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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Sobre a (Des)União Europeia


Pense-se na câmara fotográfica digital, que funciona de modo totalmente diferente da analógica. Com efeito, nada daquilo que faz uma câmara fotográfica tradicional ser uma câmara fotográfica tradicional se relaciona com o vero funcionamento de uma câmara fotográfica digital. Num determinado aspecto, as possibilidades deixadas em aberto pela miniaturização de componentes técnicos digitais, mais similares a bairros citadinos ligados por estradas e travessas do que às engrenagens mecânicas dos anteriores modelos exclusivamente manuais, que tinham tudo a ver com a lógica de organicidade fabril, na qual diversos componentes isolados concorriam, em harmonia, para criar um corpo organizado - tanto no sentido de coerente, como no de provido de órgãos - não libertaram o design industrial das amarras do funcionalismo: ou seja, se uma câmara fotográfica digital funciona de um modo muito diferente de uma analógica, então a sua forma não precisaria de mimetizar a desta para justificar a sua existência ou, sequer, para funcionar. Uma câmara fotográfica digital poderia ser-nos apresentada segundo uma lógica de desenho e de utilização totalmente inédita; todavia, as expectativas do público, em relação à imagem arquetípica que uma câmara fotográfica deve ter para ser considerada, de facto, uma câmara fotográfica, tolhe, liminarmente, quaisquer audácias prototípicas com que um aparelho dessa natureza poderia consubstanciar-se nas oficinas das grandes marcas. Uma câmara fotográfica digital comum, daquelas que podemos comprar em qualquer loja de centro comercial ou hipermercado, ainda arreigada ao fenótipo das analógicas, sem, verdadeiramente, de precisá-lo, é, assim, um objecto de transição - sendo que "transição", neste sentido específico, não envolve nenhum real comprometimento com uma hipotética ligação entre um pretérito estado analógico e uma actual maneira de ser digital, porque essa ligação não existe, de todo. O que existe é mero disfarce. Um disfarce conveniente às vendas, porque o público que se dirige às lojas para comprar uma câmara fotográfica, seja digital ou analógica, não quer, em suma, ser confrontado com surpresas ou ambiguidades.

Será, pois, útil pensar nesta União Europeia, sobre a qual vemos e ouvimos na comunicação social, como uma entidade equivalente: tal como a câmara fotográfica digital somente se adapta por mimetismo à aparência da câmara fotográfica analógica, para ir ao encontro das expectativas do público, também esta União Europeia pouquíssimo ou nada terá a ver com aquela que existia há umas décadas, dando a entender que somente vai imitando, de maneira postiça, a aparência desta para ser capaz de manter-se operante diante do público. Os seus componentes internos, a sua fisiologia de funcionamento já mudou - como mudaram umas câmaras fotográficas para as outras - e nós, pobres cidadãos europeus, em certa medida iludidos pela carapaça benfazeja das fronteiras abertas e de todos os autênticos progressos do passado recente, não nos apercebemos disso - a tempo útil, pelo menos.
Assim, a poucos dias do referendo na Grécia, as horas são, em simultâneo, de perplexidade e de ansiedade. Portugal, por tudo o que se sabe, deveria estar muitíssimo atento aos próximos desenvolvimentos desta situação, mas, provavelmente, não valerá a pena manter ilusões nenhumas acerca da conjecturada camaradagem europeia, porque esta União Europeia, a destes indivíduos tão empáticos quanto torradeiras (e igualmente frios e automatizados) que nos entram em casa pelas televisões adentro, já demonstrou, activa e consecutivamente, que não é a da solidariedade e a da confiança e a da irmandade. Na verdade, tem demonstrado reiteradamente, e com timbre de torcionário, o contrário: que aquilo que continua a existir parece ser, afinal de contas, a mais prosaica e brutal razão de estado, prosseguida pelos estados-nações mais fortes nas mesmas fórmulas egoístas e desapaixonadas do passado, excepto o, vá lá!, avanço ético, diga-se assim, de não o procurarem fazer pela guerra, mas com armas também destrutivas e, demasiadas vezes, mortíferas (que o digam os gregos, cujo tecido social se encontra completamente esfarrapado pelas medidas austeras do chamado Consenso de Washington: camisa de forças, de medida única, fornecida pelo FMI, com a ajuda dos seus parceiros, que não se compadece com as idiossincrasias e fragilidades de cada país em que é aplicada).

Enquanto Portugal faz figura de Pobre Diabo no palco do teatro internacional, cujos críticos não lhe perdoarão a interpretação miserável que está a desempenhar, a Grécia prepara-se para, sem muito tempo para reflexão, servir de exemplo histórico àqueles que ousarem enfrentar o Leviatã. Continuo a acreditar num projecto europeu e continuo a ser, como é óbvio, um europeísta, mas tenho cada vez mais dificuldades em reconhecer-me nesta desgraçada União Europeia na qual as políticas, manifestamente, são as da profunda hipocrisia e as da exploração - física e moral - dos países fracos. Algo de novo - e mais justo - é necessário, com total urgência.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sobre o Syriza

 
O encontro entre o ministro grego das finanças, Yanis Varoufakis, e o presidente holandês do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem (o do mestrado falso, ao que parece) tornou-se um poderoso símbolo de resistência face à ortodoxia monetarista que organismos como o FMI representam; com efeito, não é com leviandade que emprego a palavra "ortodoxia" e sublinho o carácter quasi-religioso que ela comporta.

A ortodoxia, aqui, consiste no chamado "Consenso de Washington": designação pela qual ficou conhecida (desde os anos oitenta do século passado) a receita neoliberal para resgate das economias em apuros, fórmula única de desmantelamento dos estados em benefício dos sectores privados, independentemente das diferentes condições sociais e políticas dos países. A economia não é uma ciência e, nesse feitio, toda a canga pseudocientífica que se lhe coloque não passa de artigos de fé - e, no que diz respeito à fé, a ortodoxia não gosta de heresias.

O impacto que a eleição do Syriza está a ter, observando o autêntico histerismo da maioria da Direita, pode ser equiparado à anexação das noventa e cinco teses de Martinho Lutero na porta da igreja do castelo de Wittenberg: ai, meu Deus, que a casa (a Europa) vem abaixo.

Para já, temos o que era preciso: uma contracorrente forte e com ideias, capaz de mobilizar os descontentes que estão longe de ser radicais (a vitória do Syriza deve-se ao eleitorado do Pasok, como é evidente). Veremos como, afinal de contas, todas estas questões aparentemente científicas ou técnicas não passavam de teimosias de uma fé ortodoxa no "Consenso de Washington" e numa visão quasi-neodarwinista aplicada ao mercado. A gente esquece-se que, tudo somado, as ideologias ainda mandam muito.

Resta descobrir se o estado de graça "luterano" do Syriza (e dos seus aliados de sinal político oposto) não terminará num perigoso caos absurdo à la João de Leiden (para lembrar outro heterodoxo) em Münster. Confiemos, portanto - mas atentos.

domingo, 16 de setembro de 2012

Depoimento


Caros leitores:

Por escolha pessoal, sempre mantive em separado aquilo que é a minha face pública de autor e a minha vida e convicções privadas, mas este período negríssimo pelo qual passamos, e que emerge como sendo decisivo nas vidas de todos nós, obriga-me a desfazer essa separação e a pronunciar-me publicamente sobre política; em principal, sobre a perigosa política actual que nos conduz e que nos levará à ruína.
Por conseguinte, enquanto autor e enquanto indivíduo, não posso calar-me, pois a palavra é a minha ferramenta de trabalho e é através dela que tenho forma de fazer-me ler e escutar por todos.
Abaixo, encontram-se duas ligações para dois artigos que escrevi aqui no Cadernos de Daath sobre os últimos dias: um antes da Manifestação de 15 de Setembro - a que fui e à qual dei o meu contributo de protesto contra um governo injusto e fanático que urge remodelar - e outro que escrevi depois de chegar da Manifestação. Apresento-vos as ligações por ordem cronológica para que leiam, pensem e partilhem.

Reforço a ideia, axial nos textos, de que estas políticas actuais nada têm a ver com as políticas a que o(s) partido(s) em governo de coligação nos habituaram ao longo das últimas dezenas de anos, mas que se correspondem com ideologias novas, muito diferentes e mais perversas do que temos experimentado.
É o contributo que me é possível para mudar de uma vez por todas esta situação irrespirável, porque não tenho outro modo de agir. Sou escritor, sou um homem das letras, e é por elas que tenho de chegar aos outros: enquanto me for permitido e enquanto for, de modo geral, permitido.

Porque não desejo viver no Portugal que nos estão a construir, este governo irresponsável e perigoso tem de ser remodelado. Já! Antes de ser demasiado tarde, façam-se ouvir, protestem, manifestem-se nas vossas áreas se, tal como eu, também não querem que nos seja arruinado o país.
Obrigado.

http://cadernosdedaath.blogspot.pt/2012/09/aquele-que-nao-tem-ser-lhe-tirado-mesmo.html

http://cadernosdedaath.blogspot.pt/2012/09/ruas-sem-medo.html

Cumprimentos.
David Soares.
Lisboa, 16 de Setembro de 2012

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Àquele que não tem, ser-lhe-á tirado mesmo o que tem


A política faz-se de ideologias, embora seja fácil esquecer isso, em especial nos dias contemporâneos, mas o facto é o de que as ideologias influenciam, marcam e definem as políticas; e, nesse sentido, as medidas de austeridade avançadas pelo governo em vigência inserem-se numa ideologia neo-liberal, plutocrática, pugnada por algumas escolas economicistas dos últimos três decénios do século passado, como a famosa "Escola de Chicago".

Sob a égide dessa ideologia da desvalorização do trabalho realizado pelos chamados trabalhadores por conta de outrem, observados como "comedores inúteis" pelos deificados criadores de empregos - os tais "empreendedores" -, cada indivíduo só é considerado como tal se se tornar um empresário; ou seja, uma pessoa influente em virtude da sua riqueza, valendo, em exclusivo, pelo dinheiro que faz ao ano.
Faz lembrar a lei da Limpeza de Sangue que, até há poucas centenas de anos, era mandatória para se aceder a cargos públicos em Portugal: só quem tivesse sangue limpo, nobre e despoluído de cruzamentos indesejáveis, era aceite como sendo um cidadão com direitos - aqui, essa lex sanguinis é substituída pelo recheio da conta bancária: mas já o Novo Testamento (leitura preferida nestes círculos nos quais ir-se à missa é que é sinónimo de uma boa cidadania - e o resto são, apenas, negócios) avisa que «pois àquele que tem, dar-se-lhe-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, ser-lhe-á tirado mesmo o que tem».

Importa reter que esta ideologia almeja a construção de um novo tipo de homem - ou melhor, dois novos tipos: um, o tal empresário - tão auto-suficiente que até é capaz de segurar sozinho aos ombros, como Atlas, o edifício empresarial que construiu com as suas próprias mãos, como se os apoios estatais e privados não existissem - e, o outro, o operário desqualificado, sustentado com um salário de sobrevivência, no limiar da miséria.

Este pesadelo quasi-malthusiano está prestes a tornar-se realidade. Não duvidem que iremos, muito em breve, e até bem perto de nós, com certeza, assistir a grandes mudanças para pior, se esta draconiana desvalorização dos indivíduos for em frente. Nem nos piores tempos nepóticos dos séculos XVII e XVIII, uns quantos colocaram em Portugal um peso tão grande em tantos. E a Troika, excelente bicho-papão, nem sequer precisa de ser para aqui chamada como ceifeiro da desgraça: a austeridade do governo é parte indissolúvel do seu programa político e figurava já em 2010 no espantoso projecto de alteração da Constituição da República Portuguesa (as privatizações, a extinção da classe média e outras medidas ainda piores que, suspeita-se, estarão a ser reservadas para o segundo mandato). Sim, temos cá o FMI, mas o neo-liberalismo é do governo, completamente: abram os olhos, investiguem e pensem.
Por enquanto, ainda se pode.