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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Veneza inundada - e congelada


 
Pelas imagens que a comunicação social nos vai mostrando pode constatar-se que a pulcritude de Veneza possui fulgurância suficiente para impedir que a água que a alcatifa neste instante não a repasse pelo sentimento trágico que, infelizmente, acompanha este género de infortúnios infligidos pelos elementos.

Há quatro anos, quando estive em Veneza, fotografei este precioso testemunho litografado numa hierática coluna disposta no Sotoportego del Traghetto, situado no distrito de Cannaregio: de contornos dilatados pela erosão, os petrícolas caracteres inscritos na superfície por um veneziano chamado Vincenzo Bianchi contam-nos sobre um extraordinário episódio, datado do Inverno de 1864, em que as águas venezianas congelaram.

O gelo era robusto e extenso o bastante para os venezianos irem a pé até à ilha de San Michele - na qual fica o cemitério de Veneza; onde está sepultado um dos meus heróis literários, o escritor inglês Frederick Rolfe, mais conhecido pelo seu pseudónimo Barão Corvo. A inscrição diz o seguinte [tradução minha]: «Eterna memória, do ano de 1864, do gelo visto em Veneza, que da Fondamenta Nove* a São Cristóvão** iam as pessoas em procissão, como numa avenida. Vincenzo Bianchi, em 1864.»


*Novo Paredão, uma reconstrução do século XVIII do antigo passeio marítimo quinhentista, destruído por uma tempestade.

**A ilha de San Michele consiste na junção artificial de duas ilhas: a antiga ilha de San Michele (onde foi construída no último quartel do século XV a primeira igreja veneziana de tipo renascentista) e a de San Cristoforo della Pace (na qual foi construído o cemitério, já no século XIX).


quarta-feira, 30 de julho de 2014

Cinco sugestões de leitura (ficção)

Geralmente, não leio ficção, mas isso não significa que eu não goste de ficção. Na realidade, a única razão pela qual vale a pena escrever é a de passar-se uma temporada em excusivo retiro mental num mundo totalmente fictício - sobretudo quando o mundo real falha em alcançar padrões de excelência aceitáveis. Assim, deixo uma pequena lista com cinco livros de ficção, lidos durante os últimos quatro ou cinco anos, que me emocionaram. Neste momento, as escolhas são estas - em outro, seriam, certamente, diferentes. Não elenco estes títulos em nenhuma ordem preferencial ou parecida.


1) Stoner, de John Williams. Um livro extraordinário, escrito com uma subtileza surpreendente, sobre um filho de agricultores que se torna professor universtário. Grande parte da narrativa tem de ser percebida nas entrelinhas, porque não é descrita. Uma história sobre o valor redentor da cultura, da inteligência e da inexpugnável integridade de carácter. Um belo livro triste.



2) Nicholas Crabbe, de Frederick Rolfe (Barão Corvo). Terrível relato sobre as agruras de um escritor em início de carreira, mais angustiante ainda por ser, em maior espessura, autobiográfico. A linguagem é luxuriante e o final é castigador. Um livro essencial.


3) Sirius, de Olaf Stapledon. Excelente romance sobre um cão com inteligência humana, que consegue falar (de modo um pouco tosco, mas os donos entendem-no). Misto de noveleta de ficção científica e ensaio filosófico wittgensteiniano, provocante e pertinente, que nunca, em momento algum, escorrega para a caricatura ou para o artificialismo, o que, considerando o tema, é impressionante.


4) The Sot-Weed Factor, de John Barth. Romance (verdadeiramente) picaresco, escrito sem concessões ou facilitismos em linguagem seiscentista, sobre as graças e as desgraças de um pobre diabo a quem convenceram ser o poeta laureado da colónia de Maryland. Uma obra-prima que mistura, em partes iguais, comédia desbragada e uma fina sensibilidade. Em português, o título pode ser traduzido como O Contratador de Tabaco.


5) Ada, or Ardor, de Vladimir Nabokov. Na minha opinião, o melhor romance de Nabokov, escrito com a habitual prosa pirotécnica, mas em grau superlativo de delícia. Sátira filosófica ao chamado bildungsroman, com laivos de ficção fantástica. Um livro complexo e fascinante que, misteriosamente, passa sempre abaixo do radar, comparado com o (também genial, mas) mais famoso Lolita.


sábado, 22 de março de 2014

Fábulas de Veneza #2




Inicio esta segunda parte dos meus apontamentos venezianos recordando com respeito o escritor inglês Frederick Rolfe, conhecido pelos seus admiradores (grupo a que pertenço) pelo pseudónimo Barão Corvo. No dia 25 de Outubro de 1913, com cinquenta e três anos de idade, Rolfe morreu de paragem cardíaca num quarto do hotel Palazzo Marcello, em Veneza; nos seus últimos anos lutou de modo messiânico contra um mundo que sempre foi padrasto para os espíritos mais sensíveis, experimentando as acritudes de viver numa gôndola e de dormir ao relento, perturbado pela fome, pelo frio e pelas ratazanas. Nesse período, encontrou força para ir escrevendo o seu último livro, intitulado The Desire and Pursuit of the Whole (legenda decalcada do discurso de Aristófanes sobre o amor, pronunciado em O Banquete de Platão).
Com acção situada em Veneza, esse romance recupera um dos mais complexos alter-egos corvinos, chamado Nicholas Crabbe: personagem que se estreou no romance homónimo, escrito entre 1900 e 1904, mas só publicado postumamente em 1958. Em conjunção com New Grub Street, de George Gissing (1891), Nicholas Crabbe oferece-nos um dos mais pungentes relatos (autobiográficos) sobre a vida de um escritor, equilibrando porções idênticas de desespero e expectativa para, finalmente, adurir com um desfecho terrível. Iniciado em 1909 e publicado postumamente em 1934, The Desire and Pursuit of the Whole patenteia uma imagem invertida desse mundo, com uma narrativa mais negativista que, de maneira surpreendente, finda cheia de luz. Conhecendo as circunstâncias da duríssima vida de Rolfe nesse período, o final optimista do seu último livro provoca mais calafrios que a injustiça que conclui Nicholas Crabbe, simplesmente porque assoma como escapismo exasperado de um homem aflito, procurando no seu universo autoral um fulgor de esperança, de dignidade, de humanismo. Escreveu Rolfe no final do primeiro parágrafo do capítulo XXV de The Desire and Pursuit of the Whole que «so much the better, he told God: I’m sick of this life which is just one damned thing after another». Honestidade sem afectações – desarmante.
Rolfe, o Corvo, cognome que, em italiano, é atribuído aos autores de vitupérios anónimos, está sepultado no cemitério da Ilha de San Michel, em Veneza; local que descreveu com sentimento no angustiante capítulo XXVI de The Desire and Pursuit of the Whole – quem sabe imaginando que, pouco tempo depois, iria tornar-se um dos seus residentes permanentes. Infelizmente não consegui prestar-lhe uma homenagem merecida junto da sua morada de repouso, porque o cemitério encontrava-se em obras de ampliação e a área em que Corvo foi tumulado, à saída no lado exterior, estava coberta com andaimes e outros materiais de construção que impediam a passagem. Assim, o meu pequeno tributo nestas crónicas venezianas que vou publicando são estas linhas, com as quais mantenho o seu nome vivo na memória dos meus leitores, convidando-os a descobrir com urgência a sua obra singular, porque enquanto os livros forem lidos um escritor nunca morre. A esse respeito, transcrevo um trecho do capítulo XX: «just as the physical cosmos is composed of the dust of innumerable milliards of corpses, so the psychical cosmos teems with the infinite shades of defunct ideas and creeds, the spirits of the tenets and fancies of extinct generations».
É preciso celebrar o facto de que o Big Bang, além da gravidade e do electromagnetismo, já continha a literatura: um universo que deu à luz a palavra não será, no fundo, assim tão horrendo.


  
Usanças de Veneza

  
A latebrosidade de Veneza exige uma atenção tão aguçada que, por vezes, a observação in situ se aproxima mais da obsticidade do que da própria obstinação. De outra forma, poderia passar-se pela Calle della Madonna, na jurisdição de San Polo, sem ver um curioso manufacto de preparação urbana, imaginado para resolver um dos problemas mais comuns da urbanização medieval: a questão dos balcões sobre os passeios, principalmente nas ruas estreitas onde obturam a luz do Sol. Em Lisboa esta problemática preocupou reis como D. Afonso III e D. Manuel I, dois dos soberanos que mais intervieram no desenho da cidade pré-pombalina, imperiosos na regulação de várias leis com que definiram padrões de medidas de balcões, mas também larguras de novas ruas, dimensões dos pátios exteriores e interiores e alturas de novos edifícios (assim como ordenações para diversas demolições de domicílios que não convinham à sua visão), na maioria das vezes sem pesadas consequências para os desrespeitadores, aquilate a ameaça de autuações. Veneza procurou combater a umbrosidade característica de cidades antigas, como Toledo, Lisboa ou Jerusalém, determinando um tamanho fixo para os balcões, sob a forma de um cachorro uniformizado, universalmente usável. Em arquitectura, um cachorro (ou mísula) é uma viga ou bloco de suporte de quaisquer armações que se projectem para fora das paredes exteriores de uma construção. Por vezes, estes elementos estruturais são ricamente esculpidos para fruto decorativo, embora apresentem, de maneira geral, uma linha curva ascendente. A este exemplar de cachorro que pode observar-se nesta rua, situada a curtíssima distância da Ponte Rialto, os venezianos chamam barbacane, que em português significa barbacã. Ora, uma barbacã, propriamente dita, é uma espécie de muramento defensivo que circunda as muralhas de alguns castelos e de análogas fortificações medievais: imaginem uma muralha à frente de uma muralha. (Por vezes, também se chama barbacã a uma torre de sentinela.) O étimo da palavra barbacã permanece misterioso, conquanto o etimologista José Pedro Machado se inclinou para uma origem italiana ou até francesa, declinando a hipótese de origem árabe que, tantas vezes, é a preferida. Neste brevirrostrado bloco de pedra da Ístria (material vulgar em Veneza), pode ler-se a inscrição camarária «per la juridiciom de barbacani».

  
Ainda assim, mormente o zelo camarário em homogeneizar os seus confins ocorrem contingências que, anediadas pela calandragem das eras, tornam-se o sal da vida de uma cidade: tal como existem figuras citadinas típicas – indivíduos deformados ou excêntricos que vão marcar e, em certos casos, até mudar o curso da história dos locais onde moram –, também existem casas desfiguradas e extravagantes que oferecem uma expressão especialíssima à paisagem urbana. Pode ver-se um bom exemplo na Calle del Sansoni, na jurisdição de San Polo: um edifício fortemente inclinado que, sem dificuldade, podemos idealizar como tendo sido a casa de um vespilão na idade das éclogas virgilianas. Em forma de Pi, esta entrada arruinada por graffiti é, como essa constante matemática, irracional e arisca à repetição, porque é única em toda a cidade, mas empurrada constantemente pela gravidade ainda prova ser não-newtoniana, no sentido de que quanto mais a percutem mais imperturbável ela se preserva. Há uma lição a recolher desta imagem: quem for sagaz apreendê-la-á.

  
Para além da zona do Arsenal, que visitámos no primeiro capítulo destas reflexões, situa-se a área menos turística da jurisdição de Castello, zona que a incomensurável Viale Garibaldi rompe abruptamente, criando uma fronteira deliberada entre as mais ermas fímbrias do centro e uma mancha urbícola que se apresenta como sendo um híbrido comovente entre o bairro pitoresco e o alfoz anasarcado. Este dédalo dimana um desconforto difícil de dilucidar, mas talvez se relacione mais com a desarmonia que a sua visão provoca, quando posto em paralelo com a pulcritude medieval que se deixou para trás. É, pois, aqui, no coração combalido deste casalejo coraliário, chamado Campo Ruga, que se pode ver o Sottoportego Zurlin, o pórtico mais baixo de toda a Veneza. Mesmo iluminado, este lugar é, absolutamente, tenebroso: mostrando uma máscara espeleológica que apenas crianças, em fila indiana, à guisa de melânico milípede, são capazes de colocar sem baixarem a cabeça, o pórtico parece uma masmorra virada ao contrário – um sítio de suspiros, de sustos e mórbidas moltivolações. À entrada do Sottoportego Zurlin, cenário ideal de algumas histórias venezianas de fantasmas, lembrei-me do título de um dos meus livros de contos de ficção de horror: A Luz Miserável. O Campo Ruga e imediações são bastante iluminados, mas podem crer que o são por uma luz miserável que fortalece a treva, em vez de enxotá-la.

  
Longe deste território arrabaldino, na jurisdição de Dorsoduro, a Fondamenta dei Cereri reserva uma recordação de uma diversão cruel que, até ao início do século XIX, foi gáudio dos venezianos: as lutas de cães com touros. Na placa pode ler-se como o Conselho dos Dez, em 18 de Fevereiro de 1709, ordenou que se deixassem de atiçar cães aos touros no Corte San Rocco: este pátio já não existe e a placa só foi colocada no seu presente local em 1856, quando o desporto tauróctono ia a caminho de transformar-se numa memória distante. Hostis cães braquicéfalos, como o bulldog e o rottweiler, foram criados propositadamente, desde a era romana, para lutarem com touros e com ursos em arenas e praças; algumas raças extinguiram-se depois destes passatempos terem sido proibidos – como aconteceu com o bulldog inglês original e com o bulldog alemão (o bulldog inglês e o boxer alemão actuais são raças muito recentes, criadas com a pura nostalgia em mente e sem nenhum apuramento da vocação agressiva dos seus antepassados directos). Habitualmente, os touros eram amarrados a postes, de maneira a que os cães lhes fossem arrancando bocados, mas sem que lhes fosse retirada a capacidade de se defenderem, que fazia parte do espectáculo; ainda assim, por vezes, os touros eram cegados para reduzir-lhes a resistência. Esta ocupação selvática do tempo livre não substituía a tourada, constituindo-se num outro tipo de divertimento público. Vale a pena lembrar que a antiga tourada, tal como a descrevi no capítulo O Reino do Sol do meu romance Lisboa Triunfante, continha características que vão ao encontro das lutas de cães com touros – principalmente, das lutas entre animais nos circos romanos – e consistia num evento mais babelesco, caótico e imprevisível que as touradas modernas, muitíssimo estilizadas. Nos países do Norte da Europa, em principal na Inglaterra, foram muito populares as lutas de cães com ursos.


  
Falando em fereza canina, siga-se para leste, ao longo da Fondamenta Zattere al Ponte Longa, também na jurisdição de Dorsoduro, e com vista privilegiada para as ilhas Giudecca e San Giorgio, até que a Igreja de Santa Maria del Rosario nos surja no lado esquerdo: vire-se à esquina deste templo, conhecido pela designação de Igreja dos Gesuati, e repare-se em algo que poderá escapar ao exame de quem não está ajustado com o obscuro. Um arco ao nível do chão, tauxiado num canto da igreja, denuncia o Rio Terà dei Gesuati. Em terminologia veneziana, um rio terà é o nome que se dá a um canal aterrado – e este, dos Gesuati, consistia num anoso estreito que corria sob a igreja.
A iniciativa de aterrar alguns canais de Veneza, iniciada no final do século XVIII, é controversa, mas o factual é que cerca de 55% dos canais que existiram no início do século XVI já foram aterrados, o que, a longo prazo, tem contribuído para o problema da circulação dos barcos e seu estacionamento, assim como para atrapalhar o fluxo idiossincrásico das águas da lagoa adriática. Sobre o arco, vigiando com diligência o fantasma do velho curso de água, está um grotesco com o inconfundível cão dominicano; aquele que, segundo a hagiografia, Joana de Aza, mãe de São Domingos de Gusmão, sonhou que dava à luz, com uma tocha acesa entre as mandíbulas.
Este cão com a tocha acesa é o símbolo da ordem dos frades pregadores dominicanos, chamados pejorativamente de cães do Senhor (do trocadilho em latim domini canes), fundada por São Domingos de Gusmão em 1215. A Ordem dos Pregadores, ou dos Dominicanos, depressa adquiriu junto do público uma fama desprezível pela impiedade insaciável com que perseguia os hereges, mas será injusto, de um ponto de vista histórico, colar o rótulo de maus-da-fita em exclusivo aos frades dominicanos, porque todas as ordens religiosas tiveram os seus episódios negros, em que foram responsáveis pelos piores crimes possíveis. Na verdade, dependendo dos lugares e dos contextos, os dominicanos até demonstraram maior tolerância e solidariedade para com aqueles que eram acossados, como, por exemplo, as etnias mesoamericanas, entre elas a asteca.
A presença do cão dominicano no flanco desta igreja justifica-se pelo facto de que ela é, hoje, a sede de uma fundação dominicana, embora nunca tenha sido uma igreja jesuíta, como o nome Gesuati poderá induzir em erro: a Ordem dos Gesuati (Jesuatos) foi fundada entre 1355 e 1360 pelo italiano Giovanni Colombini, inspirado pelas vidas de Santa Maria Egipcíaca e São Jerónimo a tratar dos enfermos, especialmente dos afectados pela peste bubónica. Esta congregação religiosa de irmãos leigos foi dissolvida pelo Papa Clemente IX, em 1668, por culpa de alguns melindres relacionados com a destilação e venda de bebidas espirituosas.


 
Mantendo a menção às bebidas espirituosas, revelo que um dos sinais mais curiosos que encontrei em Veneza foi o que proíbe os indivíduos de beberem em cima das pontes, de modo a que não caiam, ébrios, aos canais. Este foi fotografado a poucos passos da Ponte Santa Fosca, na jurisdição de Cannaregio, local predilecto para as lutas entre os gangues rivais Nicolotti (os pretos) e Castellani (os vermelhos). A lembrar essas antigas altercações entre pescadores e operários do Arsenal estão quatro silhuetas de solas de sapatos sobre a ponte, talhadas em pedra da Ístria. Este costume generalizado de lutas de várias facções numerosas de cidadãos em algumas pontes foi tolerado – quando não foi até encorajado – pelas autoridades de Veneza, pois consistia numa forma do povo libertar vapor sem se lembrar de criar problemas aos governantes, além de tratar-se de uma excelente metodologia de preservar a desunião da populaça, segundo o lema divide ut regnes (divide e reina) de Maquiavel. Armados com cacetes, ferramentas, facas e pedras, mas, maioritariamente, apenas com os punhos, os gangues digladiavam-se, segundo regras tradicionais, em escaramuças violentíssimas que acabavam no fundo dos canais ou nas enfermarias. Estas grosseiras lutas populares foram, finalmente, proibidas pelo Conselho Maior, no início do século XVIII, na sequência de uma autêntica guerra civil, ocorrida na Ponte dei Pugni (Ponte dos Socos), ao Campo de San Barnaba, na jurisdição de Dorsoduro.


  
É verosímil que alguns dos magoados em batalha nessas rixas procurassem restabelecer-se com o remédio regional mais famoso de Veneza: a Teríaca.
Este nome vem directamente da palavra grega theriakê, que significa antídoto. A teríaca – ou teriaga – era um fármaco afamado por curar envenenamentos de diversas ordens, mas, também, por ser uma espécie de panaceia. Veneza, cidade de infindos apotecários, possuía apenas cerca de trinta a quarenta farmácias autorizadas a produzir teríaca. Para o efeito, os boticários precisavam de capturar víboras, ingrediente principal da concatenação milagreira – e para indicar que elas eram de boa cepa, exibiam-nas vivas, durante uns dias, à entrada das lojas. A preparação deste efectuário semilendário fazia-se na rua, à vista do público e das autoridades, de molde que ainda é possível encontrar alguns buracos que os farmacêuticos de outrora escavaram no chão, defronte dos seus estabelecimentos, para colocar a base dos almofarizes em que moíam os compostos. Um dos mais bem conservados está diante da farmácia Alle Due Colonne, na jurisdição de Cannaregio, de que já falámos no primeiro capítulo destas fábulas venezianas e que pode ver-se na imagem acima. É fácil imaginar os mestres apotecários a lengalengarem, enquanto batiam com o pilão no gral, triturando carne seca de víbora, mais a peçonha venefícua, rodeados de espectadores. Aqui, unia-se, certamente, uma protofarmacopeia com o sentido apotrópico das mezinhas e dos amuletos, ou seja, assistia-se a uma transição – sem dúvida, um sobre posicionamento – da magia e da medicina (voltaremos a este ponto na segunda parte deste artigo). A produção veneziana de teríaca terminou, em definitivo, no século XIX.


Veneza grotesca

 
A mesma índole apotropaica de tisanas, amuletos e ladainhas encontra-se nas concepções de vários grotescos e restante estatuária que decora uma cidade e lhe assinala a personalidade. Aqui, remeto os leitores para o meu ensaio sobre as oitocentistas quimeras da catedral de Notre-Dame, publicado no meu livro Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, que explora com pormenor essas intenções salvíficas por trás das realizações, ao longo das eras, de esculturas desse tipo. Raras vezes, por via ingénua, desvinculada de quaisquer ortodoxias ou tradições, o mundo contemporâneo cria quimeras, grotescos e imagens que possuem fortíssima ressonância mítica (de um ponto de vista unicamente histórico – reitero a minha absoluta descrença em qualquer tipo de manifestação ou energia sobrenatural).
Uma quimera veneziana surpreendente (tanto que me esqueci, por completo, de anotar o nome da rua em que a encontrei) é este rinoceronte “de Sant’Iago”, com vieira colada, para que não se alcem incertezas. Jean Julien Champagne, que escreveu os prestigiosos livros O Mistério das Catedrais e As Mansões Filosofais sob o pseudónimo de Fulcanelli, especulou extensamente sobre as ligações entre a alquimia e a romagem a Santiago de Compostela e, nessa perspectiva representativa, eu poderia discorrer sobre os simbolismos separados do rinoceronte e da vieira, mas tal parece-me desapropriado neste contexto, porque, evidentemente, esta imagem foi criada por pura acidência, sem nenhuma intenção suplementar ao efeito artístico mais básico; dando isso de barato, não deixa de ser uma concretização intrigante, cujo resultado final, de facto, possui a tal repercussão mítica de que falei há poucas linhas. De certeza que muitíssimas imagens do passado foram assim criadas, entretanto credibilizadas por séculos de antiguidade e de balastro filosófico-simbólico inventado para justificá-las. O mito – a ficção – é, sempre, a pedra-basilar sobre a qual o homem tenta justificar a sua existência – ainda hoje isso acontece, embora os mitos e ficções contemporâneos sejam de um tipo totalmente novo, um que nos faz esquecer que não deixam de ser menos ilusórios que os mitos e ficções de ontem: este é um assunto que me magnetiza e sobre o qual eu prometo escrever com maior pormenor num artigo futuro.


  
Os livros de Fulcanelli alcançaram uma respeitabilidade insuspeita, mesmo em círculos académicos, porque, de facto, são muito bem escritos e corpulentos no que concerne à erudição: encerram um registo simultaneamente professoral e pragmático, embora orientados por um certo chauvinismo francês que, hoje, dificilmente pode ser levado a sério, mas que, no cômputo, não macula a sua importância para o estudo factual do esoterismo ocidental. Segundo a tradição, Fulcanelli terá apelidado o seiscentista Palazzo Lezze, na Fondamenta della Misericórdia, na jurisdição de Cannaregio, como sendo a «mansão filosofal de Veneza», em virtude da iconografia aparentemente alquímica que apresenta no exterior; em principal, num dos costados, cortesia de misteriosos baixos-relevos da autoria do arquitecto Baldassare Longhena (criador da Basilica della Salute, na jurisdição de Dorsoduro, insigne por conotações supostamente cabalísticas, inspiradas pelo livro Hypnerotomachia Poliphili, do veneziano Francesco Colonna, impresso em Veneza pelo tipógrafo Aldus Manutius, inventor do livro de bolso).
Veneza serviu de palco a movimentações interessantes no que concerne ao desenvolvimento da prática da alquimia. O alquimista seiscentista veneziano Otto Tackenius terá criado uma fabulosa e imbatível panaceia, feita de partes de víboras e partes de metais – recordo a prática protofarmacópica da produção de teríaca, explanada com maior detalhe na primeira parte deste artigo. Todavia, mais pertinente é observar que Veneza foi crisol de algumas “heresias” alquímicas, como a publicação em 1530 do livro Voarchadumia Contra Alchimiam de Giovanni Agostino Pantheus: tratado que traça uma distinção entre aquilo que Pantheus chamou de arquimia, a verdadeira arte esotérica transmutatória, herdada desde os tempos veterotestamentários, e a vulgar alquimia, o trabalho trivial de falsificar metais preciosos. Com esse objectivo, cunhou o neologismo voarchadumia, nome críptico que significará algo como criação de ouro. À parte do anti-alquimismo, o livro de Pantheus foi-se tornando numa fonte influente para os alquimistas mais rigorosos que desejavam desvincular-se dos inúmeros impostores que ludibriavam o público sob a nomenclatura de alquimistas – ao ponto desta palavra, em muitos locais, se ter tornado sinónimo de vigarista. Mesmo assim, Pantheus e o seu livro não marcaram em relevo a história da alquimia e, provavelmente, até passariam despercebidos se não fosse o facto do astrólogo inglês John Dee ser um fã de Voarchadumia Contra Alchimiam. No entanto, a ideia de que a famosa linguagem angélica ou adâmica (Dee nunca lhe chamou enochiana) foi inspirada pelo dialecto angélico contido no livro de Pantheus é excessiva: nem Dee, nem Pantheus inventaram os chamados dialectos adâmicos ou celestiais, empregados para comunicar-se com inteligências preternaturais ou ultraterrestres e que, à distância, podem ser interpretados como uma espécie de resquício das invocações nigromânticas e goéticas que a Idade Média herdou da época clássica. Na verdade, dialectos e gramáticas desta natureza, nem sempre arquitectados de modo prolixo, diga-se, foram populares na cultura mágica pós-renascentista.

 
Uma personagem à qual, por curiosidade, Fulcanelli devotou alguma atenção nos seus escritos é o chamado Homem Verde ou Homem da Floresta, figura momentosa em quase toda a iconografia ocidental, quase sempre representada como sendo um híbrido do humano com o vegetal. As aparências mais populares de Silvano, deus romano dos bosques, serão as representações mais imitadas deste mito, mas existem ecos nas fisionomias dos primeiros anacoretas cristãos, como São Paulo de Tebas ou São Onofre, eremitas nus, vestidos somente com os longos cabelos e barbas, à semelhança dos longos pêlos ou abundante pele herbácea de Silvano: são, em síntese, símbolos de sabedoria e de rejeição da ordem e das leis imaginadas pelos homens, em simbiose com o mundo natural e divino. A imagem de Silvano que pode ver-se acima, disposta na fachada do Palazzo Bembo-Boldù, na jurisdição de Cannaregio, é provocativa pelo pormenor dessa personagem agarrar uma espécie de escudo ou salva decorada com o Sol. Uma das minhas versões do mito do Homem Verde é a personagem Pedranceiro: gigante que faz parte do bestiário do meu romance Batalha, mas feito de pedra de ançã, em vez de matéria orgânica. Descrevo-o como sendo vagamente antropomórfico, mas retendo toda a rudeza e imperfeição da pedra em bruto. É uma alegoria da busca pela perfeição.


  
No lado leste da cidade, na jurisdição de San Polo, pode visitar-se a Pescheria Nuova: o novo mercado do peixe, inaugurado em 1907. Este mercado, desenhado pelo pintor Cesare Laurenti e pelo arquitecto Domenico Rupolo, contém inúmeras quimeras ictióides e de inspiração talássica incrustadas nos capitéis das suas múltiplas colunas. É um dos melhores exemplos da arquitectura neogótica veneziana, num estilo que faz lembrar, entre outras edificações, o interior do restaurante neogótico Abadia, na cave do Palácio Foz, em Lisboa, da autoria do arquitecto Rosendo Carvalheira e dos escultores José Neto e Costa Mota – mas sem apresentar a riqueza iconográfica e simbólica deste espaço. Ainda assim, vale a pena visitá-lo, porque as suas quimeras, emproadas sobre o rebotalho de escamas que atapeta as lajes do piso voltado para o Grande Canal, têm um aspecto ameaçador que parece despropositado num local tão costumeiro. Pode dar-se o caso delas parecerem sinistras a posteriori, aos nossos olhos: as gentes da altura poderiam ter outra ideia acerca delas.


(Fotos: Gisela Monteiro.)

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Caetera desiderantur: centenário da morte de Barão Corvo

A obscura obra literária de Frederick Rolfe (o apelido deve pronunciar-se Rofe, como o autor preferia), autodenominado Barão Corvo, pode (para efeito simplificativo) classificar-se como sendo um synallagmatikós entre o romance histórico e a autobiografia; porém, a ficção autobiográfica de Corvo não possui nenhum grau de parentesco com aquelas ficções interinsulares sobre escrevinhadores que lutam contra hipsobatimétricos bloqueios criativos, sempre desfeitos no último momento do prazo de entrega do texto por alguma inspiração que musos providenciais lhes insuflam quase por acidente. De facto, em romances como Nicholas Crabbe: or, The One and the Many, escrito, provavelmente, em 1904, mas somente publicado em 1958, e na sua sequela The Desire and Pursuit of the Whole, escrito entre 1909 e 1913, mas apenas publicado em 1934, é mostrado ao pormenor o dia-a-dia loxodrómico deste autor que, mesmo morrendo de fome nas ruas de Londres e Veneza, nunca deixou de trabalhar que nem um "taylorista" nos seus manuscritos, por ele caligrafados e encadernados com requinte - na verdade, poucas vezes uma palavra poderá ser tão bem aplicada como neste caso, pois caligrafia significa escrita bela (ou estilo admirável, se quisermos ser um pouco mais poéticos) e a letra de Corvo é belíssima, sempre desenhada com cores incomuns.

Nessa actividade maníaca é sedutor ver-se a herança rigorosa dos monges miniaturistas medievais, até porque Rolfe nunca aceitou o facto de lhe ter sido recusada uma carreira eclesiástica no seio da igreja católica: antes de ser escritor (e pintor e fotógrafo), apenas quis ser padre, mas foi, prematuramente, expulso do Scotts College de Roma, onde estudava os preceitos sacerdotais. Privado de ingressar num ofício sagrado, Corvo atravessou uma espécie de processo teantrópico: ou seja, do Divino para o Humano - do sacerdócio para a criação artística, entenda-se. Pioneiro da fotografia a cores e subaquática, foi nas letras que revelou ser um artista de elevada qualidade, criando desde cedo um estilo autoral distinto, mas incompreendido pelo grande público em virtude da sua ornamentalidade, que mescla referências clássicas, trechos compostos em latim e grego (sem tradução), uso de um verbomaníaco vocabulário, pejado de palavras crípticas e neologismos, mas, sobretudo, remordente no imperdoável ferrão com que espicaça os seus adversários. Melhor que ferrão: pinças!, pois o caranguejo foi seu signo zodiacal e avatar (a personagem Nicholas Crabbe é a corporização mais reconhecível). Mas, em italiano, a palavra corvo significa, gulosamente, escritor de cartas anónimas - geralmente, as verrinosas. O poeta Wystan Hugh Auden apelidou Rolfe de «mestre da vituperação», aludindo às famosas cartas (não-anónimas) com que este esfiapava os seus adversários do meio literário, da alta sociedade e da ICAR.

O estilo erudito e arisco às estruturas convencionais de enredo plasmado nos seus romances e a visibilidade catacáustica que estes foram reunindo ao longo das suas provisórias publicações têm afastado o Barão Corvo de gerações de leitores que, hoje, mais do que ontem, talvez não possuam as chaves necessárias para decifrá-lo. O mundo literário tarda em reconhecê-lo, em parte porque Corvo não teve campeões da crítica: é, sobretudo, um escritor que é lido e admirado por escritores - quando é lido, de todo.
Enquanto conhecedor e admirador da obra de Corvo, sublinho que ela se encontrava muito à frente do seu tempo, na hábil concatenação de modos diversificados de escrever: como o (autêntico) romance histórico e a ficção biográfica, que já citei, mas, também, prolepticamente, o romance neológico "joyceano" ou "proustiano". Autónoma à adversidade que o animou contra a igreja católica, enquanto instituição, a fé que professou foi intensa, mas esta nunca influíu sobre a sua obra literária: nenhum romance de Corvo apresenta as ideias de perdição e de perdão que podem ler-se nos redentoristas romances "católicos". Também não foi um decadentista, embora a sua obra toque tangencialmente nessas temáticas. Em maior espessura, Corvo poderá inscrever-se na mesma família de autores autobiográficos, como Thomas De Quincey - ou George Gissing, autor do pungente New Grub Street, que, nem de propósito, partilha proeminências com o mundo de Nicholas Crabbe: em ambos os títulos, é descrita a difícil vida dos escritores eduardianos e, em ambos, os desfechos são terríveis, embora em Nicholas Crabbe se sublevante uma maior sinistralidade, porque personagem e autor se encontram aí separados por uma membrana muito mais transparente que em New Grub Street. E isto é dizer muitíssimo, porque o final de New Grub Street é um dos mais dispépsicos que já li.
Passados cem anos após a sua morte, Corvo e a obra que deixou permanecem excêntricos - no sentido de fora do centro. Dificilmente poderia ser de outra forma: hoje, para ter sucesso, basta estar onde está o mercado - e, para isso, ser-se bom não interessa nada, quando não consiste, até, num obstáculo.

A maioria das biografias existentes sobre Frederick Rolfe (são apenas quatro - e uma foi publicada no passado mês de Abril) insistem em vê-lo como um verrinista que injustiçou aqueles que, no fundo, até o quiseram ajudar, mas observando com atenção as informações factuais e as correspondências que chegaram até nós é flagrante que Corvo estaria, de facto, nas listas negras de algumas publicações, editoras e até de certas esferas católicas. O seu feitio frontal e a intolerância que tinha à mediocridade facilmente o faziam cair em desgraça diante dos bonzos da altura. Fascinado pela sua queda, o biógrafo A. J. A. Symons compôs em The Quest For Corvo um retrato empático, ainda influente, mas algo pseudoepigráfico - faz-me lembrar a biografia de Fernando Pessoa escrita por João Gaspar Simões, que até é uma leitura empolgante, mas nubivagante. Robert Scoble, autor de Raven: The Turbulent World of Baron Corvo, beneficia de informações mais apuradas e corrigidas, mas, ainda assim, desenha um perfil psicológico assente na crença de que o autor de Hadrian The Seventh sofria de um transtorno de personalidade paranóide, para o qual não existia medicação.
Com maior ou menor razão para isso é sempre tentador ver sinais de doença mental no comportamento dos artistas, porque dessa maneira o seu carácter único - que o têm - excresce de uma deficiência e não do génio. A verdade é que os homens pequenos não gostam dos homens grandes - se estes forem doentes, encontrar-se-ão mais próximos da pequenez daqueles. É possível que Rolfe padecesse de paranóia - ou até de transtorno de personalidade limítrofe, sabemos lá -, mas eu acho que aquilo que o atormentava e que, concomitantemente, o levava à depressão, era o simples facto de ter plena consciência de que era um gigante entre anões; era o simples facto de, por culpa desse isolamento intelectual, ter de tolerar, consentir, deixar passar, o comportamento, a boçalidade e a deslealdade de homens de menor qualidade.

Poucos escritores declararam a sua admiração por Corvo: Ronald Firbank, Evelyn Waugh, Graham Greene e Alexander Theroux serão, provavelmente, os casos mais conhecidos - e entusiastas. Descobri a obra de Rolfe com o romance Hadrian The Seventh, publicado em 1904, que tem como protagonista outro avatar corvino: a personagem George Arthur Rose, amigo de Nicholas Crabbe, que, numa reviravolta inesperada, é eleito Papa. Há poucas linhas escrevi que Rolfe passara por um processo teantrópico e, na verdade, o Humano que encontrou ao descer do Divino foi ele próprio: Rose, ou Hadrian VII, não perde tempo com assuntos espirituais, como os Papas comuns; antes prefere moldar "maquiavelicamente" os assuntos seculares (e é bom que haja tabaco suficiente até o mundo ser refeito à sua imagem). Aquilo que me atrai na obra de Rolfe é a sua omnivagância, a sua visuriência, o sentimento libertador de que se está a ler um autor que não está preocupado com mais nada a não ser a indulgência de imergir-se completamente no seu próprio mundo.
Este texto, publicado neste dia, é a minha contribuição para que se mantenha viva a memória e a obra deste criador único, que, como poucos, foi movido por um fogo interior de uma enormíssima resistência.    

Frederick Rolfe, o Barão Corvo, morreu em 25 de Outubro de 1913, num quarto do hotel Palazzo Marcello, à beira do Grande Canal, em Veneza. Conseguira convencer o dono do hotel a dar-lhe, finalmente, guarida, depois de passar meses a dormir na rua, onde contraíu bronquite e foi constantemente mordido por ratazanas. No entanto, nunca deixou de escrever e, ao falecer, deixou terminado mais um romance: The Desire and Pursuit of the Whole - um título aristotélico que dá o sopro de vida a uma espécie de sequela, com final feliz, de Nicholas Crabbe. Mas Corvo não teve um final feliz. Morreu sozinho, ignorado e sem ver a sua obra reconhecida. Está sepultado no cemitério veneziano de San Michele e serão pouquíssimos aqueles que o visitam.
Todos os homens morrem sozinhos - mas existem alguns que têm tanta solidão dentro deles que morrem mais sozinhos que os outros. Caetera desiderantur - ainda falta o resto.
A verdade é que ainda falta o resto todo.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Morto há cem anos: Barão Corvo


No próximo dia 25 deste mês far-se-ão cem anos desde a morte de Frederick Rolfe, o autodenominado Barão Corvo, um dos meus heróis literários e um dos mais extraordinários ourives de palavras que já existiram. Será, infelizmente, uma efeméride que passará despercebida, porque Rolfe é um escritor desconhecido pela maioria, somente lido e apreciado por um grupo (muito) restrito de conhecedores. Rolfe morreu pobre, numa altura em que vivia nas ruas de Veneza, e encontra-se sepultado no cemitério da pequena ilha de San Michele. Já escrevi várias vezes sobre a minha admiração por este autor (nesta ligação, por exemplo), que, mesmo sem tecto e possuindo apenas a roupa que trazia vestida, nunca deixou de escrever e ainda foi capaz de deixar completo um último romance antes de perecer (The Desire and Pursuit of the Whole). Poucos anos após a morte, o Barão Corvo quase caiu no esquecimento, mas é com alegria que declaro que faço parte dos leitores pertinazes que não deixam morrer a sua obra. Por conseguinte, prometo escrever algo especial para celebrar o centenário da morte de Corvo no próximo dia 25.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Viva Corvo!


Hoje de madrugada, acabei a leitura de um título que me emocionou muitíssimo: «The Quest For Corvo: An Experiment In Biography», de A. J. A. Symons, sobre o vergonhosamente olvidado escritor, fotógrafo e pintor Frederick Rolfe (pronuncia-se "rofe"), mais conhecido pelo pseudónimo Barão Corvo.
Já escrevi diversas vezes que Rolfe é um dos meus heróis literários - um verdadeiro génio da literatura que morreu sozinho, em Veneza (1913), na mais abjecta miséria. Seja em Veneza ou em outro lado qualquer, os génios, de maneira geral, comem e morrem sozinhos - só os parasitas comem e morrem acompanhados: não é de espantar que essa palavra venha da grega parásitos, que significa "aquele que come junto de" ou "aquele que come do mesmo prato que". Mas este não é um costume que tenha morrido na Grécia antiga: podem crer que ainda hoje existe quem faça profissão do hábito de comer dos pratos dos outros.

A biografia de Symons descreve com isenção e compaixão a catabática trajectória de Corvo; autor que sempre, sempre e sempre esteve na vanguarda daquilo que se propôs a fazer, fossem fotografias (foi um dos pioneiros da fotografia a cores, numa altura em que a fotografia a cores não galvanizou ninguém), fossem pinturas (foi um dos pioneiros de um estilo expressionista, numa altura em que esse estilo não galvanizou ninguém) e foi o autêntico inventor - muito antes de Joyce, por exemplo - do romance enciclopédico e polissemântico (numa altura em que aquilo que galvanizava os leitores era o superficial e unidimensional). Costumo dizer que as pessoas inteligentes sofrem sempre mais - e a vida de Corvo comprova-o. Publicada em 1934, a biografia de Symons, livro pioneiro no género da moderna biografia (foi este o livro que credibilizou - se não inventou - a investigação biográfica), é uma biografia autêntica: ou seja, não se lê como se fosse um romance. Romance é romance, biografia é biografia: e Symons, conhecedor de ambas as linguagens, sabe muito bem o que faz, estruturando uma investigação sólida e desarmante, na qual não existe nada, mas mesmo nada, de afectado, vaidoso, pedante, paternalista ou imbecil. É uma biografia que é, em simultâneo, dura e terna para com Corvo: não é um libelo nem uma eulogia e, por manter intacto esse fino equilíbrio, é um livro extraordinário.

Existe uma passagem que, confesso, me emocionou mais do que todas as outras: perto do final do livro, depois de descrever a miserável morte de Corvo, lamentando a incapacidade para descortinar o paradeiro dos seus maravilhosos manuscritos perdidos, Symons desvenda que recebeu uma carta inesperada, endereçada de Londres, que lhe gelou a espinha, pois a caligrafia, reconheceu-a, era a de Corvo.
Leu a carta, endereçada por um sujeito chamado John Bland, e descobriu que consistia numa mensagem manuscrita pelo filho de um velho amigo de Rolfe, que tinha sete anos de idade quando conheceu o escritor; este enviara-lhe, durante algum tempo, cartas nos seus aniversários: «Rolfe was an occasional visitor to the house. I remember him as a man of charming manners to a child, who knew all about magic and charms, who wore strange rings and told fascinating histories».
A caligrafia corvina era lindíssima e o miúdo guardou todas as cartas; mais tarde, ao fazer dezasseis anos, achou que estava na altura de aprender a escrever melhor, pois tinha uma letra terrível e, então, lembrou-se das cartas de Corvo, com a espantosa caligrafia. Usou-as como modelo e aprendeu a escrever com a letra do falecido escritor: «the caligraphy of Frederick Rolfe still lives».

Felizmente, também os manuscritos perdidos foram aparecendo e, hoje, a maioria da obra de Rolfe já foi publicada, embora lhe faleça o mais que merecido reconhecimento. Porém, como costumo dizer, a obra fica para sempre e é ela o único antídoto contra a morte.
Quem se lembra, hoje, dos escritores da moda, contemporâneos de Corvo?
Quem se lembra, hoje, das críticas, dos artigos promocionais e dos prémios de compromisso, criados para promovê-los e para sustentá-los?
Ninguém: desapareceram todos, por virtude da sua própria efemeridade.
Mas lembramo-nos, hoje, do excêntrico e genial Barão Corvo que esfaimando-se e dormindo numa gôndola ainda foi capaz de escrever mais uma obra-prima antes de falecer. Infelizmente, já não existem pessoas desta cepa e as que, como ele, existiram, parecem-nos tão irreais quanto personagens de ficção. Na sua vontade indómita de criar - de criar genialmente - e, também, na sua heteronímia, Corvo foi uma espécie de Fernando Pessoa muitíssimo mais ousado, muitíssimo mais trágico. Mas para recordar Corvo, em vez de resgatar um verso de Pessoa, prefiro lembrar um de outro grande poeta português, injustamente esquecido: Sebastião da Gama. O seu «Pequeno Poema» é o melhor epitáfio que posso dar, em homenagem, a Frederick Rolfe, o Barão Corvo:

«Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,

não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,

bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...»


Diz Gama que «quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu». Atrevo-me a dizer que, em relação ao contributo de Corvo para a literatura, que também ainda não existe nada de novo, senão o dele, desde que ele nasceu.