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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Na vacuidade do oceano cósmico

Atrevamo-nos a dar esta resposta à premente pergunta sobre se seremos náufragos na vacuidade do oceano cósmico: estamos sozinhos. Será assim tão desesperante compreender que Atlas poderá carregar um universo vazio?

A vida terrena é um hápax — é, além disso, prisioneira daquela excrescência arquitectónica que nenhum mestre conseguiu ainda erradicar: as enjuntas, triângulos formados pela inscrição de um círculo dentro de um quadrado. Na cosmogonia desenhada pelo artista quinhentista português Francisco d'Ollanda o triângulo é a forma fundamental; telúrio que se derrama sobre o globo para constituir os elementos e os seres, a unidade primeva da vida. Em simetria, para o novecentista inventor americano Buckminster Fuller também o triângulo era o primeiro objecto, a forma primordial por ele serializada em massa na esférica estrutura das suas cúpulas geodésicas.

A vida é uma enjunta formada pela sublime construção do universo; suprema superfluidade que prospera naturalmente, somente pelo harmonioso encaixe de cegas estruturas que em nada se lhe relacionam: termirácula, prodigeomaturga, unarrepetível. Na subitânea dimensão que lhe foi proporcionada, a vida é proteica, multifária, polimorfa; alfabeto adaptável a todos os idiomas e geografias.

No conto O Estudante, Chekhov descreve a comoção sentida por uma aldeã viúva e sua filha ao escutarem, enquanto se aquecem diante de uma fogueira, o relato da paixão de Cristo que lhes é narrado pelo titular estudante, que se lembrou de como Pedro negou Jesus enquanto se aquecia diante de uma fogueira no pátio do Sumo Sacerdote. As mulheres choram sob uma dor profunda, como se fossem elas próprias mãe e irmã do Messias — e o estudante afasta-se, perplexo, por presenciar essa plangência com dezanove séculos de atraso. Ao voltar de barco a casa, o jovem encontra a sua aldeia na linha do olhar e sente-se preenchido por um poderoso sentimento de «juventude, saúde e força» e por uma «felicidade misteriosa». Escreve o autor que «a vida parecia encantadora, miraculosa, imbuída de exaltante significância».

Existe exaltante significância na vacuidade do oceano cósmico. Existe exaltante significância neste esconso formado pelo arco de titânicas forças físicas. Está imbuído de um ininterrupto sinal que é emitido por este ínfimo lodaçal do tempo em que, por excepção, nascemos e que continuamente nos serve de guia no nevoeiro cruel da existência. Esse cordão invisível estendido entre o início e o fim nunca se recolhe ao toque: esse cordão repercute a linguagem da história e do mito. Diz-nos que não estamos abandonados. Acompanham-nos todas as vidas extintas que se intersectaram para chegarmos mais longe — admirável panteão que nos albergará um dia. No interior da inesgotável enjunta que nos deu o ser não somos derelictos.

Essa transparente iminência fez chorar as personagens de Chekhov. Essa proximidade emociona-nos quando lembramos os nossos mortos: onde estarão os pais e as mães desaparecidos senão aqui, na diáfana e improvável excepção que é a única realidade que conhecemos. A única verdade que conhecemos. Mortos e vivos, estamos todos aqui; numa perdida enjunta que mal se distingue na imensidade. Numa crudelíssima e friíssima fímbria do cosmos.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Colóquio sobre Francisco de Holanda na Biblioteca Nacional


No próximo dia 4 de Dezembro, na Biblioteca Nacional de Portugal, ocorrerá o colóquio Francisco de Holanda: Pintura e Pensamento. Sobre a vida e a obra de Francisco de Holanda, um dos meus heróis intelectuais. A não perder: divulguem e apareçam.

quinta-feira, 23 de março de 2017

500 anos de Holanda e 10 de Conspiração

 
Neste ano assinalar-se-á (em Setembro) o quingentésimo aniversário do artista e humanista português Francisco de Holanda: para celebrar a efeméride, o Museu do Dinheiro, em Lisboa, inaugurará a 5 de Abril uma exposição intitulada Francisco D'Holanda: Desejo, Desígnio e Desenho (1517-2017), dedicada à vida e obra desta figura cimeira do Renascimento. De igual maneira, neste ano assinalar-se-ão (também em Setembro) dez anos da publicação do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência), no qual a obra e vida de Francisco de Holanda é um dos temas principais: na foto, observe-se na capa da primeira edição do romance a configuração do Louva-a-Deus pintado por Holanda no frontispício do seu livro Imagens das Idades do Mundo (motivo que, sabe quem leu, é de vital importância para todo o edifício narrativo). Assim, gostaria de operar algo especial para assinalar a dupla efeméride, de molde que irei pensar sobre em que poderá consistir essa celebração. Entretanto, convido-vos à (re)descoberta da obra de Holanda e de A Conspiração dos Antepassados.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Edição especial em Janeiro de 2010

No próximo dia 22 de Janeiro será publicada uma edição especial do meu romance A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência, 2007), sobre o encontro do poeta Fernando Pessoa com o mago Aleister Crowley: com uma nova capa e um prefácio de António de Macedo, consiste numa edição da qual muito me orgulho.

Quem já leu, sabe que a história orbita em volta do mito sebástico e tem como ponto de partida a vida e a obra do pintor renascentista português Francisco D'Ollanda. É dele a pintura que ilustra o excerto de A Conspiração dos Antepassados que se segue; um trecho que o apresenta como personagem. É, pois, um convite que eu deixo, àqueles que ainda não leram o romance, para que aguardem pela publicação da edição especial.

«Protegendo-se do violento vento nocturno, com um capuz e um manto, Francisco d’Ollanda agarrou o bebé contra o peito e desceu o carreiro pedregoso em direcção à entrada da gruta; o ruído do rio que fluía para o interior da Terra, invés de desaguar no Tejo, era uma verdadeira alegoria das energias telúricas que erguiam a traça magnética da área. Mais uma vez, precisava de abandonar um filho nessas fundações de pedra.
No início do ano morrera D. João III, seu protector, e as construções que ambos acompanhavam permaneciam incompletas. Preocupado com as urgentes experiências alquímicas, descurara as obras no Mosteiro de Santa Maria de Belém e nos Paços Reais de Enxobregas – a sua tão amada Nova Lisboa. D. Catarina estava com vontade de se ocupar pessoalmente das alas inéditas que ele tinha desenhado para o Convento de Cristo, em Tomar, projecto que muito lhe aprazia. De qualquer modo, Tomar encontrava-se demasiado distante, na geografia e na mente, para que pensasse no mosteiro: a morte do rei obrigava-o a trabalhar sob uma pressão inusitada – a rainha queria resultados no espaço de um ano. A delicada situação que se avizinhava não permitia desleixos.
Ollanda admirou a criança deformada, que carregava ao colo, com um misto de repulsa e esperança: após seis experiências falhadas, compreendera finalmente o que fizera de errado e já sabia como emendar a receita que seguia. O bebé era a prova que se aproximava, célere, da fórmula perfeita: as deformações que o afectavam eram insignificantes, comparadas com aquelas que cobriam os corpos dos irmãos mais velhos.
Talvez tivesse sido mais acertado eliminar essas criações inúteis, mas, construídas à imagem do seu melhor anjo, o arquitettore não encontrou coragem para as matar. Lembrou-se de as deixar naquele local isolado, ao abrigo da crueldade dos homens. Na verdade, sentia-se orgulhoso delas: vaidoso por ter tido sucesso; mesmo que essas vidas não servissem os objectivos para os quais havia sido contratado pela coroa.
Começara esse empreendimento em Outubro de 1550; D. Catarina pagara-lhe, para efeitos de contrato, uma primeira prestação de vinte e cinco cruzados, mercê de doações periódicas e alojamento. Sete anos depois, não se arrependera. O segredo que só ele sabia é que aceitara o trabalho infernal com a meta de amealhar dinheiro suficiente para se casar. Amava a mulher, D. Luísa da Cunha de Siqueira, e bastava-lhe acordar ao lado dela para pensar que as maquinações diabólicas valiam a pena. Mesmo assim, debruçado sobre as retortas, sobre o lendário Caldeirão Negro, quando calhava a vislumbrar o seu reflexo em alguma superfície reflectora via um rosto contorcido que não reconhecia: uma face impregnada de satanismo – ele estava a adorar cada momento da sua missão! Haveria de chegar o tempo de parar e de plantar couves na horta, no Monte: antes, precisava de mudar o mundo, de oferecer o Messias ao Quinto-Império.
O paredão com a gorja da caverna elevava-se na noite como um gigante petrificado, castigado pela Lua. Ollanda assustou uma coruja que caçava à entrada da gruta e entrou.
Havia no ar um cheiro calcário que denunciava a proximidade com o litoral, mais que a vizinhança do rio; o chão polvilhado de pedra moída. A dor de cabeça surgiu no momento previsto: a presença intrusiva que experimentava sempre que regressava à gruta. Uma sensação repelente, como se dedos pegajosos lhe massajassem a mente.
Uma série de imagens brotaram-lhe na cabeça; retalhos ordenados como um livro de ilustrações. Ele desconfiava que a origem daquelas visões forçadas se relacionava com os filhos deformados que viviam no fundo da gruta: era o modo peculiar que tinham encontrado para comunicar com o pai, mas, enquanto falavam, aprendiam. Ollanda viu desejos futuros, viu a figura secreta do salvador imaginado: não a personagem brilhante que o animava nas horas de desalento, mas uma versão corrompida, demasiado horrível para ser verdadeira. Tremeu, desconfortável, amparando a cabeça com a mão, e abandonou o indesejado no chão.

O Indesejado?!

Estes filhos deformados estavam para o Desejado como o Anti-Cristo estava para Jesus. Ollanda não compreendeu a mensagem que lhe arrombava o espírito, mas sentiu uma angústia que ultrapassava a maior das ambições. Qual o significado? Nenhum: a substância dos sentimentos era não terem expressão.
Alguém se aproximou, oriundo do interior da Terra, e o homem reconheceu-o: tratava-se do segundo filho. Crescera! Arrastava-se pelo chão, olhando-o com curiosidade infantil. Ollanda recuou, atingido pela recepção de uma imagem que lhe era conhecida: a noite em que deixara esse segundo filho na gruta. Ele lembrava-se!
Cobriu a boca com as mãos e fugiu a correr em direcção ao rio, deixando o seu sexto bebé na caverna. Ajoelhou-se e mergulhou a cabeça na água para afogar as imagens horríveis.
Malitia Temporis!’, gritou, com água a escorrer-lhe pela barba loura. Agarrou erva com as mãos e arrancou-a num gesto desesperado. ‘Oh, Deus, perdoa-me, que eu criei monstros em teu nome!’
Serenou, pensando que tinha sido a última vez que produzira uma aberração: a receita estava apurada, sem dúvida. Apressou-se até ao sítio onde deixara o cavalo e retirou-se.
Perturbado pela visita do pai, o segundo filho emergiu lentamente da entrada da caverna e espiou o mundo pela primeira vez. Observou as coisas sem as compreender, sem as reconhecer. Sentia-se confundido por um novo tipo de imagem mental que formulara quando vira o pai dentro da gruta. Tratava-se de uma representação diferente das outras – mais abstracta.
Arrastou-se até ao rio e, debruçando-se, viu o seu reflexo na água. Permaneceu algum tempo a observá-lo, a tentar decifrar aquilo que o incomodava. Num instante, percebeu tudo com uma clareza assustadora. Perturbado pela constatação que conseguia pensar por palavras, e não apenas por imagens, ergueu-se e olhou para o céu negro. A confusão deu lugar ao medo e esse temor transformou-se em ódio: a nova espécie de imagem que o encorajara a sair da gruta não passava, afinal, de um pensamento! Um pensamento que o fazia sentir sozinho. Um pensamento que acabara de o transformar para sempre.
Não era igual ao pai