Mostrar mensagens com a etiqueta Internet. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Internet. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 6 de novembro de 2018

A Ignota Ilha Digital; ou, O verdadeiro Fernão de Magalhães que se levante, por favor



Ontem, na abertura oficinal (não se trata de erro: quis, de facto, usar esta palavra, que melhor expressa o aspecto de receituário técnico exudado por esse protocolo), do Web Summit, o presidente da câmara municipal de Lisboa Fernado Medina comparou Paddy Cosgrave, criador do evento, a Fernão de Magalhães, assinalando-o com a oferta em palco de um retrato desse navegador português. Segundo as palavras de Medina, agora Lisboa abre fronteiras por mérito de Cosgrave.

A partir daqui, interessa-me uma observação mais rigorosa sobre o generalizado fenómeno da importância desmesurada que é atribuída às tecnologias digitais — sobretudo quando o seu poder é comparado a uma ruptura epistemológica que, na verdade, não precisou de Internet para coisa alguma: a da navegação astronómica dos seculos XV e XVI, desenvolvida, em principal, por navegantes portugueses, com o auxílio de ferramentas bastante simples. Com efeito, as técnicas e instrumentos que permitiram o descobrimento de novas rotas marítimas durante esse período da expansão portuguesa — e que serviram, de facto, para desencravar o mundo — estão em oposição às tecnologias digitais, que, por mais complexas que sejam as suas cabalísticas linguagens, somente compreendidas na totalidade por engenheiros informáticos e programadores especializados, se cifram em atalhos comunicacionais que, quase sempre, se tornam a si próprios obsoletos. Como se se operasse em smartphones e tablets uma senescência programada da mesma ordem que aquela que delimita a vida útil de outros electrodomésticos menos vistosos, como torradeiras e máquinas de lavar louça.

Em suma, a vantagem do uso das tecnologias digitais está em alcançar de modo mais veloz, imediato e, em alguns casos excepcionais, exacto, tarefas que, no fundo, poderiam perfeitamente continuar a ser realizadas de maneiras analógicas. Inversamente à ruptura epistemológica estreada com o advento da navegação astronómica (ao nivel do impacto que tiveram os desenvolvimentos das concomitantes artilharia móvel e imprensa de caracteres móveis), essa madrinha da Modernidade, o surgimento da Internet ainda não trouxe nenhum mundo novo ao Mundo. E se a estética digital se arroga, por vezes de modo precipitado, de tropos pertencentes a alguma cinemática ficção científica para se apresentar num jaez mais profético (Steve Jobs desempenhava muito bem esse papel de pajé, revelando no ecrã gigante as visões com que a Deusa Tecnologia o havia honrado), esse desiderato desaba no instante em que recordamos que para ir várias vezes à Lua a humanidade não precisou de Internet para nada: bastou-lhe utilizar com arte e coragem ferramentas relativamente simples, tal como bastou aos navegadores quinhentistas. Não há, bem vistas as coisas, um antes e um depois da Internet, do mesmo modo que houve um antes e um depois da roda, um antes e um depois da passagem do cabo Bojador ou um antes e depois de Gutenberg. Tudo o que há é a ágil reprodução de mecanismos que, até há pouco tempo, eram analógicos.

Assim, comparar Cosgrave a Magalhães, navegador que encetou a grande viagem de circum-navegação do planeta (descoberta que faz parte da supramencionada ruptura epistemológica) — e que morreu violentamente no decurso desse empreendimento (uma atitude que se caracteriza por aquilo a que o autor Nicholas Nassim Taleb chamou no seu livro mais recente de skin in the game) — pode consistir numa manobra de marketing que dá nas vistas (o que é completamente legítimo, note-se...), mas falha em estabelecer um verdadeiro vínculo entre uma actividade e outra.

Não é de espantar que assim seja: Magalhães e outros seus próximos orientaram-se por estrelas; estes epígonos hodiernos são orientados pelo estrelato — que até soa parecido, mas é algo muitíssimo diferente.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um desmentido

Escrevo este desmentido em relação a algo que me foi dado a conhecer hoje.

Um dos meus amigos escritores, pertencente ao meio do Fantástico português, enviou-me por email uma ligação para uma resenha ao evento Fórum Fantástico 2013, escrita por um leitor, na qual é descrito que

«Das sessões a que fui, achei todas muito boas, em particular as Conversas de Horror, com David Soares, António Monteiro, Pedro Santasmarinas e José Pedro Lopes. O escritor, o académico e os realizadores, reunidos numa conversa semi-informal, marcada pelo tom algo agressivo do David Soares, que não esteve nos seus melhores momentos de argumentação, mas que teve também momentos bastante interessantes, como quando falou da diferença entre horror (nojo, repulsa) e o terror (no sentido de ficar assustado), num diálogo bastante interessante com António Monteiro» [sublinhado meu].

O meu amigo que me enviou esta ligação não esteve presente no Fórum Fantástico 2013, não assistiu à mesa-redonda Conversas de Horror e, como tal, perguntou-me, com espanto, que espécie de «tom algo agressivo» é que eu exibi durante o debate e qual a razão para que isso tivesse acontecido. Na resposta que lhe enviei, manifestei a minha completa estupefacção diante deste relato, que em nada corresponde à realidade: pelo contrário, se algo marcou as Conversas de Horror não foi um fictício «tom algo agressivo» que este leitor inventou para me atribuir, mas sim os aplausos espontâneos e entusiasmados de toda a assistência no final de uma das minhas intervenções sobre o tema do horror. Aplausos que dificilmente se explicariam no caso de, como inventou o leitor, eu não ter estado nos meus «melhores momentos de argumentação».

Por conseguinte, o desmentido que aqui publico tem como objectivo perspectivar de modo correcto os acontecimentos:

1) não existiu nenhum «tom algo agressivo» da minha parte durante a mesa-redonda Conversas de Horror no Fórum Fantástico 2013;

2) é falso que eu não tenha estado nos meus melhores momentos de argumentação, porque tive a surpresa e a satisfação de ter sido aplaudido de modo espontâneo por toda a assistência (menos o leitor que escreveu a supramencionada resenha do evento, provavelmente);

3) os participantes no debate ficaram em animada conversa informal uns com os outros (sobre livros e filmes) depois da mesa-redonda ter terminado, o que, só por si, deveria servir para afastar fantasmas (estamos a falar de horror, afinal de contas...) de tons algo agressivos e quejandos durante o debate.

De maneira geral, não dou importância ao que se escreve na Internet, mas achei que valia a pena publicar este desmentido, porque, com efeito, a distância que vai desta resenha à realidade é tão grande que se houvesse um vampiro em cada uma não se ouviriam berrar um ao outro. Em suma: a informação descrita na resenha é falsa e aproxima-se perigosamente do assassínio de carácter, porque quem não esteve presente no evento poderá ficar com uma ideia errada sobre a minha conduta no mesmo. 
Nesse sentido, apelo a quem possa ter filmado o evento na íntegra que entre em contacto comigo para que eu possa divulgar esse registo e demonstrar que tudo o que aqui escrevo é verdade. O meu endereço de email encontra-se na coluna do lado direito deste weblog. Obrigado.