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sábado, 29 de junho de 2019

O dom da Última Palavra

Em cada período os indivíduos morrem de acordo com o espírito do seu tempo; e um dos aspectos mais deletérios da hodierna medicalização da morte é roubar-se aos moribundos o dom da Última Palavra — pois como podem proferi-la com tubos ensartados na boca?

Já não se crê que a alma vai adquirindo consciência de si enquanto se descarnifica e que, nesse revificante desamodorrar, alcança arcanos que olhos humanos são incapazes de perscrutar; não se atenta aos mussitares mortiços, plenos de memorabilia ultra-tumular, entoados com a desarmonia própria de sopros extintos. Trincafiados nos hospitais, amordaçados com látex ou silicone, os nossos mortos expiram em adiáfora aglossia, encarcerados em abjecto mutismo somente ferido por unissoantes monossílabos de desconforto — por vezes, é vertida por olhos sem luz uma peregrinante lágrima em reles reologia; quase sempre, secreções mucóides sarapintadas de sangue, padrões marginais de desespero.

Somos do tempo da morte açaimada.

Um cronista americano


A nova adaptação do romance It, de Stephen King, estreada em 2017, evidencia o quanto este escritor americano deve a Lovecraft na tentativa de edificação de um universo negro coeso; em principal, na série de livros The Dark Tower, espécie de mapa e breviário desse mundo autoral, o arranjo taxonómico dos agentes do mal e do bem parece feito propositadamente num plano cósmico que remete para concepções lovecraftianas — especialmente na natureza extraterrestre daqueles que, poder-se-ia pensar, seriam demónios

O monstro de It, já o sabíamos do romance, é uma entidade espacial — extraterrestre, por conseguinte —, mas comporta-se tal qual um demónio das mais tradicionais concepções demoníacas assacadas da teologia: passando ao lado do facto de que não é fácil conjectuar sobre como se comportaria um extraterrestre, na literatura de bruxaria é prerrogativa dos demónios 1) conhecer as propriedades ocultas (pensamentos dos homens, inclusive) porque os seres espirituais vêem a essência das coisas, assim como 2) usar essas propriedades ocultas de modo físico, mas ilusório, de maneira a ludibriar vítimas humanas e 3) por fim consumir as almas ou, pelo menos, manietá-las. Em suma, estes são os poderes da Coisa, completa representação daquilo em que consiste um demónio, até na revelação final de que é feito de luz (éter). Com efeito, estas espécies de criaturas feitas de luz morta — deadlights, no original — são a criação mais lovecraftiana de King, pois quem olhar para essa luz ou morre ou enlouquece, um tropo desenvolvido por Lovecraft para reforçar a ininteligibilidade dos seus antagonistas extraterrestres, cujas formas arquitectadas para além da compreensão humana enlouqueciam quem as contemplava.

Porém, King não é Lovecraft: não só lhe falta uma certa petulância aristocrática que Lovecraft injectava nos seus textos e que funcionava muito bem (King é, em oposição, uma voz totalmente popular, da rua, e muito mais sentimental), como as criaturas que inventa não descolam do plano terreno — estão demasiado interessadas nas personagens humanas para que o sentimento de altivez alienígena se faça sentir. São, em suma, demónios secularizados.

Nesse aspecto, quase todos os vilões preternaturais da cultura popular dos ultimos setenta ou oitenta anos são demónios ou entidades espirituais secularizadas, postas em cenários "científicos" ou materialistas. Assim, o modo de derrotá-los é, de igual modo, secular, plebeu: em It, para regressar ao tema, o grupo de miúdos vence o vilão, obrigando-o a hibernar forçadamente, somente por ultrapassar o medo que sentem por ele. No romance a estratégia encontra-se melhor explanada e até tem um nome (o Ritual de Chüd), cifrando-se numa espécie de braço de ferro mental entre crianças e criatura, que deixa esgotadas as primeiras. No fundo é a ideia secular que "o poder está dentro de nós", atomização no indivíduo de uma ajuda espiritual tradicional. Aqui não há necessidade de introduzir conhecimento (grimórios, objectos) na luta contra o mal: basta "ter coragem". Nem o sinal da cruz pica o ponto, mesmo como mera coordenada cultural do mundo em específico no qual a acção decorre. Neste ponto, a ficção de Lovecraft conceptualiza com mais realismo a natureza humana e a natureza alienígena das suas entidades: estas não estão interessadas em dialogar connosco e nós não temos nenhuma capacidade intrínseca de derrotá-las. Lovecraft é um escritor ateu e as suas criaturas também o são! O mais perto que King andou deste conceito foi no conto The Mist, em que um rombo inter-dimensional deixa entrar na nossa esfera de existência uma macrofauna que levará em pouco tempo o ser humano à extinção (a adaptação para cinema deste conto é muito eficaz, mas o final, embora poderoso, já não comporta o niilismo lovecraftiano original).

No fundo, a minha crítica é dirigida à incoerência interna dos elementos semânticos: sou incapaz de ver na Coisa uma entidade cósmica com milhões de milhões de anos de existência. Só vejo um demónio cristão secularizado colocado num contexto secularizado de luta contra o Mal. No livro, o astigmatismo é ainda pior, porque esse contém outras entidades cósmicas, do Bem, que dão uma mãozinha para derrotar o monstro.

King brilha com grande luz é na construção de ambientes e personagens: poucas vezes se encontram personagens tão bem caracterizadas e com personalidades tão bem buriladas. O paradoxo de King é que, apesar da sua grande imaginação e capacidade inventiva, ele é bem capaz de ser um melhor escritor pós-realista, uma espécie de Faulkner para o século XXI, ponha-se nestes termos, que um escritor do sobrenatural. Este lado mais "literário" de King costuma vir à tona nos contos e nos textos de menor dimensão, como no intrigante The Girl Who Loved Tom Gordon ou nas emocionantes colectâneas Different Seasons ou Hearts in Atlantis, que contém retratos notáveis de uma América profunda, secreta e lírica. Não é à toa que dois dos melhores grandes filmes das últimas décadas sobre a América (Stand by Me de Rob Reiner e The Shawshank Redemption de Frank Darabont) tenham sido adaptações de dois contos de King de Different Seasons. O lugar de King nas letras americanas já estará garantido, precisamente, pelo seu talento de cronista do seu tempo, de intérprete do Espírito americano.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Como nascem as palavras


Poucas vezes se tem a oportunidade de assistir ao nascimento de uma palavra.

Elas principiam nas mentes dos escritores, que criam neologismos quando sentem que o vocabulário à disposição não é suficiente para manifestar nos textos as ideias que os inquietam – fenómeno que, esclareça-se, é cada vez mais incomum por culpa da higienização da língua em curso, que ignora o carácter simbólico dos nomes ao propô-los antes como meras descrições (é neste sentido que se vão arrancando do léxico palavras que não se comportam como descrições, digamos, “gerais” – existe uma guerra surda contra o particular e o singular), e pelo pavor presentista à adjectivação, entendida como uma obstrução à transmissão de mensagens mundificadas, racionais e equitativas.

Como escrevi, poucas vezes se tem a oportunidade de assistir ao nascimento de uma palavra, desde o conceito à forma, mas o meu exemplo favorito dessa ocorrência foi plasmado pelo erudito autor inglês seiscentista Thomas Browne num opúsculo que nem sequer tencionou tornar público (inicialmente, no mínimo).

Em Religio Medici, de 1643, um ensaio confessional sobre a relação da crença religiosa (ou falta dela) e a profissão de físico, Browne reflecte varias vezes sobre a morte; assim, a dada altura, no entrecho de uma observação sobre o martírio, pode ler-se o seguinte:

«The leaven therefore and ferment of all, not onely Civill, but Religious actions, is wisedome; without which to commit our selves to the flames is Homicide, and (I feare) but to passe through one fire into another.» [Este sublinhado e os seguintes são meus.]

Nestas linhas, a voluntária entrega do indivíduo à morte é descrita como sendo «homicídio», mas, mais à frente, quando se comenta o desfecho da vida do tribuno romano Catão, o Novo, encontramos o seguinte:

«There be many excellent straines in that Poet [Lucano], wherewith his Stoicall Genius hath liberally supplyed him; and truely there are singular pieces in the Philosophy of Zeno, and doctrine of the Stoickes, which I perceive, delivered in a Pulpit, passe for currant Divinity: yet herein are they in extreames, that can allow a man to be his owne Assassine, and so highly extoll the end and suicide of Cato; this is indeed not to feare death, but yet to bee afraid of life. It is a brave act of valour to contemne death, but where life is more terrible than death, it is then the truest valour to dare to live (…)»

Considero este exemplo emocionante: com poucas páginas de entremeio, a ideia de dar o ser a uma nova palavra, que coalesce na designação «suicídio», porque «homicídio» é considerada exígua para albergar a inteireza do sentido que o autor ambiciona expressar. E, no entanto, foi preciso esperar por 1643 para que Browne, letrado obcecado com a criação de neologismos, o fizesse (foi, também, o criador de centenas de palavras, como exaustão, computador, literário, alucinação, precoce, invigorar).

Cito sempre um exemplo português que reforça esta novidade: no capítulo VIII da quatrocentista Crónica da Guiné, o cronista Gomes Eanes da Zurara narra desta forma o receio que os navegantes exprimem ao Infante D. Henrique quando este lhes pede para irem para além do Cabo Bojador:

«– Como passaremos – deziam eles – os termos que poseram nossos padres, ou que proveito pode trazer ao Infante a perdição de nossas almas juntamente com os corpos, que conhecidamente seremos homicidas de nós mesmos

O sentido e a aplicação de «homicidas de nós mesmos» são idênticos aos que se lêem na primeira transcrição de Browne – «to commit our selves to the flames is Homicide» –, mas a criação da palavra oportuna só viria pouco mais de dois séculos depois.


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Na vacuidade do oceano cósmico

Atrevamo-nos a dar esta resposta à premente pergunta sobre se seremos náufragos na vacuidade do oceano cósmico: estamos sozinhos. Será assim tão desesperante compreender que Atlas poderá carregar um universo vazio?

A vida terrena é um hápax — é, além disso, prisioneira daquela excrescência arquitectónica que nenhum mestre conseguiu ainda erradicar: as enjuntas, triângulos formados pela inscrição de um círculo dentro de um quadrado. Na cosmogonia desenhada pelo artista quinhentista português Francisco d'Ollanda o triângulo é a forma fundamental; telúrio que se derrama sobre o globo para constituir os elementos e os seres, a unidade primeva da vida. Em simetria, para o novecentista inventor americano Buckminster Fuller também o triângulo era o primeiro objecto, a forma primordial por ele serializada em massa na esférica estrutura das suas cúpulas geodésicas.

A vida é uma enjunta formada pela sublime construção do universo; suprema superfluidade que prospera naturalmente, somente pelo harmonioso encaixe de cegas estruturas que em nada se lhe relacionam: termirácula, prodigeomaturga, unarrepetível. Na subitânea dimensão que lhe foi proporcionada, a vida é proteica, multifária, polimorfa; alfabeto adaptável a todos os idiomas e geografias.

No conto O Estudante, Chekhov descreve a comoção sentida por uma aldeã viúva e sua filha ao escutarem, enquanto se aquecem diante de uma fogueira, o relato da paixão de Cristo que lhes é narrado pelo titular estudante, que se lembrou de como Pedro negou Jesus enquanto se aquecia diante de uma fogueira no pátio do Sumo Sacerdote. As mulheres choram sob uma dor profunda, como se fossem elas próprias mãe e irmã do Messias — e o estudante afasta-se, perplexo, por presenciar essa plangência com dezanove séculos de atraso. Ao voltar de barco a casa, o jovem encontra a sua aldeia na linha do olhar e sente-se preenchido por um poderoso sentimento de «juventude, saúde e força» e por uma «felicidade misteriosa». Escreve o autor que «a vida parecia encantadora, miraculosa, imbuída de exaltante significância».

Existe exaltante significância na vacuidade do oceano cósmico. Existe exaltante significância neste esconso formado pelo arco de titânicas forças físicas. Está imbuído de um ininterrupto sinal que é emitido por este ínfimo lodaçal do tempo em que, por excepção, nascemos e que continuamente nos serve de guia no nevoeiro cruel da existência. Esse cordão invisível estendido entre o início e o fim nunca se recolhe ao toque: esse cordão repercute a linguagem da história e do mito. Diz-nos que não estamos abandonados. Acompanham-nos todas as vidas extintas que se intersectaram para chegarmos mais longe — admirável panteão que nos albergará um dia. No interior da inesgotável enjunta que nos deu o ser não somos derelictos.

Essa transparente iminência fez chorar as personagens de Chekhov. Essa proximidade emociona-nos quando lembramos os nossos mortos: onde estarão os pais e as mães desaparecidos senão aqui, na diáfana e improvável excepção que é a única realidade que conhecemos. A única verdade que conhecemos. Mortos e vivos, estamos todos aqui; numa perdida enjunta que mal se distingue na imensidade. Numa crudelíssima e friíssima fímbria do cosmos.


Aforismos



1) Não me lembro de alguma vez ter visto um cão indolente, mas os gatos são capazes de passar horas a olhar para o ar. Deve ser por isso que não existem gatos de guarda e os cães não sonham acordados.

2) Foi uma coincidência feliz que o hábito de castigar alunos virando-os contra as paredes e a prática de decorá-las com papel de parede tenham desaparecido mais ou menos ao mesmo tempo. Quão penoso seria ainda mais o castigo se o aluno tivesse diante de si uma aborrecida parede branca?

3) As raposas regougam, mas alguém as ouviu gougar? Deve ser desta situação que advém a sua reputação matreira: só se ouve o riso e, assim, é natural que se ache que estavam em segredo a fazer pouco da gente.


4) Era tão minimalista que a sua árvore favorita era o palito.

5) A banca evita decorar as novas notas com rostos de personagens históricas, porque é de mau gosto que os cidadãos tenham na carteira imagens de pessoas que não conhecem.

6) Tourada é coisa de Mitra.

7) É raro, mas há refrãos tão bons que dispensavam o resto da canção. É ainda mais raro, mas há dias tão bons que dispensavam o resto da vida.

8) Tardígrado: que com suas garras é do dragar dito.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Uma hipociclóide trajectória de vida

 
A máquina humana é um eternigrama, cujo fulcro é o coração: em forma de cone, ele é a jóia orgânica que mais se assemelha à representação cónica do tempo conceptualizada pelos físicos, segundo a qual cada indivíduo é o orifício de uma pessoalíssima âmbula por onde passa como areia em vidro o fluido espácio-temporal — atrás, uma história vasta de ocorrências e possibilidades contra-factuais; em diante, todas as conjecturas. Somente o presente é pequenino, quasi-unidimensional. Em momentos de morbidez ou melancolia, essas imensidões atemorizam, uma por arrependimentos, outra pelo desconhecido — e em ambas o coração pronuncia-se aflito como pássaro em gaiola; infinitesimal ponto de fuga de todos os universos pessoais, uma topografia traçada em quadrícula por sismografias originadas nesse Cocito que é o occipício.

Porém, de que tempo estamos a falar? Mutante que se transfere por inteiro de uns anos para outros, objecto que oxida verdadeiramente e do qual a velhice é a ferrugem, o homem só se torna compreensível se for pensado como criatura híbrida de matéria e de espírito — de tempo —, tal como a marinha lesma verde e os vulgares cogumelos das nossas matas são seres híbridos entre o animal e o vegetal. O ser humano é um pólipo entre o carnal e o temporal, carneiro da Tartária entre animal e transcendente, na sua hipociclóide trajectória de vida não vive, verdadeiramente, nem no mundo, nem no tempo: erosivo, aquele esboroa-lhe o corpo com impiedosos rasgos de senectude; o outro fá-lo estrangeiro da sua própria identidade, ruína entre ruínas. Só no fluxo eterno está em casa o ser humano — só na coruscante sefira dos sonhos e dos deuses ele se encontra entre iguais, orbivagante e pluridimensional. Só aí nasce idoso e morre jovem; só aí acena uma despedida quando se aproxima; só aí, entre protaicos da mesma ordem, ele comunica com um sargaciante oceano de memórias em que coexistem todos os períodos.

A vida é, pois, como o coração, ponto de fuga entre dois estádios de não-existência. Nodular tirocínio que todos os seres precisam de atravessar.


quarta-feira, 29 de maio de 2019

Estrangeiro do presente


Somos holoedros anfíbios: vivemos multifacetadamente, em simultâneo, no presente e em outro tempo — no tempo exterior e num tempo interior. Um mede-se pelos ponteiros e é afectado pela atracção da força gravítica; o outro não se deixa agrilhoar pela física e mede-se com hieróglifos secretos que desenhámos a lápis e a giz na infância, mede-se através da aceleração do músculo cardíaco cada vez que rompemos num mergulho essa membrana feita de memórias. A relação axissimétrica entre ambos os tempos define o modo particular como nos comportamos no plano espacial: em harmonia com o presente ou estrangeiros do presente. O presente e nós como capitéis perclaramente nivelados ou, então, parêntesis afastados por sucessivos graus de infinitude.
O tempo interior é congénito, cronóvoro, eléctrico-resinoso de tanto se esfregar no âmbar em que se cristalizaram os nossos diversos eus: a genealogia das nossas identidades e idades é feita da impressão dessa cromatófora faísca com o pó das nossas células mortas, à guisa de dendrites lichtenberguianas — à primeira observação tão confusa quanto a turfa de Dürer, na remistura de ramagens, caules e raízes, mas única, com a singeleza e a autoridade mansa de um equinodermado borrão de tinta, pejado de fiordes, rombos e escolhos microscópicos que algum tipo de forma de vida, à sua escala, irá um dia navegar. Essas amorfidades falam connosco. Dizem-nos que o nosso tempo não é o tempo do mundo. O tempo do mundo será o nosso caixão, mas não foi o nosso berço, pois de outros tempos interiores nascemos — e para um outro tempo seu cognato viajaremos.
Por conseguinte, a obsessão em ser-se do tempo do mundo, um tempo que não é nosso, é uma moléstia bem miserável.

O sonho é um órgão autopoiético


O sonho é um órgão autopoiético: cada persona, cada panorama patenteado durante o sono, encerra parte de um padrão numa particularíssima e pessoal topologia que o próprio órgão vai desenvolvendo em detalhe. O órgão do sonho é, pois, físico e diáfano, em simultâneo: não flui sangue nas suas veias, mas memórias dos nossos mortos; e, assim como uma esponja se fragmenta ao ser coada, mas se regenera de imediato do lado oposto da malha de arame, o órgão de sonho dissolve-se quando despertamos, mas reintegra-se intacto cada vez que adormecemos. Este comportamento não é guiado por nenhum sistema nervoso — o órgão de sonho é antigo, primevo e pristino, parente de uma era em que luz e treva eram as coordenadas espaciais existentes. Uma era frondejante de simbolismo — substantivo que, aqui, volta a ser substância, pois simbolismo é metabolismo.
Os mortos por ele são atraídos: não os mortos, em suma, mas os vestígios que deixaram em nós — cada sonho a que o órgão de sonho dá o ser é um icnofóssil: resquícios de vidas que abandonaram a nossa companhia ocultam-se nas suas pregas e arquivoltas; vozes ainda familiares; gramática de cor e artefactos; gestos que pensávamos nunca mais voltar a ver. Serão os nossos mortos invocáveis a partir destas translúcidas palinfrasias? Destes duplos que, como esponjas e remanescentes teriomorfos pré-câmbricos, se dissolvem e sublimam constantemente?
Os pulmões oxigenam o sangue. Os olhos deixam passar a luz. Os sonhos ligam a vida à morte.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Simplicidade e singeleza


A primeira vez que ouvi falar na realizadora americana Kathryn Bigelow foi quando li um ensaio sobre o seu filme Blue Steel, integrado no livro The Cinematic Body, do filósofo americano Steven Shaviro, que comprei em 1996 na livraria-café Laie de Barcelona (curiosamente, foi nessa vez que aí comprei um disco com as músicas compostas pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que antes de filosofar quis ser músico — até hoje, quando penso em Nietzsche lembro-me do Verão ventoso de Barcelona e das ruas estranhamente desertas naquela hora da tarde).
Nesse tempo não conhecia a obra de Bigelow, mas o texto abriu o meu interesse — um pouco mais à frente iria ver alguns dos seus filmes, como Near Dark, Point Break e Strange Days (por partida do destino, ainda não vi Blue Steel).
Tal como os filmes que citei na linha anterior, só vi The Hurt Locker uma vez, há uns anos, mas é um filme em que o comportamento obsessivo do protagonista parece comunicar com uma perdida classe de personagens oriundas de uma literatura — bem masculina — feita de pungentes e desarmantes relatos de experiências-limite.
Com efeito, é nas páginas de Joseph Conrad que encontro o mais perfeito simbionte da criatura cinematografada por Bigelow — no conto The Secret Sharer, contido no livro 'Twixt Land and Sea, um capitão retido em terra há demasiado tempo diz o seguinte ao, finalmente, regressar ao mar: «De repente, regozijei-me com a grande segurança do mar, em comparação com a inquietação da terra, com a escolha de uma vida sem tentações, que não apresenta problemas inquietantes, e investida de uma beleza moral elementar pela absoluta simplicidade do seu apelo e pela singeleza do seu propósito.» Esta é a chave para desencriptar a conduta do oficial desarmador de explosivos que, no filme de Bigelow, incapaz de relacionar-se com a complexidade do dia-a-dia familiar, decide tudo abandonar para seguir em exclusivo a sua carreira suicidária.
Ao contrário do que se poderia pensar (de modo natural, mas superficial), é a fuga para a «singeleza do seu propósito» que o empurra para o cenário de guerra, no qual sobreviver ou morrer são as únicas hipóteses possíveis. Não é, pois, o suposto aborrecimento da vida doméstica que desengatilha um novo alistamento, mas a inquietação diante de um mundo despido da «beleza moral elementar» — entomológica, até — das experiências-limite.
A domesticidade suburbana, esfera que roda num eixo demasiado imprevisível, pleno de afectos e preocupações, apresenta-se mais hostil ao veterano que os panoramas infernais da guerra. O mar para o capitão e as explosões para o soldado são lugares de culto da mesma ordem que um mosteiro para um monge. O facto desta sensibilidade ascética masculina ter sido tão bem transplantada para a tela por Bigelow testemunha todo o seu talento como cineasta.
A coincidência do livro e do disco comprados nesse dia prolonga-se no carácter nietzschiano desta personagem: aquilo que ela procura na intimidade com a bomba, eu diria que Nietzsche procurou no contacto com a escrita — extraordinariamente influenciado pela sua experiência como compositor, o texto de Nietzsche quer desarmar explosivos através do engenho filosófico mais temerário. Une-os o argênteo cordão da «absoluta simplicidade do seu apelo» e «a singeleza do seu propósito».

Sapos e santos


Sob a minha sinestesia, sempre que penso na palavra visualizo um matiz musgoso de verde e ouço, concomitantemente, o som de água em movimento, mas quando penso na palavra sapo penso na cor azul.
O primeiro caso explicar-se-á da seguinte forma: quando era criança, muito novinho, no final de uma tarde de Verão passada a preguiçar no mato — com direito a piquenique —, descobri uma rã que coaxava num rarefeito riacho forrado de folhas: em rigor, descobri a presença da rã, pois somente a ouvia. Nesse instante, quando avancei devagar para a margem, guiado apenas pelo lusco-fusco polvilhado na água, a rã calou-se e mergulhou ruidosamente, como uma pedra atirada para o fundo. Os cheiros da terra e das cascas das árvores, misturados com a tíbia reverberação do pulo da rã são insolventes na mente. Porém, não consigo explicar por que razão sapo e azul o são, do mesmo modo que não tenho explicação para as diferentes cores que atribuo aos dias da semana, aos números, e às texturas que, na minha imaginação, têm certas palavras.
Tenho predilecção pelas que começam com a sonoridade se, mesmo que a grafia as desacompanhe, como celofane — aos meus ouvidos, das palavras mais belas do nosso léxico. Para tal efeito ascende um tipo de hipálage, cognato daquela repetição que retira significado aos nomes e os transmuta em estrangeirismos — o mesmo fenómeno ocorre com rostos e objectos. Assim, a palavra sapo é bonita, mesmo que o animal que denomina não invoque, de imediato, análoga apreciação. É possível que, para mim, sapo seja azul, porque o sabão costuma ser azul — e ambos os substantivos soam similares ao tiro de partida. Sapo poderia ser onomatopeia para aperto de mão ou para quando se atira um livro fechado para cima de uma mesa — sons afáveis, que exprimem satisfação. Um som sincero, que nunca ludibria, que começa com um sorriso, num a aberto, e termina com um afago, num o resoluto, mas aveludado.
Da mesma família de associações é a palavra santo; contudo, esta e sapo são antitéticas. A samarobrivense Santa Ulfia de Amiens tem como tótemes os anfíbios que não a deixavam orar, mas é possivel entrosar santas e sapos na hagiografia da ibérica Wilgefortis, representada com barba no seu martírio crucificado, pois não é o sapo afamado de metamorfosear o sexo, graças ao seu órgão de Bidder, descoberto pelo portador de uma das mais singulares barbas do seu tempo?
Pogonomorfose. Sinestesia. Santidade.
O nome colectivo poderia ser verdade, mas só ouço uma rã a mergulhar no verde-musgo.
Existem rãs azuis em Lisboa, todavia: pintadas por Rafael Bordalo Pinheiro para a neo-gótica Tabacaria Mónaco, na Praça D. Pedro IV. A esta distância, não é credível que Rosendo Carvalheira, o arquitecto, que também projectou o restaurante Abadia, situado a poucos minutos de distância da tabacaria, tenha alguma vez pensado que as antropomórficas ranas bordalesas se agigantassem à sua própria fama, mas às cidades, que estão vivas, acometem-se-lhes as suas próprias sinestesias. Há anos, no decurso das minhas peregrinações psicogeográficas, descobri esta coincidência entre a minha e a da cidade.
A coincidência é o órgão de Bidder da memória.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Proferidos à existência


Plasmado num fundo preto, como se tivesse sido picotado de uma folha de papel-de-alumínio, o coração é um púlpito que emite uma monomaníaca prece e ela soa tal como espuma borbulhando no fundo dos ouvidos; como o marulho mussitado por anciãos somente letrados pela metade — ecos de um eco.
A sua semelhança com as actiniárias formas riscadas a giz no asfalto após um acidente mortal não é uma coincidência: o coração é o lugar de todas as tragédias, o derradeiro ponto final de todas as histórias. Nem todos os seres têm cérebro, mas raros são aqueles que dispensam um coração, intuição que, na antiga mitologia menfita, assistiu a ascensão do coração a torrente cosmogónica da qual tudo é proferido à existência. Ecos de um eco. O coração é um púlpito: ele fala, nós escutamos.
A sua linguagem é simples, como a dos sonhos: quase pictórica, puntuada por existência e ausência alternadas; passos pesados de uma bípede e pesadélica fera pré-histórica. O coração é aquilo que somos, uma geometria, uma alma, uma voz. Quando se cala, nós morremos.
Os corações proferem-nos à existência.
Nada mais não somos que as suas palavras.

domingo, 10 de março de 2019

Lista de Compras da Revista LOUD! na FNAC Chiado



O vídeo que gravei na FNAC Chiado para a rubrica Lista de Compras da Revista LOUD! já está disponível no perfil de YouTube dessa publicação: nesta entrevista poderão descobrir quais foram as minhas recomendações musicais e literárias para essa sessão.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Lista de Compras no próximo sábado na FNAC Chiado


No próximo sábado, dia 26, às 17H00, estarei no fórum da loja FNAC Chiado a convite da revista LOUD! como entrevistado na rubrica Lista de Compras: consiste numa iniciativa em que os convidados conversam com o público sobre livros, discos ou filmes que escolheram previamente na loja e que tenham particular importância para si. Apareçam.


Nota sobre o Absoluto


 
Ao ler neste momento sobre o problema filosófico do Absoluto, lembrei-me, de modo absoluto (isto é, acabado em si mesmo, não-contingente), de determinados espaços que vi poucas vezes na minha infância, mas que sempre considerei fascinantes: a estância e a drogaria. Na minha geografia mental, eles nunca contêm pessoas (tal como as melhores pinturas de Hammershoi), somente um florilégio de objectos e briquebraques, como espelhos, escovas, panos, louças; ali, na estância de atmosfera seca — tão grande que parecia uma imperfeição para a qual a ortogonal malha cosmopolita consistia em pérola — estão suspensas sobre o longo balcão de madeira dezenas de alfaias esqualomórficas, lemniscatas de ferro e cobre cujo uso nunca determinei: que estranha física, aquela que elevava o metal ao tecto e agarrava papel, areia e plástico ao chão, nas formas mais dóceis e perceptíveis de lixas, serraduras e mangueiras. Porém, na recendente drogaria todos os artefactos derivavam uns dos outros, em estonteante reprodução assexuada — amebas de vidro e tecido, de borracha e cortiça, dispostas nas escadas, nas paredes e nas portas. Infenitesimais parafusos coabitavam com colossais misturadoras de cimento, cujo antracíticos ventres davam ares de gigantes caldeirões caligráficos numa lista medieval. Cheira a cera e a suor e a farinha creme que se desprende de contraplacado serrado vai misturar-se como cacau em pó com a luz projectada da rua pela porta. E, no entanto, não existem pessoas nestes espaços atafulhados. Todos os sons, cores e formas estão lá por si só. E ao lado da caixa registadora vê-se um calendário cheio de pó e lascas de ferrugem: sem utilidade num espaço intemporal que é o da mente, é livre para existir por si mesmo, sem a contingência que o unia à marcação do tempo. Tóteme do absoluto num interior tão desértico e relevante quanto uma paisagem marciana.
 
 

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Dez anos de "Lisboa Triunfante"


 
Fez ontem dez anos que foi lançado, no fórum da loja FNAC do centro comercial Colombo, o meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência). Passado esse período, penso que o tema principal do livro, em vez de ser a cidade de Lisboa, como sempre considerei, é, na verdade, o tempo — o que é, como nos relacionamos com ele, de que modo somos transformados pela sua acção. Lisboa é a caixa de Petri dessa análise à nossa relação com o tempo; uma análise que, como é sabido por quem leu, se assume com a maior duração temporal possível. Só a Raposa e o Lagarto não vêem o tempo a passar por eles: quem vive nas alturas percebe o tempo com maior velocidade, diz a Física — vivendo num andar superior da existência, ambos vêem o tempo tão depressa, que é como se estivessem eternamente na mesma coordenada. É por isso que tanto gostam de imiscuir-se nos nossos assuntos: o ser humano oferece-lhes realidade.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A Morte é sempre declarativa: uma meditação




A morte é um idioma universal.
Um desesperançado esperanto de pontos finais e verbos abreviados. Catacreses contidas em runas ocultas. Uma linguagem sequencial de presenças e ausências. Quadrículos sobre os quais são desenhados os destinos. A vida advém quando se pinta para fora das linhas.

A Prudência faz vista grossa.
Ébria no venéfico vinho da imaginação.

O sabor a sangue assombra sítios de sacrifício. Orlas onde, no vocabulário alquímico, se é devorado por dragões: o fogo dos seus ventres é uma coordenada que transcende o tempo.
Ainda morno, o xamanismo entalhado em algares cria ondas de calor. Saurópsides e artiodáctilos são tótemes frequentes em mitos fundacionais. Serpentes e cervídeos – cornos e cobras desbulham várias vezes a pele.
Nas oficinas dos alquimistas há sempre répteis pendurados nos tectos. Há répteis pendurados em igrejas. Crocodilos conspícuos: reptante fé que a repetência anediou e tornou invisível. Gnósticos ofitas acreditavam que Cristo e a Serpente eram o mesmo ser; e, com efeito, ecdise e crucificação são alegorias de ressurreição.

São sinais sabidos: escamíferas marcas de santidade – antídotos artesanais que são oferecidos.
Diz a esta pedra que se transforme em pão. Mas a qual pedra e que tipo de pão?...
O genoma da história é simétrico: ela rima e os mitos repetem-se. O profeta Daniel eliminou um dragão dando-lhe um bolo de breu, gordura e cabelos. Segundo Sérvio, as cobras habitam nas águas e as serpentes sobre a terra. Os dragões, todavia, vivem em templos. Num único templo nunca coexistirão dois dragões.
A pedra que o chamado Diabo e Satanás, o Grande Dragão, ofertou no deserto foi um bolo análogo ao de Daniel, feito para banir o dragão Cristo do templo de que o primeiro era príncipe: este mundo.


Porém, o templo de Cristo não era este mundo. A serpente desta terra equivocou-se: o reino não era daqui. O dragão de David obumbrava outro templo. Interrogações que, à laia de locais, ainda podem ser visitadas.   
Sai desse homem, espírito impuro. Qual é o teu nome?
Respostas estioladas como imagens expostas ao sol.
Derrubai este templo e em três dias o levantarei. O templo, afinal, era o corpo: antropomórfico ponto de fuga de um reino feito de verbo. Fármacos sacrificiais: carbunculoses no leito de um recendente rio de peçonha.
Em meu nome expulsarão demónios, apanharão serpentes com as mãos e se beberem veneno não morrerão.

Apanharão serpentes com as mãos. Ao toque, as serpentes são secas e duras; espécie de voltagem tornada carne, animais de vocação eléctrica, de visão termostática. Os seus silvos ardem como choques na pele. Há que confundi-las, descendo o catre do possesso por um único buraco que depois é tapado: Para demónios e espectros, a lei é esta: por onde entramos, somos extirpados. Livres de entrar e escravos para sair.
Será o homem como os demónios? Cativo da porta por onde entrou? Imobilizado no seu livre-arbítrio quanto um possuído decumbente num catre? A multidão é uma escultura viva, tão barroca no seu dinamismo quanto água ou estrelas em movimento.
Tornei-me um estranho para os meus irmãos.
Dois inequívocos sinais comprovam, a infecção de veneno espiritual que é a possessão demoníaca: glossolalia e a forense aptidão de revelar aquilo que está oculto.

Sangue que aliena o Diabo.
Mercúrio transudando da caldeira.
Vê o behemot que criei como a ti.
É a obra-prima de Deus.
Os animais do campo divertem-se à sua volta.
Acaso te dirigirá palavras ternas?
Algo orfeico e acre infiltra a quadricular moldura que nos cinge.
Quem lhe furaria as narinas para passar argolas?
Os seus ossos são como tubos de bronze, a sua estrutura como barras de ferro.
Põe-lhe a mão em cima.
Vais lembrar-te da luta e não repetirás.
Que luta é esta?
Que téssera se oculta nesta tapeçaria?
Que gramatical tenebrário?
Altivez argustica. Soberba algébrica - padrão opocéfalo que alucina e cheira a latim.
Este é, afinal de contas, o verdadeiro rosto. Caos. Um anti-jardim: prepóstero paraíso onde pastejam os porcos.
Reveste-te, pois, de glória e majestade.
E, então, também eu te louvarei, se triunfares pela força da tua mão.
Brincarás com ele como um pássaro?
Quando se atira uma pedra à agua, as ondas param longe nas margens. No horizonte.
O horizonte do peregrino está pejado de cruzes.
Sob o matiz submarino de lápis-lazúli, a coroa de espinhos parece feita de coral: argamassa aquática de agulhas e pólipos    
Pela força da tua mão.
Em cada mão um ponto final.
Dois pontos.
A morte é sempre declarativa.





(Imagens: detalhes de painéis de azulejos do Convento de São Paulo da Serra d'Ossa. Fotos do autor.)