhores circunstâncias. Em Portugal, por exemplo, o fenómeno das aparições de Fátima, cuja data principal de 13 de Maio de 1917 se inscreveu na sequência da partida do corpo expedicionário português para França, pede para ser cotejado com o dos “Anjos de Mons”.
Hoje, a secularização da sociedade não permitirá, certamente, um levantamento de massas de ordem similar em torno de um tema de natureza religiosa, mas os mecanismos que promovem a aceitação do inverosímil também funcionam com o pensamento político, como comprovou a emergência dos nacionalismos durante o século XX. Ao contrário dos nossos antepassados, somos demasiado rebuscados para acreditarmos nas chamadas grandes mitologias formativas, mas, por outro, talvez sejamos mais lestos que eles a acreditar em informação contrafactual desde que ela vá ao encontro daquilo que sentimos, porque, hoje, os sentimentos substituíram os factos e qualquer ficção difundida sem análise poderá ser, tal como o conto de Machen, lida como sendo verdade histórica. 
Por um lado não duvido de que isso acontecerá, mais tarde ou mais cedo. Por outro, prefiro não ser testemunha dos “anjos” que o século XXI poderá trazer.

Crónica publicada originalmente no número doze da Revista BANG! (Saída de Emergência).

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Invenção da Existência: o ponto de vista de um escritor sobre o Novo Acordo Ortográfico

Com o objectivo de legitimar o chamado Novo Acordo Ortográfico, a volubilidade da língua tem sido nomeada, até à exaustão, pelos pugnadores dessa modificação – nos quais eu não me inscrevo –, para justificar os transtornos que o supramencionado acordo intenta implementar. A partir daqui, em vez de discutir esses desméritos, prefiro desviar a crónica para outro caminho e chamar a atenção para a ideia que tem sido difundida enquanto suplemento de todo o debate: a de que a língua muda de modo orgânico, consoante o seu emprego no dia-a-dia. É errado: o que muda é a oralidade – a maneira como a língua é exposta diariamente, sempre com atalhos, abreviações e conveniências de carácter prático que têm como fito facilitar a comunicação.
A repetição dos vocábulos através dos tempos cria sempre cópias imperfeitas; não no sentido de que são incorrecções, mas no de que, por vezes, se afastam largamente da matriz e até adquirem significados diferentes dos originais. (Um dos exemplos mais comuns da perda de sentido é o da expressão latina ad hoc, por exemplo, que significa para um fim específico e que acabou por revestir-se com a acepção adversa de desordem.) Quando é a língua, em si, a mudar, ela fá-lo pela mão de quem a labora: os escritores.
Todas as línguas são revitalizadas na página pelos seus autores. Existe, literalmente, uma língua inglesa anterior e posterior a Thomas Browne e John Milton; uma língua francesa anterior e posterior a Michel de Montaigne e François-René de Chateubriand; um português anterior e posterior a Luís de Camões e Aquilino Ribeiro. A língua não muda como se fosse um terreno desamparado, mas às mãos de jardineiros inteligentes que combinam as espécies para que frua algo notável.
A língua portuguesa é, em simplificação, uma corruptela popular do latim – um latim “labrego”, tal como o francês e o italiano: dialectos que, quando cotejados com o latim erudito, se chamavam “linguagens”. (O mais antigo documento escrito em “linguagem” portuguesa data de 1175 e é propriedade do acervo do Mosteiro de São Cristóvão da cidade de Rio Tinto, na freguesia de Gondomar, distrito do Porto: consiste numa “notícia” de fiadores que pertenceu a Paio Soares Romeu.) Ao ritmo do avanço da Idade Média, as linguagens europeias foram sendo sistematizadas pelos seus escritores: em maior espessura, pelos escolásticos que coordenaram as gramáticas. Até o latim erudito não foi excepção: existe um latim anterior e posterior a Marco Túlio Cícero, que, no século I a. C., dedicou os últimos anos de vida à construção de uma língua que se superiorizasse ao grego.
Na peugada de Cícero, os monges completaram um trabalho extraordinário de composição da língua latina, engendrando neologismos diversos e até reinventando o verbo “existir”, que no latim clássico significava apenas aparecer, criando ainda o conceito de entitas como sendo o da existencialidade. Sem as inovações destes escritores pioneiros, a interrogação da existência – aquilo que em alemão se designa por seinsfrage – não seria possível e nunca teríamos lido o Hamlet de Shakespeare e o Walden de Thoreau, nem os escritos de Kierkegaard e de Sartre, muito menos os de Heidegger e de Wittgenstein; os romances de Dostoiévski seriam livros muito diferentes – e nunca teria havido um Dom Quixote.
Todas as palavras retocadas e os neologismos burilados pelos escritores nos seus livros é que fabricam a língua: esta não se faz na rua, ao contrário do que anda a ser dito, mas nas escrivaninhas dos escritores.

(Crónica publicada originalmente no número 133 da Revista LOUD!, em Abril de 2012.)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Nova crónica no número 133 da revista LOUD!


O número 133 da revista LOUD! sai esta semana.

Além dos inúmeros artigos e entrevistas interessantes (uma nova entrevista com Thormenthor - quem se lembra do fantástico Abstract Divinity?) e uma capa surpreendente (não é a que está na imagem), esta edição conta com a minha crónica regular Consultor Funerário.

Desta vez, apresento-vos um texto intitulado A Invenção da Existência que versa sobre o tema do dito Novo Acordo Ortográfico, mas por uma via que ainda não foi falada na nossa praça (pelo menos que eu tenha lido). É, sobretudo, uma verdade muito evidente e que eu achei que já urgia ser abordada. Às vezes, é fácil esquecer o essencial: azar dos tecnocratas eu ser um tipo completamente obcecado pela minúcia histórica.

sábado, 21 de janeiro de 2012

As minhas crónicas na nova revista LOUD

A revista LOUD! mudou e aparecerá rejuvenescida na sua edição de Fevereiro. Umas das mudanças é que passará a contar com uma crónica regular minha, intitulada Consultor Funerário: será um espaço de cultura, provocação e liberdade.
Agradeço à equipa da revista LOUD! o gentil convite, que aceitei com todo o gosto. O cabeçalho tétrico é da autoria de André Coelho. Convido-vos a descobrir a nova LOUD! e as crónicas do seu "Consultor Funerário".

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pais da Ficção Científica


Em From Paralysis to Fatigue, Edward Shorter enuncia a existência de “reservatórios de sintomas”: aglomerados ideais, preenchidos pelas tendências predominantes dos períodos que permeiam. São, em simultâneo, influenciáveis e influentes. Faz sentido falar em “sintoma”, porque a palavra também significa “presságio”; logo, as mutações que afectarão a sociedade poderão ser calculadas pelo estudo do “reservatório de sintomas”.

Nas primeiras décadas do século XIX, os Estados Unidos foram desinquietados pelo Segundo Grande Despertar: revivalismo religioso, de natureza arminiana, que quis repor o rigor protestante, perdido em favor do agnosticismo estimado pelos Pais Fundadores. Foi um período em que a ciência manteve a orientação de que deveria glorificar o desígnio de Deus. Entre os astrónomos americanos e europeus, a maioria era composta por teólogos crentes num pluralismo cósmico teísta (como William Herschel, descobridor de Úrano e da radiação infra-vermelha), sob o qual o universo era populado por raças tementes a Deus. Reverendos astrónomos, como Thomas Dick, acreditavam que a Lua era habitada por uma civilização isenta de pecado (Dick até calculou que ela perfazia o número de 4,2 mil milhões de indivíduos) e Von Littrow e Friedrich Gauss arrogaram ser possível comunicar com os selenitas. A crença no povoamento da Lua foi aceite por todos como provável: fez parte do “reservatório de sintomas” desse tempo.

Em Agosto de 1835, o jornal nova-iorquino The Sun publicou uma série de artigos sobre a descoberta do astrónomo John Herschel (filho de William Herschel), isolado na África do Sul. Lendo o seriado, intitulado Great Astronomical Discoveries Lately Made by Sir John Herschel, L.L.D. F.R.S. &c. at the Cape of Good Hope, o público ficou a saber que a Lua tinha florestas, lagos e era habitada, entre outras espécies (como castores bípedes), por inteligentes híbridos de humano com morcego, capazes de construir igrejas. Graças a um novíssimo procedimento óptico (descrito ao detalhe), que permitia a magnificação das imagens telescopiadas sem que perdessem definição, Herschel desvendava que o homem não estava sozinho no sistema solar. The Sun, criado em 1833 por Benjamin Day, já revolucionara cabalmente o modo de fazer jornalismo, ao lançar-se no mercado em pequeno formato e com custo de um penny: foi o primeiro diário popular, com características actuais, e as novidades sobre os selenitas transformaram-no no título mais vendido. À edição episódica advieram as panfletárias, com litografias dos homens-morcegos voando entre vulcões, lagos e cascatas lunares. Os restantes periódicos norte-americanos (e europeus) não perderam tempo em republicar o material na integralidade, mas James Gordon Bennett, proprietário e editor do diário nova-iorquino Herald, concorrente do The Sun, não acreditou na descoberta e iniciou uma campanha para que Richard Adams Locke (editor do The Sun) assumisse a autoria das espantosas “noticias”. Com efeito, fora Locke a escrevê-las; e em 1840, numa crónica publicada no semanário New World, assumiu que quisera satirizar a crendice com que a ciência, em particular a astronomia, era praticada nas academias, mas, infelizmente, ninguém compreendera o ponto de vista. O seu único trabalho ficou conhecido como Grande Embuste da Lua.


Foi o “reservatório de sintomas” da época, recheado com a crença na Lua habitada e a exuberância da emergente imprensa popular, que serviu de placenta ao desenvolvimento de um inédito género literário que iria aperfeiçoar-se no início do século seguinte. No dia 3 de Setembro de 1835, Bennett escreveu no Herald um artigo intitulado A New Species of Literature: nessas linhas, cunhou o estilo de Locke como sendo «scientific novel». O seriado foi pioneiro na descrição meticulosa de uma tecnologia óptica especulativa que credibiliza a história do ponto de vista científico: o texto suspende-nos a descrença porque ciência e ficção se entrosam com harmonia – e esse cruzamento aparece pela primeira vez pela mão de Locke, assim como a designação «scientific novel», inventada pelo editor rival Bennett, antecipa em quarenta e um anos a de «scientific fiction», criada por William H. L. Barnes na introdução que escreveu para a colectânea de homenagem póstuma a Caxton (W. H. Rhodes), e em noventa e um anos o uso dado por Hugo Gernsback no primeiro número de Amazing Stories. Conclui-se que Locke, com o estilo inédito, e Bennett, com a designação que lhe deu, foram os pais remotos da ficção científica.


Locke atreveu-se a imaginar sobre a Lua e num precursor jornal popular mostrou-nos como imaginar o século XX. Sem Locke talvez não houvesse Verne e Wells e sem os seriados e folhetins do The Sun talvez não houvesse fanzines, nem weblogs. A Lua deu-lhe ainda oportunidade de usá-la como alegoria de uma sociedade sem escravos, num momento em que Nova Iorque era a cidade mais sulista dos estados do Norte. A especulação fantástica podia, afinal de contas, falar de problemas reais.

O período supracitado, cheio de convulsões, prova que só o fantástico pode salvar a cultura de tornar-se o epifenómeno subserviente de um mercado cada vez mais volúvel e falsamente personalizado. É olhando para a Lua, domínio argênteo da Imaginação, que se pode observar sem cegueira a luz do Sol, radiância dourada da Obra.

Fantasiando, planeia-se o futuro.

(Crónica publicada originalmente no nº 11 da Revista BANG!, editada pela Saída de Emergência.)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Os Livros das Minhas Vidas

Para ser sincero, um convite para falar sobre os livros da minha vida soa como o som trítonocárpico das falanges da mão da morte a bater-me à porta, pois se a invitação se refere aos livros da minha vida, então tenho de aceitar que ela está perto do fim e não vou ter tempo de ler mais nenhum título: mortis en solatium. Talvez. De qualquer das formas, os livros da minha vida – no mínimo da que vivi até este momento; e no limite até ao final da escrita deste texto – não são apenas os livros que eu li, mas aqueles que escrevi. De uma forma ou de outra, os livros são uma parte muito importante da minha vida, porque a leitura e a escrita são duas ocupações às quais devoto a maioria das horas. No início deste parágrafo empreguei o verbo falar, porque é isso mesmo que estou a fazer convosco: a contar-vos um bocadinho de que é feita a minha experiência com os livros. Apenas um bocadinho – é, somente, uma precaução da minha parte, de modo a evitar a insolvência de memórias e garantir que me sobra algo sumarento para pagar ao barqueiro, porque o maior pecado que se pode cometer, mesmo depois de morto, é o da negligência.

Aprendi a ler com a banda desenhada Donald e as Formigas, de Carl Barks, publicada em Portugal pela Editora Abril/Morumbi no número 1500 da série quinzenal Pato Donald. Decorria o ano de 1981, e eu, sentado no sofá da sala de estar da casa dos meus pais, observava com atenção as vinhetas e tentava decifrar as palavras contidas nos balões. Então, num momento inesquecível, que eu só posso comparar com o acender de uma luz dentro da minha cabeça, as personagens deixaram de falar para os balões e começaram a falar para mim: compreendi que não estava a inventar os diálogos, como costumava fazer, mas a ventriloquar as verdadeiras vozes das personagens – estava a ler. O mérito foi, também, da minha mãe, porque ela mantinha a rotina de sentar-se comigo para me ler histórias; do Pato Donald, mas também do Mickey, do Musti e do Petzi. Ela ensinava-me a sonoridade das letras e como elas se harmonizavam e esses ensinamentos fizeram com que eu aprendesse a ler sozinho. Essa conquista primeva de infância foi um dos momentos mais importantes da minha vida, porque aprendi a lidar com palavras antes de ser capaz de me desembaraçar sozinho na casa de banho. Se a vida e a morte são um único movimento circular, prefiro, em simetria, no meu último leito, seja ele qual for, perder a elasticidade entérica em vez da elasticidade da imaginação. Por tudo isso, de modo inexcedível, esse número 1500 do Pato Donald, com uma capa que, à distância, me evoca até a heteronímia pessoana na multifaria de Donalds diferentes que a decoram, é um dos livros da minha vida.

Outra memória mucípara, resgatada desses tempos das criancices, prende-se com O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico, publicado pelas Selecções do Reader’s Digest, em 1977. Descobri-o em casa de uns tios, em meados da década de oitenta, e fiquei apaixonado pelos relatos assustadores que continha: vampiros, fantasmas, assassinos em série, exploradores do passado e do futuro, demónios e bruxas, monstros humanos, invenções fabulosas, extraterrestres, animais quiméricos… No final dessas visitas, os meus pais vinham resgatar-me do meu refúgio chegado à varanda, onde me sentava com o livro no colo, e eu, mais desconsolado que Jeremias, tinha que me separar dele. Passados poucos anos, em outra visita, convenci os meus tios a emprestarem-mo. (É claro que ainda o tenho.) Muito, muito, muito texto desse livro saboreei ao longo de tardes que pareciam imensas, enquanto comia bolachas Catraias da Triunfo, com os signos do Zodíaco, barradas com manteiga. Acho que aquilo que esse livro me mostrou foi que era possível as maravilhas e as monstruosidades existirem no mesmo mundo: uma histonomia excêntrica, composta de sofisticação cosmopolita e folclore medonho. Também é um livro que, de certo modo, me influenciou a ser céptico, porque apresenta inúmeras secções que desmistificam historietas e lugares-comuns da História: verbetes que eu acho fascinantes. A mistura de proto-esoterismo, História, ciência e fantasia abarcada pelo O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico faz dele, sem dúvida, outro dos livros da minha vida.

A memória é a única língua com a qual podemos falar com os mortos e os sonhos são os únicos lugares em que os podemos encontrar; às vezes, perder alguém é perder uma âncora que nos agarrava a um determinado local e encontrar o pé, novamente, dá trabalho, mas encontrá-lo é preciso. O terceiro livro da minha vida que me lembrei de vos falar é um pequeno volume, que estava na casa do meu avô, e que se chama Doenças dos Bichos de Nogueira de Araújo, publicado pelo Ministério da Educação Nacional, em 1973. O subtítulo é Memórias de um Veterinário Rural e consiste num comedido compêndio no qual as informações zooterapêuticas são veiculadas através de histórias ilustradas. Não faço ideia porque é que os meus avós tinham esse livro, mas sempre o achei hipnotizante; em especial, a ilustração de um cavalo infectado com tétano, acompanhada pelo retrato detalhado do bacilo anaeróbio responsável. Lembro-me de passar uma tarde de Sábado em casa dos meus avós a ler o Doenças dos Bichos e a desenhar o Homem Elefante, do filme homónimo de David Lynch, que passara à noite nessa semana. Lembro-me desse desenho: era uma criatura careca e deformada, com mãos minúsculas e olhos tão esbugalhados quanto os do Cão Grande do conto fantástico de Andersen – muito diferente do protagonista da película, mas era assim que eu achava que um verdadeiro Homem Elefante deveria ser. Com curiosidade, procurava no Doenças dos Bichos a sua estranha patologia, que um vizinho que estava de visita erroneamente me disse ser elefantíase.

Os livros da minha vida são, também, como indica o título desta rubrica, os das minhas vidas, porque as pessoas que fui quando os li e quando os escrevi são um pouco diferentes da que sou neste instante. Porém, tanto uns como os outros são melhores que os sonhos em que podemos visitar os nossos mortos, porque basta tirá-los das estantes para conversarmos com versões mais jovens, mais optimistas e mais ousadas de nós próprios. Versões que já morreram, evidentemente, mas é mantendo essas presenças do passado na biblioteca que construímos carácter e perduramos no tempo. Escrever é trancar a porta pela qual a morte quer entrar, mas ler é abrir janelas.

(Texto publicado originalmente no número nove da Revista BANG!, editada pela Saída de Emergência.)