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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A filosofar contra o capote*


Assistir na televisão a emissões do programa Prós e Contras sobre o tema das touradas já se vai tornando, por mérito próprio, uma espécie de para-tradição; ontem à noite*, mais uma vez os defensores e os opositores da dita festa brava esgrimiram veementemente argumentos antagónicos sem que se chegasse a qualquer tipo de conclusão. Do meu ponto de vista, ambas as trincheiras projectaram metralha: entenda-se, nuvens fragmentárias de munição pulverizada, eficaz em fazer estrago imediato, mas quiçá inútil em ganhar a guerra — que é outra forma de dizer que foram quase sempre argumentos improvisados a partir das palavras dos adversários, em vez de teses bem concertadas e impactantes.

Um dos erros frequentes, nesse debate e não só, é confundir-se constantemente a violência da tourada (no caso português, em menor grau que em outros países também tauróctonos) com um espírito passadista, caquético. Com efeito, o espectáculo da tourada possui muitos elementos anacrónicos e repetitivos, mas a violência não é um deles, pois esta é, em virtude da sua natureza, quase sempre revolucionária. Ou seja, não é pela via da crueldade e da exposição da carne coreotransmutada que a tourada estará ultrapassada. No actual panorama cultural, no nosso particular epocalismo, a violência é ritualizada, higienizada e adstrita a áreas exclusivas — à memória, assoma o trabalho seminal de Norbert Elias, Desporto e Sociedade, entre títulos diferentes de outros autores. Destapada da estanque caixa de Petri em que a enclausuramos, a violência patenteia o seu ethos mercurial, corrosivo e, sobretudo, incontrolável.

O erro de percepção permanece, por exemplo, nas comuns interpretações do fascismo que, nas últimas semanas, têm preenchido as páginas dos jornais e os ecrãs televisivos. Na entrevista que deu na edição do jornal Público do passado dia 5 de Novembro, Madeleine Albright reitera a acepção de que o fascismo é violento, porque é reaccionário, um tipo de retrocesso a um tempo de barbárie, mas se esse binómio pode ser atractivo para alguns leitores, não se sustenta à observação mais rigorosa do carácter revolucionário do fascismo e do projecto fascista de renovação de uma sociedade liberal de entre-guerras considerada fracassada e decadente; assim, a violência no fascismo que Albright traduz sob o signo do atavismo é, na verdade, uma ferramenta transformativa. Em simetria, a mesma lógica se encontra em outros projectos político-messiânicos e revolucionários do século XX, como o comunismo soviético, chinês e cambojano e no nacional-socialismo alemão: a violência ritualizada, mas jactante, abrupta, é, nestes campos, um éter que suporta o espírito de um tempo industrializado, eléctrico, um relâmpago de ruptura.

Ora, a violência na tourada é, também, revolucionária, no sentido transformativo: no livro O Processo Ritual, Victor Turner falava do espectador desta estirpe de espectáculos como um ser liminal, à beira da transformação — e, na verdade, pouco existirá de projecção mútua entre espectador e touro no que concerne aos valores que subjazem à tourada enquanto cápsula do tempo; em suma, só a regeneração catártica da violência se encontra, ainda, operativa. Só ela se afirma, pois as restantes dimensões históricas, até religiosas, quem sabe?, que coalesceram o espectáculo desapareceram.

Para ilustrar essa ideia recupero uma imagem do filme Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci, sobre a emergência do fascismo. O filme é politicamente comprometido e o retrato histórico que se quer fidedigno apresenta-se, em demasiados aspectos, caricatural; contudo, lembrei-me dele em virtude da infame cena em que a personagem interpretada por Donald Sutherland, um fascista recém-saído do casulo, pendura num cabide com o auxílio do seu cinto um gato que desfaz com uma cabeçada para mostrar aos seus gemebundos colegas a maneira correcta de lidar com os comunistas. Ignoro o grau de conhecimento histórico que o realizador e argumentistas teriam das tradições populares italianas, mas calculo que entre os espectadores mais idosos tenha existido quem recordasse uma velha tradição italiana que consistia, precisamente, em amarrar gatos a postes ou troncos para, de seguida, cabeceá-los até à morte.

Em determinados períodos, esta prática revestiu-se de contornos de concurso e os participantes, de mãos atadas atrás das costas e cabeças rapadas, tentavam não ser gazofilados pelas garras enquanto procuravam esmagar com a testa os crânios dos gatos. Em tempos mais recuados, usavam capacetes pontiagudos, pelo que pode arguir-se, com cinismo, que o novo figurino, de mãos atadas e cabeças nuas, foi um encontro a uma contenda mais justa, de molde a que os gatos melhor mostrassem a sua bravura. Todavia, o que pretendo reter desta memória histórica — que, certamente, tem passado ao lado de quem viu o filme ou se dedica à sua crítica — é o facto de a violência, mesmo quando irrompe por via do atavismo, que neste caso é a tradição miserável de cabecear gatos, tem como horizonte a transformação, como no caso do fascismo de Novecento. A personagem de Sutherland não se vê como um agente a soldo do passado — pelo contrário, despreza-o e intenta ultrapassá-lo.
Não estou, de modo algum, a criar pontes entre fascismo e tourada: estou, sim, a reforçar a noção que a violência é sempre actual, futurista. Mesmo quando parece prisioneira de velhíssimas tradições rurais. Ao contrário do que pensam os detractores das touradas, é precisamente pela via da violência que esta mantém a sua actualidade.

*Artigo publicado originalmente a 20 de Novembro na minha página de Facebook.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Deuses e gatos - apontamentos:



Na sarcástica letra de uma das canções que a banda americana Bad Religion gravou em meados dos passados anos noventa, Deus expressa, contrito, arrependimento à humanidade, que se sente muitíssimo ofendida por ter sido excluída de opinar sobre a elaboração de uma Criação que considera politicamente-incorrecta (essas linhas poderiam, com maior propriedade, ter sido escritas hoje, como corolário do contraditório clima de vigilância da linguagem que atravessamos). Porém, se este exemplo extirpado da lavra musical punk/hardcore evidenciar um parentesco demasiado próximo da cultura popular para o palato de alguns leitores, vale a pena recordar que, em cronologias mais recuadas, à distância dos nossos dias quase esquecidas no occipício da história, outras vozes, projectadas de posições sociais mais elevadas, expuseram idêntico desconforto com a realidade; no caso que se segue, com a realidade enquanto sinónimo do domínio de um rei, posto que resgato a anedótica declaração de Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela, que, desafiado pelos complicados cálculos exigidos pela leitura da ciência ptolemaica de desencriptação do universo, terá desejado que o Criador tivesse falado com ele antes de iniciar os trabalhos, de molde a que ambos chegassem a soluções mais simples.

Em ainda maior retrocesso temporal, encontramos na literatura mitológica da Antiguidade a ideia de uma reiterada rejeição da celestial Criação, da parte de agentes terrenos; sejam eles homens ou criaturas ctónicas – aliás, narrado por Ovídio, é paradigmático o confronto de uma musa anónima que, provocando Atena/Minerva, lhe entoa em blasfema variegação a primeva desventura gigantomáquica dos Olímpios, acobardados pela emergência do seu flagelo Tifão, abrolhado das entranhas do subsolo. Revertendo a representação teriomórfica de Tifão, exposta originalmente por Hesíodo, a musa ovidiana atribui apanágios animais aos deuses em fuga para o Egipto, lugar onde assumem diversos zoomorfismos para se camuflar do carrasco titânico que os persegue, operando a narrativa poética uma transmigração nos deuses clássicos das hipóstases animais das suas correspondentes divindades egípcias. O conceito de os deuses serem obrigados pela violência dos homens a disfarçar-se de bestas foi entendido por David Hume como alegoria de um vero ateísmo das antigas comunidades humanas, ignaras de um ímpar princípio divino na criação e administração do mundo.

Na supracitada fuga dos deuses para o Egipto, Artemisa/Diana metamorfoseia-se em gato. Já Heródoto sinalizara a paridade absoluta entre Artemisa/Diana e Bubastis/Bastet, a deusa de cabeça de gato, cujo onfalo cúltico se encontrava no templo de Bubastis, no Baixo-Egipto; admissivelmente, o maior gatil do mundo antigo, onde miríades de gatos seriam criadas para serem oferecidas ritualmente, a pedido de peregrinos e também no decurso do festival dedicado à deusa – nas ruas, uma cadência folclórica de flautas e matracas sustenta os cânticos ardentes, enquanto no silencioso santuário milhares de pequenos pescoços são gazofilados por cordas ou, sobriamente, torcidos, para satisfazer necessidades sacrificiais.

Como fuligem que vai vestindo de preto velhas dedadas, encontram-se resquícios deteriorados de antiga ailurolatria nos cruéis jogos populares que os rústicos europeus ainda vão praticando, de modo mais ou menos clandestino, sob a forma de infames façanhas como as de gatos sovados dentro de barricas com hulha ou inflamados num pote ou no pêlo – extirpado do significado do seu nome, o sacrifício, que se traduz por “sacralizar”, ou seja “fazer sagrado”, é transmutado em tortura, sem outro objectivo a não ser o de recolher sem sobressaltos o ânimo colectivo da comunidade e exsudá-lo em inócua efluência, abonando em coreografada catarse a dubiez do tempo próximo.

No entanto, o gato já estava feito antes de nós – deus ou bobo, não o moldámos. Neoténico por natureza, de infantes características corpóreas e comportamentais, o gato é e sempre foi um leão anão, um tigre talismânico; imaginado, talvez, por deuses em fuga ou por outra qualquer inteligência preternatural que viu com bons olhos a existência de felinos em ponto pequeno.
Qual especial ausência foi, assim, colmatada?
Que enigma foi resolvido pela sua vinda ao mundo?
Construímos a juvenilidade do lobo, no invólucro do cão, mas o gato tomámo-lo tal como foi descoberto; infantil, impecável e impoluto desde o dia inaugural – é um anel que nos liga a um território e um tempo sem os quais contabescemos na mais consumada barbaridade. Precisamos do gato, em virtude da mesma razão pela qual o mundo o criou. Como observou Montaigne, é o gato que brinca connosco, em vez de sermos nós a brincar com ele. Foi para isso que ele foi feito: para o mundo ter com que brincar.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Sobre gatos


Em movimentações semiaéreas, impressas em claudicantes carimbadas, os gatos suplantam o cingel gravítico, dardejando que nem intenções interrompidas; suspensos em translúcidos tótemes, sobreexpostos no mesmo pensamento – como meditações de prata numa placa de cobre, negativas e positivas em velocíssima alternância.
Quem modelou de que substância os vorazes sicários das selvas, oxidados em ferrugentas variegações de castanho e laranja e negro, que povoaram os pesadelos dos nossos pré-históricos precedentes? Quem afeiçoou de que espécie desses celerados aqueles pequenos e peludos duendes que, ronronando, nos escondem os sapatos e nos roubam os corações? Cães são lobos bebés, mas gatos não são leões infantis – são um segredo. Do mesmo modo que na mitologia Deus se tornou Cristo para descobrir o que significava ser-se um homem, os gatos são a forma que a cólera da Natureza encontrou para conciliar-se: de não sentir vergonha de ser dócil; para, em preciosos instantes, íntimos e nocturnais, ser capaz de dormir entre as presas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Inspector Literário


My literary inspector scrutinizing two new chapbooks I bought today - World Cat Day (in Europe, at least). Hard readers pet better.

sábado, 27 de junho de 2015

Sobre a queima do gato em Mourão

 
Os mouranenses que com exultação participaram na sua tradicional queima do gato, no decurso de uns divertimentos regionais em celebração do feriado de São João, não serão, certamente, facínoras sanguinários e muito menos psicopatas: encontram-se é empapados numa mundividência primitiva, muitíssimo liminar entre os códigos da bruxaria e da religiosidade mais sincréticas e desregradas, segundo a qual um gato não é um ser vivo consciente, com uma vida mental sofisticada, mas, somente, um autómato movido por instinto; tal como, até há poucos anos, se consideravam as crianças e as mulheres.

Folguedos brutais, de natureza idêntica ou análoga à deste, foram – e ainda são – comuns em toda a Europa: o jogo cruel de atiçar animais domésticos e selvagens uns contra os outros nas praças das vilas; de pô-los a lutar com homens armados ou desarmados em picadeiros improvisados; ou, simplesmente, a tortura espectacular, encenada em contextos de catarse social, deliciaram os nossos antepassados, rurais e cosmopolitas – satisfações das quais não esteve ausente uma forma diferente de estabelecer a fronteira que aparta o humano do não-humano. Com efeito, aquilo que é considerado não-humano pode ser tratado desumanamente; seja um animal ou uma pessoa (como os trágicos genocídios do século passado vieram, cabalmente, demonstrar). No final do século XVIII, o filósofo inglês Jeremy Bentham lançou o argumento seminal sobre o qual foi edificado o movimento oitocentista de promoção dos direitos dos animais, que sustentou no seu seio elementos tão díspares e com ideologias tão contraditórias quanto humanitaristas, utilitaristas e vegetarianos; além das disparidades de objectivos nutridos por cada grupo, deles nos chegou a noção de que os animais, afinal de contas, não são coisas. Na verdade, o ser humano, criatura muito recente do ponto de vista evolutivo, partilha o mesmo tipo de sistema nervoso que a maioria das existentes espécies animais.

Hoje, sabe-se que entre gato e homem existem supinas similitudes neurológicas, ao nível daquelas que estreitam a distância entre nós e alguns dos grandes símios, tanto na geografia cerebral, como no modo como o córtex, a camada superior do cérebro, se encontra desenvolvido. Os gatos são criaturas sensíveis e imaginativas: sonham muito e criam laços afectivos fortíssimos. No entanto, os ailurófobos (ailurofobia é o nome da fobia ou do terror a gatos, com base em aielouros, o nome grego para gato e que significa cauda abanicante) sempre foram mais militantes que os ailurófilos: queimar gatos vivos nas praças de vilas e cidades foi, até recentemente, um divertimento de massas, no qual participava toda a gente. Os detalhes mudam, de acordo com as localidades, mas tudo se resumia à acção de deitar directamente gatos vivos, fechados em sacos ou cestos, para uma grande fogueira (como o rei Luís XIV, de França, preferia) ou, então, na criação de situações em que eles caíssem sozinhos em cima dela (como no caso da queima do gato da localidade transmontana de Mourão). Acrescente-se que massacrar gatos à cacetada foi um passatempo de luxo para animar a corte portuguesa nos intervalos das longas touradas que, outrora, duravam horas a fio. Todas estas práticas, que consideramos bárbaras, tinham em comum a ideia de que era aceitável lidar de modo desumano com o não-humano.

A sociedade ocidental – é preciso, de facto, sublinhar que ela tem sido pioneira neste aspecto (e noutros também importantes) – tem vindo, num ritmo lento, mas seguro, a incluir um número cada vez maior de não-humanos na esfera de direitos que até há pouco tempo protegia, em exclusivo, alguns humanos, aleitando uma cultura de respeito e de valorização de vidas, criminalizando práticas consideradas naturais há uma ou duas gerações (como neste atávico caso mouranense, que desrespeita a legislação sobre maus-tratos a animais domésticos que entrou em vigor a 1 de Outubro de 2014). Haverá sempre indivíduos para quem a violência e o sadismo serão aceitáveis, mas, globalmente, aquilo que empurra as massas (e as elites) para o entretenimento atroz é a prosaica ignorância. Permanecer ofuscado pelo falso entendimento de que os animais são pouco mais do que objectos (em paralelo, já se acreditou, até, que as mulheres não tinham almas, por exemplo), concepção ainda fortalecida pela crença de que os todos os frutos da terra, diga-se assim, são dados por Deus ao homem para que ele disponha deles do modo que achar mais conveniente, é um puro exercício de anacronismo que não tem mais lugar numa sociedade esclarecida. No meu ponto de vista, o somatório é claro: entretenimentos que tenham como móbil a tortura directa ou outro carácter caviloso de sofrimentos físicos e psicológicos de animais e pessoas são crimes inaceitáveis. Assim, sujeitar um gato à clausura num pote de barro e a uma queda potencialmente fatal provocada por um ardil incendiário é um crime inaceitável.

Em 2001, um grupo de arqueólogos do Museu de História Natural de Paris encontrou na aldeia neolítica de Shillourokambos, na ilha de Chipre, um túmulo datado de 7500 a. C.: lá dentro, descobriram as ossadas intactas de um esqueleto humano, acompanhadas pelas ossadas intactas de um esqueleto de um gato. (Este, não deveria ter, ainda, um ano de idade quando foi enterrado.) Avaliando o espólio que rodeia o esqueleto humano pode especular-se com propriedade que seria um chefe ou, no mínimo, um indivíduo muitíssimo importante: nesse feitio, quando morreu, foi enterrado com o seu gato. É, na verdade, a mais antiga inumação conhecida de um humano com o seu gato de estimação. Obviamente, os serventes mataram o gato para enterrá-lo com o amo, mas, ainda assim, o que esse acto revela é a ideia de que aquele dono seria mais feliz no além-túmulo se tivesse a companhia do seu animal – e que este, presume-se, também seria mais feliz se fosse acompanhar o dono, em vez de ficar sozinho. Nas fímbrias pré-históricas da antecâmara do nosso mundo vê-se aqui o nascimento da consciência de que, mais do que ser uma mascote, aquele gato era parte da família. E, em suma, é desse modo que a maioria dos donos actuais vêem os seus gatos: como sendo parte das suas famílias. Fará sentido de outra maneira?
Se nos tempos arredados do Neolítico já havia quem se comportava assim, é provável que haja esperança para os infelizes campónios contemporâneos de Mourão, no sentido de progredirem a sua visão das coisas e perceber que é mais enriquecedor brincar com um gato do que queimá-lo.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Serradura e Barro: ou, Os Materiais e as Ideias


É tentador colacionar os polímates oitocentistas William Morris e Rafael Bordalo Pinheiro: nascidos no eixo do século XIX, num momento em que os remanescentes resquícios do Antigo Regime estavam a ser soprados para o passado por novos ventos - malquistos para uns, benfazejos para outros -, ambos observavam com desconfiança e desânimo a emergência da industrialização e a conjuntura capitalista em crescimento, ambos dedicaram os últimos anos de vida a produzir arte para as massas e, claro!, ambos adoravam gatos - o design delicado do lápis de Morris e a contundente caricatura criada pelo buril de Bordalo encontram um pouco esperável equilíbrio híbrido num discreto desenho feito a carvão por Morris, que mostra um gato sonolento, diante de uma toca de rato aberta num rodapé: o perfil felídeo fascina-nos com um feitio horaciano de risum teneatis que, em regra, está ausente na restante obra morrisiana, mas que consiste na mot d'ordre de Bordalo.

Não obstante, Morris rejeitou o método de produção em massa a que o desenvolvimento industrial deu o ensejo, preferindo manufacturar peças decorativas e de mobiliário segundo métodos antigos, em esquadria com desenhos e materiais tradicionais. Por sua escala, Bordalo adoptou à medida do seu projecto de neocerâmica caldense as fórmulas fabris, subordinando-as, para o efeito, à estética e discurso artesanais, mostrando que o ritmo de repetição e montagem que viria a assinalar, ainda no seu tempo, o arranque veloz do chamado taylorismo - epíteto que, mais tarde, Gramsci transmutaria em fordismo - não significava, em regra, a dissolução da identidade, subjacente aos artigos de consumo desenhados de modo "autoral" - no fundo, descobria-se que arte e design são, bem vistas as coisas, palavras com significados diferentes. Assim, tanto Morris, como Bordalo foram, em simultâneo, artistas e designers: ou seja, estetas por mérito próprio e, ainda, criadores conformes ao imperativo industrial; ambos sequestraram a doxa do domínio da produção em massa para os paraísos feéricos das suas imaginações. O projecto de Bordalo, contudo, intersecciona-se em maior envergadura com o de Christopher Dresser, outro contemporâneo. Um dos designers industriais mais influentes, tanto na Europa, como, depois, no Japão, Dresser deslumbrara-se, com dezassete anos de idade, no ventre do Crystal Palace, qual Jonas dentro do estômago da baleia, com a rutilância da grande exposição industrial de 1851 e essa experiência sensacional alentou-o a criar peças artísticas para a classe média, concebendo objectos de funcionalismo análogo aos de Morris e Bordalo (bibelôs, baixelas, papéis de parede, mesas e cadeiras, etc.), pese a enorme diferença estética: onde Morris é pastoril e Bordalo é popular, Dresser é quase pós-funcionalista, em sentido contrário, portanto, ao gosto neo-rococó que marcou os últimos lustres de oitocentos.

Avançando para o gonzo oleado a sangue e petróleo do século XX, foi, também, na encruzilhada entre o maquinal e o manual que uma descoberta baseada nos resíduos da marcenaria e da olaria viria a beneficiar os bichanos de todo o mundo - algo que, sem dúvida, faria a felicidade de Morris e Bordalo, eles que foram, às suas maneiras, marceneiro e ceramista.
Em Janeiro de 1948, na vila de Cassopolis, no estado norte-americano do Michigan, a dona de casa Kay Draper descobriu que a temperatura hibernal do início do ano inutilizara a areia usada para a caixinha do seu gato; nesse momento, percebeu que tinha de encontrar uma substância alternativa. Dessa sorte, experimentou serradura, adquirida numa estância da vizinhança, mas não ficou satisfeita com o resultado. Em seguida, o filho do dono da estância, Edward Lowe, com vinte sete anos de idade, persuadiu Draper a experimentar outro material, que ele tinha em abundância: uma espécie de fragmentos secos de barro, chamado Terra de Fuller, que estava a ser paulatinamente aplicado como sendo um absorvente industrial que substituía com segurança a serradura (a serradura é inflamável e o seu armazenamento nas fábricas era arriscado); Lowe tentara, sem êxito, vender Terra de Fuller a criadores de galinhas, como material ignífugo de nidificação - foi, consequentemente, por culpa do stock encalhado resultante desse fracasso que a senhora Draper pôde levar uma amostra para testar em casa, na caixinha do gato. A conclusão, adivinha-se, é histórica: nos primeiros dez sacos de Terra de Fuller que embalou para ir bater às portas das lojas de artigos para animais, Lowe escreveu com um lápis de cera o nome improvisado de Kitty Litter.

A invenção do Kitty Litter operou uma revolução no modo como os indivíduos se relacionavam com os gatos: até à data, pouquíssimos lares possuíam as chamadas caixinhas de areia e era comum os gatos fazerem as necessidades no exterior - o gato era, por esse motivo, uma criatura semi-selvagem, que ainda passava muito tempo fora de casa. Nos meses de Inverno, algumas famílias usavam tabuleiros ou caixas com terra retirada da rua ou areia para que os gatos não tivessem de sair com chuva e neve. Disseminado o uso do Kitty Litter, foi possível manter os gatos dentro de casa por períodos mais longos, contribuindo para a sua, cada vez maior, longevidade - e popularidade enquanto animal de estimação.
A respeito dessa popularidade, os cientistas começaram a estudar os gatos com mais atenção, compreendendo como, de facto, estes se comportavam e descobrindo aquilo que mais necessitavam para ser felizes. Nessa sequência, ocorreu outra revolução que contribuiu fulgurantemente para esse desiderato: a invenção da comida industrial exclusivamente desenvolvida para gatos, a partir da década de 70 do século passado. Descobrindo que os gatos precisavam de uma dieta diferente da dos cães e, sobretudo, de componentes vitamínicos e minerais específicos, muito difíceis de administrar em regimes feitos de comida confeccionada propositadamente em casa ou de restos de qualidade nem sempre ideal (que eram, até à data, os mais frequentes), a metodologia industrial de produção vilipendiada por Morris, tolerada por Bordalo e abraçada por Dresser estabeleceu o início do melhor tempo que os seus adorados gatos estão a viver. Foi, pois, a fortuita invenção artesanal/industrial do Kitty Litter, improvisado com resíduos de origem cerâmica, que possibilitou esse progresso - hoje, melhorado com a descoberta da bentonite, uma qualidade ainda mais absorvente de barro, que se aglomera compactamente em contacto com líquidos.

No cruzamento da serradura e do barro, da marcenaria de Morris e da cerâmica de Bordalo, co-tangente ao interstício do artesanal com o industrial, a alquímica amálgama do engenho e do tempo precisa, sempre, de materiais e de ideias. Quando se vive num tempo em que há ideias, mas faltam materiais, tudo parece estagnado, mas pior é viver num tempo em que até existem alguns materiais, mas faltam ideias. Quando há ideias, do pouco se faz muito; por outro lado, quando não há ideias, pode ter-se cofres cheios, que isso não levará a lado nenhum.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Diário Plutónico #2: O Gato Que Tinha Estrelas


O rabo do gato preto e branco mete respeito: inteiriçado como um ponto de exclamação, lustroso como orleã, não é uma cauda verdadeira, mas uma lembrança do nascimento do universo.
No princípio era o miado!
Um miado assertivo.
Birrento.
Um miado primitivo que pôs a poeira estelar em marcha – o miado divino.
Soou há pouco tempo, quando a Grande Mãe Gata teve uma nova ninhada. Dar à luz universos cansa, porém os gatinhos têm toda a energia – toda a que existe e que alguma vez existirá.
O nosso gato preto e branco, de cauda alçada, coça-se: este felino cosmogónico não tem pulgas, mas estrelas – polvilhadas pela pelagem lorigada e coruscantes como corindo em pó. Uma pata risca essa escuridão, faiscando um cometa sob a abóbada extramundana, feita de pêlo, e a comichão fulgente mergulha no mar como um ex-voto extinto. Saibam que é quando os gatinhos pretos e brancos andam no encalço das suas estrelas, com as garras e com os dentes, que nascem todas as estrelas cadentes.
Os sábios sabem que o universo está em expansão, mas desconhecem a razão.
É porque ele é um gato preto e branco que enfuna o pêlo para parecer maior… É um universo bebé, o gatinho, e na sua pequenez encontra-se a grandeza do Todo: planetas, meteoritos e constelações – borboletas, manuscritos e tubarões.
Que nome tem, este hipnopompo? O único que lhe serve: Plutão. Repousa (como lousa) num volume de velo venusto. Empandeira o rabo – pompadourante –, chilreando, longitroante.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Diário plutónico #1

Há catorze dias que sou dono de um gato preto e branco, com (mais ou menos) três meses de idade, a que chamei Plutão. Embora tenha alguma experiência a lidar com gatos, este é o primeiro que possuo e o mais novo com que contactei até hoje: foi-me oferecido por uns amigos, que o recolheram da rua.

No que concerne aos feitios, existem dois tipos de gatos: os tímidos e os curiosos. Plutão é muitíssimo curioso, o que é óptimo, porque, em regra, os gatos curiosos são os mais amistosos. Escrevi «mais amistosos», porque um certo grau de indocilidade será sempre de esperar. Os gatos não são como os cães: não fazem nada para agradar aos donos e é inútil castigá-los quando se portam mal. Estas idiossincrasias relacionam-se com um facto muito simples: os gatos comuns ainda não foram totalmente domesticados e retêm todos os comportamentos do gato selvagem africano, do qual descendem.
Qualquer domesticador de grandes felinos (leões, tigres, leopardos) sabe que castigar esses animais durante os treinos é uma perigosa perda de tempo, porque eles não entendem o conceito e apenas se tornam mais violentos. Os animais selvagens (incluindo os semi-selvagens gatos comuns) só reagem bem diante de reforços positivos: comida e carícias (preferem comida, todavia).
Os cães, por exemplo, foram domesticados muitíssimo antes dos gatos serem adoptados como animais de companhia e o apuramento de diversas raças domésticas de gatos é uma prática que remonta há, apenas, cento e cinquenta anos - é por essa razão que os gatos comuns e os gatos selvagens africanos são, praticamente, idênticos (inversamente aos cães e aos lobos).
Os cães foram seleccionados artificialmente para serem bons soldados, para terem um elevado sentido de obediência e tolerância total para com os caprichos dos donos que, hierarquicamente, lhes são superiores. Evoluíram para criar relações verdadeiramente simbióticas com as pessoas, ao ponto de algumas raças caninas terem desenvolvido sobrancelhas proeminentes de modo a serem capazes de comunicarem com mais eficácia: estes animais sabem interpretar expressões faciais humanas e como agir em conformidade com elas, mesmo que nenhum comando verbal ou gestual lhes seja dado pelos donos. Por outro lado, os gatos têm rostos inexpressivos e também não distinguem os rostos humanos uns dos outros, por isso é inútil avaliar o comportamento ou o estado emocional de um gato através do seu rosto ou tentar que ele nos entenda por via das nossas expressões faciais.
Os gatos comunicam connosco, quase em exclusivo, através de linguagem corporal: temos de aprender a interpretar os gestos que fazem com as orelhas e com as caudas. Alguns são idênticos aos da linguagem corporal canina, mas os significados são muito diferentes; por exemplo, os cães abanam horizontalmente as caudas para demonstrar contentamento, mas quando os gatos fazem o mesmo gesto estão a demonstrar irritabilidade ou ansiedade. Ao contrário dos cães, os gatos não entendem o gesto humano de apontar-se com um dedo certos objectos ou locais: apenas fitam o dedo, como se seguissem uma presa (e, às vezes, atiram-se a ele). Quando se quer chamar a atenção de um gato para alguma coisa é preciso olhar directamente para ela ou atraí-lo nessa direcção com um brinquedo para gatos.
É verdade que são muito teimosos, porque os lobos frontais dos seus cérebros são pequenos, o que significa que quando se fixam num determinado comportamento demoram muito tempo para esquecê-lo, porque não são capazes de pensar em mais nada - o multitasking não é para eles. Um gato assustado ou furioso é capaz de permanecer nesses estados durante um dia inteiro. 

Porém, os gatos são criaturas sociais, embora de uma ordem diferente da dos cães. O gato selvagem africano evoluiu para caçar presas pequenas, como insectos, pássaros e ratos, e é por essa razão que os gatos, ao contrário dos leões - ou dos lobos - não caçam em grupo: não faz sentido caçar-se um rato em grupo, porque ele é uma presa que, por culpa do seu tamanho, somente alimentará um predador. Ora, quando não existe a necessidade de caçar em grupo, deixa de existir a necessidade de organizar o bando numa hierarquia rígida (como uma tropa) e é por essa razão que as colónias de gatos selvagens e as de gatos ferais (gatos outrora domésticos que reverteram para o estado selvagem) possuem estruturas sociais muito mais plásticas que as alcateias. Ainda assim, os gatos comuns são animais territoriais e hierárquicos e os donos que tenham cautela ao ignorar essas naturezas.
Ainda não se sabe como é que gatos e pessoas se aproximaram, mas é possível que tenham sido úteis para manter pragas à margem dos núcleos habitacionais. Esta explicação é satisfatória, porque esclarece a razão pela qual os gatos ainda hoje se mantém semi-selvagens: em essência, foram adoptados para fazerem por nós aquilo que já faziam por eles próprios; logo, nunca existiu pressão para tornarem-se mais sociais. Adoptámos os gatos para serem caçadores, o que tem funcionado bem, porque os gatos vivem para matar pequenas presas - sempre. É a alegria deles. Se não têm presas pequenas à disposição, irão inventá-las. Para caçá-las, têm garras muito afiadas.
Os gatos não têm unhas: têm garras - tal como os leões e os tigres. Elas são como anzóis, evoluíram para a predação e irão ser usadas, dê por onde der. Extrair cirurgicamente as garras de um gato é um acto bárbaro que implica a amputação das falanges e cria animais mutilados e miseráveis que nem sequer são capazes de usar uma caixa de areia para eliminarem os seus dejectos: quem não quiser ter um gato com garras é melhor não ter um gato.

Os gatos bebés (até um ano de idade) são muito rebeldes, mas, ao crescerem, criam laços emocionais intensos com os donos, principalmente com os indivíduos que os alimentam. (É o reforço positivo de que falei há umas linhas.) São criaturas sensíveis que somente dão o que recebem: nesse aspecto, um animal inesperado com o qual podem ser comparados é o camelo. De todos os animais semidomesticados, os camelos são extremamente intolerantes a maus tratos e vingam-se sem hesitações de quem se esquece de abordá-los com delicadeza. (Talvez ferver em pouca água seja uma prerrogativa de animais que evoluíram em climas quentes.)

Seja como for, ter um gato é como ter em casa um pedacinho de um mundo ainda selvagem: um mundo onde felinos intrépidos subjugam répteis lendários.