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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Crítica ao ruinismo da contemporaneidade


Seguindo na esteira dos esforços sinceros, mas, por vezes, pouco sistemáticos, dos antiquários que o precederam, Piranesi foi, na minha opinião, o artista que com mais argúcia e persistência aperfeiçou um estilo de desenho que se poderá denominar de ruinismo, ou seja, a representação indefectível da corrupção do passado, tal qual podia ser observada num momento presente; desiderato que comporta, em suma, a transferência de um espelho temporal para o plano moral, integrando a ruína na topografia metafórica, à guisa de alegoria da corrosão do indivíduo. No fundo, haveria gérmen para o efeito, não obstante o intrínseco homomerismo das estruturas em decomposição, nas quais parece só existir um todo, nunca as partes: espécie de fractais, cuja formulação fora prematuramente interrompida.

Porém, foi Goya o tradutor, em caliginosos ensaios, do ruinismo individual (e colectivo) do humano: fui sendo atraído pela vontade de ver em Goya um Piranesi do ser humano, um ruinista do homem — mas onde o olhar pacífico de Piranesi se deixa preencher pela flora esparrinhada em volta da pedra e do ferro (e ainda bem, pois poucas composições serão mais hostis à harmonia que o hibridismo entre pedra e metal), em jeito de nevoeiro enviado por Atena a Odisseu para protegê-lo dos perigosos feaces, guindando a sua pena ao serviço do todo, Goya é obcecado pelas partes: só existem partes nos desenhos e pinturas negríssimas de Goya, por vezes partes na mais imediata acepção dessa palavra — partes humanas, espetadas em ramos e lâminas. Partes, outras, de zoomorfismos e teriomorfismos variegados, amoldados em lúgubres grotesquerias: nunca me abandonará o desconforto sentido quando vi pela primeira vez o bisonho e patético lobisomem que observa uma bruxa numa vassoura a subir por uma chaminé, qual Anúbis castrado e esfolado, ao qual só faltaria uma coleira para ser bicho de trazer por casa. Horrendos são os seus duendes e diabretes, mas repare-se que certos fenótipos dessas aberrações se aproximam daquilo que viria a ser o figurino tolkiano do orco, espécie de criatura miserável que é, na origem, o ruinismo do elfo.


Com efeito, no imaginário de Tolkien, os orcos foram fabricados pelo poder das trevas a partir dos elfos, os primeiros seres da criação: arruinados — e aplico programaticamente esta palavra —, eles são versões ruinistas de uma melhor intenção, propositadamente corrompida para servir de instrumento da deterioração. Assim, os "orcos" semi-humanos de Goya, que se deleitam nos mais abjectos actos que a sua astúcia de animal perverso é capaz de conceber, expressam, tal como em Tolkien, uma visão pessimista da humanidade transfigurada — não pela tragédia —, mas pelo arbitrário absurdo de pequenas violências que se vão acumulando, que nem as partes amorfas de uma ruína, concorrendo para um todo cada vez mais uniforme na sua colossal deformidade física e moral.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O Humano no Fantástico


Várias vezes defendi a adaptação cinematográfica do livro The Hobbit, de J. R. R. Tolkien, realizada em três filmes pelo cineasta neozelandês Peter Jackson, e ao ver a versão "estendida" de The Battle of the Five Armies (escrevi "estendida" entre aspas, porque as versões alargadas, editadas em DVD, são, na verdade, as originais, que serviram de matriz às mais curtas, exibidas nos cinemas) compreendo que estes filmes não poderiam, de facto, ter sido feitos de outra forma, pois compõem uma sequência perfeita que completa, em estilo, tonalidade e lógica narrativa, a trilogia anterior (The Lord of the Rings). Deste ponto de vista, penso que os problemas de percepção que The Hobbit cultivou, desde a estreia da sua primeira parte, relacionam-se com uma certa deslocação de expectativas: sob o espectáculo deslumbrante dos superlativos efeitos especiais (à la Ray Harryhausen do século XXI), existem apontamentos e ideias de uma fina subtileza que são continuamente interpretados de maneira oblíqua por um público cuja definição de "fantástico" presente na sua constelação cultural é paupérrima. Essa palavra ("fantástico") é dinâmica, evidentemente: tem-se transfigurado no desenrolar das décadas, assim como outros conceitos mais estruturantes (o princípio setecentista de "mal" difere em quase tudo da sua acepção contemporânea, assim como o modo como se vivia a morte no início do século XX é dissemelhante daquele que caldeia o início deste).

No fundo, prefiro designar o imaginário tolkiano por "mitologia fundacional", posto que aquilo que a maioria do público entende por "fantástico" somente se relaciona com ele por via de algum mimetismo estético: essa pseudoliteratura feita por colagens sincréticas e apressadas dos arquétipos tolkianos, pontuada por uma intrínseca imaturidade, que em nada tem contribuído para a credibilização dos universos da imaginação junto de um público e de uma crítica mais sofisticados. Com efeito, o dito "fantástico" é incomensuravelmente maior que o nicho criado por Tolkien e seus imitadores, mas é, precisamente, esse nicho que chega mais vezes e mais depressa ao grande público - ora, talvez seja atempado e útil remir Tolkien desse nicho, com o qual ele apenas se aparenta superficialmente. Talvez seja atempado e útil deixar de ler Tolkien à luz de alguns anacronismos e preconceitos que têm obstaculizado a sua interpretação e cotejá-lo com os textos das cosmogonias das sociedades pré-clássicas, por exemplo, com os quais, em bom rigor, patenteia muita paridade. Existe um lirismo em Tolkien que nada tem a ver com o receituário patético que a sua obra, infelizmente, criou, mas que se une, profundamente, aos grandes mitos fundacionais.

Para além disso, sob as vestes diáfanas da fantasia, Tolkien cria retratos autênticos da natureza humana. A esse título, observe-se o cenário plasmado em The Hobbit: um tirano ocupa ilegalmente um território rico em recursos, expulsando os seus habitantes que, anos mais tarde, intentam recuperar essa terra prometida; uma vez eliminado esse tirano, assiste-se a uma vera pulverização de poderes, com diversos grupos locais, cada qual à sua maneira e com diferentes motivos, tentando agarrar o controlo desse território. Em paralelo, nas fímbrias do palco, um novo candidato a tirano arrebanha radicais tropas de elite que, sob bandeiras negras, só tem como objectivo a hegemonia global sobre todos os restantes grupos que, note-se, parecem mais interessados em digladiar-se por miríficas riquezas do que em unir-se para combater a ameaça comum.

Sim, Tolkien não tem, de maneira nenhuma, nada a ver com a realidade e a experiência humanas.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Sobre Tolkien e fascismo



O escritor inglês Michael Moorcock voltou a exprimir numa entrevista uma opinião pouco simpática sobre o autor inglês J. R. R. Tolkien, desta vez chamando-lhe «criptofascista», porque, segundo Moorcock (transcrevo a citação no inglês original para evitar ambiguidades de tradução): «in Tolkien, everyone’s in their place and happy to be there. We go there and back, to where we started. There’s no escape, nothing will ever change and nobody will ever break out of this well-­ordered world».

Não sou um fã fervoroso da prosa de Tolkien, mas também não sou nenhum fã fervoroso da prosa de Moorcock, por isso o meu juízo sobre estas considerações dadas à estampa na entrevista não pende nem para um lado nem para o outro; somente acho desanimador que um escritor, como Moorcock, precise de andar constantemente na imprensa a caluniar outro -- que, ainda por cima, está morto e não pode defender-se daquilo que sobre ele é dito. Porém, aquilo que considero ainda mais desanimador é a utilização do rótulo de fascista (neste caso, criptofascista, ou seja "fascista de armário", digamos assim) para estigmatizar aquilo que se pensa ser o pensamento tradicionalista e conservador que pruma o texto tolkiano. Desanima-me, porque isso demostra 1) facilitismo e 2) um profundo desconhecimento sobre o que foi, de facto, o fascismo.

Dizer que o texto de Tolkien é fascista (ou criptofascista), porque apela ao conservadorismo é errado, pela mais simples razão de que o fascismo não foi um movimento conservador: foi, sim, um movimento revolucionário. A gente tem-se habituado a apelidar de revolucionários somente os movimentos de esquerda, mas, na verdade, tanto o fascismo, como o nacional-socialismo, foram movimentos revolucionários de direita. Foram revolucionários, porque aspiraram e tentaram aplicar um programa de reestruturação social e moral de índole inédita, com o objectivo de criar sociedades novas, desamarradas das grilhetas dos antigos regimes -- somente o quiseram fazer pela via da direita. Aliás, por essa razão foram combatidos tanto pela esquerda dita revolucionária, como pelos ultraconservadores.

A matriz intelectual do fascismo, concebida por nomes como Giovanni Gentile, entre outros, que eram estudantes da obra de Karl Marx (o próprio Mussolini foi comunista antes de tornar-se Duce), olha para o futuro, para um novo tipo de homem, para mudanças violentas no tecido social. Por conseguinte, dizer que um criptofascista coloca nos seus livros o desejo de que fique tudo na mesma é um disparate. Tal como existe nacionalismo de esquerda, também existem movimentos revolucionários de direita.

Assim, chamar fascista ou criptofascista a Tolkien não só não faz sentido à luz da obra que ele deixou, como sequer à luz da sua vida, que em nada se relacionou com percursos políticos fascistas e quejandos.

Sinceramente, não sei qual era a inclinação política de Tolkien -- e nem estou interessado em saber, confesso. Não escolho os livros e os autores que quero ler em função das suas inclinações ou inscrições políticas: escolho-os por escreverem bem e terem coisas interessantes para dizer. No entanto, sei que Tolkien não foi fascista.

Já era tempo de se deixar de usar o nome "fascista" a torto e a direito, sempre se quer caluniar ou assassinar o carácter de alguém de quem se desgosta, porque isso, no fundo, é prestar um péssimo serviço à história: desvaloriza o peso da palavra e contribui para branquear o verdadeiro fascismo, pois se velhinhos simpáticos como Tolkien são chamados de fascistas (corrijo, de criptofascistas) a malta mais nova ainda poderá pensar que ser fascista é uma coisa fixe. Só me lembro daquilo que disse o João Franco, já meio-velhote e retirado para o seu auto-exílio agricultural, quando descobriu que os netos andavam fascinados pelos escritos e ideário do fascismo italiano: «que se passa de errado com esta juventude? Agora são todos miguelistas?»

Vale a pena, pois, pensar com sobriedade no modo como nomes e epítetos são tão facilmente atirados e desvirtuados.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Sobre a hexalogia de Peter Jackson


Vistos todos os filmes da hexalogia tolkiana de Peter Jackson confirma-se que ele é um visionário e um cineasta mais subtil do que aquilo que a canga de efeitos visuais desses filmes deixa observar.

O trabalho de adaptação efectuado por Jackson e seus co-argumentistas nesta série é extraordinário e, sinceramente, custa-me levar a sério algumas das críticas que têm sido feitas na imprensa especializada -- muitas delas fazem-me especular sobre se, com efeito, os críticos leram os livros de Tolkien que estão nas bases destas adaptações cinematográficas. Como já tive oportunidade de escrever em outro artigo, não sou, propriamente, um amante, diga-se deste modo, do universo tolkiano e nem sequer cresci com este imaginário; condições que, não obstante, estão longe de não me deixarem apreciar estes livros e filmes de modo absolutamente franco.

Uma leitura comparada do livro The Hobbit e dos três filmes com que Jackson o adaptou demonstram, sem margem para dúvida, que estes seguem-no de muito perto, tanto no conteúdo como na cronologia: o livro é pequeno e os filmes são grandes, mas, como já declarei anteriormente, contar algo em imagens é mais demorado que contar algo por palavras -- e é espantoso regressar ao livro e constatar que os filmes são totalmente fiéis à linha narrativa; excepções feitas a alguns desvios, inventados por razões de transposição do material da sua linguagem literária original para a cinematográfica e suas particulares exigências de forma e de expectativas. Simplesmente, criticar a trilogia cinematográfica de The Hobbit dizendo que é um exercício cínico de insuflar um livro pequeno para três filmes elefantinos é, no mínimo, simplista e, no máximo, um disparate: desafio os detentores desta opinião a reler (ou a ler...) o livro e a esboçar um modo de colocar todo o texto num único filme sem que o resultado não se apresente num feitio apressado ou, pior, elíptico. Esse juízo do "livro pequeno e dos filmes grandes" é, erroneamente, fortalecido pelo facto da trilogia de filmes que adaptou The Lord of the Rings coincidir em número com os livros, mas, lá está!, outra leitura atenta revela um caso oposto ao de The Hobbit: Jackson deixou muito texto de fora quando filmou os três filmes de The Lord of the Rings. Em The Hobbit, pelo contrário, como o livro é mais pequeno, foi capaz de seguir de perto praticamente tudo aquilo que está escrito.

No fundo, quem odeia Tolkien, pelas mais diferentes razões (ou porque acha que ele escrevia mal ou porque acha que ele era reaccionário ou porque acha que ele era misógino ou por-dar-cá-aquela-palha), irá sempre reclamar seja do que for que esteja relacionado com ele: filmes ou livros. Por outro lado, os fanáticos de Tolkien, que até lhe atribuem um papel que ele nunca teve ou, no mínimo, nunca procurou, também irão sempre reclamar, porque nada estará suficientemente bem adaptado para agradar-lhes. Porém, aqueles que, como eu, se encontram a meio-caminho, não sendo sicofantas nem elogiastas, encontrarão diversas razões para gostar bastante destes filmes e destes livros, descobrindo neles leituras interessantíssimas em sintonia total com as coordenadas histórico-sociais que lhes serviram de berço.

Os três filmes de The Hobbit e os três filmes de The Lord of the Rings são dos títulos mais importantes, entusiasmantes e essenciais das últimas décadas. E o facto de serem, desavergonhadamente, sobre anões, hobbits, orcs, dragões, elfos e feiticeiros enche-me de esperança, porque se um punhado de filmes de fantasia é capaz de transmitir algumas das mais belas imagens que já tivemos oportunidade de ver em cinema e alguns dos retratos mais pungentes da natureza humana alguma vez postos em película, então é possível que, afinal de contas, a nossa capacidade de imaginar não esteja de todo perdida. Pessoalmente, prefiro ver vezes sem conta um dragão eloquente como Smaug a discorrer sobre a avareza ou Gandalf a espadeirar contra o Balrog enquanto ambos se precipitam no abismo, do que um único episódio da sobrevalorizada série televisiva Game of Thrones, que, um pouco por todo o lado, é mais ou menos laureada como sendo "fantasia feita para a malta que pensa". Se rabos e mamas a dar com um pau é aquilo que a malta que pensa quer ver, então considero-me, sem nenhum complexo, estúpido para lá de qualquer hipótese de recuperação.

Obrigado, Jackson. Obrigado, Tolkien.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Antiwagner


Esta semana estreia a terceira parte da trilogia de filmes realizados por Peter Jackson que adapta cinematograficamente o livro The Hobbit, de J. R. R. Tolkien. Esta nova trilogia tem sido criticada, em principal, por ser, enfim, uma trilogia. Sem querer defender a escolha de adaptar The Hobbit em três filmes, cujas razões financeiras são, por si só, evidentes, gostava de esclarecer algo que somente quem trabalha profissionalmente em narrativa sequencial sabe: contar uma história com imagens gasta mais papel (ou película) do que contar a mesma história somente com palavras.

Sublinhando a negrito o facto de que a banda desenhada e o cinema são linguagens muito diferentes (a banda desenhada é uma linguagem literária -- o cinema, não), posso informar que contar uma determinada sequência de eventos em banda desenhada demora muito mais tempo. Se for adaptado a banda desenhada, aquilo que pode ser transmitido em uma ou duas frases de prosa terá, necessariamente, de ser sequenciado em muitas vinhetas e em muitas mais páginas. O que importa reter é a realidade de que as linguagens que contam histórias em imagens -- ou em palavras e imagens juntas -- serão sempre menos elípticas do que aquelas que somente contam histórias com palavras. Ora, as versões alongadas da trilogia cinematográfica The Lord of the Rings têm durações maiores do que aquelas que estrearam nos cinemas -- de facto, foram as primeiras versões desses filmes, posteriormente cortadas para terem durações que distribuidores, exibidores e público achassem mais simpáticas. Em suma: a trilogia cinematográfica The Lord of the Rings ainda é maior do que aquilo que a generalidade do público pensa. Sob esta óptica, a escolha de filmar The Hobbit em três partes não provoca tanto espavento quanto isso.

Não sou um apreciador, diga-se assim, dos livros de Tolkien, mas estou longe de desgostar deles: simplesmente, não cresci com esse imaginário. As minhas referências literárias são outras e isso, no fundo, faz diferença; não obstante o facto de encontrar muitas qualidades nesses livros. Às vezes, fico estupefacto com certas críticas que lhes são feitas, quando, ao mesmo tempo, outros títulos mais ou menos similares -- mas vergonhosamente menores e piores -- são laureados como sendo obras de maior valimento (alguns até já adaptados para imagens em movimento). Apesar de tudo, penso que as obras de Tolkien estão em desarmonia com o compasso deste tempo demasiado cínico e inculto -- demasiado cínico e inculto, convém bisar para bater certo -- para compreender-se determinados tropos tolkianos, que se relacionam com códigos comportamentais cristalizados num mundo que foi menos veloz e menos complexo que o nosso. No entanto, esse mundo foi tão perigoso quanto aquele em que nos encontramos e, por essa via, Tolkien, pese ter envelhecido mal, não perdeu nenhuma pertinência. É por essa razão que a maior parte da fantasia contemporânea é formada por imitações reles, e formuladas lavradeiramente de modo consciente, do edifício que Tolkien deixou. É verdade que não existe nenhuma grande narrativa de pendor fantástico que possa reclamar este período -- o nosso -- como seu. Acrescente-se a isso que o caso de The Lord of the Rings foi, vale a pena lembrar, fortuito: começou por ser uma sequela despreocupada para The Hobbit (dividida tectiformemente por opção editorial); todavia, por força do fantasma do seu tempo, Tolkien foi transformando-a num testamento antiwagneriano, cujos contornos alegóricos por ele rejeitados são, ainda assim, evidentes. No âmago, The Lord of the Rings é Wagner para democráticos: uma história de perfeito antiautoritarismo contada do modo mais absolutista possível -- o título da terceira parte intitula-se The Return of the King e não The Return of the President, afinal de contas.

Sabe-se quais os efeitos que a primeira trilogia da saga Star Wars operou na cultura popular contemporânea, mas ainda será prematuro predizer quais os operados pelos seis filmes tolkianos de Peter Jackson, os únicos que, presentemente, conseguem rivalizar em alcance e impacto prolongado para além da recepção inicial com os três filmes originais idealizados por George Lucas. Quer goste-se ou não de certos títulos literários ou cinematográficos, as consequências provocadas pela sua exposição às massas é um importante fenómeno cultural que não pode ser ignorado. A sociedade também é assim formatada e até remodelada. Logo, arrisco com reservas que os filmes de Jackson irão influenciar sintomas interessantes de se observar: a sua Terra Média é uma sociedade altamente estratificada, é certo, mas na qual, surpreendentemente, nunca se fala em dinheiro e ele não têm importância nenhuma para o modo como os indivíduos se relacionam uns com os outros; na qual não existe religião de espécie alguma e ninguém parece preocupado sequer com ela; e na qual, sem dúvida, há liberdade individual e de expressão.