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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Com dor de barriga no Presépio

 
As origens da noélica tradição catalã (e não só) que consiste em introduzir de modo escondido no presépio a figura de um camponês agachado a defecar, denominado de El Caganer, estão longe do esclarecimento, mas admitindo que ela poderá comunicar com múltiplas aportações, a maioria provavelmente perdidas, dá espaço à minha especulação que essa personagem, na qual, com latitude exagerada, alguns intentam explicar como sendo uma alegoria da fertilidade, se poderá relacionar — de modo directo, o que é mais tentador, ainda — com imagens da estirpe que aqui publico em anexo e que representam exemplos morais ou críticas de maus comportamentos; neste caso, a estultícia do pecador e os vícios que vai alimentando.

Não obstante essas incertezas, o significado que subjaz a esta prática popular vestir-se-á de grande beleza, em profundo contraste com o aspecto escatológico pelo qual é reconhecida: Cristo é presença sobrenatural, mas oferecida de modo orgânico e material ao mundo — a este mundo também orgânico e material —, sem que exista, para o efeito, um momento particularmente especial ou singularmente mais dignificante; assim, a presença de um homem que defeca no exacto instante em que Deus feito carne é trazido à Terra na sua vizinhança representa a generosidade imensa dessa mitologia fundacional do cristianismo, segundo a qual a divindade vai verdadeiramente ao encontro da humanidade, em todos os aspectos corpóreos, imperfeitos, vergônteos que a caracterizam — pois se é de assumir que no momento em um indivíduo morre, outro está a nascer, outros poderão estar a fazer amor, outros a comer e outros a defecar, por que razão seria diferente para um deus tornado ser humano, que tem como missão, precisamente, crescer e morrer como um deles, de molde a que o inefável aprenda o que isso é? El Caganer, personagem boçal, cruenta, de opaca organicidade, ensina-nos que todos os instantes são dignos o suficiente para que um deus decida nascer. Tudo é Criação. Tudo é perfeito. Qualquer hesitação é apenas vaidade.

domingo, 15 de maio de 2016

Incineramento de igrejas em Espanha

Porque hoje estive a desenvolver em conversa o intrigante tema dos incineramentos espanhóis de igrejas na transição do século XIX para o XX - muito antes sequer do período da primeira república espanhola -, recupero um texto em que escrevi sobre o assunto. (A imagem em anexo é de uma cronologia posterior, precisamente o da primeira república espanhola, mas transmite eficazmente o sentimento evocado no texto.) A ler:

«Para nós é útil conhecer bem a história de Espanha, porque grande parte dos movimentos da história de Portugal só fazem sentido se forem observados sob a lente do conflito entre a independência dos vários reinos peninsulares, face à hegemonia com que Castela sempre tentou pressioná-los para os dominar, mas também porque esta é, em mais do que meia-dúzia de aspectos, radicalmente diferente da portuguesa. Para o efeito desta crónica interessa pensar sobre a perda do império espanhol, cerca de 1898, após a guerra com os Estados Unidos, circunstância que serviu para voltar os militares espanhóis, postos ao lado da elite conservadora, composta pelo exército, coroa e clero, contra os populares. Situação que não foi, em si, novidade, porque a tropa ociosa mormente foi instrumento de desordem e tirania, mas, nessa altura, com um general por cada duzentos e cinquenta soldados, o exército espanhol era o mais miserável da Europa – e aquele que custava mais dinheiro a manter. Uma das prerrogativas especiais desse magote de mercenários foi a de condenar civis em corte marcial, regalia largamente utilizada para eliminar vozes críticas, ódios de estimação e quaisquer tipos de indesejados. Entre a massa de trabalhadores rurais e a menor mole de operários urbanos – uma tão provinciana quanto a outra – fermentou ainda mais a desconfiança pelo estado e seus agentes repressivos, que a plebe espanhola sempre cevou, sem pejo de verter sangue, como ainda hoje é possível testemunhar na comunicação social. Daí que, mais do que o apelo da revolução comunista, tenha sido o recurso às tácticas de guerrilha anarquista a medrar entre os rústicos e os assalariados cosmopolitas, ambos desincorporados de qualquer grande organização – na realidade, o anarquismo medrou com maior intensidade na Espanha do que na própria Rússia.

O baixo clero, recrutado entre o povo, continuava a ser tão pobre quanto os paroquianos, enquanto o alto clero, cúmplice de charneira dos grandes proprietários e da monarquia (dividida entre as facções isabelina e carlista, igualmente reaccionárias e sanguinárias), vicejava no luxo e no abuso sem limites de poder: bispos e arcebispos eram nomeados pela coroa e sustentados por volumosos subsídios, oficialmente contratualizados pela Concordata de 1851, assinada entre a lasciva Isabel II e o mariano Papa Pio IX (promulgador do dogma da Imaculada Conceição). Além disso, ilimitados membros do clero faziam parte dos governos e inspeccionavam a sociedade através de um aperto sufocante nos seios das famílias, controlando a vida de todos os dias. Talvez resida aqui a escolha dos revoltosos espanhóis de queimar igrejas, em vez de instituições de carácter estatal, como solares, câmaras municipais, quartéis, estações de comboios, postos de correios ou até prisões. Documentou-se, no mínimo, seis grandes ocorrências de fogos postos em igrejas em Espanha, entre 1808 e 1936, ateados tanto por resistências de esquerda como por forças de direita. A uni-las esteve a religião católica, o que é espantoso e, sem dúvida, um dos casos mais estranhos da história ocidental contemporânea.»

(Adaptação de uma crónica publicada originalmente na revista LOUD! de Abril de 2015.)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Laranjada*


Confesso o meu mau feitio: não considero que países cujas formas de governo se apresentem como sendo monarquias constitucionais sejam democracias autênticas. São monarquias: somente não são absolutistas, mas não deixam de ser monarquias. No entanto, a democracia é, mais do que um sistema de governo, o múnus de um certo estado de coisas. Por exemplo, Portugal, que é um país democrático - para ser mais preciso, é uma república semipresidencialista - ainda possui certos tiques pouquíssimo democráticos (como, aliás, se pode ir vendo, infelizmente). Tudo isto para comentar os recentes acontecimentos políticos de Espanha.

Ora, a Espanha só é Espanha, propriamente dita, desde 1876, porque somente em Junho desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente Espanha: até aí era o Reino das Espanhas, que é algo bem diferente. De facto, até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma: existiram vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar no século XVI a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Existe documentação portuguesa (e não só) coeva em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de marketing - que funcionou. Existem países que ainda pensam que Portugal faz parte de Espanha ou que se tornou independente dela há pouco tempo, mas a verdade é que a Espanha é que foi criada "ontem" e colada com pouquíssima convicção, como se torna evidente pelos actuais ânimos catalães e outros (Madrid já se pronunciou contra o referendo que a Catalunha quer fazer a 9 de Novembro pela sua independência).
Enfim, a cerimónia de proclamação de Felipe VI foi algo anacrónica, um pouco beata, mas "democracia" não foi palavra que, em definitivo, me veio à lembrança, apesar de ser conspícua no discurso da comunicação social que, deslumbrada, comentava o evento.


E a imagem do Manuel Godoy é só para lembrar aos mais distraídos que existe ainda uma questão chamada Olivença. Parecendo que não, aborrece um bocadito.

* Em calão quinhentista português, uma laranjada não é a bebida feita com o sumo de laranjas espremidas, mas o nome que se dá ao acto de atirar uma laranja - podre, de preferência - à cara de alguém. Isto em referência à chamada Guerra das Laranjas, que os mais historicamente atentos deverão conhecer.