Vi uns episódios da série The Bible, em que
Diogo Morgado interpreta Jesus Cristo, transmitida no passado fim de
semana pela SIC. Eu sou ateu, mas gosto de estudar textos religiosos e
conheço bem a Bíblia, logo fiquei surpreendido com as lacunas de
episódios bem importantes e o tratamento elíptico dado a outros. Além de
ser uma versão da Bíblia muitíssimo family friendly...
Por exemplo, o
segmento da série em que o Rei Saul manda David matar cem filisteus
para ganhar o direito a casar com a sua
filha Mical não corresponde à narrativa bíblica, na qual Saul, de modo
explícito, pede a David que lhe traga os prepúcios de cem filisteus (por
que raio quereria Saul cem prepúcios de filisteus é algo que nunca nos é
esclarecido): todavia, nenhuma referência a este pedido nos é dada na
série e Saul até olha com algum nojo para dentro do saco que David lhe
entrega (os espectadores desconhecedores do texto original não adivinham
o conteúdo), o que consiste numa reacção totalmente oposta ao carácter
da personagem. Juntando esta elipse a outras anulações dos versículos
selváticos do Antigo Testamento, concluo que esta série é uma adaptação
ligeirinha e à la carte dos textos bíblicos, como se, hoje, em pleno
século XXI, os próprios crentes sentissem embaraço ou pudor com o
conteúdo do livro em órbita do qual organizam a sua vivência, o que pode
bem ser um sinal de que, no fundo, até eles reconhecem que é uma crença
totalmente anacrónica e apartada da realidade dos nossos dias. Outra
prova que suporta esta conclusão é o facto de que nestas novas produções
nunca é mostrada a ascenção corporal de Cristo, como se a imagem de um
homem flutuante fosse, para os crentes de hoje, demasiado inverosímil: a
ascenção é sempre mostrada do ponto de vista de Cristo - para garantir a
identificação com o espectador, de maneira a reduzir uma possível
reacção negativa - ou através da sobreposição de imagens abstractas,
relacionadas com a vida de Cristo, transformando a ascenção numa espécie
de analepse pessoal que se passa na cabeça do Messias.
Mas mesmo com as reduções e invisibilidades exercidas sobre o conteúdo mais intragável e virulento do Antigo Testamento, continua a ser notório que o Novo Testamento é uma progressão extraordinária em relação a esse material racista, misógino, neofóbico, homofóbico, paranóico e perigoso. A mensagem de Cristo - antes de Paulo, apenas uma heresia judaica, pensada por judeus para judeus - é um corte revolucionário com a lei mosaica. Há boas probabilidades de, com efeito, ter existido um Cristo histórico, embora muito diferente do relato plasmado nos evangelhos e, sobretudo, muitíssimo diferente da figura de Diogo Morgado e da concepção tradicional do Cristo que nos habituámos a ver na arte europeia - que é, exclusivamente, alegórica.
O Cristo histórico foi, provavelmente, um híbrido de profeta milenarista, como João Baptista, a quem roubou protagonismo, e guerrilheiro ao estilo de Che Guevara, que começou por pregar uma mensagem inédita e inclusiva de amor ao próximo, totalmente diferente da lei mosaica, mas que, no final da sua curta vida, se radicalizou e tentou, por meios mais violentos, trazer o tão esperado Reino de Deus para a terra.
Mas gostei da interpretação de Morgado: fiquei bastante surpreendido pela qualidade da sua composição e do seu inglês, perfeitíssimo. Em suma: a série não é grande coisa (ainda prima pelo plágio, ao copiar de modo descarado a aparição do Diabo - interpretado por um "sósia" do presidente dos Estados Unidos Barack Obama (alfinetada política de gosto duvidoso por parte dos produtores?) - durante as torturas de Cristo, como inventou o Mel Gibson em The Passion of the Christ), mas Morgado deu um bom Cristo fictício. Gostaria de ver uma série sobre o Cristo histórico: isso, sim, seria muitíssimo mais interessante.
Mas mesmo com as reduções e invisibilidades exercidas sobre o conteúdo mais intragável e virulento do Antigo Testamento, continua a ser notório que o Novo Testamento é uma progressão extraordinária em relação a esse material racista, misógino, neofóbico, homofóbico, paranóico e perigoso. A mensagem de Cristo - antes de Paulo, apenas uma heresia judaica, pensada por judeus para judeus - é um corte revolucionário com a lei mosaica. Há boas probabilidades de, com efeito, ter existido um Cristo histórico, embora muito diferente do relato plasmado nos evangelhos e, sobretudo, muitíssimo diferente da figura de Diogo Morgado e da concepção tradicional do Cristo que nos habituámos a ver na arte europeia - que é, exclusivamente, alegórica.
O Cristo histórico foi, provavelmente, um híbrido de profeta milenarista, como João Baptista, a quem roubou protagonismo, e guerrilheiro ao estilo de Che Guevara, que começou por pregar uma mensagem inédita e inclusiva de amor ao próximo, totalmente diferente da lei mosaica, mas que, no final da sua curta vida, se radicalizou e tentou, por meios mais violentos, trazer o tão esperado Reino de Deus para a terra.
Mas gostei da interpretação de Morgado: fiquei bastante surpreendido pela qualidade da sua composição e do seu inglês, perfeitíssimo. Em suma: a série não é grande coisa (ainda prima pelo plágio, ao copiar de modo descarado a aparição do Diabo - interpretado por um "sósia" do presidente dos Estados Unidos Barack Obama (alfinetada política de gosto duvidoso por parte dos produtores?) - durante as torturas de Cristo, como inventou o Mel Gibson em The Passion of the Christ), mas Morgado deu um bom Cristo fictício. Gostaria de ver uma série sobre o Cristo histórico: isso, sim, seria muitíssimo mais interessante.
