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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Ciclo de palestras sobre horror «Sustos às Sextas»

 
É com prazer que anuncio o ciclo de palestras Sustos às Sextas: assim denominado em virtude da tónica das matérias apresentadas ser colocada em estudos rigorosos sobre o horror e o sobrenatural. De 16 de Janeiro a 15 de Maio, sempre às 21H30, um orador convidado apresentará um tema de sua escolha, que será objecto de uma palestra e subsequente discussão. O ciclo Sustos às Sextas ocorrerá no sumptuoso Palácio dos Aciprestes, na Quinta dos Aciprestes, em Linda-a-Velha (freguesia do concelho de Oeiras).

O programa será anunciado em breve, mas não irei desfazer nenhuma surpresa em informar que serei o orador convidado do dia 17 de Abril -- que, acrescento, é o meu aniversário. Será, pois, um dia de anos assombrado, mesmo ao meu gosto. Caros leitores e fãs, reservem, pois, esta data (e as outras, evidentemente).

Façam-se fãs da página de Facebook de Sustos às Sextas e divulguem esta iniciativa: a ilustração do cartaz do evento, anexado a esta publicação, é da autoria do artista Luiz Morgadinho.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

De novo sobre Lovecraft e o seu suposto racismo


Com efeito, não imaginei que o texto que escrevi no passado dia 4 de Julho sobre o escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft fosse, infelizmente, ganhar uma pertinência ainda maior ao ser cotejado com o burburinho que circula presentemente uma patética petição pública, iniciativa de Daniel José Older (quem?), objectivando a reconfiguração da imagem dos prémios World Fantasy Awards (que consiste num caricatural busto de Lovecraft) para uma estatueta modelada segundo o rosto da escritora norte-americana de ficção científica Octavia Butler. A "lógica" por trás deste desiderato agasalha-se na repulsa que a escritora nigero-americana Nnedi Okorafor (vencedora, em 2011, de um World Fantasy Award para Melhor Romance) sentiu ao descobrir que Lovecraft era, segundo dizem, racista. Ficou com o prémio estragado, está visto. Temos pena.

A pseudoditadura do chamado politicamente-correcto provoca-me náuseas e tenho tantas coisas para dizer sobre isso que nem sei por onde começar. Assim, não começo, sequer: vou por outro caminho, que é, factualmente, o de reiterar que o mito do racismo lovecraftiano é uma criação muitíssimo insuflada - por leitores, críticos e editores que não gostam da obra de Lovecraft, pelas mais variadíssimas razões; sendo que a mais óbvia - e a mais frequente - será a de que sentem uma inveja insuportável diante do facto de que nunca serão tão influentes e tão reconhecidos quanto ele.
A pequenez dos homenzinhos (e das mulherzinhas) de má qualidade é sempre inversamente proporcional à grandeza de quem eles vituperam ou tentam ignorar: sempre. Disso, nos garante a história - e a vida comum de todos os dias, acrescente-se.

Desde que o escritor francês Michel Houellebecq, autor da (deficientíssima de fontes primárias, secundárias, terciárias, quaternárias e por aí adiante) biografia H. P. Lovecraft: Contre le monde, contre la vie (1991), elevou o emblema do racismo contra Lovecraft e sua obra, que uma turba tonitruante de corifeus segue, cantando e rindo, esse plasma, modelando-o a seu bel-prazer, sempre que precisa de ganhar protagonismo - algo que, aparentemente, não é capaz de alcançar através da criação artística. Não obstante a tenacidade dessa pobre gentalha para quem as costas largas dos indivíduos mais talentosos do seu ofício são apenas trampolins para o sucesso fácil, Lovecraft esteve muito longe da astigmática silhueta de racista enfurecido com que alguns o adoram delinear.


   

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Contos de horror com o Jornal i

Em parceria com a Escritório Editora, o Jornal i vai disponibilizar alguns livros de contos em que participei: Contos de Terror do Homem-Peixe, Brinca Comigo! e Outras Estórias Fantásticas com Brinquedos e Ficções Científicas e Fantásticas. Na minha opinião, os contos de horror que publiquei nestes livros (Réptil, Um Erro do Sol e O Holocausto e o Testamento de Laura Carvalho, respectivamente) contém algumas das minhas ideias mais subversivas e, claro, recomendo-os com entusiasmo. Por conseguinte, de 17 de Setembro a 1 de Outubro, poderão levar estes livros convosco para casa.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

«Tertúlia Assombrada» nesta sexta-feira no bar 100 Artes


Nesta sexta-feira, dia 6, às 18H00, estarei no bar 100 Artes (Rua dos Fanqueiros, 162, Lisboa) como convidado especial da segunda edição da Tertúlia dos Contadores de Histórias, organizada pela filial lisboeta da iniciativa Timebank.cc, e que terá o Horror como tema: será a Tertúlia Assombrada.

Consistirá, pois, numa sessão de leituras de contos de horror, lidos pelos diversos participantes no evento.
Eu irei ler o conto Os Filhos Que a Lua Dá: ou, Problemas De Um Projeccionista de Pornografia (que foi publicado na revista LOUD! do passado mês de Maio).

Sobre a organização da Tertúlia dos Contadores de Histórias, informo que a iniciativa Timebank.cc consiste numa forma de economia alternativa ou complementar. Diferencia-se dos chamados mercados de trocas, por não implicar uma troca directa (nem imediata, nem recíproca), e das ditas moedas comunitárias, por haver uma rigidez quanto à unidade de câmbio: neste caso, tanto o crédito quanto o débito são contabilizados de acordo com o tempo dos serviços prestados pelos utilizadores, independentemente das suas naturezas. Havendo sempre a necessidade de um "banco" central que faça a gerência da quantidade de horas em circulação, mais o registo de créditos de cada utilizador, o Timebank.cc distingue-se pelo facto de disponibilizar uma gestão online.

Conto com a vossa presença e agradeço a divulgação do evento. Deixo-vos com um trecho do conto Os Filhos Que a Lua Dá: ou, Problemas De Um Projeccionista de Pornografia, que irei ler:
«Concentrando-se no projector para não ver nem o filme, nem os espectadores, Albuquerque interrogou-se sobre qual seria a razão pela qual o onanismo não era um dos Sete Pecados Mortais, posto que Deus até assassinara um homem por culpa disso. Seria o Oitavo Pecado: uma nova venialidade, incrustada entre a luxúria, a ganância e a gula. ‘Oito pecados mortais’, pensou Albuquerque. ‘Oito caminhos para o Inferno.’ Qual seria o castigo infernal para os fricativos? Na costumeira coerência contrapassiana com que eram elaborados esses suplícios, teriam de se polir com fogo até a vergonha incendiada tornar-se tão catóptrica quanto metal lustroso. Humiliate pene vestra. O ritual masturbatório era feiticista, de facto – e, assim sendo, feiticeiresco. Que sortilégios pretenderiam os velhos operar com as efusivas esfregações? Que autoridade encoberta se revelava nas suas varinhas viris? Seria o sexo uma arte mágica, como as banais benzeduras e as venerações dos videntes? De cabeça baixa, Albuquerque apercebia-se das moções projectadas no lençol como se fossem sombras dançarinas nas paredes do seu crânio: afinal, que culto venéreo se prestava naquela praça, sob a égide do faliforme tóteme tartéssico? Seria clarividente o suficiente para descortinar se era um sonho ou o “agora”? No lençol, a mulher curvou-se para desencobrir a virilha do homem, a imagem ampliou-se e os velhos viram-se estupefactos diante de um grande olho. O espanto da assistência despertou Albuquerque das suas contemplações: achou que aquilo era estranho, mas não deu importância.»
   

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Sobre o horror literário português

Na sequência da publicação do vídeo da mesa-redonda Conversas de Horror, ocorrida no âmbito do Fórum Fantástico 2013, lembrei-me de publicar aqui nos Cadernos de Daath um ensaio que escrevi em Novembro de 2007 e que reflecte sobre o problema de não exisitir uma tradição literária de horror (e de Fantástico, no geral) em Portugal. Este ensaio, intitulado Sobre o Fantástico na Literatura Portuguesa, publicado no terceiro número da revista BANG! (Saída de Emergência), foi pioneiro, porque é o primeiro texto que aponta a influência da Inquisição e da sua censura como os principais culpados de não existir uma tradição literária fantástica portuguesa; tese que, como irão ver, esclarece muitas interrogações que, mormente, são respondidas de modo inexacto, ingénuo e irresponsável.

Em 2011, a taxa portuguesa de analfabetismo era de 9%: cerca de um milhão de indivíduos que não sabiam ler e escrever (em finais do século XIX, as taxas de analfabetismo inglesas e alemãs eram, respectivamente, 1% e 0,50% - no mesmo período, a taxa portuguesa de analfabetismo era de 80%). A percentagem de indivíduos que valoriza e conhece a cultura é sempre baixa e num país como Portugal esses números serão ainda mais residuais. Falando em números, acrescento a curiosidade de que nem só nas letras estamos atrasados em relação ao resto da Europa: só na segunda metade do século XV é que adoptámos, paulatinamente, a numeração indo-árabe (e o primeiro livro de matemática português só foi publicado em 1519: o Tratado d'Arysmetica de Gaspar Nicolas).

A Inquisição só foi extirpada em 1821, a caminho de meados do século XIX. Antes disso, em 1768, Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro-ministro de D. José I, criou a Real Mesa Censória, um órgão do Santo Ofício que procurava e confiscava literaturas e informações subversivas: para o efeito, os agentes da Real Mesa Censória invadiam as casas dos indivíduos e recolhiam os livros que faziam parte da lista dos títulos proibidos (como as obras de Voltaire, Diderot ou Rousseau, entre outros autores). Em seguida, os livros apreendidos eram incinerados no Rossio e na Praça do Comércio. Oito anos antes, em 1760, o médico Ribeiro Sanches publicou o tratado Cartas Sobre a Educação da Mocidade, no qual defendeu a estratificação do ensino em dois modos, para os nobres e para a classe média: segundo este pedagogo que Pombal adoptou como modelo para a sua reforma do ensino básico e superior, o povo não deveria estudar, pois «que filho de pastor quererá ter aquele ofício se à idade de doze anos souber ler e escrever?». Faz lembrar as palavras de Salazar, ditas dois séculos depois: «se toda a gente souber ler e escrever, a instrução desvaloriza-se» (1935).

Estas são as razões fundamentais pelas quais não existe uma tradição portuguesa de fantástico literário: porque a Igreja é particularmente severa para com as manifestações e relatos sobre o sobrenatural - nenhum livro de horror passaria pelo crivo censório. É interessante notar que em outras latitudes o clero protestante acolheu com entusiasmo determinadas ideias fantásticas, como a possibilidade de Deus ter criado vida em outros planetas: a génese da ficção científica contemporânea remonta à primeira metade do século XIX e aos relatos fantásticos escritos por clérigos fascinados pelas sociedades interplanetárias. O seriado Great Astronomical Discoveries Lately Made by Sir John Herschel, L. L. D. F. R. S. &tc. at the Cape of Good Hope, publicado pelo jornal nova-iorquino The Sun em Agosto de 1835, informou o público de que a Lua tinha florestas, lagos e era habitada, entre outras espécies (como castores bípedes), por inteligentes híbridos de humano com morcego, capazes de construir igrejas. A descoberta só fora possível graças a um novíssimo procedimento óptico (descrito ao detalhe) que permitia a magnificação das imagens telescopiadas sem que elas perdessem definição. Estes textos, mistura de fantasia e realidade, foram escritos pelo editor do jornal, Richard Adams Locke, inspirado pelo cadinho cultural da altura, formado pelas crenças dos clérigos astrónomos. Poucos dias depois, a 3 de Setembro, James Gordon Bennett, editor do jornal rival Herald, chamou a esses textos «a scientific novel», antecipando em quarenta e um anos a designação «scientific fiction», criada por William H. L. Barnes na introdução que escreveu para a colectânea de homenagem póstuma a Caxton (W. H. Rhodes), e em noventa e um anos o uso dado por Hugo Gernsback no primeiro número da revista Amazing Stories.
Este é um exemplo fulcral de como uma tradição de literatura fantástica depende, de modo muito sensível, de fortes tradições de literacia, livre expressão de ideias e curiosidade intelectual, heranças que, infelizmente, ainda nos falecem.


Sobre o Fantástico na Literatura Portuguesa
           
Observar o modo como o Fantástico, enquanto género ou tonalidade de representação, foi sendo introduzido nas artes, desde as primeiras realizações culturais até hoje, é observar, ao mesmo tempo, mudanças expressivas nas consciências dos indivíduos: nós não pensámos sempre da mesma maneira. O Fantástico é uma excelente ferramenta para estudar essas mudanças porque, em simetria com as camadas estratigráficas que formam o subsolo, é capaz de conservar as preocupações que rodeiam os criadores, mas antes de prosseguir com o tema deste ensaio, e perceber quais os motivos pelos quais não é possível reconhecer uma tradição de literatura fantástica no cânone literário português, é importante definir, com brevidade, alguns conceitos.

O fantasma na máquina

O homem dotado de pensamento que se reconheça a si mesmo.
Hermes Trimegisto, Corpus Hermeticum

            Costuma apontar-se o período que correspondeu ao Renascimento como aquele em que a civilização ocidental se desagrilhoou da repressão medieval e, recuperando a tradição humanista das culturas grega e romana, progrediu em direcção ao modelo materialista do mundo que podemos observar hoje, contudo o fenómeno renascentista, longe de ter sido espontâneo e ter operado efeitos imediatos, foi, geograficamente, muito específico[1]. Os efeitos sociais, industriais e culturais que delegamos à intervenção do Renascimento são fruto de novíssimas formas de pensar o mundo desenvolvidas no período que se apelidou de Iluminismo. O Renascimento tratou-se de um movimento que conheceu raízes herméticas e que nunca se libertou de uma visão idealista do mundo[2]. Este “idealismo” nada tem a ver com a comum corrente filosófica, advogada por Hegel, entre outros, mas com uma percepção mais profunda que os indivíduos tinham do universo e do seu lugar na grande máquina do mundo; é legítimo dizer que até ao Iluminismo as civilizações acreditaram e se orientaram por uma explicação idealista do cosmos: uma interpretação sob a qual o mundo imaginal[3], o mundo das ideias, é mais real que o cenário físico em que nos movemos. Uma visão apoiada pela tese que expressa a criação da matéria pela mente e não o oposto.
            Para um indivíduo crente no sistema idealista do mundo a própria consciência é uma entidade. Isso foi bem satirizado no livro The Third Policeman de Flann O’Brien onde se pode ler que a personagem principal possui uma alma independente chamada Joe, com aspirações e objectivos diferentes dos seus. Na verdade, alma e espírito nunca foram a mesma coisa para os indivíduos crentes no modelo idealista do mundo: será preciso anotar que ambos foram conceitos distintos até à realização do oitavo concílio ecuménico (869-870), presidido pelos representantes do Papa João VIII; a unificação dos conceitos idealistas de alma e espírito serviu, sobretudo, para rasurar os credos herméticos dos textos eclesiásticos. Este momento é muito importante porque se o hermetismo idealista se divorciou dos textos e rituais da religião organizada continuou a ser transmitido não só no seio das sociedades secretas como através de um veículo insuspeito: o folclore.
            As inofensivas narrativas infantis que os ingleses chamam de “old wives’ tales” e “nursery rhymes”, os franceses de “contes de ma mère l’oye”, e os portugueses de “histórias da carochinha” são mensagens de sabedoria hermética disfarçadas de cantilenas e rimas para serem decoradas facilmente. Charles Perrault, Madame d’Aulnoy, Wilhelm e Jacob Grimm foram todos ocultistas que reuniram sabedoria hermética nesse formato: sob a máscara da historieta moral, narrada naquilo a que se chama “linguagem dos pássaros” em terminologia iniciática (ou, em calão popular português, “Espírito Santo d’Orelha”), poderiam ser difundidas ao abrigo da censura inquisitória e eclesiástica[4].
            Foi a partir do Iluminismo que mudámos o nosso modo de ler. Publicado em 1678, o primeiro romance moderno La Princesse de Clèves de Madame de La Fayette iniciou um movimento inédito que foi mimado pelos romancistas posteriores: o nascimento da narrativa do interior do indivíduo.
            A dádiva do nascimento do romance para a consciência do homem ocidental foi a noção que as vidas dos indivíduos poderiam ser histórias com princípio, meio e fim: sequências pertinentes de eventos e ocorrências – de aventura pessoal[5]. Embebida no materialismo filosófico que ameaçava derrubar o paradigma idealista do mundo, a nova consciência, assistida pelo nascimento das letras de expressão íntima, opostas às epopeias clássicas e outros relatos fabulosos de viagens, será responsável pela popularidade do herói individualista, desamarrado de responsabilidades colectivas. A abertura do mundo interno, da vivência isolada do outro, será hostil à inclusão de elementos fantásticos, apartados da vivência de todos os dias como ela é absorvida pelos cinco sentidos. Antes do nascimento do romance o cânone literário possuía dois modos: a “tragédia” e a “comédia”, sendo que a segunda era considerada uma forma menor de literatura. Contudo, a tragédia podia servir-se de elementos fantásticos sem correr o risco de ser olhada com soberba pela academia e pelos leitores. Só mais tarde o Fantástico começou a ser entendido como um modo obsoleto de contar histórias: uma velharia do sistema idealista de olhar o mundo.

Carne Rebelde

There would be tears and there would be strange laughter. Fierce births and deaths beneath umbrageous ceilings. And dreams, and violence, and disenchantment.
Meryn Peake, Titus Groan

A literatura fantástica é, por natureza, subversiva. Alguns dos temas que a compõem acabam por encontrar um reflexo em trabalhos literários insuspeitos. O conto gótico Six Weeks at Heppenheim de Elizabeth Gaskell possui, pelo menos, dois herdeiros de referência: os títulos Johnny Got His Gun de Dalton Trumbo e Die Verwandlung (A Metamorfose) de Franz Kafka. O livro The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner de James Hogg antecipa o modelo plasmado por John Fowles em The Colector. Até Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago não pode deixar de evocar uma colagem a The Day of the Triffids de John Wyndam. Contudo, estes exemplos não são os melhores para debater o entrecruzar dos géneros fantásticos naqueles que em nada se lhes assemelham, porque não existe neles uma colagem ao modo como aquela que se pode ler nos romances editados sob a nomenclatura “Realismo Mágico”.
O realismo mágico, como hoje se compreende, é um epígono da tradição literária do Norte da Europa que encontrou maior expressão em autores sul-americanos como Juan Rulfo e Gabriel Garcia Marquez. O primeiro foi buscar inspiração e temas para Pedro Páramo ao livro Sjálfstætt fólk (Gente Independente) de Halldór Laxness, publicado vinte e um anos antes. Existem em ambos os romances o respigar da iconografia mítica e religiosa dos países de origem, misturada num árido contexto rural descrito com realismo agreste. A introdução dos elementos fantásticos (os fantasmas de Rulfo e os espectros e bruxas de Laxness) no panorama político e económico do período pós-revolução industrial, no qual grassava a extrema pobreza e a confusão das populações diante da perda da cultura ancestral face aos avanços da sociedade tecnológica, serve para criar alegorias que veiculam nostalgia e utopia (como a socialista). Por outro lado, atendendo ao tom das suas narrações, não considero Borges um escritor de realismo mágico, como foi, por exemplo, o autor holandês Gerard Reve, mas um escritor de ficção fantástica.
A partir do século XVIII a literatura fantástica concebeu uma corrente designada “romance gótico”, um spin-off dos romances de cavalaria[6]. Tratou-se, originalmente, de um produto anglo-saxónico que se generalizou pela Europa em diferentes denominações: “roman noir” em França, do qual o “giallo” italiano é um sucessor evidente, e “schauerroman” (romance de arrepios) em alemão. O género caracterizou-se pela criação de ambientes de elevada decadência arquitectónica e moral e pela integração total de elementos sobrenaturais (espíritos, monstros, demónios) em consórcio com as personagens humanas. Obras como Le Diable Amoreux de Jacques Cazote, La Morte Amoureuse de Théophile Gautier, The Monk de Matthew Lewis ou The Necromancer de Carl Friedrich Kahlert encontram-se entre os primeiros títulos que se atrevem a cruzar o sobrenatural, o disforme e o grotesco, com a sexualidade, vulgarmente tratada com pudor. Esta corrente de literatura fantástica influenciou toda a produção literária dos séculos XIX e XX no que diz respeito à ficção policial e de horror.

In the literature of the fantastic, necrophilia habitually assumes the form of a love consummated with vampires or with the dead who have returned among the living. This relation can once again be presented as the punishment for excessive sexual desire; but it may be present also without its receiving a negative value – as with the relation between Romuald and Clarimonde for instance. The priest discovers that Clarimonde is a female vampire, but this discovery produces no change in his feelings.[7]      
           
A sexualidade e a blasfémia presente nos romances góticos foram ainda muito influentes para o movimento simbólico e modernista, como se pode decalcar das obras de Charles Baudelaire, Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. Mas se estes autores se apropriaram dos códigos do Fantástico à guisa de alegoria – de símbolo – isso não invalidou o facto do género ter continuado a ser subversivo; uma literatura de adversidade à norma:

As a critical term ‘fantasy’ has been applied rather indiscriminately to any literature which does not give priority to realistic representation: myths, legends, folk and fairy tales, utopian allegories, dream visions, surrealist texts, science fiction, horror stories, all presenting realms ‘other’ than the human. A characteristic most frequently associated with literary fantasy has been its obdurate refusal of prevailing definitions of the ‘real’ or ‘possible’, a refusal amounting at times to violent opposition. (…) Such violation of dominant assumptions threatens to subvert (overturn, upset, undermine) rules and conventions taken to be normative. This is not in itself a socially subversive activity: it would naïve to equate fantasy with either anarchic or revolutionary politics. It does, however, disturb ‘rules’ of artistic representation and literature’s reproduction of the real.[8]

O texto prossegue com ênfase neste distúrbio da forma de representar artisticamente o mundo.

A morte é o meu ofício

«Nem os mortos escapam.»
Pregão popular português (séc. XVII?) sobre o costume que os oficiais da Inquisição tinham de desenterrar os indivíduos que eram condenados já cadáveres para os enforcar ou imolar.

Com uma lista de crimes a punir onde figuravam práticas como a «sodomia», o «erotismo» e a «concupiscência»[9] é flagrante que a Inquisição, implantada em Portugal em 1536 por D. João III, coagido pelo cunhado Carlos V, era uma fervorosa inimiga dos prazeres da carne. Contudo, também foi adversária do espírito já que perseguiu a burguesia intelectual portuguesa desde o século XVI até ao século XVIII: foram quase trezentos anos de violento jugo teocrático (duzentos e oitenta e cinco para ser rigoroso) que dominaram as artes e a cultura portuguesas – é ingénuo pensar que este legado não deixou sequelas.
Em 1539 Carlos V conseguiu a licença do Papa Paulo III para os Teólogos de Lovaina elaborarem um índice de livros a proibir. A primeira lista de livros portugueses proibidos foi publicada em 1547, mas seguiram-se mais duas em 1551 e 1561. O terceiro índice expurgatório é o mais completo, incluindo diversas instruções contra a compra, venda, troca e conservação dos títulos proibidos. Os visitantes vindos do estrangeiro estavam obrigados a mostrar os seus livros a um representante da Inquisição, e aqueles que herdavam bibliotecas familiares só poderiam usufruir delas após rígida inspecção. Os autores estavam classificados em três categorias: os de 1ª, aqueles cujas obras eram sumariamente rejeitadas; os de 2ª, aqueles que apenas seriam censurados em determinadas partes; e os de 3ª, os anónimos. Este terceiro índice foi organizado por Frei Bartolomeu Ferreira, censor de Camões em Os Lusíadas, e colocava de sobreaviso os leitores contra toda a literatura de ficção onde existissem referências ao amor e aos preceitos do clero. Proibia, inclusive, o livro Utopia do canonizado Thomas More. Será uma iniciativa calamitosa para a cultura renascentista portuguesa: entre os perseguidos pela Inquisição estiveram o humanista Jorge Ferreira de Vasconcelos, o cronista João de Barros (autor da primeira gramática europeia que há referência) e o escritor Bernardim Ribeiro. Gil Vicente foi perseguido e censurado pelas denúncias constantes que fez às desigualdades sociais, mas também os poetas Chiado, amigo íntimo de Camões, e Sá de Miranda (o pai do soneto português). Note-se que a Inquisição Portuguesa pecava por ser mais papista que o Papa, pois se em Espanha Don Quijote de La Mancha de Miguel de Cervantes circulava à vontade, e era um sucesso, encontrava-se proibido em Portugal.
Livros considerados heréticos, na esteira de Lutero e Calvino, e livros que mencionassem artes mágicas, como a astrologia e a adivinhação, não passavam no exame censório. Por conseguinte, podemos imaginar que a literatura fantástica realizada no período em que a Inquisição manteve o poder de purgar obras e autores não conheceu qualquer difusão junto dos leitores em potência. Lembrem-se que os mestres das Escolas dos Mistérios, e outros guardiães das doutrinas herméticas tiveram de encontrar outras formas de passar os ensinamentos uns aos outros, e ao público, como disfarçá-los de contos e lenga-lengas infantis, para fugir aos excessos de zelo dos inquisidores. Só depois da extinção do Conselho Geral do Santo Ofício, em 1821 – já em pleno século XIX! –, é que a literatura fantástica conseguiu, finalmente, penetrar no nosso país – e timidamente:

Quanto a autores, não os encontramos na nossa literatura de terror com individualidade e decididamente negros. Podemos, no entanto, destacar alguns, em cuja obra, avaliada em conjunto, é possível encontrar uma linha de influência constante dos objectivos, géneros e processos da escola. Além de Herculano, Rebelo da Silva, Camilo e Arnaldo Gama, há que mencionar Pereira da Cunha, Correia de Lacerda, Serpa Pimentel, Costa e Silva e Antónia Pusich. Daqueles que se restringiram praticamente a um género, temos, antes de todos, Mendes Leal Júnior, no teatro, e ainda Alfredo Hogan e Aires Pinto de Sousa, na novelística. As várias tendências literárias modernas, que se podem classificar de negras, não encontraram cultores em Portugal. [10]

O Fantástico, enquanto literatura de subversão, enquanto modelo herético de representação do mundo, afigurou-se perigoso para a ordem eclesiástica à guarida da Inquisição: se o mundo plasmado nos romances de literatura fantástica era caótico, selvagem, sem redenção ulterior, então Deus não assegurava a ordem natural das coisas – talvez até nem sequer existisse!... No modelo idealista do mundo as más intenções, aquelas que vão contra Deus, estão condenadas ao fracasso. Contudo, os cultores do género fantástico não só pareciam divertir-se com as obras como não eram castigados pela Providência. Esta observância subtil, mas terrível, seria capaz de derrubar os alicerces de qualquer crente que viesse a ser influenciado pela leitura ou pelo simples contacto com os livros.
Com efeito é inegável que a literatura fantástica se lavrou em território herético: nos países de expressão anglo-saxónica, e na Escandinávia, regidos por outras instituições que não a igreja católica apostólica romana. É extraordinário que em nenhumas das fontes que consultei sobre literatura fantástica esse facto seja sequer aflorado; o que não é de estranhar já que a maioria dos títulos ensaísticos que fazem parte da minha biblioteca são escritos por autores de expressão inglesa aos quais o conceito é alienígena. Faz falta uma obra que se dedique, de um modo empenhado, ao estudo da literatura fantástica portuguesa – ou à escassez dela –, mas, a escrever-se, acredito que a solução do enigma tem, necessariamente, de passar por aqui: pela repressão religiosa operada pela Inquisição durante quase trezentos anos sobre o tecido cultural do país, extinguindo quaisquer hipótese do género fantástico crescer e difundir-se pelos nossos antepassados leitores.
Sintetizando: o Fantástico é, por excelência, uma literatura de subversão porque faz imaginar, logo foi alvo preferencial da ordem teológica inaugurada pela Inquisição. Tal como em Portugal, também em outros países onde a cultura conheceu, e ainda conhece, uma forte influência religiosa não existe uma tradição literária devotada ao género fantástico.

Fahrenheit 451

Our biggest mistake was teaching them to read.
We won’t do that anymore. 
Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale.

O intervalo entre o término do regime teocrático da Inquisição e a instauração do regime teocrático do Estado Novo, em 1933, durou pouco mais de cem anos, tempo insuficiente para mudar o paradigma de profundo analfabetismo no qual o país se imergia. Até às vésperas da extinção do aparelho inquisitório publicaram-se em Portugal, em média anual, cerca de cem edições. Em França, em 1818, imprimiram-se 4917 livros e brochuras, mais do dobro do que Portugal publicou em vinte anos. À entrada do século XX a situação geral era a de analfabetismo: saber ler e escrever era uma excepção entre a população rural e, mesmo nas cidades, somente uma quarta parte dos homens havia frequentado algum grau de ensino.[11]
Em plena Inglaterra vitoriana já as mulheres liam e manifestavam opiniões; pouco depois, a partir de 1918, era-lhes reconhecido o direito de voto. Em Portugal isso só chegaria treze anos mais tarde. Portugal sempre fora um país hostil ao desenvolvimento literário e os cem anos que duraram entre o fim da Inquisição e o início da ditadura de Salazar não foram suficientes para colmatar essa lacuna. Entre 1911 e 1919, durante a Primeira República, o aparelho de Estado tomou várias medidas contra o analfabetismo criando os primeiros ensinos oficiais Pré-Primário e Primário Geral gratuitos. Criou as Escolas Normais de Lisboa e do Porto, a Faculdade de Direito de Lisboa, a Faculdade de Letras de Coimbra e do Porto e muitas escolas superiores que viriam a constituir as Universidades de Lisboa e Porto. As iniciativas de divulgação cultural e alfabetização foram exemplares: as Escolas Móveis, as conferências e os cursos nas províncias mais as bibliotecas itinerantes; estabeleceu-se a leitura pública de jornais em diversas aldeias. Contudo, logo a partir de 1926, com o início da ditadura militar do general Gomes da Costa, e o decreto-lei que instaurou a censura, o percurso foi interrompido. Como escreve Luiza Cortesão:

Não se pode deixar de melancolicamente reflectir sobre o que hoje seria o nosso povo se esta acção tivesse prosseguido.[12]

Saindo de uma censura para outra, igualmente teocrática, e quase imediatamente, nós não fomos capazes de criar, e sustentar, uma cultura literária saudável.
Através de uma propaganda muitíssimo bem desenhada, o regime do Estado Novo soube, de geração para geração, fomentar a ideia que o conhecimento, o progresso científico e a imaginação eram ferramentas luxuosas que não serviam o bom patriota, disposto a sacrificar-se pela nação.

E digo: este povo, para o que sente, já sabe demais. Intensifique-se a educação religiosa; proteja-se a instituição doméstica; olhe-se a sério pelo estado dos costumes deste povo – forme-se o carácter conveniente e, depois, voltamos à Instrução. O Padre Cruz faz mais, num dia, pelo bem de Portugal, do que os mestres primários todos juntos num ano. Ele não ensina a ler e a escrever: educa almas; arranca corações à perversidade – e quem sabe quantos lá foram lançados pela acção do A B C![13]

Será a única inteligência valiosa, considerável e útil à sociedade a que se revela na aptidão para as ciências e para as letras? (…) Uma criança inteligente filha de um operário hábil e honesto pode, na profissão de seu pai, vir a ser um trabalhador exímio, progressivo e apreciado, pode chegar a fazer parte do escol da sua profissão, e assim deve ser. Na mecânica da escola única, seleccionado pelo professor primário para estudar ciências para as quais o seu espírito não tem a mesma preparação hereditária que tem para o ofício, não passará nunca de um medíocre intelectual, quando muito um homem sábio mas incapaz de singrar na vida nova que lhe indicaram sem o ouvir. (…) Não é difícil de notar que há geralmente nas famílias uma ascensão da inteligência prática e recolhida até ao talento fecundo e brilhante. As ideias, as noções, as experiências vão-se elaborando através umas poucas de gerações até florir, em determinada altura, na pessoa de um dos membros da linhagem. (…) A gestação duma inteligência superior é trabalho de muitos anos, de séculos até. Resume-se nela toda a experiência de uma família, concentra-se então tudo quanto através das idades naquela linha de sucessão se foi acumulando no sub-consciente.[14]

            Durante quase meio século (de Maio de 1926 a Abril de 1974) a maioria dos artistas e escritores portugueses sentiram-se refreados, conscientes que a mais simples frase os poderia levar a confrontos indesejáveis com os censores:

Nessa única conversa que tive com um censor, ele trouxe-me um exemplar, censurado, com o célebre lápis azul da censura – exemplar que eu tenho em meu poder –, daquele meu livro Histórias de Amor, onde verifiquei que eles cortaram, logo a abrir, a palavra «nu», numa frase que começa assim: «estava nu em cima da cama…». Bastou-me ver isto para perceber que havia ali um propósito de queimar tudo e mais alguma coisa (…) Aliás, a simples referência ao Éluard e ao Pessoa (ao Fernando Pessoa, imagine-se só!), foram simplesmente abaixo.[15]

Não só as menções ao regime de Salazar, ao comunismo e à condição feminina foram censuradas. Tudo o que consistisse em laivos de laicismo e ataques à religião católica foi abafado; e também obras de ficção fantástica; como é exemplo Les Paradis Artificiels de Charles Baudelaire e outros autores contemporâneos. Existe um despacho que proíbe a publicação de um livro intitulado Contos de Terror, de vários autores do cânone e traduzido por José Vilhena[16]: a religião tratava de preencher o lugar vagado pela imaginação, pela fantasia. A paupérrima difusão de conhecimento científico, em desproporção à propaganda religiosa, contribuiu, de certeza, para que surgissem pouquíssimos autores portugueses de Ficção Científica, e ainda menos leitores.
Se um género se faz com autores, e editores, é verdade que também se faz de leitores: num país de gente que não lê, onde o analfabetismo foi fomentado pelas classes dirigentes, como mecanismo de controlo e hegemonia, sendo ainda observado com desconfiança pelas outras, é natural que não se verifiquem condições semelhantes às presentes nos países culturalmente mais ricos. Condições convenientes à saúde do tecido cultural.
É que nós, se calhar, ainda não aprendemos a sonhar.


David Soares, Novembro 2007.


[1] A History of Civilizations de Fernand Braudel (Penguin Books, 1993, pp 343-344) e The New Penguin History of the World de J. M. Roberts (Penguin Books, 1992, p 540).

[2] The Secret History of the World de Jonathan Black (Quercus, 2007, p 279) e Giordano Bruno and the Hermetic Tradition de Frances Yates (Routledge, 2002, pp 13-20).

[3] De acordo com a terminologia criada por Henri Corbin.

[4] A designação de “old wives’ tales” é a mais antiga e foi cunhada por Lúcio Apuleio em O Burro de Ouro como “anilis fabula”. In, From the Beast to the Blonde de Marina Warner (Farrar, Straus e Giroux, 1994, p 14).
      
[5] Ou aquilo que Umberto Eco apelida de «experiência pessoal do destinatário», in Sobre Literatura (Difel, 2002, pp 199-205).

[6]
Exemplos de poemas que poderão ter influenciado Walter Scott e Tobias Smollett, os “pais” do romance de cavalaria, são os épicos Beowulf (1010?), La Chanson de Roland (1150?) e Herzog Ernst (1180?). As chamadas “novelas do Graal”, cujo primeiro exemplo é consensual apontar-se como sendo Perceval, Le Conte du Graal de Chrétien de Troyes (1180-1190?), têm, por outro lado, raízes nos mitos galeses compilados numa sequência lógica, e dramática, em The Mabinogion por Evangeline Walton. São, por mérito próprio, um sub-género dentro dos romances de cavalaria já que possuem preocupações herméticas ausentes nos segundos. É seguro afirmar que os pioneiros do género gótico em Portugal, na tradição de Walpole e Radcliffe foram Alexandre Herculano com Eurico, o Presbítero (1844) e Almeida Garrett com Frei Luís de Sousa (1844). Convém também incluir Sampaio Bruno com o ensaio O Encoberto (1804) e o inacabado Os Cavaleiros do Amor, esboço para romance publicado postumamente em 1996.
   
[7] Tzvetan Todorov, in The Fantastic: A Structural Approach to a Literary Genre (Cornell University Press, 1975, pp 136-137). O excerto fala sobre La Morte Amoureuse de Théophile Gautier (1836).

[8] Rosemary Jackson, in Fantasy: The Literature of Subversion (Routledge, 1981, pp 13-14).

[9] In Judeus, Cristãos-Novos e a Inquisição de S. Alexandre (Prefácio, 2002, p 89). Ver também a obra em três volumes de Alexandre Herculano, História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal (Edições Europa-América).

[10]
Maria Leonor Machado de Sousa, in A Literatura “Negra” ou de Terror em Portugal: Séculos XVIII e XIX (Editorial Minerva, 1978, p 286).

[11]
In Diário da História de Portugal de José Hermano Saraiva e Maria Luísa Guerra (Selecções do Reader’s Digest, 1998, p 363). A acompanhar o texto encontra-se uma tabela muito completa com o número total de edições, reedições e traduções de obras estrangeiras realizadas nesse período.

[12] In Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento, 1988, p 18).

[13] Alfredo Pimenta, in Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento, 1988, p 209).

[14] Marcelo Caetano, in Escola, Sociedade: Que Relação? (Edições Afrontamento, 1988, pp 204-205).

[15] José Cardoso Pires, in A Censura de Salazar e Marcelo Caetano de Cândido de Azevedo (Editorial Caminho, 1999, pp 103-104). Outros dois tomos que iluminam esta questão da censura com documentação da época são Mutiladas e Proibidas de Cândido de Azevedo e Os Segredos da Censura de César Príncipe, ambos da Editorial Caminho (1997 e 1979, respectivamente).
 
[16] Os Segredos da Censura de César Príncipe (Editorial Caminho, 1979, p 122).


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Vídeo das Conversas de Horror no FF 2013



Vídeo da mesa-redonda Conversas de Horror, que decorreu no Fórum Fantástico 2013, no passado dia 15 de Novembro: são quase quarenta minutos de um debate (moderado por Rogério Ribeiro) que se estendeu durante hora e meia e no qual tive a surpresa e a satisfação de, no final da minha segunda intervenção, ter sido aplaudido espontaneamente por toda a assistência (momento que, infelizmente, este vídeo não chega a mostrar).
Embora muitíssimo desigual, foi um debate muitíssimo interessante que me deu vontade de, num futuro próximo, sintetizar aqui no weblog uma breve história do horror, com base nas minhas apuradas investigações (escrevi «breve», porque o tema só poderá ser desenvolvido de modo satisfatório num livro).

O vídeo publicado acima foi filmado pelo autor português de ficção científica Luís Filipe Silva. Se algum leitor dos Cadernos de Daath filmou integralmente esta conversa ou tem conhecimento da existência desse registo, por favor contacte-me através do endereço de email indicado no lado direito desta página, de modo a que eu possa divulgar o vídeo. Obrigado.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

«Ancient Aliens»: limpando o lixo


Depois de ter publicado no passado dia 28 de Agosto o artigo Hoje Há Pirâmides, no qual enunciei as essências das teorias pseudo-históricas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, fui surpreendido por descobrir que alguns dos meus contactos olham com credulidade para essas ficções descabeladas. Não demorei muito tempo a perceber que a culpada dessas situações bizarras é, pela medida grande, a série televisiva Ancient Aliens, transmitida actualmente pelo Canal História.
Já vi um punhado de episódios de algumas temporadas desse seriado e o que tenho a dizer sobre ele é que consiste num produto televisivo tóxico que deveria ter um aviso no início do genérico, e depois de cada intervalo, para informar constantemente os espectadores de que estão a assistir a flagrantes manipulações e ocultações de factos históricos e científicos que breves leituras de livros escolares do ensino secundário seriam suficientes para desmistificar. Ancient Aliens não é uma série preocupada com a verdade: é um programa sensacionalista que usa aparências de rigor e de autoridade, emprestadas pela circunstância de ser emitido por um canal chamado Canal História, para disseminar daninhas ideias pseudocientíficas que, de outro modo, nunca chegariam ao grande público, nem tão-pouco seriam olhadas com respeitabilidade.
Os meus contactos de que falei há poucas linhas são indivíduos inteligentes e informados, representativos daquilo a que posso chamar, à falta de designação melhor, de "público normal": não são, de maneira nenhuma, teoristas das conspirações, entusiastas de ovniologia ou crentes no sobrenatural. Contudo, são receptivos à imitação de rigor e autoridade científicas com que a série se mascara e ao formato empolgante com o qual ela passa as suas pseudo-informações. Acredito que esta é a maior deformação conseguida por Ancient Aliens: a popularização, junto de espectadores comuns - num canal que, à partida, lhes parece ser fidedigno -, de ideias irracionais e radicais que eram coutada quase exclusiva de um minoritário segmento de público acrítico e hostil à razão.
Escrevi este texto para os espectadores que estão a ser enganados por lixo como Ancient Aliens: em seguida, de uma forma sucinta, vou esclarecer a origem dessas ideias estúpidas e demonstrar como os teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre vos estão a puxar, paulatina, mas inexoravelmente, para longe da razão e da realidade. Veiculadas como se fossem factos, essas teorias não são inofensivas, porque servem de Cavalo de Tróia para a instituição de um modelo irracional de olhar para o mundo; uma vez instalado esse modelo, os indivíduos tornam-se presas de todo o tipo de charlatanices - algumas muitíssimo dispendiosas, no que concerne ao tempo, dinheiro e relações pessoais. Em suma: o género de aldrabices avançadas por produtos como Ancient Aliens é nóxio, pegue-se por onde calhar.

H. P. Lovecraft
A história sobre a origem das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre não é complexa, mas é pormenorizada; para explaná-la detalhadamente seria necessário introduzir um manancial de informação específica, subordinada aos campos da pseudo-história, do esoterismo ocidental, das sociedades ocultistas que apareceram nos Estados Unidos e na Europa durante o século XIX e da literatura dita fantástica que despontou em inícios do século XX, que, com franqueza, confundiria os leitores que não estão familiarizados com esses assuntos. Como escrevi acima, este texto não é para especialistas, nem para quem já tem umas "luzes" sobre estas teorias tresloucadas, mas para aqueles que apenas ouviram falar delas em séries como Ancient Aliens e outros produtos parecidos. Este é um desmascaramento directo dessas teorias, a partir do qual se poderá investir numa observação aprofundada de todos os detalhes sobre a origem delas, mas, para já, irei concentrar-me no fundamental. E o fundamental é isto: as teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, popularizadas como factos por veículos mentirosos como Ancient Aliens, têm origem nos contos de horror do autor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, nascido em 1890, na cidade de Providence, capital do estado de Rhode Island, e falecido em 1937, com um cancro no intestino delgado.

Hoje, a herança literária de Lovecraft é uma das mais influentes (e lucrativas), mas, enquanto viveu, o escritor, que passou fome e foi muito pobre, nunca conheceu o prestígio que as gerações posteriores lhe reconheceram e, infelizmente, morreu convencido de que fracassara. Porém, Lovecraft foi um espantoso epistológrafo, apenas ultrapassado pelo filósofo francês Voltaire na profusão de milhares de cartas que escreveu a amigos e colegas autores com quem manteve constante correspondência. Esse assombroso acervo permite traçar com minúcia o retrato psicológico de uma personalidade imaginativa, artística e intrincada, que, mais do que qualquer outra coisa, se pautou por um conservadorismo severo na juventude, e nos primeiros anos da idade adulta, mas que se tornou muitíssimo mais liberal, tolerante e positiva nas últimas décadas de vida. O perfil de absoluto racista virulento que lhe é traçado pelos detractores não se sustenta diante da documentação existente: Lovecraft desgostava das massas, mas não de raças; o seu preconceito sempre se dirigiu à plebe e nunca aos indivíduos. Se tivesse sido um autêntico xenófobo nunca teria casado com uma emigrante russa de religião judaica que, ainda por cima, era mais velha que ele (depois de se divorciarem, permaneceram amigos). Lovecraft foi uma criança doente que não chegou a terminar o liceu, mas compensou essa lacuna dedicando a vida inteira à leitura e à procura do mais actualizado conhecimento científico: ateu e grande desmistificador das práticas ocultistas do seu tempo (como o espiritismo, a adivinhação, a astrologia, etc.), Lovecraft escreveu histórias de horror em que as personagens fantásticas têm uma origem física, em vez de sobrenatural - e é nesta escolha autoral que reside a origem das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre.
Nas histórias mais representativas de Lovecraft, aquelas que, hoje, se apelidam em conjunto por "mitologia lovecraftiana" (a popular designação Cthulhu Mythos, inventada pelo escritor norte-americano August Derleth - que salvou do esquecimento a obra de Lovecraft - está a ser abandonada pelos especialistas, por culpa do lastro cristão que Derleth imprimiu sobre esse corpo literário ateu e amoral), os deuses antigos, responsáveis pela construção de primitivas cidades e de estruturas enigmáticas que, aparentemente, as civilizações de outrora não poderiam ter sido capazes de levantar sozinhas, são, afinal de contas, entidades extraterrestres que os homens tomaram por deuses.
Esses seres extraterrestres são, em regra, indiferentes às vontades humanas, mas essa indiferença logra, não obstante, o nosso infortúnio. A história basilar da mitologia lovecraftiana, na qual os deuses antigos não passam de criaturas extraterrestres, tão açaimadas pelas leis da física quanto nós, intitula-se The Call of Cthulhu (A Invocação de Cthulhu) e foi publicada pela primeira vez no número de Fevereiro de 1928 da revista bimestral norte-americana Weird Tales.

   The Call of Cthulhu foi uma ficção inovadora - e Lovecraft o primeiro a postular, de modo fictício, que os antigos deuses eram entidades extraterrestres, nas suas histórias de horror -, mas que se arquitecta sobre as ideias pseudo-históricas dos ocultistas e dos pseudo-arqueólogos do século XIX, como o político norte-americano Ignatius Donnelly, que, em 1882, escreveu Atlantis: The Antediluvian World (Atlântida: O Mundo Antidiluviano), livro seminal para a popularização e consolidação da tese atlante sobre as origens da humanidade, pugnada por correntes hiperdifusionistas (o Hiperdifusionismo é uma teoria pseudo-histórica que defende que todas as civilizações existentes descendem de uma primordial civilização-matriz, tecnologicamente avançada e espiritualmente desenvolvida, entretanto desaparecida num cataclismo, como um terramoto, um maremoto ou uma erupção vulcânica). Esse livro de Donnelly iniciou um tsunami de pseudoliteratura sobre antigos continentes perdidos, entre os quais o de Lemúria e o de Mu, e a sua influência sobre Lovecraft e, consequentemente, sobre os teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre, está na ideia de que os deuses antigos não foram invenções das mentes dos homens, mas entidades reais que com eles contactaram e, em alguns casos, conviveram (no caso de Donnelly, seriam os patriarcas desaparecidos da extinta Atlântida).
Em 1864, ao observar que existiam lemúres (espécie de primata) na costa oriental de África (Ilha de Madagáscar) e na costa ocidental da Índia, o zoólogo inglês Philip Lutley Sclater teorizou que deveria ter existido, algures numa era vetusta, uma ligação terrestre entre os dois continentes: a esse hipotético estreito deu o nome sugestivo de Lemúria, porque era a passagem dos lemúres. Hoje, achamos ridículo este tipo de ideias, porque conhecemos o modo como os continentes se formaram, por movimento das placas tectónicas, logo continentes afundados só poderão conceber-se no domínio da ficção; porém, na altura, as coisas passaram-se de outro modo. Em 1870, o cientista alemão Ernst Haeckel inventou que a tal Lemúria deveria ser o local onde a espécie humana tinha nascido, teorizando que os símios, como os gorilas, chimpanzés e orangotangos, tinham evoluído dos lemúres e, por conseguinte, disseminado para a África e para a Ásia a partir desse hipotético território. Abreviando: a ideia de Lemúria não vingou na geologia, nem na antropologia, mas o mesmo não pode dizer-se do campo do esoterismo, no qual Lemúria se transformou num continente perdido.

Helena Blavatsky
No seu livro The Secret Doctrine (A Doutrina Secreta), de 1888, a ocultista russa Helena Blavatsky (criadora, em 1875, da Sociedade Teosófica, em Nova Iorque) alegou ter canalizado espiritualmente os ensinamentos secretos de um misterioso volume, anterior ao nascimento da própria humanidade, intitulado Livro de Dzyan, que lhe fora revelado por entidades superiores (a que chamou Mahatmas): essa narrativa espúria, meio-argolada em textos religiosos indianos, desvenda que os antepassados do homem apareceram na Terra há dezoito milhões de anos, sob a forma de criaturas invertebradas, semivegetais, que, há três milhões de anos (sem se perceber muito bem como), deram origem a uma raça de gigantes andróginos; esses gigantes relacionaram-se sexualmente com animais (?) e deram origem aos híbridos monstruosos da mitologia clássica. (É a versão blavatskiana da queda bíblica da Graça, porque, a partir desse episódio, a reprodução deixou de ser espiritual para passar a ser carnal.) Segundo a "sabedoria secreta" dos Mahatmas, a Lemúria - que, como vimos, foi inventada pelo zoólogo Philip Sclater - era o berço primordial de toda a Criação: um continente perdido onde tinham aparecido as raças antigas e, também, o local onde originou a humanidade. No sistema pseudo-histórico de Blavatsky, que, acredite-se ou não, influenciou muitíssimo diversas correntes do esoterismo ocidental (incluindo a gnose sexual-racista de Lanz von Liebenfels, editor da revista neocristã e anti-semita Ostara), a humanidade contemporânea era, apenas, a quinta "raça" de uma série de Sete Raças que governariam a Terra. (A quarta raça fora, obviamente, a Atlante; entretanto, destruída por forças ocultas que instrumentalizaram magia negra para o efeito.) Mas todas as Sete Raças teriam origem em Lemúria, o berço, que emergiria e submergiria, regularmente, até a sétima raça reinar no mundo.
Contemporâneo de Blavatsky, o ocultista inglês James Churchward agarrou nos "ensinamentos" teosóficos e popularizou o seu próprio continente perdido: Mu, a «Mátria da Humanidade» (apesar disso, Mu fora inventado, uns anos antes, pelo arqueólogo amador anglo-americano Augustus Le Plongeon, que acreditava na ideia muito bizarra de que a Maçonaria tinha sido criada pelos Maias e por eles introduzida no Egipto). Embora tenha passado vários anos a teorizar sobre Mu, somente em 1926 é que Churchward publicou um livro sobre o assunto: The Lost Continent of Mu (O Continente Perdido de Mu), cuja existência e história lhe haviam sido provadas por monges hinduístas, num mosteiro perdido dos Himalaias. Segundo Churchward, Mu tinha sido um continente-ilha do Oceano Pacífico, uma civilização-matriz da qual todas as outras derivaram; incluindo a Atlante e, a partir dessa, a Egípicia. Os vestígios de Mu seriam as ruínas polinésias do Pacífico - as mesmas ruínas que, curiosamente, foram usadas por Lovecraft em The Call of Cthulhu para servirem de ruínas da cidade fictícia de R'Lyeh, em quais subterrâneos dormia a entidade extraterrestre Cthulhu, à espera do momento em que as estrelas se alinhassem correctamente, de maneira a emergir do seu cativeiro (o que acontece no final da história).

Em resumo: H. P. Lovecraft foi ateu, daí ter sentido a necessidade de, nos seus contos de horror, escrever sobre agentes fantásticos que fossem físicos, em vez de sobrenaturais; para o efeito, fundou o seu universo ficcional sobre o cadinho cultural da altura - as pseudo-histórias e narrativas esotéricas sobre continentes perdidos, ruínas e monumentos construídos por deuses antigos -, mas nos papéis desempenhados pelas divindades colocou entidades extraterrestres, oriundas de outros planetas. Até inventou um nono planeta: Yuggoth, um pequeno mundo, habitado pela civilização extraterrena dos Mi-Go, que ficava nas fímbrias do sistema solar - planeta inventado pouco tempo antes da descoberta de Plutão. No entanto, a ficção de Lovecraft, publicada em revistas periódicas de contos, não alcançou grande popularidade nos Estados Unidos nessa altura. A grande influência de Lovecraft sobre as teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre ocorreu na Europa, no rescaldo da Segunda Grande Guerra; em principal, na França.
Para entreter os soldados destacados para o estrangeiro, o exército norte-americano criou uma colecção de livros de bolso, na qual incluíu vários títulos de géneros diferentes, como o western, o policial, a ficção científica e o horror; entre os livros de horror contava-se The Dunwich Horror and Other Weird Tales (O Horror de Dunwich e Outros Contos Estranhos), da autoria de um autor, algo obscuro, chamado H. P. Lovecraft. Foi através desses livros de bolso que o público europeu contactou com diversos autores norte-americanos de ficção científica: género que, em pouco tempo, alcançou uma popularidade enorme em França - assim como a obra de Lovecraft, cujas histórias mais volumosas, como The Call of Cthulhu e At the Mountains of Madness (Nas Montanhas da Loucura), foram publicadas, a partir de meados dos anos cinquenta, pelas Éditions Denoël.
At the Mountains of Madness é particularmente importante para a consubstanciação da Teoria da Génese Extraterrestre, porque é a primeira história que apresenta a ideia de que a raça humana foi criada em laboratório por engenheiros genéticos alienígenas. Nesse texto, os astronautas extraterrestres (as Coisas Antigas - de blavatskiana consistência vegetalóide) foram os criadores de toda a vida da Terra, entre a qual se destacam duas importantes espécies antagónicas: a dos Shoggoths, escravos capazes de adquirir qualquer forma e que foram usados pelas Coisas Antigas para construir as cidades e os monumentos de outrora; e a humana, criada por simples curiosidade científica.
Esta noção de uma espécie criada por extraterrestres para servir de escrava foi usada pelo autor azerbeijano-americano Zecharia Sitchin no seu infame sequestro de elementos e destraduções da mitologia suméria, reunidos na amálgama intitulada The Twelfth Planet (O Décimo Segundo Planeta), editado em 1976. Este livro de Sitchin pretende ser uma tradução fidedigna (na realidade, apresenta-se como a "única" tradução fidedigna) de placas de escrita cuneiforme suméria que contam como uma alegada espécie extraterrestre, chamada Anunnaki, veio à Terra, aterrando na região da antiga Mesopotâmia, e criou a espécie humana para ser sua escrava em escavações de ouro, sem o qual os Anunnaki não seriam capazes de regenerar a atmosfera do seu planeta, chamado Nibiru (o título do livro relaciona-se com o "facto", descoberto por Sitchin, de que os antigos sumérios consideravam o Sol e a Lua como planetas, daí que o dos Anunnaki passava a ser o décimo segundo - ou seja, nesta história, sem pés nem cabeça, os antigos sumérios, além do Sol e da Lua, já conheciam os nove planetas do sistema solar).
Em certos círculos de teoristas das conspirações e ovniologistas marginais, os Anunnaki de Sitchin são equivalentes aos Reptilianos: répteis extraterrestres de feitio antropomórfico, ao jeito dos invasores fictícios da série televisiva V: A Batalha Final, que, segundo o doentio David Icke, ex-locutor desportivo inglês, tornado "filho de Deus" e denunciador do plano reptiliano pelo controlo mundial, provêm (adequadamente) da constelação Alfa Draconis e, tal como os Shoggoths de Lovecraft, têm o poder de trasmutar de forma - os seus disfarces preferidos são os de monarcas europeus, líderes políticos mundiais e actores de Hollywood. Talvez não seja coincidência que uma das influências para a construção do mito reptiliano extraterrestre seja a dos homens-serpentes das histórias dos bárbaros Kull e Conan, inventados pelo escritor norte-americano Robert Ervin Howard, grande amigo epistolar de Lovecraft: essas criaturas, de origem enublada nas eras pré-dinossáuricas, têm como objectivo infiltrarem-se entre os homens, assumindo os seus semblantes, de maneira a governarem na sombra para ganhar o controlo do mundo. (À beira de o conseguirem, foram derrotadas por Kull, um sobrevivente da Atlântida.) No entanto, a Teoria da Génese Extraterrestre, popularizada por Sitchin, entre outros, e inventada por Lovecraft, como vimos, foi apresentada pela primeira vez ao público como "factual", em 1960, no livro Le Matin des Magiciens (O Despertar dos Mágicos), de Louis Pauwles e Jacques Bergier.          

Escrito pelos editores da revista de ficção científica Planète, criada no início de 1960 e que publicou muitos contos de Lovecraft, Le Matin des Magiciens pode resumir-se como uma viagem alucinante pela cultura marginal de meados do século passado, desde várias teorias da conspiração, pseudo-arqueologia, piramidologia, misticismo nazi, teorias sobre Antigos Astronautas e Génese Extraterrestre. Aliás, o próprio Lovecraft é referido em Le Matin des Magiciens como tendo sido um observador dos extraterrestres ocultos (em conjunto com o escritor inglês Arthur Machen, que Lovecraft admirou e emulou), por conseguinte a influência lovecraftiana sobre Pauwles e Bergier é inegável. O livro provou ser muito influente, principalmente na Europa, e esteve na origem de outro título, mais influente ainda, que se tornou a Bíblia dos teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre. Esse trabalho, publicado em 1968, largamente responsável pelo estado das coisas a que chegámos, foi escrito por um recepcionista suíço de hotel, chamado Erich von Däniken.

Erich von Däniken e Giorgio Tsoukalos
 Menos conhecido por ter sido preso por desfalcar dinheiro ao hotel onde trabalhava, Von Däniken é o Papa dos teoristas dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre; juntamente com Giorgio Tsoukalos, Sitchin e outros chicaneiros, é um convidado regular da série Ancient Aliens. Copiando trechos da edição alemã de Le Matin des Magiciens, editada em 1963, e de livros do francês Robert Charroux - outro pseudo-historiador de que os conhecedores destas matérias deverão lembrar-se; autor de, entre outros, Histoire Inconnue des Hommes Depuis Cent Mille Ans (História Desconhecida dos Homens) -, Von Däniken escreveu o livro mais popular e influente do género: Erinnerungen an die Zukunft, que significa Memórias do Futuro, mas que foi traduzido para inglês com o título Chariots of the Gods? (Carruagens dos Deuses?), pelo qual ficou conhecido internacionalmente. No fundo, Erinnerungen an die Zukunft nada tem de original: é um apanhado de tudo o que foi escrito sobre o tema até à data da sua edição, mas, inversamente a Le Matin des Magiciens e aos livros de Charroux (que só chegaram aos Estados Unidos na década de Setenta), tornou-se, de imediato, um sucesso de vendas norte-americano, com milhões de exemplares vendidos num curto período, beneficiando de uma publicidade televisiva estonteante. Não demorou muito até que o próprio livro fosse adaptado à televisão num "documentário" de três horas de duração, intitulado In Search of Ancient Astronauts (À Procura de Antigos Astronautas), produzido por Alan Landsburg e narrado pelo famoso Rod Serling, criador da série The Twilight Zone (A Quinta-Dimensão) - ambos crentes nas revelações de Von Däniken (Landsburg até escreveu a sua própria imitação de Chariots of the Gods?).
Von Däniken foi, finalmente, desmascarado como o mentiroso que é, quando confessou ter forjado as "provas" da existência de uma subtérrea cidade extraterrestre, escondida numa selva do Equador: foi o próprio Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, que liderou a expedição científica para desmistificar esse dito achado pseudo-arqueológico. Armstrong não encontrou nada, como seria de esperar, e Von Däniken teve de admitir que inventara a história. Ainda assim, a memória do público é de curta duração e ei-lo, novamente, nos ecrãs, a repetir as mesmas charadas e as mesmas aldrabices para ouvidos novos.
 
Em 2011, o cineasta inglês Ridley Scott disse que o seu filme Prometheus, espécie de prequela de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) se debruça sobre algumas ideias de Von Däniken, no que concerne à génese extraterrestre da vida terrena, mas, na verdade, seria mais correcto dizer que se debruça sobre algumas ideias de Lovecraft sobre a génese extraterrestre da vida terrena: aliás, o cineasta mexicano Guillermo Del Toro foi impedido de seguir com a produção da sua adaptação cinematográfica de At the Mountains of Madness, história onde essa ideia surge pela primeira vez, porque o estúdio Universal Pictures percebeu que o enredo era demasiado parecido com o de Prometheus (com efeito, Prometheus é que é um desgraçado arremedo de At the Mountains of Madness).


No clímax de Prometheus, um dos monstros transmutáveis criado pela negra fórmula líquida dos engenheiros extraterrestres - arma bioquímica que perverte o ADN dos organismos com que contacta - impugna um dos próprios engenheiros, numa evidente colagem à linha narrativa de At the Mountains of Madness que conta como os Shoggoths se revoltaram contra os seus criadores, as Coisas Antigas. Scott até pode achar, por desconhecimento, talvez, que o seu filme vai, de facto, ao encontro de temas dänikianos, mas o resultado final é totalmente lovecraftiano. O problema, porém, não são filmes medíocres como Prometheus (por mais anticiência que sejam), nem histórias intrigantes e provocantes como At the Mountains of Madness (por mais pró-ciência que sejam), porque são apresentados ao público tal qual como são: ficções. Em oposição, produtos pestíferos como Ancient Aliens são apresentados ao público como sendo factuais. Ora, cada um tem direito a ter as suas próprias ficções, sejam elas opiniões ou fantasias, mas não se pode ter factos próprios.

É compreensível que a maioria do público desconheça que as teorias principais de Ancient Aliens provêm da ficção de horror imaginada por H. P. Lovecraft, que, por sua vez, foi inspirada pelas teorias pseudo-históricas dos pseudo-arqueólogos, antiquários e ocultistas do século XIX. Com efeito, haverá bastantes leitores especializados que não fazem ideia destas ligações, porque elas são, na verdade, muito exclusivas. Só quem se dedica, em conjunto, ao estudo do esoterismo ocidental, às origens da literatura fantástica e à história da cultura popular, dita marginal, como as teorias das conspirações e ovniologia, poderá ter capacidade de reunir as ferramentas necessárias para visualizar todo o espectro. No entanto, o que não é compreensível é que os indivíduos ponham de lado o pensamento crítico e sejam tão lestos a acreditar em vendedores de banha-de-cobra (trocadilho não-intencional, no que diz respeito aos Reptilianos) - ou, no mínimo, a dar-lhes atenção - e, ao mesmo tempo, desdenhar ou recusar liminarmente teorias verdadeiramente científicas.
É verdade que os leigos não têm capacidade para acompanhar a linguagem e o ritmo das descobertas científicas se não devotarem muito tempo a essa aprendizagem, mas isso não é desculpa para virar-se costas à ciência e adoptar de braços abertos o pseudoconhecimento por ela rejeitado só porque oferece "respostas" simples (simplórias) e imediatas (falsas). A influência de séries televisivas como Ancient Aliens é muito maior do que eu pensava e isso chocou-me. Este texto nasceu desse choque e procurei que fosse um desmascaramento directo, entendível e, sobretudo, eficaz. Tracei, sem superfluidades, a cronologia principal das origens das teorias dos Antigos Astronautas e da Génese Extraterrestre que suportam o edifício de Ancient Aliens. Indivíduos como Von Däniken, Zecharia Sitchin ou Giorgio Tsoukalos são aldrabões sem vergonha que fazem dinheiro vendendo pseudoconhecimento ao público entusiasta (e ingénuo). Através de parques temáticos, livros, filmes, séries de televisão e palestras, estes bandidos e outros do mesmo jaez, como o abjecto David Icke, deformam o pensamento crítico do público, jovem e adulto, para vender o evangelho da irracionalidade. Não é conhecimento, nem é ciência: é um negócio - vocês estão a ser enganados e colonizados por ideias infectas. Está nas vossas mãos a escolha de aceitá-las ou extirpá-las.