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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Sobre Camões - no dia dele



Na data que se convencionou ser a da morte do poeta Luís de Camões (cujo dia e ano ainda não foram apurados com rigor) - e que, também por convenção, começando em 1910, modificando-se em 1933 e, em principal, em 1978, se celebra o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas -, não resisto a recordar uma trova satírica que Camões compôs para escarnecer de D. António de Castro, senhor da vila de Cascais, depois de este lhe ter faltado ao prometido.

Esclarece Hernâni Cidade, nas notas que escreveu para o primeiro volume das obras completas de Camões (Livraria Sá da Costa, 1972), que, certo dia, Castro pediu a Camões que lhe redigisse uns versos e prometeu que os pagaria com meia-dúzia de galinhas recheadas. Vivendo sempre em condições precárias, o poeta aceitou a combinação, mas, no final, o senhor de Cascais pagou-lhe apenas com meio-frango. Sem perder o sentido de humor, Camões satirizou-o nestes versos que ficaram célebres: «cinco galinhas e meia / deve o senhor de Cascais, / e a meia vinha cheia / de apetite para mais».

A pobreza de Camões é um assunto "polémico", com diversos pontos de vista antagónicos a discorrer sobre ele, mas, tudo somado, pode avançar-se com a hipótese segura de que estaria, evidentemente, mais perto da penúria do que do pecúlio; logo, oferecendo uma severa dimensão trágica ao picaresco apontamento que aqui publico para convidar à reflexão neste Dia de Camões.

Imagem: cópia de Luís de Resende de um retrato de Camões feito por Fernão Gomes (algures entre 1573 e 1575), considerado o único retrato fidedigno, pois pintado em vida do poeta.

Coda: quanto ao apelido Camões, ele entra no nosso léxico, no século XIV, com Vasco Pires de Camões, um nobre galego que se refugiou em Portugal. Foi, provavelmente, o bisavô de Luís Vaz de Camões.
A etimologia do apelido talvez se relacione com uma freguesia galega chamada Santa Eulália de Camós, pronunciada camones pelos populares, o que reproduz a sua grafia medieval ducentista. Também não se pode ignorar-se o nome hispânico calamón, do qual deriva o catalão galmon e o nosso camão: todos nomes para o galeirão comum, ave aquática, aparentada com a abetarda, que habita junto aos rios. Ainda no século XVIII se dizia camão em vez de galeirão; não obstante a palavra galeirão existir desde o século XIII, sem dúvida com outro significado.
Resta esclarecer que camões ainda ganhou o significado de zarolho, por culpa do acidente que feriu um dos olhos do poeta: acidente que consistiu no disparo aziago de um estilhaço de uma peça de artilharia - quase de certeza, um pequeno canhão, embora se especule quanto às circunstâncias do acidente: se no Norte de África ou em Lisboa.
O dia 10 de Junho ainda foi durante muito tempo chamado de Dia de São Camões.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Sinais


Numa rua de Lisboa: vírgula ou aspa? O território é página e nós somos as palavras. Em que frase se traduz um particular momento da vida? A aspa e a vírgula são cognáticas, mas uma é pódio, a outra é sustento e sem ambas o texto perde flexão, denotação. Somos palavras cambiantes em pergaminhos de madeira e pedra, guiados por cegas e polissemânticas contingências que nem as estrelas, nem as nuvens, decifram em seus reflexos resplandecentes - e, no entanto, sob a sola dos pés, inscrita na fímbria do empedrado, já quando nem sequer esperávamos, aparece uma pontuação. Uma vírgula, uma aspa. Um ponto final.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Recordando os três santos mártires de Lisboa


Porque hoje vieram à conversa os três santos mártires de Lisboa, Júlia, Máxima e Veríssimo, publico aqui um excerto de um texto inédito que escrevi sobre eles. Os meus leitores que se lembram das versões ficcionadas que criei destas personagens no meu romance O Evangelho do Enforcado (Saída de Emergência, 2010) poderão, assim, complementar esses constructos com esta perspectiva factual e histórica (além da leitura, claro, dos apêndices do romance, que também contém muita informação).

«É provável que o registo mais antigo sobre a lenda destes três santos mártires seja a narrativa contida no Martirológio do monge beneditino Usuardo, terminado em 875 (o livro, neste caso; embora o monge também tenha falecido nesse ano). Ora, cerca de dezassete anos antes, Usuardo esteve na península e não é nada extravagante que tenha recolhido informações sobre os cultos prestados aos mártires pelas comunidades cristãs do Al-Andalus; entre as quais, conjectura-se, a de Al-Uxbuna. A história desses três santos não é, em síntese, nem original, nem dissemelhante dos restantes relatos de martírios ocorridos durante o período das perseguições dioclecianas, como comprovam, por exemplo, as histórias de Santa Eulália em Mérida, São Félix em Gerona, Santa Engrácia em Saragoça, Santa Leocádia em Toledo, Santa Rufina e Santa Justa em Sevilha, São Vicente, Santa Sabina e Santa Cristeta em Ávila (os últimos, martirizados de modo análogo a Veríssimo, Máxima e Júlia, desempenham em Évora um papel muitíssimo semelhante a estes). Em síntese, é-nos contado como os três irmãos recusaram renegar a fé cristã diante das autoridades romanas e foram, em consequência, postos no potro, escarnificados com garras de ferro e decapitados. Segundo a lembrança popular, os corpos foram arrastados até à beira-rio (para um local onde hoje, em plena Calçada Ribeiro Santos, podemos erguer o olhar e ver, a Ocidente, as torres sineiras da igreja paroquial de Santos-o-Velho) e deitados à água, perto de Almada. Pese terem sido laçados a enormes mós, os corpos mutilados voltaram à margem onde tinham sido embarcados e, de imediato, uns devotos recolheram-nos numa rude ermida, por eles construída no cume da colina. Esse local de devoção divulgou-se e deu espaço a uma igreja que, supõe-se, serão as ruínas descritas por Osberno. Em similitude, também é tradicional contar-se que ainda não tinha assentado a poeira levantada pelos cruzados durante a conquista da cidade e D. Afonso Henriques já ordenava a reconstrução da igreja, mas, de facto, essas notícias não mencionam nenhumas relíquias. Estas surgiram mais tarde, referidas na doação que D. Sancho I fez dessa igreja à Ordem de Sant’Iago, em 1194, na qual expressou que era a casa em que repousavam os restos mortais de Veríssimo, Máxima e Júlia: «quorum corpora ibi requiescunt». Contudo, o culto das relíquias só ganhou dimensão no século XIII, com as diligências das freiras de Sant’Iago

(…)

o culto dos três santos mártires sobrepujou-se ao culto do próprio São Tiago, tornando-se um dos mais populares de Lisboa. Tão popular que, em 1470, D. João II mandou construir, sobre uma pequena ermida dedicada à Nossa Senhora do Paraíso, ao sítio de Xabregas, um novo mosteiro para as Donas (como também são chamadas as comendadoras de Sant’Iago), porque o de Santos se tornara pequeno: vinte anos depois, a 5 de Setembro, realizou-se a mudança na configuração de uma prodigiosa procissão que escoltou a transferência das relíquias dos três santos mártires para o lado oposto da cidade. Escreveu o cronista Rui de Pina que estas seguiram numa arca dourada e, com efeito, ainda estão guardadas numa arca dourada; decorada com as armas reais de D. João II, que se encontram entrelaçadas por uma intrigante composição artística, prefigurante dos acabamentos da moda manuelina. Esse novo convento não era o actual convento de Santos-o-Novo, embora este (mandado construir no início do século XVII por Filipe II de Portugal) se situe na vizinhança: em rigor, somente um pouco mais acima da velha Estrada do Vale de Xabregas, actual Calçada da Cruz da Pedra, onde está o arco da entrada com o brasão da ordem. É um mosteiro que tem a interessante particularidade de ser um dos únicos que não foi vandalizado depois de 1834: data da extinção das ordens religiosas. Nessa altura, apenas as ordens masculinas tiveram ordens de abandonar os seus ascetérios, porque o estado comiserou-se das monjas e convencionou que as sorores poderiam residir nos seus cenóbios até que a última freira falecesse. No entanto, não será exagero sugerir que o facto de este convento ter estado anexado à chancelaria das ordens militares (desanexou-se em 1934) ajudou, certamente, à conservação do espólio osteológico. Mas de que tipos de ossos estamos a falar?

As análises realizadas a essas relíquias demonstraram que a maioria dos ossos guardados na arca joanina nem sequer são humanos: são de cordeiro. Existem, na realidade, restos mortais – ossos e dentes – de, pelo menos, duas crianças e cinco adultos, mas todos do sexo masculino e com idades que vão dos sete aos oitenta anos. Estas ossadas foram datadas como pertencendo a um espectro compreendido entre os séculos VI e o X. O relicário também conserva um osso de vitelo, um osso de porco, dois ossos de coelhos e treze ossos de aves que não foram identificadas.» 


segunda-feira, 16 de maio de 2016

O verdadeiro campeão


Para que não haja engano, declaro, à partida, que não gosto de futebol e desconsidero profundamente a incultura - de gestos, cânticos, coreografias - que lhe está associada. Não me orgulho, particularmente, de pertencer à classe dos intelectuais que odeiam futebol, porque também odeio lugares-comuns, mas, como quem dá o que tem a mais não é obrigado, parecer-me-ia ainda pior esconder as minhas convicções por receio de sofrer com os efeitos da impopularidade. Já Lucrécio, em tempos de antanho, falava na importância das palavras que vêm do coração e, neste caso, é mesmo daí que vêm as seguintes.

Entristece-me e revolta-me ver a massa de gente que, a esta altura, na Praça do Município, celebra, como se fosse algo verdadeiramente importante, a vitória de um clube de futebol no final de um campeonato futebolístico, quando, na verdade, nem um par de boas almas se dignaria a mostrar a cara para homenagear no mesmo local eventos ou indivíduos que foram fundamentais para a história de Lisboa. Aceito que a minha perspectiva sobre este assunto possa encontrar-se desviada pelas convicções a que aludi no primeiro parágrafo deste texto, mas considero lamentável a febre futebólica que desde sexta-feira tomou de assalto a comunicação social e que culmina, hoje, com a homenagem na câmara municipal de Lisboa. 

Gostaria que milhares de pessoas arvorassem um gáudio da mesma intensidade para, por exemplo, homenagearem, entre outros, Júlio de Castilho, o pai da olisipografia, que morreu em condições miseráveis e cuja deterioração da sua última morada - na intersecção da Rua Pena Montero com a Calçada do Picadeiro, na freguesia do Lumiar - se mantém como escandaloso opróbrio que fere o coração de quem por lá passa e sabe qual foi a importância desse atlante campeão - esse, sim, autêntico campeão - de Lisboa. Poucos - pouquíssimos - fizeram tanto quanto ele pelo conhecimento e amor por Lisboa. Hoje, quem se lembra dele? Quem é que sabe o nome dele? E quem é que sabe de cor e salteado os nomes de todos os jogadores de futebol - e de participantes em reality shows?

As imagens aqui publicadas são: uma aguarela da sua casa pintada pelo próprio Júlio de Castilho (que além de extraordinário escritor e investigador, também era pintor); e uma imagem recente do estado actual da mesma casa. São duas visões que aqui deixo para fazer pensar: quem tiver sensibilidade que pense.



sábado, 14 de maio de 2016

Mal por mal, antes Pombal

Discordo profundamente que a Praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, continue a ser utilizada para celebrar vitórias futebolísticas, sobretudo, quando estas se fazem sob reforçada vigilância policial; circunstância que demonstra - caso prova fosse precisa - de que estes festejos não são de natureza pacífica (são de natureza catártica) e consistem num poderoso sinal de que a sociedade está doente, pois a catarse tem, precisamente, o propósito de purificar os órgãos, o aparelho, o sistema. Em suma: quando se está bem, não se procura a catarse - esta é apanágio de estados avançados de morbidez, de inveterada doença. Não tenho a certeza sobre se o futebol é uma doença, mas não duvido de que a exaltação febril, violenta, que provoca, é, de facto, uma doença. Infelizmente, quem não gosta de futebol, tem de submeter-se a situações aviltantes, por culpa daqueles que gostam; como, por exemplo, não poder circular livremente em determinadas zonas da sua cidade ou ter o desagradável dissabor de ver um monumento nobre ser dessacralizado por bandos de aficionados da catarse, munidos de vexatórios vexilos, garrafas de cerveja, latas de tintas em aerossol e porretes. Sinto um desprezo extraordinário pelo labroste catecismo de pacotilha que homogeneíza comportamentos sob os mesmos estribilhos e os mesmos gestos, como se somente em feitios desse jaez fosse legítimo comemorar a vitória de um clube futebolístico sobre o outro; como se os indivíduos se sentissem completos e satisfeitos por coreografarem dessa forma tão estandardizada e superficial - e a maioria sentir-se-á mesmo completa e satisfeita, o que é desanimador. Sempre que espreito as imagens televisivas das hordas em êxtase na Praça do Marquês de Pombal sinto-me romano a ver os bárbaros a invadir o fórum, pois, para mim, é do triunfo do barbarismo que se está a falar. Barbarismo sancionado e observado com paternalismo podre por servir de válvula de escape a milhares de indivíduos.

Ainda por cima, como já escrevi em outras ocasiões, o Marquês de Pombal odiava futebol e proibiu que fosse jogado aos dias de semana, de acordo com o Capítulo 32 - «Postura dos Que Jogão à Bolla Pela Semana» - das posturas públicas pombalinas, publicadas entre 1982 e 2000 pela Câmara Municipal de Oeiras nos três volumes intitulados Memorial Histórico ou Colecção de Memórias sobre Oeiras: quem fosse apanhado a jogar à bola num dia e numa altura que não fosse Domingo depois da missa matutina, ia preso e tinha de pagar quinhentos réis de multa. Mal por mal, antes Pombal, dá vontade de dizer.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ainda sobre a estátua destruída de D. Sebastião


O Jornal da Noite, da SIC (foi o telejornal que vi), não falou - nem sequer em rodapé - do crime de lesa-património em que consistiu a destruição da estátua de D. Sebastião (colocada na fachada da estação ferroviária do Rossio, em Lisboa) por um debilóide que a atirou ao chão ao guindar-se à consola que a sustentava para tirar uma selfie com a câmara fotográfica do telemóvel. Também já circulam pela Internet e sua nativas redes sociais diversas paródias feitas em Photoshop alusivas ao crime, nas quais se veiculam mensagens aviltantes à figura de D. Sebastião, transmitindo a ideia de que quebrar-se uma sua estátua é coisa engraçada ou sem importância; noção que se correlacionará, suspeita-se facilmente, com a noção errónea de que D. Sebastião foi um rei que submergiu o país nas trevas filipinas e que é, de alguma forma atávica, o culpado pela(s) subsequente(s) crise(s) portuguesa(s).

O problema português não reside na figura de D. Sebastião - da qual, aliás, devíamos ter comiseração, porque teve uma vida miserável -, mas na incapacidade dos portugueses aprenderem a história do seu país, o que os leva, demasiadas vezes, a trocarem o factual pelo anedótico e o racional pelo emocional. D. Sebastião não foi um rei perfeito (até fisicamente seria muito desproporcionado - consequência de vários casamentos consanguíneos na família), mas a verdade é que não existiram reis portugueses perfeitos, logo eleger D. Sebastião como arquétipo do Mau Rei Português é precipitado e até errado, porque houve soberanos piores que, hoje, passam no exame dos portugueses com notas mais elevadas (basta falar em D. Afonso VI, para citar um caso extremo de incapacidade). De facto, o desastre de Alcácer-Quibir, em 1578, teve como principal motor ideológico o facto de a nobreza da altura nunca ter sido capaz de engolir o sapo das praças portuguesas baldadas no Norte de África por D. João III - praças que não eram precisas para nada. Ansiosa por glórias anacrónicas e saques imaginários, essa nobreza de câmara fez constantemente em água a cabeça de D. Sebastião até que, enfim, lá apareceu uma oportunidade para se ir em grande número até Marrocos para a desforra. Em seguimento, o advento filipino poderia ter sido evitado por quem de direito, se tivesse existido espírito para tal (mas isso são outros quinhentos); de qualquer forma, D. Filipe II de Espanha e I de Portugal, que era tio de D. Sebastião - logo, candidato legítimo à sucessão - não só não foi nenhum usurpador espanhol, como nem sequer era espanhol, de todo: era meio-alemão e português. De espanhol não tinha nada. É fácil de ver que a maior ameaça à soberania portuguesa teria sido D. FIlipe V de Anjou: para este, que era francês (o nome dá a entender, caso não se tenha percebido), todos os peninsulares eram espanhóis (inclusive os portugueses, presume-se), daí que quando se sentou no trono em Castela principiou logo em tratar da saúde à brincadeira de existirem diversos reinos peninsulares, que isto de haver um só reino era bem mais simples. É a partir daqui (século XVIII) que começa a despontar a ideia de uma Espanha verdadeiramente una: a Espanha só é Espanha, propriamente dita, desde 1856, porque somente em Junho desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente «España». Até aí era o "Reino das Espanhas", que é a designação que surge nas constituições espanholas de 1812, 1814, 1834, 1837 e 1845: só na de 1856, como disse, é que aparece a designação «dominios de España» em vez da tradicional «las Españas».

Ou seja: até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma - existiram, sim, vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Desde o século XVI que existe documentação portuguesa (e não só) em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de 'marketing' político.

Felizmente, quando D. FIlipe V ascendeu ao trono castelhano nós já tínhamos feito a Restauração, defenestrando no Terreiro do Paço o castelhanófilo Miguel de Vasconcelos (em 1640), e vencido a Batalha dos Montes Claros, perto de Borba (em 1665), que solidificou em definitivo - até quando, logo se verá - a independência portuguesa. Por isso é precipitado e até errado dizer que D. Sebastião nos introduziu nas trevas espanholas.

Usar essa incorrecção para desculpabilizar - ou justificar - a destruição da sua estátua por um paspalho é apanágio de atraso mental misturado com má-fé. Na verdade, nem que fosse uma estátua de Miguel de Vasconcelos: a história faz-se com aqueles que a constroem, não com aqueles que a destroem.

Quebrada a estátua de D. Sebastião da estação ferroviária do Rossio

 
Ontem à noite, um energúmeno de vinte e quatro anos de idade destruiu totalmente a estátua de D. Sebastião, esculpida em 1887 por Simões de Almeida, que se encontrava na fachada da entrada fronteira da estação ferroviária do Rossio, em Lisboa. Dizem as agências de comunicação que a deitou ao chão quando tentou empoleirar-se na consola que sustentava a escultura para tirar uma selfie. Sinto-me chocado com este crime de lesa-património contra um dos ícones mais queridos e distintivos da cidade de Lisboa.

Pelas inefáveis caixas de comentários dos sites de Internet de diversos jornais que, entretanto, noticiaram o crime, já pode ler-se opiniões desculpantes que colocam sobre o acontecimento uma tónica digna de dó, argolada na suposta falta de segurança pública em que consistia uma estátua que caiu tão facilmente, ignorando que em quase cento e trinta anos de existência foi preciso esperar que um debilóide se guindasse na peanha em que a escultura assentava para que esta, de facto, caísse ao chão e se quebrasse em pedaços. Não duvido que se o paspalho se tivesse lembrado de trepar, por exemplo, pela estátua do Eusébio e a tivesse danificado de algum modo, por mais incipiente que fosse, as opiniões expressas nas caixas de comentários seriam bem diferentes; pois não me liberto da ideia de que neste abjecto período que atravessamos, em que a história é observada como sendo inútil e se faz diariamente a apoteose de outro tipo de expressões e (des)valores, como a promoção contínua da vapidez, da cupidez e da estupidez pelos vários veículos da comunicação social e pela indústria do entretenimento, se perdeu totalmente a vergonha e, pior!, a noção mais rudimentar do que é importante, salutar, vivífico. Para mim, que vivo constantemente de imaginário pajão na mão a tentar - às vezes, sem êxito, o que é angustiante - afastar da minha pessoa as tais vapidez, cupidez e estupidez, é cada vez mais difícil viver - conviver, então, é absolutamente penoso - num mundo que, por culpa de crimes deste tipo e por culpa da indulgência com que são observados e punidos, se torna inexoravelmente mais pequeno, mais homogéneo, mais irrelevante. Gostava que o pedaço de asno que destruiu a estátua tivesse uma punição exemplar - repito, uma punição exemplar -, mas, enfim, não criar expectativas em relação a nada tem-me servido bem, daí que farei o mesmo neste caso.

Quanto à escolha difícil das imagens aqui publicadas, a razão foi a seguinte: mostrar a escultura de D. Sebastião, tal como ela, até esta data, deveria ser para a maioria dos indivíduos - ou seja: uma coisa antiga, nebulosa, sem valor que por ali estava, sem sequer se dar por ela - e confrontar esse imago com os cacaréus em que foi transformada por um marginal mental. Em anexo, fica, para quem ainda reserva um pingo de indignação, a imagem que resta, também da autoria de Simões de Almeida, de um D. Sebastião, ainda infante, lendo Os Lusíadas, esculpida dez anos antes da estátua colocada na fachada da estação ferroviária do Rossio e que pode ser vista no Museu do Chiado.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os veros "anormais" de Lisboa


O dia em que Carolina e Josefina visitaram o Mosteiro dos Jerónimos. Lembram-se delas? Encontraram-nas em Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense:
«Vamos visitar os volutabros imaginais de Lisboa.
Vamos ver que anormais ela excluiu para a cercania – para os arrabaldes dos anais. Não será tanto etnologia, como reologia, pois falamos de gente deformada que foi repassada e escoada pela memória da história, mas como observar essa memória e essa história? De acordo com os fundamentos da “história total”, propostos por Braudel e, antes dele, por Michelet?
É melhor confiar na diacronia.
É melhor assumir que, tal como astrónomos, estamos a olhar para luzes pré-históricas, emitidas por estrelas extintas.
(…)
Estrelas defuntas como as infelizes irmãs órfãs Carolina e Josefina, as Manas Perliquitetes, que, em meados do século XIX, depois de serem exploradas até à exaustão por um canalha desprezível que lhes deu a ridícula alcunha, tornaram-se injustamente no arquétipo da dondoca, antes de morrerem de fome na maior das misérias.
(…)
Vergonha, amargura, tristeza. Plangências profundas que envolvem os espíritos.
Que cidade é esta?
Esta não é a Lisboa que nos foi prometida à esplêndida portada, feita de jaspe.
Estas não são as personagens castiças do folclore que ela engendra para gazofilar turistas.
Há angústia autêntica aqui. Mensagens de sofrimento real, escrevinhadas no pó. Dor e raiva verdadeiros – espremendo corações nos peitos.»
(SOARES, David, “Terra Incógnita”, in SOARES, David (textos, voz); SANGNOIR, Charles (música), Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, Seixal/Lisboa, Necrosymphonic Entertainment/Raging Planet, 2012).

terça-feira, 26 de abril de 2016

Redescobrindo a Rua Nova dos Mercadores


No ano passado foi editado um excelente livro sobre a quinhentista Rua Nova dos Mercadores, em Lisboa, intitulado The Global City. On the Streets of Renaissance Lisbon, editado por Annemarie J. Gschwend e Kate J. P. Lowe (Paul Holberton Publishing). Nesse actualizado e apurado volume pode ver-se, no capítulo "Reconstructing the Rua Nova: The Life of a Global Street in Renaissance Lisbon", de Annemarie J. Gschwend (pp. 101-119), diversas primorosas reconstruções digitais da Rua Nova, feitas por Laura Fernández-González e Harry Kirkham, das quais mostro aqui dois exemplos. Escolhi essas imagens, porque me deixaram emocionado: em primeiro lugar, por consistirem em perclaras janelas para o passado de Lisboa, cidade a cujo estudo tenho devotado tanto labor e amor; em segundo, porque são instantâneos perfeitos da cidade que imaginei quando escrevi os meus romances Lisboa Triunfante e O Evangelho do Enforcado. Baseei as minhas descrições da Rua Nova em iconografia e relatos de época, mas observar como estas recentes reconstruções digitais da Rua Nova se aproximam muitíssimo do que escrevi é comovedor. Assim, para recordação ou descoberta de leitores e amigos, deixo aqui umas transcrições dos meus romances, ilustradas pelas reconstruções digitais da Rua Nova.

«Apesar da abundância de gente que enchera a arena do Terreiro do Paço para ver o combate dos colossos, a Rua Nova dos Mercadores estava pejada de pessoas aquela hora. O mercado da hortaliça e da fruta, mais o do pão, enchiam-se de citadinos que queriam comprar o maior número possível de alimentos antes que os preços voltassem a subir; os novos-ricos saíam e entravam nas joalharias e das ourivesarias, ora para comprar, ora para penhorar. A vozearia de comerciantes e clientes ecoava pelas arcadas harmoniosas que serviam de lojas e sustinham os edifícios de três andares; nas paredes coloridas podia ver-se palavrões e caricaturas garatujadas a carvão e giz. A estrada de terra batida estava atulhada de detritos e emporcalhada pela água suja que as escravas despejavam para o chão, mas em nenhum lado o pivete era pior que na praça e no açougue – era impossível não passar pelas bancadas do peixe e da carne sem ficar sujo de sangue e escamas. Vendilhões ambulantes furavam caminho entre os indivíduos, incluindo os magríssimos mestiços do Norte de África que deambulavam com um pequeno forno de ferro à cabeça e assavam línguas de borrego por três reais e meio; traziam-nas dentro de um saco que levavam as costas, mas também cozinhavam a carne e o peixe que os clientes compravam no mercado. Quando o elefante invadiu a rua ninguém deu por ele até se ouvirem os gritos das primeiras pessoas a serem empurradas.»
(In SOARES, David, Lisboa Triunfante, Parede, Saída de Emergência, 2008, pp. 268-269.)

«Casas de pedra e madeira erguiam-se voltadas para o rio Tejo, tão tortas quanto as próprias elevações sobre as quais se equilibravam; em direcção à linha da água, a pouquíssima distância das muralhas coroadas de líquenes, as ruas estreitas tornavam-se exíguas e a imundície sedimentava-se em estratos graúdos que encapotavam o chão de terra batida. Algumas artérias de maiores dimensões, como a eritematosa Rua Nova, possuíam pavimentos; mesmo assim, se apresentassem uma cota mais elevada, os caminhos calcetados costumavam ser cobertos com areia para que as ferraduras das bestiúnculas não deslizassem nas lajes de pedra. O barulho era ininterrupto: sinos e chocalhos vascolejantes, guinchos das rodas de carroças e carretas, cerca de quarenta mil pessoas a conversar, a berrar e a rir. Baratas saltavam de frinchas. Cães bebiam os próprios reflexos em poças de água choca. Homens agarravam em copos de vinho.
(…)
'A alma é um mecanismo, sujeita aos fins para os quais foi criada', pensou Nuno, ao caminhar sozinho pelas ruas de Lisboa, pela primeira vez em cinco anos. 'Essa é uma verdade que deve ser levada muito a sério.' O Sol forte magoava-lhe a vista, mas que dor tão doce era essa. Como mel – e tão dourada quanto ele. 'Acho que… que vou passar na Rua Nova.'
Encontrou uma nova Rua Nova, pintada de tons quentes e cheia de casas soberbas, suportadas por arcadas que ainda luziam dos polimentos; o pavimento era o mesmo, contudo – sujo como o fundo de um barril. Observou os rostos dos indivíduos como se fossem criaturas de outro mundo: até eram, pois o mundo dele ruíra com a velha rua e com o regedor.
Aquela Lisboa e aquele tempo não lhe pertenciam.
Pôs-se de frente para o sitio onde ficava o seu armazém e descobriu que fora ocupado por uma nova casa. Passou por baixo do arco e olhou para cima: viu um pombo a dormitar em cima de um capitel; a sombra era fresca e o ar, recheado de ruídos cristalinos, cheirava a fruta fresca.
'Como é que posso voltar a ser um pintor?', pensou Nuno, pousando a mão num pilar e sentindo a pedra fria. 'Estive separado da minha mão durante cinco anos…' Olhou para o fundo da rua apinhada de gente. 'Como é que vou recuperar os jeitos dessa vida?'»
(In SOARES, David, O Evangelho do Enforcado, Parede, Saída de Emergência, 2010, pp. 74-75, 337.)




segunda-feira, 25 de abril de 2016

Sobre a origem das tatuagens em Lisboa


Fracção integrante da imagética da cultura musical a que pertencem os diversificados universos sonoros que a revista LOUD! referencia são as tatuagens, plasmadas nas peles de artistas, fãs e jornalistas, produtores, editores e promotores, desde logótipos de bandas e reproduções de capas de discos, até desenhos de variadas estirpes que, uns desde os primórdios, outros de adopção mais recente, se tornaram universalmente identificáveis como incumbentes das estéticas e atitudes relacionadas, de maneira geral, com o Metal. Pese a frequência desanimadora de um punhado de lugares-comuns e ideias pré-fabricadas sobre as tatuagens que, ainda, teimam em criar ruído junto da opinião colectiva, é salutar observar-se que nas passadas décadas evoluiu muitíssimo o discurso antropofilosófico que sobre elas discorre, caminhando em consonância com a vulgarização das próprias tatuagens pelo grande público, consequência da sua popularidade entre as mais espectaculares estrelas de cinema e as do mundo do desporto. De mérito desigual, as lojas e as oficinas de tatuadores amadores e profissionais fixaram-se como parte indelével da contemporânea paisagem cosmopolita, assim como da versão açucarada da realidade que é encenada por dezenas de reality-shows, transmitidos pelos canais televisivos. Porém, a esta distância, impõe-se – ou, pelo menos, imponho eu, por gosto e inclinação pessoais – uma inquietação, que é a de especular sobre quais serão as origens das tatuagens nas nossas vistas urbanas portuguesas: a esse respeito, sou capaz de puxar o lustro aos umbrosos limiares históricos das tatuagens em Lisboa, um tema que, certamente, será tão aliciante quanto obscuro.

Os primeiros tatuadores de Lisboa, artistas anónimos que nasceram e morreram nos tempos anteriores ao grande terramoto de 1 de Novembro de 1755, foram viajantes castelhanos que se dedicaram ao ofício algo ingrato da “picadura” e que se fixaram na vizinhança da Ribeira Velha, ao Terreiro do Paço; para utilizar um pionés mais cirúrgico, é válido desvendar que montaram os seus ateliês ao ar livre no adro da quinhentista – e inexistente – Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia: sumptuoso templo de contextura e recorte manuelinos, nessa altura somente secundarizado pelo Mosteiro dos Jerónimos e situado não muito longe do local onde, hoje, na Rua da Alfândega, se pode admirar o soberbo portal da fachada da Igreja da Conceição Velha. (Na verdade, esse trabalho compósito foi montado com porções, arquivoltas e tímpano do portal lateral da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, destruída quase totalmente pelo magno terramoto.)

Aí, sentados no muro raso que circundava o adro da igreja, os “picadores”, munidos de agulhas com cabos de madeira e pigmentos feitos à base de pólvora moída, tatuaram os lisboetas de seiscentos e início de setecentos. Penduradas em cravos de galeota pregados nas frinchas da silharia da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia, encontrava-se em exposição o catálogo de tabuinhas decoradas, pelas quais os clientes escolhiam os desenhos que desejavam ver tatuados: cruzes ornamentais de diversificados feitios ocidentais e orientais, signos-saimões, rostos crísticos, alegorias religiosas, corações incendiados e motivos relacionados com a cultura do mar. Os aristocráticos adoptaram a prática – chique nesse tempo – de serem “picados” nas costas das mãos, entre as bases do dedo indicador e do polegar. Ontem, como hoje, não faltou quem se arrependesse posteriormente de desenhos escolhidos aleatoriamente ou de maneira apressada e esfregava-se furiosamente com sumo de limão a pele “picada” para tentar apagá-los – popular recurso mezinheiro de ineficácia quase completa.

Versáteis, os adros das igrejas fizeram de fórum, mercado, miradouro da vida diária e cemitério: o da Igreja da Nossa Senhora da Misericórdia parece ter sido especialmente predestinado às profissões ligadas à cromofilia, pois fora, desde o século XVI, o principal mercado lisboeta de venda de flores e, depois dos tatuadores o deixarem, em definitivo, acolheu os ambíguos passarinheiros alemães – que aproveitaram os cravos abandonados pelos tatuadores para pendurar as gaiolas, algumas com aves pintadas com pigmentos garridos para passarem por exóticas. Outro tipo de tatuagem, portanto, mas, até este momento, a vocação histórica dessa geografia mantém-se interrompida: o terramoto de 1755 foi o liquidante epitáfio das energias histológicas.

(Crónica publicada originalmente na revista LOUD!​ de Abril de 2015.)


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Sobre a sobrevivência da Calçada Portuguesa em Lisboa



Extrair a chamada Calçada Portuguesa dos pavimentos públicos pedonais de Lisboa com base no argumento de que é legítimo fazê-lo porque ela não é tão antiga quanto se pensa, como se apregoa nos meios de comunicação, é, com efeito, errado, já que uma maior distância temporal que separe um determinado objecto histórico deste momento presente não confere nenhuma especial autoridade a esse objecto em relação a outros que sejam de lavra mais recente: sobretudo no que concerne à transformação do espaço urbano, ao longo das eras, pelos indivíduos que o foram habitando – tudo é histórico.

Por conseguinte, numa perspectiva histórica, a oitocentista calçada portuguesa, composta por mosaicos decorativos feitos de pedras calcárias pretas e brancas, é tão importante quanto o quinhentista Mosteiro dos Jerónimos: monumento cujo recorte inconfundível para todos os observadores locais e todos os visitantes estrangeiros deve, hoje, muito mais a profundos restauros oitocentistas do que ao seu desenho original – assim como a acarinhadíssima Torre de Belém, ainda mais totalmente reincorporada de elementos decorativos e estruturais oitocentistas que, para a maioria dos lisboetas e demais portugueses, são ainda vistos como sendo iniciais. Nestes casos, em que pouquíssimo resta de original – leia-se quinhentista – nas suas composições, também será legítimo removê-los – o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém – por consistirem em recriações recentes (e absolutamente contemporâneas dos primeiros assentamentos lisboetas de Calçada Portuguesa)?

Justificações de remoção de um objecto histórico baseadas na suposta autoridade ou não-autoridade concedidas pela calandragem do tempo são espúrias. Suspeito que o facto de, cada vez mais, existirem pouquíssimos calceteiros qualificados para fazer a conservação de um objecto tão ornamental e difícil de burilar como a Calçada Portuguesa torne muito caro o seu emprego; assim, imagino que cada vez que se rompa um rego na Calçada Portuguesa para remendar um cano, ou cada vez que tenha de desfazer-se o puzzle da Calçada Portuguesa para obras de natureza diversa, seja mais utilitário (vulgo, barato) substitui-la por prosaicos pavimentos lisos, de cimento branco.

Soluções rápidas e simples deste jaez quase nunca se relacionam com motivos mais nobres que o elementar economicismo: é este – e não outro – que subjaz à sanha sarcótica de querer remover a Calçada Portuguesa das ruas de Lisboa. Nesta óptica, o tal argumento de que não faz mal que a Calçada Portuguesa desapareça, porque ela não é assim tão antiga quanto isso ainda poderá servir para derrubar o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre de Belém quando os corifeus do economicismo aprenderem um pouco de história e ganharem a noção de que esses monumentos também são reconstruções oitocentistas, coevas das primeiras pavimentações de Calçada Portuguesa em Lisboa.

Onde se traça, afinal de contas, a linha temporal aceitável para que um objecto histórico tenha licença para continuar a existir? Aparentemente, nem objectos mais antigos escapam à cupidez e à estupidez: basta lembrar que a escadaria seiscentista do ducentista Mosteiro de Alcobaça foi quase totalmente coberta de cimento quando, há uns anos, se produziu a nova praça que lhe é dianteira.

A beleza da Calçada Portuguesa revela-se com deslumbrância quando é contemplada de cima, mas aí reside outro grande obstáculo à sua sobrevivência no período que, infelizmente, atravessamos: é que gente menor é incapaz de olhar seja o que for de um ponto de vista elevado.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Não farás lixo


À semelhança daquilo que acontece em outras cidades europeias, em Lisboa já está a ser aplicada a nova hierarquia de recolha semanal de lixo, segundo a qual cada condomínio é presenteado com dois recipientes para resíduos recicláveis de plástico e de papel (substitutos dos anteriores contentores de rua), enfileirados junto ao caixote de lixo que tinham nos seus rés-do-chão e que, a partir de agora, serve, em exclusivo, de recipiente de lixo doméstico não-reciclável.

Tenho tantas coisas para dizer sobre isto que, sinceramente, nem sei bem por onde começar. Para já, servirá a breve constatação de que quando falo em hierarquia de recolha semanal de lixo, é mesmo essa palavra que desejo empregar, pois subjacente à política europeia de gestão do desperdício doméstico (atenção que a palavra-chave desta designação oficial é desperdício: não é lixo, não é resíduos, mas desperdício, que carrega um mais pesado lastro "moralizante") encontra-se uma criação bem interessante, saída dos campos sempre férteis dos pseudoconhecimentos, chamada hierarquia de desperdícios: uma inovação da velha tríade de «reduzir, reutilizar, reciclar», que foi moda até há bem pouco tempo, e que tem como objectivo alcançar a utopia urbana de desperdício zero. Ou seja: a ideia é que os indivíduos façam menos lixo; neste caso, que não façam nenhum.
Considerando que o ser humano e a maioria dos animais não possuem poderes autotróficos, o que significa que não são capazes de produzir os seus próprios alimentos, tal como as plantas, será muito difícil não produzir, também, algum lixo.

De acordo com o cardápio desanimador da hierarquia de desperdícios, o lixo orgânico passa a ser recolhido pelos serviços camarários de limpeza somente às terças-feiras, às quintas-feiras e aos sábados. Por conseguinte, se tiverem amigos ou família para jantar num sábado à noite, somente na terça-feira seguinte é que poderão deitar fora o lixo produzido no fim de semana. De facto, isto é um problema, porque obriga os indivíduos a pensar num modo de conservar com segurança em casa o lixo orgânico durante quase três dias (porque a recolha de lixo é nocturna). Só na minha área de residência tenho encontrado caixotes a transbordar de lixo não-recolhido, caixotes cheios de lixo que estão "trancados" com as faixas adesivas aplicadas pelos serviços de fiscalização, por terem sido colocados na via pública em dias nos quais não está programada a recolha de lixo orgânico (corrijo, não-reciclável) e, o que é pior, sacos, saquinhos e lixo espalhados pelos passeios - situações que nunca ocorreram no período anterior à aplicação destas novas recolhas hierarquizadas. É óbvio: os indivíduos precisam de deitar fora o seu lixo todos os dias e as cozinhas e as despensas não foram desenhadas para ser lixeiras. Bem sei que em certos países do Norte da Europa não existe o hábito de cozinhar comida fresca todos os dias e que, nesses sítios, a maioria do lixo é composta por embalagens (de comida de micro-ondas, maioritariamente, mas também latas, frascos, pacotes de bolachas, etc.), logo a gestão hierárquica de desperdício será um pouco mais fácil de conseguir; porém, em países como Portugal, que tem hábitos domésticos e alimentares diferentes (ou vai tendo), a medida surge como artificial e impraticável (falando em países do Norte da Europa, a Dinamarca, por exemplo, o caso paradigmático que tantos países tentam emular, em tantos aspectos diferentes, está-se borrifando para esta história e incinera todos os seus resíduos - talvez por ter compreendido que os métodos recorrentes de reciclagem são muitíssimo onerosos, consomem mais energia e acabam por poluir mais do que aquilo que se pensa. Já agora, a reciclagem, esse cavaleiro-branco dos verdes de pacotilha, que transforma não-sei-quantas tampinhas de garrafas de plástico em vinte e cinco elefantes ou qualquer monstruosidade semelhante, figura bem baixo na pirâmide da hierarquia de desperdícios: o ápice é ocupado pela «prevenção», ou seja, por não se fazer lixo de todo).

O mais tragicómico é que a tal hierarquia de desperdícios e a teoria do desperdício zero (é mesmo a sua definição: teoria) são, somente, media darlings, filosofias vápidas embandeiradas em arco por quem acha que iniciativas como a Hora da Terra servem para resolver problemas de contaminação ambiental e de escassez de recursos energéticos, mas continua a trocar de smartphone ou de tablet a cada seis meses, contribuindo vigorosamente para a enchente muito insustentável de metais pesados que são enterrados clandestinamente em certos países africanos, onde envenenam lençóis de água e vão matar mais leões e elefantes que os caçadores parolos que as redes sociais adoram vilipendiar, ou, simplesmente, são deitados no Índico ou no Pacífico. Outra situação bem caricata é a de que o criador e principal pugnador desta fantochada da teoria do desperdício zero é um senhor que aparece pouquíssimo na televisão, chamado Paul Connett, autor do livro «A Solução do Desperdício Zero»: um obcecado por diversas teorias das conspirações, em principal a de que os governos esterilizam os indivíduos e lhes diminuem as capacidades mentais recorrendo ao flúor na água canalizada. Por conseguinte, alguém credível que merece toda a nossa atenção.

Algumas ligações interessantes para quem estiver, minimamente, preocupado em saber de que cabeças vêm determinadas ideias que nos afectam a todos:

- «Towards a circular economy: A zero waste programme for Europe»: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/?qid=1415352499863&uri=CELEX:52014DC0398R%2801%29

- Site da organização Zero Waste International Alliance: http://zwia.org/

- Sobre Paul Connett no reputado site Quackwatch: http://www.quackwatch.org/11Ind/connett.html

segunda-feira, 30 de março de 2015

Revista LOUD! de Abril


O número de Abril da revista LOUD! está quase a chegar (disponível a partir da próxima quinta-feira, dia 2), numa edição especial de coleccionador, dedicada aos Led Zeppelin.

Além disso, destaco, ainda, a minha crónica bimestral, Consultor Funerário, na qual desvendo a origem histórica das tatuagens em Lisboa. Por isso, já sabem: fãs de Led Zeppelin, fãs de tatuagens e fãs de história de Lisboa, esta revista é, definitivamente, para vocês.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Lisboa, a cobaia


Estou habituado a ter opiniões que vão no sentido oposto ao da moda: para o efeito, não existe da minha parte nenhuma inclinação, nem nenhum apetite singular - simplesmente, recuso observar o mundo pelas lentes que o populismo e a transitoriedade impõem.

Hoje é notícia que Lisboa irá proibir no centro da cidade a circulação de veículos automóveis com matrículas anteriores ao ano 2000: medida que prossegue a proibição gradual de circulação automóvel na Baixa e centro da cidade iniciada em 2011 com outras medidas, igualmente restritivas, que, somadas a esta, só poderão ter como objectivo de curto-prazo a proibição completa de circulação automóvel no centro da cidade, excepto transportes públicos. Não deixa de ser curioso ler esta notícia em paralelo com outra, publicada ontem, que anunciou a expansão das coroas da rede de transportes públicos, assim como o aumento dos preços dos passes para os utentes.

Os transportes públicos de Lisboa são caros. Já andei de transportes públicos em diversas capitais europeias, de países do Sul e do Norte, e, provavelmente, Lisboa será aquela que, à luz do valor do salário mínimo nacional e da média dos restantes ordenados, tem os títulos de transportes públicos mais caros - e sublinhe-se que consiste numa rede de transportes públicos de percursos planeados de modo pedestre (trocadilho não-intencional).
Um bilhete de autocarro custa 1,85 euros, um bilhete de eléctrico custa 2,85 euros e um bilhete de ascensor custa 3,60 euros (preços de uma única viagem; ou seja, caso se pretenda efectuar uma viagem de ida e volta, o custo duplica). Um bilhete de metro custa 1,40 euros e tem um prazo de validade de sessenta minutos: caso se pretenda mais tempo de viagem existe a modalidade do bilhete diário, que custa 6,00 euros. Preços nas proximidades dos 3,00 ou dos 4,00 euros poderão parecer baratos, mas, na verdade, são preços turísticos cobrados a utentes que, na maioria, não são nenhuns turistas: são residentes de Lisboa que utilizam diariamente os transportes públicos no decurso das suas habituais rotinas.
Os percursos dos autocarros de Lisboa são demasiado longos - e, em alguns casos, até suburbanos -, logo não causará nenhum espavento que um cidadão prefira deslocar-se no seu automóvel dentro da cidade para ser capaz de chegar com maior rapidez ao seu destino. Aliás, as diferenças entre as médias dos preços dos bilhetes, dos passes e dos parques subterrâneos de estacionamento são tão ténues que mais vale uma deslocação de carro e pagar-se o estacionamento no parque, porque isso poderá corresponder a uma economia de tempo na ordem dos quarenta e cinco minutos a sessenta minutos de viagem - principalmente nas horas de ponta. Quem não entende isto não sabe o que é morar numa grande cidade.

Não me escapa a eventualidade de eu estar errado sobre este assunto e, por ignorância temporária ou limitação intelectual de longa duração, manter-me do lado negro da linha que separa os pragmáticos dos idealistas. Na realidade, não encontro idealismo nenhum na moda de, forçosamente, se querer ser popular sendo "verde", seja lá isso o que for.
A quasi-isotrópica demonização dos automóveis e a conspícua elegia das bicicletas, descritas nas bulas da comunicação social como sendo um remédio saudável e moral (a tónica colocada na moralidade é mais importante do que, à partida, se poderá pensar - andar de bicicleta à solta entre automóveis, sem respeitar o código da estrada, é um modo barato de indivíduos sem imaginação se sentirem superiores aos outros) contra a miríade de malefícios do mundo contemporâneo, irá, espero, estilhaçar-se como o pé de barro que é quando se compreender que as bicicletas são anticomércio e anti-serviços. (Já se levou alguém para o hospital numa bicicleta?)
Se, no que concerne à circulação de veículos automóveis, o objectivo é transformar Lisboa numa cidade como Londres, na qual é inaudito ver-se no centro da cidade um veiculo automóvel que não seja um transporte público (autocarros e táxis), terá de se reformular a totalidade do desenho dos actuais percursos de autocarros de Lisboa, de modo a garantir, tal como em Londres, um fluxo ininterrupto de transportes à disposição, situação que não é aquela que os utentes verificam diariamente. Verifica-se, até, o oposto: a semana passada, por exemplo, estive quase uma hora à espera de um autocarro - numa hora "morta" e numa popular zona da cidade com um volumoso trânsito turístico.

O sangue de uma cidade não são os turistas. São os habitantes e os lisboetas precisam de melhores condições de usufruto dos seus transportes públicos: bilhetes e passes mais baratos - e estacionamentos mais baratos para os automóveis - seria um excelente começo. A alternativa a soluções destas naturezas e à insistência na cristalização de uma Lisboa exclusivamente para turistas poderá ser um êxodo gradual dos jovens lisboetas (principalmente) para as vilas de dormitórios da periferia, agravando ainda mais a desertificação de uma cidade outrora vicejante, mas tornada em sede de escritórios extintos, centros comerciais fantasmas e domicílios devolutos que se erguem como dentes cariados ao lado de renovados blocos de apartamentos de luxo, acessíveis apenas a quem, em última análise, se estará nas tintas para Lisboa enquanto autêntico local de residência.
A Lisboa actual é uma Lisboa deformada: cobaia que, cada vez mais, agoniza em comportamentos absurdos.

Quem quer ser "verde" fará melhor em deixar os veículos automóveis em paz e preocupar-se, antes, com a questão do lixo electrónico, que é o grande flagelo invisível do século XXI, contaminando, a ritmos avassaladores, lagos, rios, oceanos e solos com um espectro assustador de metais pesados (chumbo, mercúrio, cádmio, entre outros) e materiais plásticos muitíssimo resistentes à erosão.
Pensem nisso sempre que, a cada seis meses, mais ou menos, pedalarem de bicicleta até à Baixa para comprar mais um novo modelo de smartphone ou tablet - deixem de ser ridículos e pensem. Bem sei que pensar poderá ser difícil, sobretudo para quem não está habituado, mas, em suma, é como andar de bicicleta: uma vez aprendido como se faz, nunca mais se esquece.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

A bodega de Lisboa

Não há outra forma de dizê-lo e tentá-lo seria, ao mesmo tempo, uma hipocrisia e uma perda de tempo: este texto que o The New York Times publicou sobre Lisboa é uma bela bodega.

Aqui, pode ler-se a apologia de uma espécie de turismo rural olisiponense, no qual a cidade, longe de possuir uma história antiquíssima (Lisboa foi fundada em 1200 a.C.) que urge descobrir, irrompe como uma simples e simpática aldeiazinha alcandorada ao Tejo, que convida o turista - cansado da história e da cultura que encontra em outras cidades europeias mais interessantes - ao ócio desmiolado, em restaurantes e ostarias hipster que, ainda por cima, como Portugal atravessa uma crise economico-financeira, são muito mais baratos que os das restantes capitais. Ena, pá! Sobretudo, nesta visão miserabilista sobre Lisboa, a cidade é minúscula: adstrita ao Parque Eduardo VII - onde pululam cachorros amestrados (tão giro que isto é) -, às ruas da Baixa - onde pululam serventes amestrados (tão prático que isto é) - e à colina do Castelo - onde pulula a parenética amestrada sobre o território (tão conceptual que isto é) - , como se o resto não existisse. Aos olhos de Frank Bruni, antigo crítico de restauração do The New York Times, Lisboa é um diorama sem delínquio, simplesmente porque não exige nada ao visitante: segundo o cronista, não tem locais de relevo para visitar, não tem museus, não tem sítios com interesse artístico e histórico, não tem nada a não ser dois restaurantes do caraças e meia-dúzia de hotéis super-chiques (onde também pululam os serventes amestrados). O Rei Midas iria gostar da talha dourada da Igreja de São Miguel, escreve Bruni: aqui já se está no campo da alta literatura, pelos vistos. É comovente, assim como comove a abulia que, segundo Bruni, é o trunfo de Lisboa.

Lisboa é descrita como sendo o castelo da Fera do filme de animação Beauty and the Beast, dos estúdios Disney, durante o segmento musical «Be Our Guest»; é tão fácil imaginar o cronista sentado à sossega, ao entardecer, numa das esplanadas in dos hóteis que cita no artigo, enquanto a fauna mágica da criadagem lisboeta se desunha para o deslumbrar com as suas qualidades subservientes: «be our guest, be our guest, put our service to the test, tie your napkin round your neck, cherie, and we provide the rest». Eu acho isto digno de dó. Aliás, vou reformular o que escrevi no primeiro parágrafo: o artigo não é uma bela bodega. É uma grande merda.


E aqui está, como complemento, uma bucólica cena recente, observada pela manhãzinha no último Mega Picnic, na Avenida da Liberdade. (O The New York Times iria gostar.)

terça-feira, 24 de junho de 2014

Hoje, prosa e poesia no Bairro Alto



Hoje, às 21H30, haverá tertúlia e spoken word no espaço cultural Buédalouco Pharmácia de Cultura (Rua do Norte, 60), no Bairro Alto, em Lisboa, comigo e com Charles Sangnoir. O Bairro Alto será alvo de uma pós-cirurgia e revisitar-se-á um lado mais humano e menos conhecido de Fernando Pessoa, com a interpretação musicada de trechos escolhidos a dedo. Por conseguinte, divulguem e apareçam. Para evocar a aura do espectáculo de hoje, deixo um registo em vídeo de parte do espectáculo de apresentação do disco Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense (2012), escrito e interpretado por mim e musicado e produzido por Charles Sangnoir.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

La Chanson Noire: concerto nocturno no Cemitério dos Prazeres


Amanhã, sábado 17, às 21H30, La Chanson Noire regressará aos grandes concertos com um espectáculo exclusivo no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, para o qual Charles Sangnoir promete invocações incomuns de maneira a despertar mortos e vivos.
O concerto é antecedido e completado com uma visita noctura ao cemitério, com início marcado para as 20H00. Amantes do insólito e tafófilos, este evento é para vocês: be there or be dead.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Borborigmos de baleia


Nesta espectacular ilustração, pintada a guache e aguarela, relata-se a lenda de que uma baleia ominosa surgiu, nefelivagante, pelo céu estriado de sangue ao advento do terramoto de 1531, em Lisboa; porém, o ilustrador decidiu-se contra o texto e pintou a baleia no mar.
Embora o terramoto de 1755 seja mais conhecido pelo público, a verdade é que Lisboa sofreu com vários, entre os quais o de 1531, ano em que reinava D. João III, filho de D. Manuel I e avô de D. Sebastião. A presença da baleia monstruosa na vizinhança da catástrofe justifica-se pela crença de que os desastres eram anunciados por monstros. Escrevi com pormenor sobre este tema no capítulo «Os Monstros Prodigiosos» do meu livro de não-ficção Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, para o qual remeto os leitores que queiram aprofundar conhecimentos sobre o assunto.

A ilustração pertence ao Wunderzeichenbuch (Livro dos Milagres), editado em 1550 na cidade alemã de Augsburgo.


domingo, 8 de dezembro de 2013

Antevisão de «Bairro Alto: Uma Cirurgia»


Na próxima sexta-feira, dia 13, às 19H00, eu e Charles Sangnoir iremos actuar no Palácio Quintela, em Lisboa (Rua do Alecrim, 70), interpretando a peça Bairro Alto: Uma Cirurgia, escrita e declamada por mim e musicada por Sangnoir (que compôs uma canção original para ser apresentada propositadamente neste espectáculo). Será uma invocação psicogeográfica, agendada nas Comemorações dos Quinhentos Anos do Bairro Alto.
A entrada é livre e estão todos convidados: apareçam e divulguem. 
Até lá, fiquem com uma antevisão do texto que irei interpretar:

«O Bairro Alto podia muito bem ter definhado ao grito primevo de partida e não passar de uma espécie de zingamocho na corola lisboeta – uncial e rebocado como um quadro falsificado. Quantos bairros e freguesias não se extinguem, em tétrica tanatocenose, no côncavo leito da história? Toda a matéria possui uma peculiar pecabilidade que empolga o estrago e nem a xilolatria, nem a litolatria podem remir da ruína esses restos. Os bairros desaparecem, como se coordenadas geográficas e temporais estiolassem ao Sol que nem fotos expostas numa vitrina. As linhas do território afunilam, absorvem-se até ao ponto e, finalmente, atravessada a fronteira da unidimensionalidade, remetem ao vácuo para nunca mais serem vistas. Existem lugares assim, à nossa volta: não-lugares, carregados de nada – ao passarmos por eles, sentimo-nos pesados no corpo e na alma, porque levamos um pouco de morte connosco. Envenenamo-nos. O Bairro Alto, contudo, persiste – com notável imutabilidade; tão macróbio quanto a concha de uma amêijoa hipermaturescente.        
Escalavraduras estendendo-se pelo estreito eixo que já escorou a muralha fernandina: ferro compunge tijolo, próteses de edifícios que amparam assombrações de um tempo igualmente fatal, mas autêntico. Sobre ele, veículos escorregam como fatídicas faluas e repercutem nos carris defuntos como em cordas de piano – o ruído é estridente, que nem gritos de guebros carregados com guelritas. Perpendicularmente aos turistas apressados, cujas vozes cambalhotam no vento como acrobatas de cartão, espalham-se graffiti nas paredes: equimoses hipertricósicas, de cores tão lientéricas quanto o lixo e os mortos que medram fora da vista, mas que se mantêm – como jóias negras – nos nossos peitos. Há uma energia bizarra, aqui, neste altiplano que se contorce para o Tejo à guisa de predador infantil que gazofilou uma presa demasiado grande para a boca. Se as suas noites fossem silenciosas ouvir-se-iam os murmúrios dos três fios de água que, sob a Rua do Alecrim, a Rua da Bica de Duarte Belo e a Rua do Poço dos Negros, se entornam eternamente no Tejo, emitindo um pulsar plutónico que comunica connosco em código.
O Bairro Alto é uma cirurgia.
Mas que cirurgia é esta?
            Por que é que somos, irresistivelmente, atraídos por ela?»

sábado, 30 de novembro de 2013

«Bairro Alto: Uma Cirurgia»

No próximo dia 13 de Dezembro, às 19H00, o Palácio Quintela, em Lisboa (Rua do Alecrim, 70), irá acolher o espectáculo Bairro Alto: Uma Cirurgia: actuação em spoken word com texto e voz meus e música de Charles Sangnoir (que também irá interpretar uma canção original, composta propositadamente para este espectáculo).

Bairro Alto: Uma Cirurgia consistirá numa erudita invocação psicogeográfica sobre esse local lisboeta inconfundível, interpretada no âmbito das Comemorações dos Quinhentos Anos do Bairro Alto. Será uma actuação única e exclusiva.

Conto com a vossa presença e agradeço a divulgação do espectáculo.