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sábado, 1 de dezembro de 2012

Aleister Crowley: 1 de Dezembro de 1947



Além de ser o Dia da Restauração da Independência de Portugal, 1 de Dezembro também é a data da morte do mago inglês Aleister Crowley (no ano de 1947). Para lembrar esse homem tão incompreendido - não foi satanista, ou satânico, por exemplo, como tantas vezes aparece descrito na comunicação social sensacionalista -, cujas crenças pessoais até o aproximavam do ateísmo, partilho a minha leitura de um excerto do meu romance «A Conspiração dos Antepassados» (Saída de Emergência, 2007), no qual ele, juntamente com Fernando Pessoa, é protagonista.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Trolhamento pessoano


Aos caros leitores que se interessam por Maçonaria e Fernando Pessoa deixo a informação que no próximo dia 13 de Dezembro, no Centro Comercial El Corte Inglês, em Lisboa, será apresentado, às 18H30, o manual «Trolhamento dos 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite», numa nova edição que reproduz os comentários e as anotações que Fernando Pessoa fez no seu exemplar. A edição é da São Rozas, com organização e prefácio de Miguel Rozas. A apresentação será feita por Félix Lopes. Um documento histórico interessantíssimo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Viva Corvo!


Hoje de madrugada, acabei a leitura de um título que me emocionou muitíssimo: «The Quest For Corvo: An Experiment In Biography», de A. J. A. Symons, sobre o vergonhosamente olvidado escritor, fotógrafo e pintor Frederick Rolfe (pronuncia-se "rofe"), mais conhecido pelo pseudónimo Barão Corvo.
Já escrevi diversas vezes que Rolfe é um dos meus heróis literários - um verdadeiro génio da literatura que morreu sozinho, em Veneza (1913), na mais abjecta miséria. Seja em Veneza ou em outro lado qualquer, os génios, de maneira geral, comem e morrem sozinhos - só os parasitas comem e morrem acompanhados: não é de espantar que essa palavra venha da grega parásitos, que significa "aquele que come junto de" ou "aquele que come do mesmo prato que". Mas este não é um costume que tenha morrido na Grécia antiga: podem crer que ainda hoje existe quem faça profissão do hábito de comer dos pratos dos outros.

A biografia de Symons descreve com isenção e compaixão a catabática trajectória de Corvo; autor que sempre, sempre e sempre esteve na vanguarda daquilo que se propôs a fazer, fossem fotografias (foi um dos pioneiros da fotografia a cores, numa altura em que a fotografia a cores não galvanizou ninguém), fossem pinturas (foi um dos pioneiros de um estilo expressionista, numa altura em que esse estilo não galvanizou ninguém) e foi o autêntico inventor - muito antes de Joyce, por exemplo - do romance enciclopédico e polissemântico (numa altura em que aquilo que galvanizava os leitores era o superficial e unidimensional). Costumo dizer que as pessoas inteligentes sofrem sempre mais - e a vida de Corvo comprova-o. Publicada em 1934, a biografia de Symons, livro pioneiro no género da moderna biografia (foi este o livro que credibilizou - se não inventou - a investigação biográfica), é uma biografia autêntica: ou seja, não se lê como se fosse um romance. Romance é romance, biografia é biografia: e Symons, conhecedor de ambas as linguagens, sabe muito bem o que faz, estruturando uma investigação sólida e desarmante, na qual não existe nada, mas mesmo nada, de afectado, vaidoso, pedante, paternalista ou imbecil. É uma biografia que é, em simultâneo, dura e terna para com Corvo: não é um libelo nem uma eulogia e, por manter intacto esse fino equilíbrio, é um livro extraordinário.

Existe uma passagem que, confesso, me emocionou mais do que todas as outras: perto do final do livro, depois de descrever a miserável morte de Corvo, lamentando a incapacidade para descortinar o paradeiro dos seus maravilhosos manuscritos perdidos, Symons desvenda que recebeu uma carta inesperada, endereçada de Londres, que lhe gelou a espinha, pois a caligrafia, reconheceu-a, era a de Corvo.
Leu a carta, endereçada por um sujeito chamado John Bland, e descobriu que consistia numa mensagem manuscrita pelo filho de um velho amigo de Rolfe, que tinha sete anos de idade quando conheceu o escritor; este enviara-lhe, durante algum tempo, cartas nos seus aniversários: «Rolfe was an occasional visitor to the house. I remember him as a man of charming manners to a child, who knew all about magic and charms, who wore strange rings and told fascinating histories».
A caligrafia corvina era lindíssima e o miúdo guardou todas as cartas; mais tarde, ao fazer dezasseis anos, achou que estava na altura de aprender a escrever melhor, pois tinha uma letra terrível e, então, lembrou-se das cartas de Corvo, com a espantosa caligrafia. Usou-as como modelo e aprendeu a escrever com a letra do falecido escritor: «the caligraphy of Frederick Rolfe still lives».

Felizmente, também os manuscritos perdidos foram aparecendo e, hoje, a maioria da obra de Rolfe já foi publicada, embora lhe faleça o mais que merecido reconhecimento. Porém, como costumo dizer, a obra fica para sempre e é ela o único antídoto contra a morte.
Quem se lembra, hoje, dos escritores da moda, contemporâneos de Corvo?
Quem se lembra, hoje, das críticas, dos artigos promocionais e dos prémios de compromisso, criados para promovê-los e para sustentá-los?
Ninguém: desapareceram todos, por virtude da sua própria efemeridade.
Mas lembramo-nos, hoje, do excêntrico e genial Barão Corvo que esfaimando-se e dormindo numa gôndola ainda foi capaz de escrever mais uma obra-prima antes de falecer. Infelizmente, já não existem pessoas desta cepa e as que, como ele, existiram, parecem-nos tão irreais quanto personagens de ficção. Na sua vontade indómita de criar - de criar genialmente - e, também, na sua heteronímia, Corvo foi uma espécie de Fernando Pessoa muitíssimo mais ousado, muitíssimo mais trágico. Mas para recordar Corvo, em vez de resgatar um verso de Pessoa, prefiro lembrar um de outro grande poeta português, injustamente esquecido: Sebastião da Gama. O seu «Pequeno Poema» é o melhor epitáfio que posso dar, em homenagem, a Frederick Rolfe, o Barão Corvo:

«Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,

não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,

bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...»


Diz Gama que «quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu». Atrevo-me a dizer que, em relação ao contributo de Corvo para a literatura, que também ainda não existe nada de novo, senão o dele, desde que ele nasceu.

terça-feira, 12 de junho de 2012

"A Conspiração dos Antepassados": excerto em 'spoken word'


 
Excerto em spoken word do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007). Neste trecho, o mago inglês Aleister Crowley retorna pelo espaço-tempo à Boca do Inferno, em Cascais, e é refeito depois de ter sido digerido em Daath pela força física Coronzon. Ao restabelecer-se, percebe que perdeu o paradeiro do poeta português Fernando Pessoa, que ficara à sua espera.

(Este vídeo faz parte de uma série de excertos em spoken word dos meus romances, que estou a publicar regularmente no meu canal de YouTube.)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Morte de Fernando Pessoa


Recordando Fernando Pessoa, no dia da sua morte, com um excerto do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007). Neste trecho, Pessoa morre.
Às vezes, é a única forma de continuar a Viver.

«1935

Tudo o que é humano é divino, pensou Pessoa, sentindo a morte a entrar-lhe no quarto do Hospital de São Luís dos Franceses naquele final de tarde; fresca, salgada, de pele torrada pelo Sol como Talassa, a Mãe d’Água primordial, ela olhou-o com ternura e deixou-se ficar serena – sereia – aos pés da cama: ainda não era a Hora. A morte, reflectiu, só mete medo se a olharmos com olhos de medo. Estou calmo e ela é linda. Era a primeira visita do dia, desde a do cunhado na manhã anterior; a irmã, também acamada, com uma perna fracturada, não tinha podido vir.
Porque motivo se sentia tão sossegado na presença da morte? Ia morrer sem ter publicado o grande livro que intentara dar à estampa, até ao final do Verão: faleceria órfão de letras, avarento com uma arca cheia de manuscritos erráticos, amontoados como roupas usadas; alguns dentro de envelopes, amarrados às dezenas com cordéis. Tossiu e escarrou, para dentro da boca, uma bola de expectoração que lhe soube a bílis; engoliu-a.
Guardava na alma a imagem ideal dessa Grande Obra que nunca publicara e achava-se como um desses mal-casados que andam infelizes pelo mundo; que guardam as imagens subtis das mulheres e homens desejados – imagens sublimes que não se realizaram. Até era um pouco maçadora aquela tragédia toda de ir morrer.
Calculou que seria indicado lembrar pessoas e coisas que conhecera, para cunhar a morte com um carácter mais ortodoxo. Havia a mãezinha e o pai, este já demasiado vago para ter rosto. Os irmãos, o tio Roza que também havia sido poeta, a Teca, o Chico e os meninos. A avó Dionísia, mais louca que o Ângelo de Lima… Coitado do Lima!... Que grupo de bons malandros tinha sido aquele do Orpheu: como estava tão diferente do Pessoa desses anos. Agora sabia como era fácil um Messias roubar a liberdade do seu povo: ia fazer no dia seguinte um mês desde que decidira não publicar mais nada em Portugal como protesto pela censura coagida pelo Estado Novo – todas as obras censuradas são ridículas!
Certamente que o Ferro o tinha ajudado a ganhar o prémio da Segunda Categoria daquele maldito concurso literário com a Mensagem, porque depois da carta que publicara no jornal a favor da Maçonaria tornara público o rompimento com o salazarismo. Sim, agora pensava de um modo muito diferente do Pessoa que escrevera o Interregno
A Mensagem!...
O conjunto de poemas que baptizara de Portugal: mudara de título por causa dele!
Ele! O mago diabólico.
Ainda era vivo, mas os jornais já não falavam nele.
Pessoa costumava ir ao Café da Arcada para se encontrar com Ferreira Gomes e beber aguardente; às vezes, puxava esse assunto apenas para ver o rosto ingénuo do amigo derreter numa careta desconsolada. O Cirilof, a quem finalmente prefaciara a tão adiada edição de Alma Errante com um pequeno ensaio sobre a ordem rosicrúcia, cortara o cabelo e a barba: quando Pessoa o viu assim pela primeira vez pensou que se tinha enganado na porta. O livreiro passava os dias a falar de política e continuava a achar que o António Ribeiro iria transformá-lo numa estrela de cinema. A relação já não era a mesma e Pessoa, voltando sozinho para Campo de Ourique, com as mãos nos bolsos onde trazia – sempre – o anel de prata deformado, só queria chegar depressa a casa para se sentar a escrever.
Os novos escritores e artistas que ia conhecendo nos cafés e no Abel olhavam-no como um antepassado de estimação: o velhinho que se ria alto, cuja mão tremia ao agarrar a caneta e o copo; uma vez, enquanto conversava com o Almada, até se escondera debaixo da mesa durante uma trovoada. Não era culpa deles se não o levavam a sério, mas que podia fazer? Não gostava daquele mundo, daquela cidade, daquela gente de sorriso pateta que via nas ruas: se achassem que era um Puro Tolo, tanto melhor. O que é que lhes preenchia as cabeças? Mais ninguém se interessava por magia. Ninguém parecia ter imaginação naqueles dias em que nada podia estar acima da Nação. Nem sequer o Homem.
Era por essa razão que a simples menção de Crowley numa conversa murchava as atenções dos ouvintes. Ninguém queria falar de Crowley, ninguém queria falar sobre a Besta: ninguém queria falar sobre aquele que não substituíra os sonhos por comodidades e subira mais alto que todos; daquele que metera medo a toda a gente com o riso satânico – o riso que, bem vistas as coisas, só metia medo àqueles que tinham pavor de viver. Sim, ninguém queria falar sobre ele, porque, ao fazê-lo, reconheciam que não tinham sido bons o suficiente, corajosos o suficiente, loucos o suficiente. Mas Pessoa lembrava-se! E não o esquecera.

Considerei, realmente, a chegada da sua poesia como uma verdadeira MENSAGEM, que gostaria de explicar pessoalmente.

Uma verdadeira Mensagem!
Crowley mostrara-lhe, sem dar conta, como ele gostaria que a sua poesia fosse lembrada no futuro. Lembrou-se do mago, lembrou-se do amigo.

Senhor Pessoa. Que raio de ideia foi a sua
de me mandar o nevoeiro lá para cima?

Sorriu, e a morte sorriu também. Compreendeu porque é que ia morrer sossegado: tinha vivido uma vida mágica e quem vive uma vida mágica sabe que não há morte, apenas um alçapão por onde o corpo desaparece para ir para outro lugar; como no palco de um ilusionista.
Sentiu curiosidade em saber como a sua obra literária seria lida após a morte; se, com efeito, conseguiria deixar um legado nas letras, na cultura do Portugal que tanto amava. Olhou para a mesa-de-cabeceira e viu o bloco de apontamentos ao lado de uma das velas de Abramelin que Crowley lhe oferecera antes de ir para a Alemanha: uma das velas usadas no ritual realizado na Boca do Inferno.
Agarrou o bloco e sentou-se na cama, encostado à almofada. Sentiu-se maldisposto e com vontade de vomitar; os braços tremiam-lhe e apenas com muito esforço conseguiu manter-se equilibrado a olhar para o papel. Aproximou o bico do lápis da folha e pensou na frase que iria escrever para a transformar em sigilo como Crowley lhe havia ensinado. A cama rangeu, ameaçando partir-se; um pássaro que chilreou no pátio demonstrou-lhe que o mundo continuava a girar sem lhe dar importância.
Que frase iria escrever?
Lembrou-se de perguntar: O que é que o Amanhã me irá trazer? Encostou o lápis à folha e, agarrando-o com força, preparou-se para redigir a frase. A mão tremeu-lhe; a visão desfocou-se. Não tinha força e interrompeu a acção, fitando os pés da cama e convergindo o olhar em algo invisível. Compreendeu que, no fundo, ele recusava-se a querer saber o futuro.
E se viesse a saber que a sua obra cairia no esquecimento, que tudo aquilo que escrevera fora em vão? Seria demasiado cruel descobrir que todos os sacrifícios que fizera para se dedicar à escrita haviam sido nulos e que nada perduraria. Não precisava de saber nem o bom nem o mau: ia morrer, era uma parvoíce; um último resquício de presunção, de egomania artística. A obra teria de vencer sozinha.
Sacudiu os ombros e gemeu: era uma pergunta pateta, de qualquer das formas. Limitou-se a escrever, em inglês:

Eu não sei o que é que o Amanhã me irá trazer.

Pousou o bloco na mesa-de-cabeceira e voltou a deitar-se. A morte, entretanto, saíra do quarto. Ouviu um eléctrico passar ao longe, talvez no topo da Rua D. Pedro V; já haviam poucos, substituídos por autocarros. O seu mundo morreria com ele. Fechou os olhos, ensonado, mas não adormeceu; não valia a pena porque a enfermeira não tardaria a dar-lhe o jantar.
No dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, a morte regressou. Pessoa sentiu-a como um véu a cair-lhe sobre os olhos e, para ter a certeza que era a mesma dama do dia anterior, pediu à enfermeira:
‘Dá-me os óculos.’
Colocou-os e olhou para o lado. Lá estava ela, radiante. Abriu os lábios gretados e tentou sorrir; uma dormência repentina afectou-o. Virou-se para o outro lado e viu a enfermeira sair depressa do quarto. O véu que tinha sobre os olhos tornou-se opaco. Depois negro. Os sons afunilaram-se num zumbido.
Um táxi passou, barulhento, e o ruído do motor foi abafado pelo vidro da janela. Pessoa não o ouviu.
A cama chiou, baixinho, com o estertor que agitou o corpo do poeta.
Quando o médico Jaime Neves, seu primo, e o colega Alberto Carvalho, entraram no quarto encontraram Pessoa sem vida.
O corpo parecia artificial: mais pequeno.
Na mesa-de-cabeceira, o relógio de Pessoa continuava a trabalhar. Morreu tão cedo!..., disse Jaime Neves, mordendo o lábio.
Mas Pessoa não morrera – Não há Morte! –, participara num truque de Magia!
Passara por um alçapão

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Notas sobre Aleister Crowley e Fernando Pessoa - Segunda Parte

Hermetismo Pessoano


Citando Teresa Rita Lopes, autora do livro Pessoa Por Conhecer, é legítimo afirmar que Pessoa continua, ainda, por conhecer - e a dimensão hermética da obra e da vida do poeta será aquela que é desconhecida pela grande parte dos leitores.

Eduardo Lourenço teoriza que a heteronímia pessoana, em particular os registos de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, são abordagens que Pessoa fez à obra de Walt Whitman, subordinadas a diferentes perspectivas; da eulogia ao histerismo. Uma leitura atenta não pode deixar de o compreender, mas esse jogo de simetria não desvirtua a dedução que a cronologia do desdobramento da personalidade pessoana influencia. De facto, Pessoa começou a criar seres fictícios desde muito novo: os primeiros pseudónimos são o Chevalier de Pas e o Capitaine Thibeaut, ambos criados quando ele tinha seis anos de idade. Mais tarde, continuou a inventar personagens imaginárias como os irmãos David e Lucas Merrick, Charles Robert Anon e o mais familiar do público Alexander Search, apontado pelos académicos como o primeiro heterónimo de Pessoa e autor do poema O Círculo, no qual surge uma frase que pode servir de mote a toda a heteronímia: «O meu pensamento está condenado ao símbolo e à analogia».

A obra poética de Pessoa espraia-se em três períodos animados por preocupações distintas: uma breve, e formativa, fase filosófico-cristã; uma fase neo-pagã; e, finalmente, uma fase gnóstica que corresponde às últimas duas décadas de vida do poeta. Paralelamente à evolução da obra, pode acompanhar-se a evolução do sentido que Pessoa procurava imprimir na vida, através do estudo do hermetismo e das "ciências" ocultas. A sua obra nunca deixou de ser, em momento algum, mais do que uma ferramenta para ajudá-lo a alcançar o objectivo dessa busca espiritual, um muito nítido espelho do caminho esotérico traçado.

Antes de interessar-se pela Teosofia, pelo Rosicrucismo e pela Franco-Maçonaria, Pessoa revelou ter passado por uma série de experiências mediúnicas, confessadas pela primeira vez numa carta enviada à sua Tia Anica, também espírita, na qual escreveu: «Estou desenvolvendo qualidades não só de médium escrevente, mas também de médium vidente. Começo a ter aquilo a que os ocultistas chamam "a visão astral", e também a chamada "visão etérica"». Os espíritos que falam com Pessoa, como Henry More, Wardour e J. H. Hyslop, fazem-no com vozes mefistofélicas, até, comentando os últimos poemas escritos e oferecendo conselhos sentimentais que traduzem a sexualidade conturbada do seu invocador. Não é de todo estranho este fascínio pelo mundo fantasmático dos espíritos, porque, enquanto poeta – enquanto bardo –, a etimologia suporta essas inclinações: vates, o étimo latino de poeta, significa profeta ou numa tradução mais apurada: “aquele que tem visões”. O próprio Hermes, de onde deriva a palavra hermetismo, era o mensageiro que fazia a comunicação entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos. Antes de assumir-se como criador de mitos, Pessoa procurou ser um emissário dessa estirpe hermética, traduzindo para português títulos como O Compêndio de Teosofia, de Charles Leadbeater, e A Voz do Silêncio, de Helena Blavatsky. Ainda no papel de emissário hermético, criou a tipografia Íbis, aludindo ao deus Thot, o equivalente egípcio do Hermes grego. O Íbis era também uma designação antiga, que o acompanhava desde a infância, e que se resumia a um disfarce teriomórfico vestido pelo poeta em diversas ocasiões: ele fingia ser um íbis em diversos momentos, em brincadeiras com os sobrinhos ou mesmo em passeios com o resto da família.

O interesse de Pessoa pela astrologia remota desde a adolescência e os registos astrológicos de maior complexidade e segurança datam de 1908, ou seja desde os vinte anos de idade. Pessoa planeou escrever um grande tratado de astrologia, sob o nome do heterónimo Raphael Baldaya, obra na qual apresentaria um estudo astrológico do país. Nunca chegou a escrever esse livro, mas deixou-nos um horóscopo de Portugal onde anotou posições ocupadas por Neptuno, planeta regente do signo Peixes, o "signo de Portugal", em momentos particulares da nossa história, como a derrota de Alcácer-Quibir ou a invasão espanhola de Lisboa. Pessoa deixou-nos temas astrológicos dos heterónimos e dele próprio, onde escreveu que a data da sua morte seria em Maio de 1935. Falecido em Novembro, a previsão apenas falhou por seis meses.

O sistema mágico intitulado O Caminho da Serpente, criado e desenvolvido por Pessoa, foi divulgado pela primeira vez no livro Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética, de Yvette Kace Centeno. Trata-se de um sistema mágico que, aparentemente, resgata elementos pitagóricos, rosicrúcios e cabalísticos. Por desvendar encontra-se o significado da nomenclatura, assim como o sentido e o uso. Sabe-se que Pessoa devotou concentração a este tema no seguimento da demanda por iluminação hermética que o levou desde a mediunidade até à astrologia e da teosofia até à maçonaria. Não se revendo em nenhuma das tradições ocultistas que, por breves períodos, adoptou, Pessoa decidiu criar o seu próprio sistema mágico, já perto da data da morte.

Na minha opinião, o que é surpreendente n’O Caminho da Serpente é a depuração: não há nada de acessório nos escritos que Pessoa deixou sobre o sistema, assim como a simbologia geométrica que o compõe, a fazer lembrar as estruturas ocultas empregues nas telas de Almada Negreiros (seu companheiro tardio da boémia lisboeta e ocultista), está em sintonia com toda a tradição geomágica ocidental, desde os teoremas de Abellio até aos modernos sigilos de Austin Osman Spare.

Intui-se que O Caminho da Serpente é essencialmente simbólico (a fazer lembrar, lá está, o vaticínio expresso no poema O Círculo de Alexander Search), e a sê-lo remete-me para a simbologia do próprio caduceu hermético: o bastão erecto onde se enrolam duas serpentes, trepando em direcção à coroa alada. Ora Pessoa, designou por Fogo a parte superior da Bexiga de Peixe na qual inscreveu esse sistema mágico e designou por Terra o vértice inferior. Essa elevação da serpente, que assim se ergue da Terra – do lodo primordial – em direcção ao Fogo – à Imaginação – é o sentido oculto do bastão de Hermes; e, hoje em dia, encontra uma simetria tremenda com a estrutura em dupla espiral da molécula de ADN, descoberta dezoito anos depois da morte do poeta. Mas já no baralho de Tarot criado por Aleister Crowley e desenhado por Lady Frieda Harris se pode ver no Arcano Maior, O Universo, uma profecia dessa descoberta, caracterizada pela mulher que dança com a serpente, rodeada pelos quatro elementos e vigiada pela presença ocular da Mónade da qual tudo emana.

Uma representação artística que encerra na perfeição essas premissas é o painel de azulejos que o Mestre Lima de Freitas pintou para a plataforma da gare ferroviária do Rossio.


David Soares, Lisboa 2007

Notas sobre Aleister Crowley e Fernando Pessoa - Primeira Parte

Aleister Crowley: A Obra ao Vermelho

Crowley acompanhou a morte do século XIX e viveu no período mais violento do século XX, absorvendo horror e glamour para construir uma lenda pessoal. Foi um reconhecido alpinista e liderou as primeiras expedições às montanhas Kangchenjunga, no Nepal, e Chogo Ri (K2), nos Himalaias, antes de encarrilar a toda a velocidade no caminho da Magia. Em 1902, depois de visitar o amigo ocultista Allan Bennett, em Ceilão, Crowley começou a misturar os ritos orientais e o tradicional hermetismo ocidental com o objectivo de criar um novo sistema mágico. Na verdade, unir o sexo à magia não era um conceito inédito e Crowley deveria conhecer, com toda a certeza, os trabalhos de Paschal Beverly Randolph (que sentia um pavor patológico pela masturbação: prática fundamental na disciplina de Crowley) e de Alice Bunker Stockham (que desenvolveu o método Karezza: doutrina mais cúmplice da profilaxia que da magia, mas que, mesmo assim, advogava a sacralização do orgasmo). Nas sociedades iniciáticas criadas ou lideradas por Crowley, como a Argenteum Astrum (fundada após a saída da Hermetic Order of the Golden Dawn) e a Ordo Templi Orientis, o misticismo encontra-se impregnado de ritos de natureza sexual.

É seguro conjecturar que o advento da revolução sexual que rompeu na década de sessenta do século passado foi previamente ensaiado por Crowley e pelos "thelemitas" nos decénios de vinte e trinta. Sem a publicação da revista The Equinox, o conhecimento hermético aí revelado continuaria a ser coutada de exclusivas fraternidades secretas; e, aqui, o trabalho de Crowley na fertilização do imaginário ocidental foi importantíssimo: não enquanto criador de mitos, como Fernando Pessoa, seu amigo, almejava ser, mas como polinizador – aliás, o papel do Mago por excelência; cujo símbolo (a varinha) não deixa de se revestir com sentido alegórico correspondente à sexualidade.

Não creio que Crowley tivesse sido um homem mau, como o epíteto ‘The Wickedest Man in the World’ (apresentado pela primeira vez no jornal inglês John Bull) sugere. Penso que foi, no seu pior, muito egoísta (com péssimas consequências), mas sem cair no diabolismo cinemático que os media patentearam. Excepto na aproximação que faz ao individualismo filosófico (antecipando o Objectivismo cunhado pela escritora Ayn Rand) a doutrina "thelémica" nada tem de satânico ou de satanista. Em primeiro lugar, tal como se encontra descrita por Crowley, trata-se de um sistema iniciático, logo procura transmitir conhecimentos ocultos através de mensagens e rituais que namoriscam com o sobrenatural. Em seguida, o trajecto que o adepto precisa de cumprir nesse caminho iniciático é ferozmente demolidor do ego. E, para terminar, a disciplina de Thelema ainda incita o indivíduo na direcção de uma espécie de consciência social. Para isso concorreram as fontes de inspiração de Crowley: proto-anarquistas como François Rabelais e Jonathan Swift, mas também teóricos anarquistas e socialistas como Gracchus Babeuf, Louis Blanquis e Pierre Proudhon. É preciso lembrar que The Book of the Law foi recebido por diversos leitores como sendo um livro comunista e que Mussolini expulsou Crowley de Itália, alegando que a Abadia de Thelema, em Cefalù, era um órgão comunista. É confuso constatar que Crowley, inglês imperialista, manteve uma relação calorosa com ideias revolucionárias desta estirpe. Não é, pois, sensato ler o trabalho da auto-denominada Besta do Apocalipse, para quem o fin de siécle era todos os dias, sem ter em mente o sentido de humor provocante e escatológico que o atravessa. E sobre um autor cuja vida é impossível dissolver da obra, a exegese biográfica deve efectuar-se sob a mesma iluminação.

Inversamente aos trabalhos de outros ocultistas seus contemporâneos, junto dos quais foi buscar inspiração, a obra literária que deixou inscreve-se sem qualquer dificuldade no cânone ocidental da literatura hermética; e, pela porta grande, por avanço do já citado The Book of the Law, publicado pela primeira vez no décimo número da revista periódica The Equinox. Texto deliberadamente contraditório, The Book of the Law, a base do sistema mágico crowleyano, é, na minha opinião, uma colagem ao sistema dos Três Tempos (ou Eras) como foi plasmado pelo abade cisterciense Joaquim de Fiore. Ignoro se Crowley procurou esse mimetismo de modo consciente, mas é muito possível, pois possuía um conhecimento enciclopédico sobre hermetismo e tradições mágicas. O que interessa reter é que em virtude da aproximação que faz ao modelo de Fiore (os Tempos do Pai, do Filho e do Espírito Santo), Crowley conseguiu imprimir em The Book of the Law uma longevidade nutrida pela ressonância arquetípica: ou seja, o texto prolonga o impacto provocado na recepção, porque comunica connosco de um modo mais profundo que outros mitos mais juvenis.

A encadernação da edição do livro Moonchild, de Aleister Crowley, que a Sphere Books publicou na colecção The Dennis Wheatley Library of the Occult, em 1974, é bastante conveniente, já que um observador atento não pode deixar de ver Ra-Hoor-Khuit, ou Harpócrates, a versão infante de Hórus, sendo presenteado com a herança de Hadit, o embaixador do Tempo do Pai no segundo capítulo de The Book of the Law. Essa responsabilidade, simbolizada pela caveira, à guisa de fóssil de Ano Velho, é a referência da passagem de testemunho para o Tempo do Filho: o Éon de Hórus.

A sincronicidade desta imagem causa-me admiração; e se é verdade que Wheatley, mero anfitrião dessa colecção, à qual apenas emprestou o nome e o prestígio, foi alheio à escolha, é legítimo adivinhar que ela deixaria Crowley muito feliz.


David Soares, Lisboa 2007

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa e Aleister Crowley discutem a Batalha de Alcácer-Quibir


«'Sim, lembro-me do poema que me enviou: Louco, sim, louco, porque quis grandeza. Caro Pessoa, se não soubesse o que sei até concordava consigo, não duvide.'
'Sou todo ouvidos.'
'Toda a informação que encontrei sobre D. Sebastião é factual, como lhe disse, contudo os factos servem a imaginação, se o observador for criativo na interpretação. Não vou discorrer sobre todos os pontos que me levaram à conclusão que lhe vou apresentar. A verdade é... bom, como dizê-lo? Já viu alguma vez o terreno de Alcácer-Quibir?'
'Não. Nunca estive no Norte de África, como lhe disse.'
'Muito bem, então eu descrevo-lhe. É um buraco. É um autêntico buraco.'
'Como?'
'Um funil de pedra e areia do qual apenas com muito esforço um exército conseguiria sair vitorioso depois de ser cercado como foi o português. Ouça: o próprio Sebastião viajou extensivamente em busca de um local ideal para a batalha onde desafiaria o rei Maluco. Foi ele quem quis a guerra e não o Maluco; rejeitou todas as tentativas de diplomacia intentadas por ele e pelo seu tio, Filipe II de Espanha. Foi ele quem escolheu o terreno de Alcácer-Quibir. Só ele e mais ninguém.'
'Sim, era obstinado, teimoso.'
'E onde acaba a teimosia e começa a loucura, senhor Pessoa? Oh, este louco quis grandeza, sim, mas não aquela que o senhor pensa! No dia da batalha, D. Sebastião anunciou que só iria combater à tarde e foi um capitão, um soldado espanhol chamado Aldana, que o fez mudar de ideias.'
'Sim, mas há quem diga que foi mesmo por causa dessa decisão que a batalha foi perdida. Não tiveram tempo para se preparar.'
'Qual tempo, senhor Pessoa! Começada a batalha, D. Sebastião esqueceu-se de emitir a ordem de combate. Esqueceu-se? Como é que isso é possível? Terá pensado que estava num salão de baile à espera que o convidassem para dançar? Uma ilusão difícil de visualizar com toda a gritaria, o pó e o relinchar de cavalos. A impavidez obrigou o Duque de Aveiro e D. Duarte de Meneses, mais os combatentes dos terços, a agir por conta própria. Em poucos minutos, a batalha transformou-se num massacre. Dentro de um buraco, senhor Pessoa, quando a saída está tapada, só há uma fuga possível: para baixo!'
'Está a dizer que ele foi um péssimo estratega, que não sabia comandar. Que era estúpido ou atrasado mental como lhe chamou o escritor António Sérgio.'
'Pelo contrário, senhor Pessoa! Pelo contrário. O homem foi um génio! Um génio da estratégia, frio e calculista. Veja o meu braço! Até estou com pele de galinha.' Arregaçou a manga da camisa e mostrou-lhe.
'Senhor Crowley!', disse Pessoa, surpreendido. 'Que se passa?'
'Estou excitado! Excitado por pensar no génio de tudo aquilo. Na audácia! Na coragem!'
'Pensei que a sua opinião era outra.'
'Ainda não percebeu? D. Sebastião escolheu Alcácer-Quibir porque o terreno era um buraco. Ele reuniu um exército mal treinado. Ele obrigou esse exército a dar uma volta enorme desde Portugal até ao local da contenda em África, ignorando o caminho mais curto que, ainda por cima, era o mais seguro, esgotando as energias dos soldados sem necessidade nenhuma. Ele quis adiar o combate para a tarde, como lhe sugeriu o xerife berbere caído em desgraça, uma ideia que, a ser realizada, iria dar tempo precioso ao adversário. Estas coisas, senhor Pessoa, as coisas que ele fez... Não se fazem! Lembra-se do xadrez? Para ganhar uma partida de xadrez é preciso ser-se objectivo. Ser-se objectivo! é muito simples.'
'Está a querer dizer que ele queria perder a batalha? É diabólico!'
'É genial! O homem queria perder! Ele estudou tudo ao pormenor para perder. Quando se percebe isso, a sua estratégia torna-se brilhante.'
'Mas porquê perder? Acho essa conclusão infame. Que tinha ele a ganhar com isso?'
'Para se encaixar ele mesmo nas profecias do Encoberto? Aquelas que contam como o rei é derrotado em batalha contra o inimigo para andar perdido durante uns anos antes do regresso triunfal?'
'Medonho! Acredita mesmo nisso?'
'Claro que não! Acha que um homem que estuda e planeia uma derrota destas com anos de antecedência ia confiar na sorte? O objectivo dele foi outro, senhor Pessoa. Muito mais medonho!'
'Qual?'
'A derrota em Alcácer-Quibir foi um sacrifício de sangue para carregar de energia mágica um poderoso encantamento!'»

Excerto do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007), sobre o encontro de Fernando Pessoa com Aleister Crowley. Parabéns, Fernando! Até um dia destes.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Vencedor do passatempo

O vencedor do passatempo A Conspiração dos Antepassados - Edição Especial foi o leitor Carlos Antunes, de Santo António dos Cavaleiros: foi o primeiro participante a responder correctamente às duas perguntas e, como tal, irá receber um exemplar autografado da edição especial do romance. Parabéns!

As respostas certas são as seguintes:
1) Íbis.
2) "Sometimes I hate myself."

Obrigado a todos os participantes.

A edição especial d'A Conspiração dos Antepassados, que conta com um prefácio de António de Macedo, chegará às livrarias no próximo dia vinte e dois.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Edição especial em Janeiro de 2010

No próximo dia 22 de Janeiro será publicada uma edição especial do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007), sobre o encontro do poeta Fernando Pessoa com o mago Aleister Crowley: com uma nova capa e um prefácio de António de Macedo, consiste numa edição da qual muito me orgulho.

Quem já leu, sabe que a história orbita em volta do mito sebástico e tem como ponto de partida a vida e a obra do pintor renascentista português Francisco D'Ollanda. É dele a pintura que ilustra o excerto de A Conspiração dos Antepassados que se segue; um trecho que o apresenta como personagem. É, pois, um convite que eu deixo, àqueles que ainda não leram o romance, para que aguardem pela publicação da edição especial.

«Protegendo-se do violento vento nocturno, com um capuz e um manto, Francisco d’Ollanda agarrou o bebé contra o peito e desceu o carreiro pedregoso em direcção à entrada da gruta; o ruído do rio que fluía para o interior da Terra, invés de desaguar no Tejo, era uma verdadeira alegoria das energias telúricas que erguiam a traça magnética da área. Mais uma vez, precisava de abandonar um filho nessas fundações de pedra.
No início do ano morrera D. João III, seu protector, e as construções que ambos acompanhavam permaneciam incompletas. Preocupado com as urgentes experiências alquímicas, descurara as obras no Mosteiro de Santa Maria de Belém e nos Paços Reais de Enxobregas – a sua tão amada Nova Lisboa. D. Catarina estava com vontade de se ocupar pessoalmente das alas inéditas que ele tinha desenhado para o Convento de Cristo, em Tomar, projecto que muito lhe aprazia. De qualquer modo, Tomar encontrava-se demasiado distante, na geografia e na mente, para que pensasse no mosteiro: a morte do rei obrigava-o a trabalhar sob uma pressão inusitada – a rainha queria resultados no espaço de um ano. A delicada situação que se avizinhava não permitia desleixos.
Ollanda admirou a criança deformada, que carregava ao colo, com um misto de repulsa e esperança: após seis experiências falhadas, compreendera finalmente o que fizera de errado e já sabia como emendar a receita que seguia. O bebé era a prova que se aproximava, célere, da fórmula perfeita: as deformações que o afectavam eram insignificantes, comparadas com aquelas que cobriam os corpos dos irmãos mais velhos.
Talvez tivesse sido mais acertado eliminar essas criações inúteis, mas, construídas à imagem do seu melhor anjo, o arquitettore não encontrou coragem para as matar. Lembrou-se de as deixar naquele local isolado, ao abrigo da crueldade dos homens. Na verdade, sentia-se orgulhoso delas: vaidoso por ter tido sucesso; mesmo que essas vidas não servissem os objectivos para os quais havia sido contratado pela coroa.
Começara esse empreendimento em Outubro de 1550; D. Catarina pagara-lhe, para efeitos de contrato, uma primeira prestação de vinte e cinco cruzados, mercê de doações periódicas e alojamento. Sete anos depois, não se arrependera. O segredo que só ele sabia é que aceitara o trabalho infernal com a meta de amealhar dinheiro suficiente para se casar. Amava a mulher, D. Luísa da Cunha de Siqueira, e bastava-lhe acordar ao lado dela para pensar que as maquinações diabólicas valiam a pena. Mesmo assim, debruçado sobre as retortas, sobre o lendário Caldeirão Negro, quando calhava a vislumbrar o seu reflexo em alguma superfície reflectora via um rosto contorcido que não reconhecia: uma face impregnada de satanismo – ele estava a adorar cada momento da sua missão! Haveria de chegar o tempo de parar e de plantar couves na horta, no Monte: antes, precisava de mudar o mundo, de oferecer o Messias ao Quinto-Império.
O paredão com a gorja da caverna elevava-se na noite como um gigante petrificado, castigado pela Lua. Ollanda assustou uma coruja que caçava à entrada da gruta e entrou.
Havia no ar um cheiro calcário que denunciava a proximidade com o litoral, mais que a vizinhança do rio; o chão polvilhado de pedra moída. A dor de cabeça surgiu no momento previsto: a presença intrusiva que experimentava sempre que regressava à gruta. Uma sensação repelente, como se dedos pegajosos lhe massajassem a mente.
Uma série de imagens brotaram-lhe na cabeça; retalhos ordenados como um livro de ilustrações. Ele desconfiava que a origem daquelas visões forçadas se relacionava com os filhos deformados que viviam no fundo da gruta: era o modo peculiar que tinham encontrado para comunicar com o pai, mas, enquanto falavam, aprendiam. Ollanda viu desejos futuros, viu a figura secreta do salvador imaginado: não a personagem brilhante que o animava nas horas de desalento, mas uma versão corrompida, demasiado horrível para ser verdadeira. Tremeu, desconfortável, amparando a cabeça com a mão, e abandonou o indesejado no chão.

O Indesejado?!

Estes filhos deformados estavam para o Desejado como o Anti-Cristo estava para Jesus. Ollanda não compreendeu a mensagem que lhe arrombava o espírito, mas sentiu uma angústia que ultrapassava a maior das ambições. Qual o significado? Nenhum: a substância dos sentimentos era não terem expressão.
Alguém se aproximou, oriundo do interior da Terra, e o homem reconheceu-o: tratava-se do segundo filho. Crescera! Arrastava-se pelo chão, olhando-o com curiosidade infantil. Ollanda recuou, atingido pela recepção de uma imagem que lhe era conhecida: a noite em que deixara esse segundo filho na gruta. Ele lembrava-se!
Cobriu a boca com as mãos e fugiu a correr em direcção ao rio, deixando o seu sexto bebé na caverna. Ajoelhou-se e mergulhou a cabeça na água para afogar as imagens horríveis.
Malitia Temporis!’, gritou, com água a escorrer-lhe pela barba loura. Agarrou erva com as mãos e arrancou-a num gesto desesperado. ‘Oh, Deus, perdoa-me, que eu criei monstros em teu nome!’
Serenou, pensando que tinha sido a última vez que produzira uma aberração: a receita estava apurada, sem dúvida. Apressou-se até ao sítio onde deixara o cavalo e retirou-se.
Perturbado pela visita do pai, o segundo filho emergiu lentamente da entrada da caverna e espiou o mundo pela primeira vez. Observou as coisas sem as compreender, sem as reconhecer. Sentia-se confundido por um novo tipo de imagem mental que formulara quando vira o pai dentro da gruta. Tratava-se de uma representação diferente das outras – mais abstracta.
Arrastou-se até ao rio e, debruçando-se, viu o seu reflexo na água. Permaneceu algum tempo a observá-lo, a tentar decifrar aquilo que o incomodava. Num instante, percebeu tudo com uma clareza assustadora. Perturbado pela constatação que conseguia pensar por palavras, e não apenas por imagens, ergueu-se e olhou para o céu negro. A confusão deu lugar ao medo e esse temor transformou-se em ódio: a nova espécie de imagem que o encorajara a sair da gruta não passava, afinal, de um pensamento! Um pensamento que o fazia sentir sozinho. Um pensamento que acabara de o transformar para sempre.
Não era igual ao pai

sábado, 3 de outubro de 2009

Desinformação

Apesar de ainda não o ter visto, soube que foi editado há pouco tempo o romance Passageiros da Neblina, da autora espanhola Monserrat Rico Góngora, que, tal como o meu A Conspiração dos Antepassados, fala sobre o encontro de Fernando Pessoa e Aleister Crowley na Lisboa de 1930. Hoje de manhã encontrei na net uma entrevista que essa escritora deu ao Diário de Notícias e fiquei muitíssimo surpreendido: pela negativa.

O problema é meu, porque como levo o ofício da escrita a sério, assumo que a maioria dos escritores também o fazem. Por conseguinte quando Góngora diz na entrevista que «Crowley era uma pessoa depravada, tinha praticado em Itália rituais de canibalismo que resultaram numa ordem de expulsão do próprio Mussolini. Sabe-se que vampirizou pessoas na Índia e esteve ligado a cultos satânicos (...)» e, ao mesmo tempo, afirma numa entrevista ao site Portal de Livros que «técnica e credibilidade obtém-se com anos de esforço e investigação» eu interrogo-me sobre quanto «esforço» e «investigação» é que ela terá dedicado à vida de Aleister Crowley, personagem sobre a qual decidiu escrever.

Não vou calçar luvas de pelica: afirmações deste género só têm o objectivo de titilar os potenciais leitores e não servem em nada para esclarecer as vidas das personagens (reais) que, supostamente, servem de motor à narrativa. Eu li todo o material biográfico relevante disponível sobre Aleister Crowley (assim como o disponível sobre Fernando Pessoa) e não encontrei uma única linha que pudesse corroborar as supracitadas afirmações da escritora espanhola.

Na verdade, Crowley tentou criar uma seita (mais de inspiração literária que verdadeiramente religiosa) em Cefalù, na Sicília, mas não foi expulso por culpa de «rituais de canibalismo» nenhuns, nem sequer foi expulso por culpa da (esta, sim, verdadeira) morte acidental de um discípulo. Crowley foi expulso da Itália por Mussolini porque os fascistas acharam que Crowley estava a criar uma célula comunista à porta da casa deles. Aliás, quando Crowley publicou O Livro da Lei, este foi recebido pela maioria dos leitores como sendo um livro comunista e a aura de simpatizante do regime soviético não o abandonou durante esses anos. Terá até sido essa uma das razões pela qual ele se lembrou de enviar uma cópia d'O Livro da Lei a Hitler, quando este "ganhou" as eleições na Alemanha: para mostrar que não era comunista nenhum.

Mas é claro que dizer isto numa entrevista não é tão titilante como dizer-se que Crowley era satanista (no sentido mais vulgar da palavra) ou canibal. A verdade histórica raras vezes pode ser reduzida a soundbytes desse género.

Não li o livro Passageiros da Neblina, mas se este tipo de «esforço» e «investigação» é aquele que pautou a escrita dele, então dispenso, muito obrigado.
É que levo demasiado a sério o ofício da escrita - e a investigação séria e rigorosa que está por trás desse labor - para, sequer, achar piada a este tipo de "intervenções".

domingo, 20 de setembro de 2009

A Conspiração dos Antepassados

Neste mês comemora-se o septuagésimo nono aniversário da visita que o mago inglês Aleister Crowley fez ao poeta português Fernando Pessoa, em Lisboa. Esta ocasião lembrou-me de avisar que a edição especial do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007), sobre esse encontro (e não só) que já teve duas edições, vai sair no primeiro semestre do próximo ano, mesmo na peugada do meu novo romance que será editado para meados de Fevereiro.

Para quem já leu A Conspiração dos Antepassados, deixo a menção que a edição especial terá algumas surpresas... Para quem ainda não leu, e deseja descobrir que motivos terão levado Aleister Crowley a encontrar-se com Fernando Pessoa, e o que é que o mito sebástico e a obra do artista renascentista português Francisco D'Ollanda têm a ver com isso, deixo um convite para que o leiam e o levem com vocês para casa (façam, pois, o download do primeiro capítulo).

Aproveito, também, para divulgar a entrevista que dei ao site O Major Reformado, de Nuno Hipólito, aquando da publicação da primeira edição do romance.

Para terminar, e para quem se interessa sobre a vida e a figura de Aleister Crowley, ficam dois excertos de uma palestra que eu dei no Fórum Fantástico (evento organizado pela Associação Épica) e que se dedica a divulgar o género Fantástico nas artes. A palestra teve como tema as ligações entre as personagens principais do romance, assim como exposições sobre temas do esoterismo português e europeu que se relacionam com a narrativa (os excertos foram filmados por Miguel Garcia).