A inauguração contará com uma interpretação musical, ao vivo, de
Charles Sangnoir, de
La Chanson Noire.
Em
vinte e duas imagens de contexto sepulcral, a preto-e-branco, tiradas
em diversos cemitérios portugueses e estrangeiros, apresentam-se novos
Arcanos Maiores que, mergulhados no mistério e no silêncio próprios dos
cemitérios, prosseguem num feitio surpreendente a tradição pictórica do
Tarot.
«Decisivas, estas enfeitiçantes vinte e duas fotografias que Gisela
Monteiro tirou a emblemas da vida efémera, em vários cemitérios portugueses e
estrangeiros, têm como múnus o repercutir de ressonâncias subversivas que se nutrem
do silêncio e do mistério. A cognoscibilidade tipológica entre elas e as reminiscências
taróticas é total: ao mesmo tempo que estes tumulares arcanos maiores se
inserem naturalmente na tradição pictórica do Tarot iniciada no século XVIII, e
nela procuram inspiração, regozijam com uma independência arisca às
significações coriáceas com que esses modelos (Etteilla diria hieróglifos) têm
sido expostos. São, portanto, etapas de uma demanda ourobórica, na qual se vai
até à morte para voltar a entrar no princípio. Ao olhar para os nossos
dormitórios definitivos, reintegrando-os, sem dissimulação, nesse espectro do oracular,
eles vão ao encontro das perguntas que os mortos nunca deixaram de estar à
espera que lhes fizéssemos – um ininterrupto e poroso relacionamento. O oráculo
dos mortos de Gisela Monteiro é uma sensível tradução da linguagem com que nos
fazemos entender pelos mortos: a da imaginação. Os mortos vivem em exclusivo na
nossa cabeça, na selenita esfera dos sonhos, e só através do simbólico (como no
caso do Tarot) se estabelece igualdade entre eles e nós. Enquanto houver vida, haverá
mortos, pois sem memória eles não existem. São como cartas de um baralho: outrora
nossos, porque nos foram dados no início da nossa vezada, perdemo-los entretanto
no jogo que, justamente, também iremos perder. Cada um de nós é uma carta no
jogo de alguém e a rede de significados e correspondências que se desencolhe
entre todos os vivos e todos os mortos é, em simultâneo, sublime, trágica,
banal e riquíssima. Omnímodo, Oraculum
Mortuum: Um Tarot Tumular transmite-nos a mensagem que somente as pedras e
as ideias, substâncias de densidades diametrais, resistem com robustez à
corrosão dos séculos. Um prodigioso livro de imagens – para ver e para pensar.» *
A exposição estará patente até 28 de Novembro.
Agradeço a divulgação e a vossa presença.
* Do meu texto Do Silêncio e do Mistério, sobre a origem do Tarot e sobre a abordagem pictórica de Gisela Monteiro, disponível no dia da inauguração.