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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Anjos, Velhos e Novos


Quando alguns leitores de 1955 leram os trechos respeitantes ao exército espectral de Dunharrow, instrumentalizado por Aragorn para derrotar os corsários de Umbar, no recém-publicado livro The Return of the King, de J. R. R. Tolkien, a terceira parte da trilogia de literatura fantástica The Lord of the Rings, deverão ter-se lembrado naturalmente dos ainda eminentes “Anjos de Mons”, os reforços celestiais que acudiram a um pequeno corpo expedicionário britânico, ajudando-o a fugir com segurança das mais numerosas tropas alemãs, na batalha travada perto da cidade belga de Mons, a 23 de Agosto de 1914.
Essa soldadesca sobrenatural era constituída por arqueiros ingleses mortos na Batalha de Agincourt, ocorrida a 25 de Outubro de 1415, no local onde hoje se situa a contemporânea cidade e comuna de Azincourt, no Norte de França. Nessa batalha – episódio da famosa “Guerra dos Cem Anos” (na verdade, durou cento e dezasseis anos) –, o jovem rei inglês Henry V derrotou o numeroso exército francês liderado por Charles I de Albret, condestável da França, inaugurando um interregno na imperante hegemonia francesa; a fortuna de ser-se salvo por corajosos companheiros de armas, provenientes do outro mundo, inspirou, pois, a imaginação inglesa nas trincheiras da Primeira Grande Guerra.
            O relato estreou-se a 29 de Setembro de 1914 no jornal vespertino inglês The Evening News (o primeiro jornal do mundo a ter telefone), editado nessa altura pelo jornalista Walter J. Evans, mas não menciona nenhuns anjos; com efeito, a notícia, intitulada The Bowmen, descreve de modo explícito que os agentes sobrenaturais «cintilantes» são os arqueiros fantasmas de Agincourt, liderados por São Jorge (de modo geral, os santos são personagens que não gozam de grande popularidade no culto inglês, mas, enquanto ícone nacionalista, São Jorge beneficiava do afecto popular). O bosquejo dos archeiros fantasmagóricos como sendo anjos foi desenhado pelos eclesiásticos que, poucos meses após a publicação da notícia, disseminaram-no entre as suas paróquias sob a forma de panfletos. Em principal, o relato intitulado A Troop of Angels, publicado a 3 de Abril de 1915 no jornal paroquiano Hereford Times do condado de Herefordshire, foi decisivo em estabelecer a identidade angélica dos intervenientes além-tumulares: nessa narração, uma jovem chamada Miss Marrable conta as experiências que dois soldados ingleses, presentes no corpo expedicionário salvo por “anjos” em Mons, lhe confidenciaram, inclusive uma descrição de como as tropas alemãs se paralisaram pelo terror ao serem acostadas pelo magote miraculoso.
Diversos jornais britânicos também reproduziram o texto original, discorrendo sobre ele com as mais imaginativas interpretações – chegou a revelar-se que o exército alemão ocultara a informação de que se encontraram flechas nos corpos dos soldados mortos a 23 de Agosto de 1914. Isolado no onfalo da voragem dessecretista, o autor da notícia continuava a ser interrogado por leitores ávidos de mais pormenores, porém o texto não era notícia nenhuma, mas um conto: uma ficção inventada pelo conhecido escritor galês Arthur Machen, que, desde 1910, trabalhava como jornalista para o The Evening News.
Machen sempre disse que o seu conto The Bowmen era apenas uma ficção, sem nenhum referente real, mas isso não impediu que a lenda dos “Anjos de Mons” ganhasse com rapidez um ímpeto e uma dimensão incomuns, firmando-se com solidez na psique popular como um verdadeiro episódio de intervenção divina – aliás, não faltou quem insultasse o próprio autor por tentar denegrir com calúnias a verdade sobre os “anjos patrióticos” e até alguns soldados ingleses, sobreviventes da Batalha de Mons, contaram à impressa que os “anjos”, de facto, os ajudaram a retirar-se do campo de batalha. Também em 1915, o conhecido escritor conservador Edward Harold Begbie publicou um livro intitulado On the Side of Angels, no qual acusou Machen de lucrar com verdadeiras visões espirituais, transmitidas telepaticamente por desgraçados soldados na frente de batalha e que ele sintonizara.
Em tempos de carestia, como o da Primeira Grande Guerra, é natural que os indivíduos desesperados sintam maior disponibilidade para encontrarem conforto junto de ideias marginais que refutariam em melhores circunstâncias. Em Portugal, por exemplo, o fenómeno das aparições de Fátima, cuja data principal de 13 de Maio de 1917 se inscreveu na sequência da partida do corpo expedicionário português para França, pede para ser cotejado com o dos “Anjos de Mons”.
Hoje, a secularização da sociedade não permitirá, certamente, um levantamento de massas de ordem similar em torno de um tema de natureza religiosa, mas os mecanismos que promovem a aceitação do inverosímil também funcionam com o pensamento político, como comprovou a emergência dos nacionalismos durante o século XX. Ao contrário dos nossos antepassados, somos demasiado rebuscados para acreditarmos nas chamadas grandes mitologias formativas, mas, por outro, talvez sejamos mais lestos que eles a acreditar em informação contrafactual desde que ela vá ao encontro daquilo que sentimos, porque, hoje, os sentimentos substituíram os factos e qualquer ficção difundida sem análise poderá ser, tal como o conto de Machen, lida como sendo verdade histórica. 
Por um lado não duvido de que isso acontecerá, mais tarde ou mais cedo. Por outro, prefiro não ser testemunha dos “anjos” que o século XXI poderá trazer.

Crónica publicada originalmente no número doze da Revista BANG! (Saída de Emergência).

quinta-feira, 29 de março de 2012

"O Homem Corvo" chega a 13 de Abril


«Não muito longe daquele sítio, o Homem Corvo encontrou outro bicho: era o Urso Amuado, que tinha um braço enfiado num buraco de um tronco de árvore. "O que é que eu posso fazer para tu gostares de mim, amigo malcheiroso?", perguntou o Homem Corvo. "Quero comer o mel que está aqui dentro, mas está tão fundo que não sou capaz de apanhá-lo", disse o Urso Amuado. "Se me deres este mel todo, prometo que fico a gostar de ti."»
O Homem Corvo, escrito por mim e ilustrado por Ana Bossa com direcção fotográfica de Nuno Bouça, chega às livrarias no próximo dia 13 de Abril pelas edições Saída de Emergência.

Em breve, darei informações sobre a sua apresentação e sobre a abertura da exposição das ilustrações.

domingo, 25 de março de 2012

"O Homem Corvo" chega em Abril


O Homem Corvo (Saída de Emergência), o meu primeiro livro para crianças, ilustrado por Ana Bossa e com direcção de fotografia de Nuno Bouça, chegará às livrarias no próximo dia 13 de Abril.

«Mas à noite, na cidade, quando toda a gente já apagou a luz para dormir, qualquer barulhinho parece um barulhão e, nessa noite, nesse instante, alguém ouviu a Menina Clara a chorar. Sem que ela o esperasse, o Homem Corvo entrou-lhe no quarto, pela janela aberta.»

Abram as vossas janelas para deixar entrar o Homem Corvo: façam-se fãs da sua página de Facebook e descubram imagens exclusivas do seu making of.


quinta-feira, 22 de março de 2012

Cornudos de Lisboa


Quem leu o meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008) lembra-se certamente das primeiras páginas do terceiro capítulo "O Reino do Sol", no qual falo sobre a obsessão lisboeta por cornudos e práticas humorísticas com eles relacionadas, assim como o costume de pendurar cornos nas portas dos indivíduos suspeitos ou sabidos de terem sido enganados. Acima, pode ver-se uma reprodução de uma lei promulgada por D. José I que proíbe essa brincadeira, «o delito de pôr cornos».

Escrever sobre Lisboa é um privilégio imensurável.
Nesta ligação, quem ainda não conhece Lisboa Triunfante pode ler um excerto desse romance em PDF: http://www.saidadeemergencia.com/uploads/books/samples/0vq_Lisboa-Triunfante.pdf

Romance editado em duas capas diferentes: a da Raposa e a do Lagarto.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Poesia de Pedra


Para celebrar o Dia Mundial da Poesia, lembrei-me de publicar um excerto do meu romance Batalha (Saída de Emergência, 2011): neste trecho, pode ler-se um poema maçónico que escrevi sobre os pedreiros e o arquitecto do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. Na narrativa, corresponde ao encontro da personagem principal, a ratazana Batalha, com a enorme catedral ainda a ser construída.

«Uma nevoeirada de poeira de terra e de pedra desbastada cercava o gigantesco edifício, como um miasma oriundo das profundezas e, ao cimo, cobrindo os pináculos oleifoliados, oblíquos às nuvens que pareciam tocar, uma grelha composta por andaimes, cordames e tapumes servia de sustentáculo às operações ruidosas de canteiros e carpinteiros, munidos de martelos e malhetes. À guisa de orelheiras, os altivos botaréus rompiam o solo e elevavam-se ao longo de paredes mais altas que as árvores, para amparar a estrutura mais imponente que a ratazana encontrara.
Às ordens do arquitecto flamengo David Huguet, os obreiros estrangeiros e portugueses cuidavam para que o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, já atrasado pela inesperada queda, há quatro meses, da recém-construída abóbada da Casa do Capítulo, não se transformasse de vez num mortório.
Nessa altura, o rei D. João, impaciente, tinha sido assertivo quanto ao prazo a cumprir para o desentulhamento da casa capitular e reconstrução da abóbada ruída; com efeito, o geriátrico e destituído mestre Afonso Domingues, logo readmitido no cargo de mestre-de-obras para colmatar o fracasso de Huguet, cumprira o juramento de reerguer a cúpula nos quatro meses impostos pelo rei.
Acabado de abalar do mosteiro, com o seu séquito de cavaleiros, D. João prometera voltar daí a três dias: período em que Domingues permaneceria sozinho na Casa do Capítulo, para provar que a nova abóbada era de confiança. Embora desaprovasse a iniciativa, D. João não teve coragem para contrariar o desejo do velhote que, ainda por cima, fora seu companheiro de armas. Dera-lhe os três dias, mas nem um momento a mais. Antes de partir, instruiu Huguet para que não deixasse ninguém incomodar o velho arquitecto e que todos os trabalhadores se concentrassem, preferencialmente, em outras áreas da construção, para não agitar a estrutura da nova abóbada, já extirpada dos simples que a suportaram.
Com essa admoestação em mente, ex-mestre-de-obras e obreiros, porfiavam, enquanto cantavam para animar as almas:

Contentamento eternal
a quem assim edifica,
em firme união fraternal,
a catedral magnífica.

A cada obreiro é oferecido
um trabalho e uma data:
venturoso é o distinguido
com esse ouro e essa prata.

E cada obreiro ergue um templo
com força e habilidade.
São pedras que abarbam o tempo
e estão na imortalidade.

Riem o alvenel e o canteiro,
ao emendarem os enganos.
Das suas mãos, este mosteiro
assombrará olhos profanos.

O cantochão dos obreiros, virgulado por malhetadas, quase que lubrificava com ressonância as lajes da amplíssima catedral — arte na argamassa, canções que cimentavam; e, nessa lógica de miscigenar o espírito e a matéria, de cunhar com a voz aquilo que se erguia, Batalha compreendeu o que Pedranceiro procurava, aquilo que ele próprio também procurava e que, ao fim e ao cabo, todos os bichos procuravam, às vezes sem sabê-lo, sem terem noção. Compreendeu que ali, à sua frente, estava definição.
Sentido.
Significado.
Naquele vale ruidoso e enlameado, polvilhado de poeira e lascas de pedra, tresandando a suor, a lixo e a dejectos de animais, a vida ganhava um objectivo radiante e a morte era enobrecida, porque, como Batalha intuíra, se estava a deixar uma coisa para trás.

Uma coisa boa.

As carroças passavam junto dele, mas Batalha já não se desviava, tão absorto se encontrava na contemplação da catedral.
Na contemplação do segredo lítico que esta encerrava.
Os homens, por piores que fossem, eram bichos construtores: dos casebres às catedrais, tudo o que faziam era no sentido de marcarem presença no tempo; de, através da preparação da pedra perdurável, também persistirem.
Desde a alvorada do mundo, durante a qual, insignificantes, os bichos homens escolhiam os ossos mais belos para decorarem as sepulturas dos seus mortos, que eles já tentavam findar a finitude erguendo pártenones, panteões e pirâmides de pedra e cascas vazias: sinfonias de vitória, mas não cantadas — imaginadas. Sonhadas.
O mesmo sonho que os fizera pôr-se de pé, entre os corpos dos seus antepassados e os cadáveres ainda frescos dos seus descendentes: a vontade de olhar as estrelas de perto, de falar com elas. De, como elas, se firmarem. De luzirem.
Havia rebeldia nesses desmesurados edifícios que eles construíam: havia cultura e simbologias que se tornavam mais brilhantes ainda, quanto mais terrível fosse a implacável calandragem do tempo. Esse é que era, sem dúvida, o único deus que existia — e o único que valia a pena existir —, o único que, de facto, fazia falta.
A imaginação.
Esse deus magnânimo que agarra a matéria muda e a transmuta em verdadeira catedral orgânica, capaz de, nos trifórios, arquivoltas e galerias do seu piso superior, arquitectar um plano para a vida, um plano para transcender a vida.
Sim, matava-se e destruía-se, comia-se e era-se comido, mas, no final, depois da das injustiças e dos merecimentos serem esquecidos, depois da poeira e do ruído assentarem, o que ficava era a Obra.
A Dádiva.
Essa é que é era a verdadeira razão de viver: não era o mundo que tinha que dar sentido à vida, mas era ela que tinha que dar sentido ao mundo. Cada criatura era uma laje dessa sumptuosa catedral e todos os momentos contavam. Nada, nada, nada podia ser desperdiçado. Nada tinha pouca importância. Nada era trivial.
Escutando o zurrar dos burros, mais os mugidos dos bois, os rinchares das rodas das carroças e os raspares dos cinzéis nas pedras por polir, Batalha, a ratazana, sentiu-se transferida para um andar superior da consciência, da existência.
Nunca mais voltaria a ser a mesma criatura e, por isso, estava grata. Estava paralisada pela beleza tremenda daquele momento. Pela felicidade imensurável de sair das trevas para a luz. Então, fez a única coisa que alguém, confrontado com o terrível maravilhoso, é capaz de fazer.
Chorou.»


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Página oficial de "O Homem Corvo" no Facebook


«O Ladrão de Lágrimas roubou um coração.»



«Conheçam O Homem Corvo: um ladrão de lágrimas, que entra à noite nos quartos de meninos tristes. Mas numa noite especial, em que cada barulhinho parece um barulhão, ele espanta-se por encontrar uma coisa que sempre desejara ter: um coração.

Escrita por David Soares, O Homem Corvo é uma história infantil que recupera o carácter dos contos clássicos para crianças, apresentando uma mistura mordaz entre negrume e fantasia. Ilustrado por Ana Bossa numa técnica original, onde figuras e cenários tridimensionais habitam um fascinante espaço de fusão, O Homem Corvo é pura magia.»


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O meu novo livro para 2012 e os Vampiros de Alfama


O meu novo livro, que será de não-ficção, irá, entre muitos outros assuntos, falar do livro Les Vampires de l'Alfama (1975) do cineasta francês Pierre Kast. Sim: o título refere-se ao bairro de Alfama, em Lisboa.

Para saberem mais sobre Les Vampires de l'Alfama - e sobre muitas outras coisas - ainda terão de esperar uns meses, mas fiquem atentos porque irei desvendando novidades.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pais da Ficção Científica


Em From Paralysis to Fatigue, Edward Shorter enuncia a existência de “reservatórios de sintomas”: aglomerados ideais, preenchidos pelas tendências predominantes dos períodos que permeiam. São, em simultâneo, influenciáveis e influentes. Faz sentido falar em “sintoma”, porque a palavra também significa “presságio”; logo, as mutações que afectarão a sociedade poderão ser calculadas pelo estudo do “reservatório de sintomas”.

Nas primeiras décadas do século XIX, os Estados Unidos foram desinquietados pelo Segundo Grande Despertar: revivalismo religioso, de natureza arminiana, que quis repor o rigor protestante, perdido em favor do agnosticismo estimado pelos Pais Fundadores. Foi um período em que a ciência manteve a orientação de que deveria glorificar o desígnio de Deus. Entre os astrónomos americanos e europeus, a maioria era composta por teólogos crentes num pluralismo cósmico teísta (como William Herschel, descobridor de Úrano e da radiação infra-vermelha), sob o qual o universo era populado por raças tementes a Deus. Reverendos astrónomos, como Thomas Dick, acreditavam que a Lua era habitada por uma civilização isenta de pecado (Dick até calculou que ela perfazia o número de 4,2 mil milhões de indivíduos) e Von Littrow e Friedrich Gauss arrogaram ser possível comunicar com os selenitas. A crença no povoamento da Lua foi aceite por todos como provável: fez parte do “reservatório de sintomas” desse tempo.

Em Agosto de 1835, o jornal nova-iorquino The Sun publicou uma série de artigos sobre a descoberta do astrónomo John Herschel (filho de William Herschel), isolado na África do Sul. Lendo o seriado, intitulado Great Astronomical Discoveries Lately Made by Sir John Herschel, L.L.D. F.R.S. &c. at the Cape of Good Hope, o público ficou a saber que a Lua tinha florestas, lagos e era habitada, entre outras espécies (como castores bípedes), por inteligentes híbridos de humano com morcego, capazes de construir igrejas. Graças a um novíssimo procedimento óptico (descrito ao detalhe), que permitia a magnificação das imagens telescopiadas sem que perdessem definição, Herschel desvendava que o homem não estava sozinho no sistema solar. The Sun, criado em 1833 por Benjamin Day, já revolucionara cabalmente o modo de fazer jornalismo, ao lançar-se no mercado em pequeno formato e com custo de um penny: foi o primeiro diário popular, com características actuais, e as novidades sobre os selenitas transformaram-no no título mais vendido. À edição episódica advieram as panfletárias, com litografias dos homens-morcegos voando entre vulcões, lagos e cascatas lunares. Os restantes periódicos norte-americanos (e europeus) não perderam tempo em republicar o material na integralidade, mas James Gordon Bennett, proprietário e editor do diário nova-iorquino Herald, concorrente do The Sun, não acreditou na descoberta e iniciou uma campanha para que Richard Adams Locke (editor do The Sun) assumisse a autoria das espantosas “noticias”. Com efeito, fora Locke a escrevê-las; e em 1840, numa crónica publicada no semanário New World, assumiu que quisera satirizar a crendice com que a ciência, em particular a astronomia, era praticada nas academias, mas, infelizmente, ninguém compreendera o ponto de vista. O seu único trabalho ficou conhecido como Grande Embuste da Lua.


Foi o “reservatório de sintomas” da época, recheado com a crença na Lua habitada e a exuberância da emergente imprensa popular, que serviu de placenta ao desenvolvimento de um inédito género literário que iria aperfeiçoar-se no início do século seguinte. No dia 3 de Setembro de 1835, Bennett escreveu no Herald um artigo intitulado A New Species of Literature: nessas linhas, cunhou o estilo de Locke como sendo «scientific novel». O seriado foi pioneiro na descrição meticulosa de uma tecnologia óptica especulativa que credibiliza a história do ponto de vista científico: o texto suspende-nos a descrença porque ciência e ficção se entrosam com harmonia – e esse cruzamento aparece pela primeira vez pela mão de Locke, assim como a designação «scientific novel», inventada pelo editor rival Bennett, antecipa em quarenta e um anos a de «scientific fiction», criada por William H. L. Barnes na introdução que escreveu para a colectânea de homenagem póstuma a Caxton (W. H. Rhodes), e em noventa e um anos o uso dado por Hugo Gernsback no primeiro número de Amazing Stories. Conclui-se que Locke, com o estilo inédito, e Bennett, com a designação que lhe deu, foram os pais remotos da ficção científica.


Locke atreveu-se a imaginar sobre a Lua e num precursor jornal popular mostrou-nos como imaginar o século XX. Sem Locke talvez não houvesse Verne e Wells e sem os seriados e folhetins do The Sun talvez não houvesse fanzines, nem weblogs. A Lua deu-lhe ainda oportunidade de usá-la como alegoria de uma sociedade sem escravos, num momento em que Nova Iorque era a cidade mais sulista dos estados do Norte. A especulação fantástica podia, afinal de contas, falar de problemas reais.

O período supracitado, cheio de convulsões, prova que só o fantástico pode salvar a cultura de tornar-se o epifenómeno subserviente de um mercado cada vez mais volúvel e falsamente personalizado. É olhando para a Lua, domínio argênteo da Imaginação, que se pode observar sem cegueira a luz do Sol, radiância dourada da Obra.

Fantasiando, planeia-se o futuro.

(Crónica publicada originalmente no nº 11 da Revista BANG!, editada pela Saída de Emergência.)

domingo, 27 de março de 2011

Grendel 2011


As edições Saída de Emergência, através da chancela Camões & Companhia, acabam de publicar uma nova edição do romance Grendel, de John Gardner.
Este título é um dos melhores romances contemporâneos de literatura fantástica e quem acompanha as minhas observações aqui nos Cadernos de Daath, ou em outros veículos de expressão, sabe que não me canso de elogiá-lo.

A capa deste novo Grendel apresenta uma das ilustrações que desenhei para a primeira edição (2007), que também prefaciei.
Como é evidente, a nova edição contém todas as referidas ilustrações e introdução.

Caros leitores, não deixem passar esta oportunidade de enriquecer a vossa biblioteca e de ler um dos melhores romances fantásticos das últimas décadas: corram já para a livraria e levem-no para casa.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Debaixo do Domo

As 877 páginas de Under the Dome, de Stephen King, acabam por ser poucas para contar uma história que tem muito para oferecer.
A premissa é elegante: a cidade de Chester's Mill vê-se, de um momento para o outro, coberta por uma redoma invisível e indestrutível.
Quem a ergueu?
Qual é o objectivo?
As personagens não sabem. Porém, algumas são capazes de adivinhar. E o leitor, se pensar um bocadinho, também será.
O início e o desenvolvimento do livro são interessantes, pontuados por pormenores muitíssimo realistas de caracterização de personagens e de ambientes, embora a prosa - simples, mas não simplória - pejada de referências à cultura popular norte-americana, não se apresente muito "sofisticada" aos olhos de um leitor europeu. Contudo, do meio para o fim, Under the Dome ganha uma força tremenda e cresce imenso, dando-nos a ler, de certeza, uma das catástrofes mais violentas que já foram imaginadas na literatura.
O romance beneficiaria de uma revisão mais atenta, mesmo assim, que evitasse algumas incongruências (o cão Horace é chamado de Hector durante umas páginas, por exemplo) e linhas de raciocínio que, acho eu, devem ter permanecido de certas partes entretanto suprimidas pelo autor, aquando da preparação da versão final. Ademais, não deixa de ser inesperado que um romance tão grande tenha um ritmo tão acelerado e eu acho que isso também acaba por prejudicar Under the Dome, porque certos pormenores, como os efeitos a médio prazo que a cúpula invisível opera na cidade e região florestal limítrofe, mereciam mais atenção. De maneira geral, King está mais interessado em analisar o comportamento dos indivíduos, levado ao extremo por esta circunstância extraordinária, que em especular sobre a origem e a razão do surgimento da cúpula - embora elas sejam apresentadas e explicadas.
Under the Dome poderia muito bem ser um argumento para um episódio da série televisiva Twilight Zone, imaginado por uma consciência traumatizada pelos contemporâneos atentados terroristas, mas, embora possa ser lido como uma alegoria aos Estados Unidos quando governados pela administração do anterior presidente, é muito mais uma reflexão sobre o mal que os homens são capazes de fazer quando, de repente, se vêem sem restrições. Se a ideia principal por trás dos crimes de Mr. Griffin, em The Invisible Man de H. G. Wells, é a de que somos capazes de fazer tudo quando já não temos que nos encarar ao espelho, a ideia principal de Under the Dome é a de que somos capazes de fazer tudo quando já não temos que sair de nós próprios - quando o simples acto de comunicar com o outro se tornou obsoleto. É, também, uma obra muito mais lúcida e honesta que outras que tocaram em alguns dos mesmos botões, como a série televisiva Lost, por exemplo, para invocar um título mediático. Só que em Under the Dome cada homem é que é uma ilha; o que daria, sem dúvida, que pensar a John Donne.

Uma adenda: Apesar do título, o misterioso campo de forças que isola Chester's Mill não é uma cúpula, mas um invólucro completo, já que o subsolo da cidade também se encontra under the dome.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Lisboa Fantástica - Um Vislumbre

Vídeo da minha primeira intervenção no painel Lisboa Fantástica, no 5º Fórum Fantástico (Sábado, 13 de Novembro), com as participações de João Barreiros e Octávio dos Santos e moderação de Rui Tavares.
Excerto filmado por Paulo Brito.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Meu texto sobre Fantástico no catálogo da FNAC

As lojas FNAC estão, as we speak, e até 17 de Novembro, a realizar uma grande campanha sobre literatura fantástica: consiste numa promoção de uma enorme diversidade de excelentes livros fantásticos, de diversos géneros, desde a Fantasia, o Horror e a Ficção Científica, à disposição de todos os leitores que se queiram iniciar nesses universos, assim como uma oportunidade para os entusiastas encontrarem alguns títulos que lhes faltem nas colecções. Para o efeito, fez-se um catálogo comercial, com todos os livros destrinçados e incluídos.

Com a certeza de que a maioria dos livros que nele se incluem são bons, e que até estão presentes muitas boas surpresas, escrevi um texto introdutório que, pese as limitações que um texto sintético desta natureza sempre traz atreladas a priori, espero que suscite o vosso interesse. Ei-lo:

A imaginação é luz. Sem ela, seríamos matéria cega.
A palavra grega phantastikós significa relativo à imaginação, logo toda a literatura é fantástica porque é imaginada; no entanto, convencionou-se que apenas alguma merece ser assim baptizada: a de menor grau de proximidade com o real. Mas quantas vezes não se critica de modo negativo um livro porque tem “demasiada fantasia”?
O preconceito nasce da noção errónea de que a arte deve ser um mimetismo da realidade, mas o que é isso? Será “demasiada fantasia” aspirar-se a alcançar outros mundos? Esperar que por trás dos pesadelos existam sonhos? E que ao perguntar coisas a esses sonhos, descubramos que eles nos podem responder?!... A literatura fantástica é a luz emitida pelos seus escritores – e o que é que faz a luz, senão mostrar o caminho?
Mostrar-nos caminhos, o Fantástico tem feito, levando-nos a alcançar, de facto, outros mundos, a delapidar os piores pesadelos e a ensinar-nos como se tratam os sonhos por tu. Um bom livro de ficção científica, de horror ou de fantasia é, ao mesmo tempo, um bilhete e um mapa de territórios para os quais é preciso coragem para entrar, porque é preciso coragem para imaginar.
A imaginação é a maior riqueza que temos: é um tesouro – e os tesouros foram feitos para ser conquistados. Às vezes, esgravata-se mais do que se deveria e libertam- se coisas perigosas. É por isso que nós, escritores de literatura fantástica, existimos: somos salteadores profissionais, calejados nas armadilhas que existem nos caminhos onde crescem as histórias. Sabemos voltar com vida, de cabeças cheias, e os relatos das nossas viagens enchem as páginas dos livros que podem encontrar neste catálogo.
Felizmente, ao virar da página, podem encontrar muitos títulos de qualidade, mas não quero fazer de vosso Virgílio, porque cada leitor entra sozinho nos Infernos ou distopias que escolhe.
Só estou aqui para dizer: atrevam-se a imaginar.

David Soares
Lisboa, Setembro de 2010

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

David Soares no Halloween egitaniense


No próximo dia 29 de Outubro (sexta-feira), às 22h00, o Aquilo Teatro na Guarda irá apresentar um espectáculo especial de Halloween, intitulado Nocte Horribilis: Uma Homenagem aos Mestres do Terror.

Para o efeito, irão ser lidos e representados textos de alguns dos melhores autores do género, como Bram Stoker, Ray Bradbury e Stephen King. Eu e o meu livro de contos de horror Os Ossos do Arco-Íris (Saída de Emergência) fazemos parte dessas escolhas.
Leitores egitanienses, fãs do verdadeiro horror, apareçam!

E A Luz Miserável está mesmo quase a chegar...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A minha presença no "Mensageiros das Estrelas"

De 2 a 5 de Novembro, o Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Letras de Lisboa organiza o colóquio Mensageiros das Estrelas: evento académico, dedicado à reflexão sobre a literatura fantástica. Entre os organizadores encontram-se Safaa Dib (assistente editorial das edições Saída de Emergência) e Luís Filipe Silva (escritor português de ficção científica). Entre os convidados estrangeiros contam-se as presenças do escritor Geoff Ryman e a académica Farah Mendlesohn.

No dia 2, das 16H45 às 17H15 (Anfiteatro III), estarei presente na sessão À conversa com David Soares.
Moderada por João Barrelas, consistirá numa conversa sobre o meu trabalho de escritor de literatura fantástica. Será, também, uma oportunidade para os leitores colocarem perguntas sobre os meus livros.

No dia 3, das 11H30 às 12H30 (Anfiteatro III), estarei presente na mesa-redonda Vinte Coisas Que Aprendemos da Literatura Fantástica.
Moderada por Margarida Vale de Gato, será uma conversa a várias vozes, com as presenças de António de Macedo, Octávio dos Santos e Inês Botelho.

Consultem com atenção o programa do colóquio, porque não faltam iniciativas e intervenções de grande interesse e pertinência que qualquer leitor de literatura fantástica deveria assistir.

sábado, 9 de outubro de 2010

Colóquio "Mensageiros das Estrelas"

No próximo mês, de 2 a 5, irá ter lugar um colóquio académico sobre literatura fantástica na Universidade de Letras de Lisboa, organizado pelo Centro de Estudos Anglísticos dessa instituição, chamado Mensageiros das Estrelas. Entre os organizadores, estão Safaa Dib (responsável editorial das edições Saída de Emergência) e Luís Filipe Silva (escritor de ficção científica). Contará com inúmeros convidados de peso, tanto internacionais como nacionais. Entre os primeiros incluem-se o escritor Geoff Ryman e a académica Farah Mendlesohn.

Eu irei estar presente numa das mesas-redondas que irá falar sobre literatura fantástica e numa conversa a solo onde falarei sobre os meus romances. Em breve, divulgarei as datas das duas participações.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

«Uma obra-prima de investigação e erudição»

Nas vésperas da publicação do meu novo livro de contos, A Luz Miserável, continuam a aparecer excelentes críticas aos meus romances: desta vez ao A Conspiração dos Antepassados (Saída de Emergência).
«Uma obra-prima de investigação e erudição, plasmada duma forma ficcional para melhor aceitação das moles, não tenho problemas em recomendar altamente este romance extraordinário, que penso será recordado no futuro das nossas letras como um dos marcos do início deste milénio. Assim o queiram as vontades.»

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A propósito de "O Homem do Castelo Alto"

A propósito da notícia da publicação de O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick, pela Saída de Emergência, vale a pena reflectir sobre os caminhos alternativos que a história ocidental poderia ter tomado se, em momentos de charneira, as circunstâncias tivessem sido diferentes das factuais. Neste romance de Philip K. Dick, as forças do Eixo ganham às dos Aliados, imprimindo um inédito planisfério no qual, após a Segunda Grande Guerra, os Estados Unidos foram esquartejados e partilhados entre a Alemanha e o Japão imperiais.
Vale a pena, pois, falar sobre outro Philip: Philip Ball, autor de Critical Mass: How One Thing Leads to Another (Farrar, Straus & Giroux, 2004). Neste livro de divulgação científica sobre a aplicação da física ao estudo das dinâmicas sociais, Ball parte de uma visão mecanicista do mundo, inaugurada por Thomas Hobbes em Leviathan, e atravessa, entre outros campos, os estudos estatísticos do astrónomo belga Adolphe Quetelet e as ciências económicas desenvolvidas por Adam Smith sempre estabelecendo analogias entre fenómenos físicos e o comportamento das populações, no sentido de se construir uma «física da sociedade». Embora as intenções do autor não se encontrem despoluídas de alguma temeridade, vale muito a pena falar sobre um exemplo intrigante que ele desenvolve no Capítulo 12 (Join The Club — Aliances in Business and Politics) e que endereça a previsão de cenários históricos possíveis. Um exemplo que nos diz respeito, enquanto portugueses.
Substituindo densidade e pressão por ano e configurações, dois investigadores da universidade do Michigan usaram um programa utilizado para testar o comportamento de moléculas gasosas para prever as possíveis alianças entre países europeus durante a Segunda Grande Guerra e concluíram que poderiam ter acontecido dois cenários.
Craig Reynolds já realizara algo parecido quando estudou o comportamento de bandos de pássaros em voo, usando um programa de computador semelhante: os seus Boids, neologismo criado com o recurso aos nomes bird e android, simulam na perfeição os movimentos de um bando de pássaros e são capazes de tomar decisões baseadas em apenas três configurações, 1) voar à mesma velocidade do pássaro (ou do agente, no caso do próprio software) mais próximo, 2) manter a proximidade e 3) evitar colisões. Os morcegos virtuais que podemos observar no filme Batman Returns, de Tim Burton, assim como diferentes criaturas de outros filmes, foram desenvolvidas com o recurso a este programa. Pensem no ainda mais perfeito Massive, concebido por Stephen Regelous para a Weta Digital como uma ferramenta que pudesse criar os exércitos dos filmes que compõem a trilogia The Lord of the Rings de Peter Jackson, e podem imaginar o grau de complexidade que o comportamento desta espécie de indivíduos virtuais pode assumir.
As configurações escolhidas para pautar o comportamento dos dezassete países europeus que integraram a experiência foram as suas religiões e disputas territoriais, identidades nacionais e culturais, economias e histórias. Com base nestas informações, o software mostrou que poderia, de facto, existir um conflito entre dois conjuntos de países arrumados desta forma: o do Eixo (do lado de Hitler) e o dos Aliados (ao lado da França e dos Estados Unidos). Só que nesses conjuntos alternativos, Portugal faz parte do Eixo. Surpreendentemente, Ball diz-nos que o facto de Portugal ter sido escolhido pelo programa para fazer parte do Eixo é uma anomalia, pois éramos parceiros da Inglaterra, o que, só por si, nos colocaria do lado dos Aliados e nos excluiria da amostra de nações neutras, como a Suíça e a Suécia (pág. 286). Ao que parece, a simpatia que o Estado Novo sentia pelo regime alemão não passou despercebida pelo programa, que, repito, analisou um número generoso de características importantes para chegar a esse resultado. O estudo destas análises históricas contra-factuais é ainda o assunto de um livro curioso que vale a pena ler: Virtual History: Alternatives and Counterfactuals, editado pelo historiador Niall Fergusson (Basic Books, 2000) e que contém dois capítulos que poderiam ser satélites de O Homem no Castelo Alto. São eles Hitler's England: What if Germany Had Invaded Britain in May 1940? de Andrew Roberts e Niall Fergusson e Nazi Europe: What if Nazi Germany Had Defeated the Soviet Union? de Michael Burleigh (págs. 281-347).
A segunda conclusão da experiência relatada por Ball foi a de que outro conflito, desta vez com catorze países associados contra a União Soviética, a Grécia e a Jugoslávia, poderia ter irrompido em 1936. Ball acredita que estes modelos podem ser uma ferramenta importante para clarificar situações futuras: «But the model might be of greatest value looking forward. What can it teach us to expect of relations in the volatile Middle East, where for example Israel, Syria, Iran and Jordan are locked into a frustrated mutual antipathy? Might religious similarities and fear of Western interference outweigh political differences in creating an alliance of Islamic states? Where would that leave Turkey?» (pág. 293).
Todavia, não existem modelos perfeitos; sobretudo se forem produzidos por um programa de computador que aponta cenários possíveis — lógicos, seria mais correcto — suportados por apenas seis ou sete ou quinze configurações. Em oposição aos pássaros que Reynolds estudou com os Boids, os seres humanos geralmente não agem de forma lógica e os seus comportamentos podem tomar contornos imprevisíveis. Nada garante que duas nações inimigas não venham a reconciliar-se no futuro para combater um inimigo comum com maior poder de fogo; ou que um país aparentemente amistoso não declare de surpresa guerra a um país vizinho, iniciando uma catástrofe a grande escala.


Esta espécie de simulações são fascinantes, e até oferecem ocasião para se passar o pano na gordura que ofusca a bola de cristal, mas não dispõem de autoridade —falta-lhes precisão para, se possível, diagnosticar o futuro de forma científica. Consistem, somente, em exercícios; nos quais se projectam as premissas da Psycohistory: ciência fictícia envisionada por Isaac Asimov, no primeiro volume da sua série de ficção científica Foundation. Nessa história, o psico-historiador Hari Seldon descobre que, daí a 500 anos, uma nova idade das Trevas irá ensombrar a raça humana e tem a ideia de salvar todo o conhecimento num empreendimento gigantesco: a Encyclopedia Galactica. Ora, o tipo de modelos que Ball nos apresenta serão mais úteis se forem utilizados para regressar ao passado e desfiar outras hipóteses dos novelos de informações que já estão arrumados no cesto.
Talvez seja wishfull thinking, mas acredito que podemos aprender muito com essas hipóteses não-nascidas e compreender por quais motivos a história tomou um determinado rumo em prejuízo de outro.