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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Filmes de papel

Escrever é uma arte feita de liberdade absoluta, na qual, de facto, a imaginação é o limite; mesmo assim, não falta quem se sinta confortável em adstringir-se com os rudes espartilhos veiculados nos conselhos dos cesaropapistas da "escrita criativa" (haverá outra?). Um desses ensinamentos mais tóxicos - sobretudo para principiantes - é o de que se deve "mostrar em vez de contar". Ora, "mostrar em vez de contar" é um critério pescado à escrita de ficção para cinema e televisão e não deveria ser aplicado em literatura, porque escrever um texto literário é muito diferente de escrever um argumento cinematográfico ou televisivo. E, assim, por culpa deste desastrado ensinamento, as livrarias enchem-se de falsos livros, cuja única desculpa para existirem parece ser a de que consistem em meros esboços das futuras adaptações cinematográficas e televisivas que farão deles.

O espírito neo-romano que embebe a actualidade, sobrevalorizante do mais elementar carácter utilitarista das pessoas e das artes, influencia a criação de obras literárias cada vez mais homeopáticas; ou seja, obras em que o princípio activo literário está muitíssimo diluído em água - tanto que, na maioria das vezes, é inexistente. Desapareceu, pois, o discurso indirecto; desapareceu, também, a adjectivação - desapareceu, enfim, tudo aquilo que impede a personagem X de ir ter com a personagem Y no menor número possível de páginas. Os poucos romances que ainda se apresentam como herdeiros de uma tradição verdadeiramente literária, em todas as acepções dessa designação, são desconsiderados pela crítica como sendo bizantinos, no sentido pejorativo. Mas quem sabe a sério de história não esquece que foi em Bizâncio que, a partir de finais do século III, se conservaram os modos e a cultura clássicos, em oposição ao barbarismo que medrou na metade ocidental do império romano. É uma alegoria simples de entender, até por quem não sabe ler.

E, na verdade, há muitos leitores que não sabem ler: sabem ver filmes de papel. Se lhes dessem um livro autêntico para as mãos não saberiam o que fazer com ele.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Contra a estupidez, a inteligência


E é por isto que os eBooks nunca poderão substituir os livros a sério.

(Actualização: entretanto, imediatamente depois de publicar esta imagem, vi que saiu esta notícia: «O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, propôs "alterações profundas do sistema político" no período pós troika 
Sem adivinhar, escolhi a imagem certa no momento certo: nunca precisámos tanto de mão-firme e mente aguçada como agora. Se não formos mais activos, mais bem-informados e mais inteligentes, seremos escravos para sempre. A notícia encontra-se aqui: http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3067487.)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Crióforo


Existem ligações evidentes entre a lenda grega de Hermes Krioforos (Hermes, o Portador de Carneiros), mais as suas representações clássicas (como esta cópia romana de uma estátua feita pelo escultor grego Calamis, no século IV a. C., pertencente à colecção do museu Barracco di Scultura Antica, em Roma), e a iconografia paleocristã que nos chegou datada do século II, na qual Cristo também surge como crióforo, mas traduzido para o significado paralelo de "Bom Pastor": o salvador do rebanho.
A partir do mesmo período, os cristãos primitivos foram instrumentais na popularização de textos religiosos organizados no feitio de códice: o comum formato de livro (em latim, a palavra homógrafa da qual a nossa descende tem origem no étimo caudex que significa tronco de árvore). O códice não é uma "evolução" do formato em volume, o tradicional rolo (da palavra latina voluminen que significa coisa enrolada), e ambos os formatos coexistiram durante muito tempo, destinando-se a finalidades distintas. E existe, de facto, uma diferença enorme entre ler um texto escrito num volume e ler um texto escrito num códice.

Somente a partir da difusão do conceito de códice (a palavra dex é um latinismo que só entrou na nossa língua na segunda metade do século XVIII) é que pode falar-se em leitura, no sentido contemporâneo. Não estou, pois, de acordo com a ideia de que os primitivos suportes de registo manuscrito, que podem ser traçados até à civilização suméria (ou a eras ainda mais pretéritas) fossem proto-livros: acho que consistiram em outras tecnologias, ao serviço de objectivos variados, como enumerar, contabilizar e anotar, mas não foram veículos para a leitura reflexiva e interpretativa como os códices vieram a tornar-se. É por esta razão que eu acho que a conversa de que o advento dos eReaders consiste num salto tecnológico da mesma ordem que aquele que se deu de prancheta para volume e de volume para códice e de códice manuscrito para livro impresso é uma arenga publicitária: a prancheta, o volume e o códice coexistiram, serviram diferentes propósitos e não podem ser observados como provenientes uns dos outros.

De modos inesperados, o imago crióforo relaciona-se completamente com o códice. Para começar, a criação do códice - do livro - não teria sido a mesma sem carneiros.
O uso da pele de carneiro como suporte para a escrita já era conhecido há muito tempo no mundo mediterrânico, mas foi na cidade grega de Pérgamo (na Turquia) que, no século II a. C., a manufactura de peles de carneiro (pergaminho), como alternativa ao papiro, ganhou uma grandeza e sofisticação inéditas até à data. Em síntese, o método artesanal para produzir pergaminhos era o seguinte: depois de esfolado o carneiro, a sua pele era mergulhada num recipiente cheio de água e cerveja para que ficasse limpa de impurezas e pêlos; em seguida, a pele era posta a secar ao Sol num estirador que a esticava com força. Quando a pele enrijecia, estava pronta para ser raspada (tradicionalmente com uma espécie de faca de lâmina semi-circular, que viria a ser chamada de lunellarium pelos romanos), branqueada e cortada.
Na Europa, a manufactura de papel (palavra que procede de papiro - com efeito, o papiro e o papel têm muitas semelhanças), feito de fibras vegetais, como linho e cânhamo, despontou principalmente na Península Ibérica durante a ocupação árabe (chegaram-nos livros árabes peninsulares, escritos em papel, e datados de finais do século XI), mas isso não afectou a indústria do pergaminho - nem sequer com o advento da imprensa de caracteres móveis, em meados do século XV, posto que imprimia-se em pergaminho. Mesmo assim, o papel depressa se popularizou, tornando-se um material cada vez mais barato - a mais antiga fábrica de papel da Península Ibérica, aproveitando para o efeito a força hidráulica, até já datava do primeiro decénio do século XV e ficava na cidade portuguesa de Leiria.

De maneira geral, os tamanhos padronizados de impressão de livros não mudaram muito: continua-se a imprimir em papel sob medidas influenciadas pelas dimensões proporcionadas pelas antigas peles dos carneiros que, ao serem retiradas dos estiradores, eram cortadas rectangularmente, de maneira a desbaratar-se as superfluidades correspondentes aos membros dos animais e obter-se uma prática superfície regular.
No mínimo, esse pergaminho rectangular podia ser dobrado ao meio até três vezes: à primeira, que oferecia duas folhas e quatro páginas, chamava-se folio (que deriva da palavra latina para folha - tinha esse nome, porque, de facto, era a primeira folha: o formato maior); à segunda, com a qual se obtinham quatro folhas e oito páginas, chamava-se quarto (a quarta parte); e a terceira, que oferecia oito folhas e dezasseis páginas, chamava-se octavo (a oitava parte). Os tipógrafos que assim o desejavam, imprimiam em pergaminho e em papel livros de tamanhos mais pequenos que o octavo (o duodecimo, por exemplo, que equivale às proporções de um actual paperback ou livro de bolso), mas só com a invenção das impressoras contemporâneas é que foi possível imprimir-se livros e outras publicações em tamanhos maiores que o carneiro mais corpulento, porque o papel, embora nada tivesse de animal, era cortado de acordo com essa bitola.
A maioria dos livros actuais é impressa em papel, mas as suas dimensões referenciam ainda aquilo que eu chamo de Ovina Proportione: todos os leitores são, por essa razão, Hermes Krioforos. (Como Hermes, na mitologia grega, é o deus da linguagem, assim como o inventor do alfabeto, acho que é um pensamento muitíssimo adequado.) 

A influência dos carneiros sobre o mundo dos livros não se esgota aqui. A própria palavra texto provém do étimo latino textu que significa tecido ou fios entrelaçados e que se usava, sobretudo, para designar a lã.
Na sua obra Instituto Oratoria (As Bases da Oratória), o filósofo e orador romano Quintiliano (século I) diz que é preciso escolher bem as palavras e entrelaçá-las num têxtil elegante e apurado. Muitas expressões relacionadas com a escrita ou com o acto de contar histórias correspondem-se com a lã e seus novelos (como «perder o fio à meada»).   

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Deixem os livros serem livros

Um pertinente post de Larry Nolen sobre a nova tendência de tornar a linguagem dos clássicos literários mais "acessível". O meu contributo para essa discussão está na caixa de comentários e transcrevo-o verbatim para aqui:

«David Soares said:
I think it's a sign of the times, a consequence of the rapacity with wich we absorb information: pruning literary works that way seems to me like just one more nail in the coffin of knowledge, since absorbing information and absorbing knowledge are two different things.


I am a writer and I like excentric, uncustomary (and just plain weird) words. I truly believe that being a writer is all about that: being in love with extraordinary language.

That's why I love authors like Alexander Theroux, John Barth, Lawrence Sterne (and others) so much. In Portugal we had a great and unique writer of words that was Aquilino Ribeiro - even his children's book (The Novel of the Fox) is full of offbeat and odd words.

But today we (writers) hear: don't use adjectivation, don't use the exclamation point, don't use adverbs, don't use this and that... So what can we use in order to make a literary text don't look like something you could read in Newsday or Metro?...

We truly need to let books be books again (and unashamedly).

Cheers.»

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sobre os livros e a vida


A vida tem o mesmo problema que uma transmissão noticiosa em directo para a televisão: a falta de edição.

É, em essência, material em bruto - e sem sentido, a não ser aquele que lhe é, mal ou bem, colocado a posteriori por quem vive. Em oposição, uma notícia editada é, se for realizada com êxito, uma peça cirúrgica sobre a vida. É algo esclarecedor, que faz pensar. Quando são bons, os livros são ainda melhores: não só têm sentido, como têm uma visão. E essa visão, se for escrita com sofisticação, com alcance, pode mudar o mundo. Por conseguinte, nós, escritores, somos (ou deveríamos ser) intermediários entre a vida, entre material em bruto, tão sujo e ineficaz quanto minério, e o papel, palimpsesto para visões refinadas como aço ou cristal na fornalha fervente da mente.

Aqueles que dizem que o conhecimento livresco é inferior ao vivido não sabem do que estão a falar: onde é que se pode aprender como morre uma estrela, numa explosão tão intensa que observá-la de perto daria a impressão de demorar séculos a fio, a não ser num livro? Onde é que se pode ver borboletas com asas feitas de pão-de-forma (já barradas com manteiga), a não ser num livro? E onde é que se pode encontrar o suposto salvador de toda a humanidade, cingido e sangrante, a não ser num livro? Basta abrir um livro para dar luz à casa.

Os livros são vida editada pelos escritores. Já a vivemos, já fomos enganados pelas suas emboscadas, e apresentamos a nossa visão sobre ela. As nossas ideias.

As ideias, claro, não existem. Não se pode tropeçar numa ideia.

Mas só elas são capazes de mudar o mundo.

terça-feira, 29 de março de 2011

Os Falidos do Intelecto


A quantidade de visitantes portugueses e brasileiros que vêm parar ao Cadernos de Daath com pesquisas como «livro-tal sinopse» ou «trabalho sobre livro-assim e assim» ou «tese sobre o-tal-livro» faz-me pensar que anda por aí muito aldrabão nos ensinos secundário e superior.
Já que não querem ter o trabalho de ler os livros, ao menos tenham o de imprimir os vossos mafianços sem os endereços de Internet na margem das páginas. Já muitos falidos do intelecto foram apanhados dessa maneira, santa burrice!...

terça-feira, 22 de março de 2011

Leituras

Leituras: neste momento, vou a meio de Kraken, de China Miéville.
A lista das leituras seguintes contém títulos como Hadrian the Seventh de Barão Corvo, Giles Goat-Boy de John Barth, The Hidden Reality de Brian Greene, The Stuff of Thought de Steven Pinker, Moby Duck de Donovan Hohn e The Book of Universes de John D. Barrow.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Os Livros das Minhas Vidas

Para ser sincero, um convite para falar sobre os livros da minha vida soa como o som trítonocárpico das falanges da mão da morte a bater-me à porta, pois se a invitação se refere aos livros da minha vida, então tenho de aceitar que ela está perto do fim e não vou ter tempo de ler mais nenhum título: mortis en solatium. Talvez. De qualquer das formas, os livros da minha vida – no mínimo da que vivi até este momento; e no limite até ao final da escrita deste texto – não são apenas os livros que eu li, mas aqueles que escrevi. De uma forma ou de outra, os livros são uma parte muito importante da minha vida, porque a leitura e a escrita são duas ocupações às quais devoto a maioria das horas. No início deste parágrafo empreguei o verbo falar, porque é isso mesmo que estou a fazer convosco: a contar-vos um bocadinho de que é feita a minha experiência com os livros. Apenas um bocadinho – é, somente, uma precaução da minha parte, de modo a evitar a insolvência de memórias e garantir que me sobra algo sumarento para pagar ao barqueiro, porque o maior pecado que se pode cometer, mesmo depois de morto, é o da negligência.

Aprendi a ler com a banda desenhada Donald e as Formigas, de Carl Barks, publicada em Portugal pela Editora Abril/Morumbi no número 1500 da série quinzenal Pato Donald. Decorria o ano de 1981, e eu, sentado no sofá da sala de estar da casa dos meus pais, observava com atenção as vinhetas e tentava decifrar as palavras contidas nos balões. Então, num momento inesquecível, que eu só posso comparar com o acender de uma luz dentro da minha cabeça, as personagens deixaram de falar para os balões e começaram a falar para mim: compreendi que não estava a inventar os diálogos, como costumava fazer, mas a ventriloquar as verdadeiras vozes das personagens – estava a ler. O mérito foi, também, da minha mãe, porque ela mantinha a rotina de sentar-se comigo para me ler histórias; do Pato Donald, mas também do Mickey, do Musti e do Petzi. Ela ensinava-me a sonoridade das letras e como elas se harmonizavam e esses ensinamentos fizeram com que eu aprendesse a ler sozinho. Essa conquista primeva de infância foi um dos momentos mais importantes da minha vida, porque aprendi a lidar com palavras antes de ser capaz de me desembaraçar sozinho na casa de banho. Se a vida e a morte são um único movimento circular, prefiro, em simetria, no meu último leito, seja ele qual for, perder a elasticidade entérica em vez da elasticidade da imaginação. Por tudo isso, de modo inexcedível, esse número 1500 do Pato Donald, com uma capa que, à distância, me evoca até a heteronímia pessoana na multifaria de Donalds diferentes que a decoram, é um dos livros da minha vida.

Outra memória mucípara, resgatada desses tempos das criancices, prende-se com O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico, publicado pelas Selecções do Reader’s Digest, em 1977. Descobri-o em casa de uns tios, em meados da década de oitenta, e fiquei apaixonado pelos relatos assustadores que continha: vampiros, fantasmas, assassinos em série, exploradores do passado e do futuro, demónios e bruxas, monstros humanos, invenções fabulosas, extraterrestres, animais quiméricos… No final dessas visitas, os meus pais vinham resgatar-me do meu refúgio chegado à varanda, onde me sentava com o livro no colo, e eu, mais desconsolado que Jeremias, tinha que me separar dele. Passados poucos anos, em outra visita, convenci os meus tios a emprestarem-mo. (É claro que ainda o tenho.) Muito, muito, muito texto desse livro saboreei ao longo de tardes que pareciam imensas, enquanto comia bolachas Catraias da Triunfo, com os signos do Zodíaco, barradas com manteiga. Acho que aquilo que esse livro me mostrou foi que era possível as maravilhas e as monstruosidades existirem no mesmo mundo: uma histonomia excêntrica, composta de sofisticação cosmopolita e folclore medonho. Também é um livro que, de certo modo, me influenciou a ser céptico, porque apresenta inúmeras secções que desmistificam historietas e lugares-comuns da História: verbetes que eu acho fascinantes. A mistura de proto-esoterismo, História, ciência e fantasia abarcada pelo O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico faz dele, sem dúvida, outro dos livros da minha vida.

A memória é a única língua com a qual podemos falar com os mortos e os sonhos são os únicos lugares em que os podemos encontrar; às vezes, perder alguém é perder uma âncora que nos agarrava a um determinado local e encontrar o pé, novamente, dá trabalho, mas encontrá-lo é preciso. O terceiro livro da minha vida que me lembrei de vos falar é um pequeno volume, que estava na casa do meu avô, e que se chama Doenças dos Bichos de Nogueira de Araújo, publicado pelo Ministério da Educação Nacional, em 1973. O subtítulo é Memórias de um Veterinário Rural e consiste num comedido compêndio no qual as informações zooterapêuticas são veiculadas através de histórias ilustradas. Não faço ideia porque é que os meus avós tinham esse livro, mas sempre o achei hipnotizante; em especial, a ilustração de um cavalo infectado com tétano, acompanhada pelo retrato detalhado do bacilo anaeróbio responsável. Lembro-me de passar uma tarde de Sábado em casa dos meus avós a ler o Doenças dos Bichos e a desenhar o Homem Elefante, do filme homónimo de David Lynch, que passara à noite nessa semana. Lembro-me desse desenho: era uma criatura careca e deformada, com mãos minúsculas e olhos tão esbugalhados quanto os do Cão Grande do conto fantástico de Andersen – muito diferente do protagonista da película, mas era assim que eu achava que um verdadeiro Homem Elefante deveria ser. Com curiosidade, procurava no Doenças dos Bichos a sua estranha patologia, que um vizinho que estava de visita erroneamente me disse ser elefantíase.

Os livros da minha vida são, também, como indica o título desta rubrica, os das minhas vidas, porque as pessoas que fui quando os li e quando os escrevi são um pouco diferentes da que sou neste instante. Porém, tanto uns como os outros são melhores que os sonhos em que podemos visitar os nossos mortos, porque basta tirá-los das estantes para conversarmos com versões mais jovens, mais optimistas e mais ousadas de nós próprios. Versões que já morreram, evidentemente, mas é mantendo essas presenças do passado na biblioteca que construímos carácter e perduramos no tempo. Escrever é trancar a porta pela qual a morte quer entrar, mas ler é abrir janelas.

(Texto publicado originalmente no número nove da Revista BANG!, editada pela Saída de Emergência.)

domingo, 6 de março de 2011

Moby Duck


Yeah!
O epítome de fixe? Nem mais!
Quando o ler, comento...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Os cangalheiros da literatura

Aparentemente, este artigo sobre eReaders e a suposta "morte do livro", publicado a 21 de Setembro no site Technology Review do Massachusetts Institute of Technology (MIT), contém argumentos muitíssimo semelhantes àqueles que já tinha expressado no meu artigo Sobre eReaders, a 18 de Agosto. É sempre uma felicidade ver as nossas opiniões corroboradas por fontes independentes e credíveis. É sinal que pensou bem nos assuntos e que não se anda com areia nos olhos.

Como já tive oportunidade de escrever noutro sítio, àqueles que deliram em propagandear a suposta morte do livro, eu chamo-lhes os Cangalheiros da Literatura: muito gostam eles de dizer que o livro está morto, como se isso fosse uma coisa boa... É uma das provas cabais que atestam que quem não tem qualidades para escrever (ou para criar, num sentido lato) aceita de bom grado regozijar-se com a ruína da imaginação, como se encontrasse na esterilidade um local para nidificar.

Acho que a ideia de livro é o próprio livro enquanto objecto físico: o códice (do latim codice que significa, entre outras coisas, livro; o latinismo dex, com o mesmo significado, só entrou na nossa língua na segunda metade do século XVIII). Existe uma grande diferença entre ler um texto escrito num volume (ou seja, num manuscrito enrolado - do latim volumine que significa coisa enrolada), por exemplo, e ler um texto escrito num códice (um livro). A experiência é completamente diferente - e só a partir da difusão do conceito do códice é que se pode, com efeito, falar em leitura, no sentido que lhe é dado presentemente. Só a partir dessa difusão é que surgiram conceitos como autor e publicação, por exemplo.

Não estou inteiramente de acordo com a noção popular de que os papiros e os anteriores suportes de registo manuscrito, que podem ser traçados até à civilização suméria ou até tempos muito anteriores, se quisermos, são proto-livros: acho que eram coisas muito diferentes e que serviam objectivos diferentes, como enumerar, contabilizar e anotar, mas não eram veículos para a leitura reflexiva de interpretação como os códices vieram a tornar-se. É por esta razão que eu acho que a conversa que se ouve nos meios de comunicação de que o advento dos eReaders consiste num salto tecnológico da mesma ordem que aquele que se deu de prancheta para volume e de volume para códice e de códice manuscrito para impresso é uma arenga publicitária: a prancheta, o volume e o códice são coisas muito diferentes entre si e que serviram para coisas diferentes. Ler num
eReader não é a mesma coisa que ler num livro. Por isso, não será, de facto, leitura. É outra coisa que, neste momento, ainda não sabemos - assim como os efeitos que irá operar nas futuras gerações.

Estou a pensar na evolução de vinil para CD e de CD para MP3... O que interessa neste exemplo, ao fim e ao cabo, é a música e essa continua imutada: o que mudou foi apenas o suporte, porque quando se põe a tocar um vinil ou um CD ou um MP3, o resultado (com as devidas diferenças de qualidade de som) é o mesmo: continuamos a ter ondas sonoras a ser enviadas aos nossos tímpanos para serem codificadas em impulsos nervosos e transformadas em música pelo cérebro). A transmissão pode ser menos ou mais satisfatória, ou menos ou mais definida, mas o resultado é o mesmo. Quanto a livros e
eReaders, o resultado final já não é o mesmo.

É por isso que não compreendo o entusiasmo que a suposta morte do livro, e o advento dos
eReaders, suscita em algumas mentes. Acho que a morte do livro nunca poderá ser uma coisa boa (quem é que poderá, mesmo a sério, acreditar numa coisa destas?), acho que os eReaders são, mais uma, invenção desnecessária criada pela indústria e que a serem difundidos vão criar ainda mais iliteracia e afastar ainda mais o público dos textos escritos, por oposição aos meios áudio-visuais.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um romance que não é de quinta-categoria


A editora portuguesa Ahab vai publicar em Outubro um dos melhores livros que li nos últimos tempos: Fifth Business de Robertson Davies, a primeira parte da chamada Trilogia de Deptford, prosseguida com The Manticore e World of Wonders.
Fifth Business é um trabalho superior, muito bem escrito, que eu recomendo de viva voz: leiam-no, porque é genial. O título em português é O Quinto em Discórdia, adaptação do título espanhol.
Nesta ligação podem ler a crítica que escrevi, vai fazer um ano na próxima terça-feira, a Fifth Business.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

10 Livros de Horror

O meu novo livro de contos de horror, A Luz Miserável (Saída de Emergência), está quase a sair e será apresentado em exclusivo no próximo Fórum Fantástico. Até lá, lembro dez livros de horror que qualquer fã do género deveria ler.

Books of Blood, Clive Barker
Partindo de uma premissa que faz lembrar The Illustrated Man, de Ray Bradbury, o carnaval horrível que Barker nos apresenta nestes livros é, provavelmente, o melhor exemplo que temos sobre o Horror como gerador de diversidade. Enquanto bestiário é riquíssimo e enquanto exercício literário é poderoso. Depois da sua publicação, Barker já escreveu melhor, no que alude ao estilo e à forma, mas Books of Blood continua intocável. É o trabalho de um escritor único no topo dos seus poderes criativos.

Histoires Désobligeantes, Léon Bloy
Em La Femme Pauvre, publicado em língua portuguesa pela Ulisseia, Léon Bloy diz-nos pela voz do narrador: «O autor nunca prometeu divertir ninguém. Prometeu muitas vezes o contrário e cumpriu fielmente a sua palavra.» É a tagline perfeita para caracterizar Histoires Désobligeantes. Pequenos contos sórdidos, sempre entre a imundície e a redenção, escritos com uma espécie de realismo simbólico em mente. Escamoteada a carapaça de lixo que envolve estas histórias, testemunhamos o talento literário de um autor incisivo e, surpreendentemente, optimista. Possui uma linha de diálogo que poderia servir para cartão de visita da ficção de horror: «O meu amor por ti tem tenazes de caranguejo!» Macabro e com muito humor negro.

Swastika Night, Katharine Burdekin
Livro terrível sobre um mundo nazi onde os homens são educados para serem soldados brutais e as mulheres estão reduzidas ao estatuto de gado parideiro. A Europa de Swastika Night vive a Era de Hitler, sete séculos depois da morte do ditador, agora adorado como uma divindade que nasceu da cabeça do próprio Deus do Trovão – logo despoluído do contacto com carne feminina. Escrito durante a consolidação dos regimes fascista na Itália e nacional-socialista na Alemanha, antes da Segunda Grande Guerra, este é um livro no qual Burdekin expande as ideias misóginas dos discursos de Hitler para criar um pesadelo insuportável. É preciso compreender que, naquele momento, não se sabia se os nazis iriam perdurar ou não e o temor de uma iminente ocupação global era sentido à flor da pele por todos aqueles que não simpatizavam com as ideias do III Reich. Mas por mais assustador que o livro de Burdekin seja, a realidade foi muito mais temível: Hitler esterilizou em segredo milhares de alemães durante os anos em que foi chanceler; e se as medidas eugénicas não alcançaram o resultado esperado foi graças às substâncias e métodos envolvidos: chumbo, raios-X e até alguns venenos feitos com plantas da América do Sul. Na sua ideia, somente oficiais nazis seriam autorizados a procriar e para isso criou centenas de bordéis onde as suas altas patentes, em verdadeiras linhas de montagem, engravidavam prostitutas, voluntárias e adolescentes raptadas. Eram as chamadas Lebensborn: as Fontes da Vida.

The Night Land, William Hope Hodgson
Estranhíssimo romance sobre um futuro longínquo em que o Sol morreu e os poucos sobreviventes da espécie humana, que não se cruzaram geneticamente com alienígenas, resistem aos ataques insondáveis de leviatânicas criaturas inescrutáveis dentro de um refúgio piramidal. Às tantas, um deles tem uma visão de que existem mais sobreviventes humanos noutro local e um grupo sai para o exterior com o objectivo de encontrá-los. Para o gosto contemporâneo, a prosa de Hodgson é pesada - e deliberadamente artificial, já que o narrador é, supostamente, um indivíduo do século XVII -, mas àquilo que lhe falta em estilo, Night Land compensa em imaginação e invocação de impending doom. Um romance underrated que merece ser mais conhecido.

The Monk, Matthew Lewis
Epítome da verdadeira literatura gótica e muito provável blueprint para o horror contemporâneo, The Monk tem de tudo: incesto, violação, satanismo, homossexualidade e tortura. O (bom) equivalente literário de um torture porn setecentista, escrito com um estilo endiabrado e refinado. Existe uma edição recente em português pela Bonecos Rebeldes.

La Luna e il Falò de Cesare Pavese
Último romance do escritor e poeta italiano Cesare Pavese, publicado em 1950, poucos meses antes do autor se suicidar. La Luna e il Falò é o relato simbólico do trágico regresso a casa de Enguia, personagem principal que decide voltar à terra natal, a região rural de Langhe, após ter feito vida nos Estados Unidos. Mas o que Enguia encontra não o reconforta e, na companhia de Nuto, o seu melhor amigo de infância, mergulhará numa crescente depressão, fortalecida pela melancolia que as searas desertas e os campos abandonados lhe provocam. Romance alegórico, inquieto, quente, de uma ilusória simplicidade e cujo final não trará nenhuma reconciliação a Enguia. E nós, leitores angustiados, descobriremos que as fogueiras a que o título alude podem ter diversos significados.

La Tour d'Amour, Rachilde.
Rachilde foi o pseudónimo de Marguerite Vallette-Eymery, autora integrada no Movimento Decadente, no qual figuram artistas tão diversos como Isidore Ducasse (Conde de Lautréamont.), Joris-Karl Huysmans ou o pintor Franz Stuck. La Tour d'Amour é uma história de travestismo e necrofilia, passada num farol isolado na costa de França, cujas personagens principais são Mathurin Barnabas, o faroleiro que pesca corpos destroçados dos escolhos para os usar nas suas sevícias, e Jean Maleux, o jovem aprendiz, simultaneamente repugnado e seduzido pela conduta do velho mestre. Numa sequência inesquecível, Rachilde conta-nos que Barnabas guarda uma cabeça decepada, em avançado estádio de decomposição, para se masturbar: jogos mais arrojados que as púdicas brincadeiras de Herbert West: Reanimator, de Lovecraft — e escritos por uma mulher no último ano do século XIX. Ambiente gótico sem folhos e com profanação de cadáveres.

Frankenstein, Mary Shelley
Frankenstein não é o nome da criatura feita de pedaços de cadáveres, mas o do seu criador. É engraçado descobrir que o monstro de Frankenstein é um homem sensível e bem falante (quando não lhe chega a mostarda ao nariz, pelo menos…), enquanto que as adaptações teatrais e cinematográficas o transformaram num golem imbecil e trapalhão: a imagem mais conhecida do monstro de Frankenstein, com a testa alva, cabelo oleoso e eléctrodos no pescoço, deve-se a James Whale e Jack Pierce, realizador e caracterizador que trabalharam na primeira adaptação cinematográfica desta história, e não se parece em nada com aquilo que o livro nos apresenta. Neste, o monstro aprende a ler com os grandes clássicos da literatura (encontrados num baú abandonado) e a falar inglês de ouvido. Tudo o que quer é encontrar o seu lugar no mundo e que Frankenstein o reconheça como humano. Mais tarde, o monstro assume a sua condição maldita, mas exige que Frankenstein lhe faça uma companheira que o acompanhe no exílio. A casmurrice do cientista terá consequências terríveis.
Na minha opinião, o final do livro, passado no deserto gelado do Pólo Norte, faz de Frankenstein a obra de transição entre um horror clássico e naturalista e o moderno horror interior.

Dr Jekyll and Mr Hyde, Robert Louis Stevenson
Toda a gente conhece o livro Dr Jekyll and Mr Hyde, seja por o ter lido ou visto alguma das suas diversas adaptações cinematográficas, mas poucos leitores devem saber que Stevenson já tinha escrito, dois anos antes da publicação desse título, uma peça de teatro intitulada Master Brodie, or The Double Life. Escrita em parceria com William Henley, a peça conta uma história baseada na vida real de um criminoso escocês chamado William Brodie, que vivera um século antes. Maçon, cavalheiro respeitado na sua comunidade, Brodie escondia uma natureza turbulenta sob a pele da diplomacia e entregava-se em segredo ao roubo e ao jogo. Mr Hyde é, largamente, mais violento que aquilo que Mr Brodie poderia alguma vez ter sido, mas foi a dualidade do segundo que inspirou Stevenson a escrever a peça e, posteriormente, a criar a figura miserável do Dr Jekyll. Hyde começa por ser um anão simiesco, traquinas, mas à medida que Jekyll lhe vai dando rédea solta ele transfigura-se num musculado monstro assassino. Um clássico simbólico, por excelência.

Ghost Story, Peter Straub
Quem estiver à procura de algo que pudesse ter sido escrito por M. R. James ficará confuso: Ghost Story não é uma história de fantasmas. No mínimo, no sentido tradicional. Na verdade, nem sei definir o que é. História de vingança além-túmulo? Compêndio impressionante de todos os elementos da ficção de horror num microcosmos de quinhentas e cinquenta páginas, à la The Monk, de Matthew Lewis? Revisão moderna de The Great God Pan, de Arthur Machen? Não nos vamos preocupar com definições. A prosa de Straub é arisca e o início do livro é exigente; contudo, assim que as personagens nos são apresentadas, Ghost Story transforma-se num verdadeiro page turner. Muito interessante.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

"Mucha" no FIBDA: a Entrevista

Uma entrevista comigo, realizada no lançamento de Mucha, nesta edição do FIBDA.

A peça contém algumas inexactidões, mesmo assim. Por exemplo: apesar de desenhar, e ter estudado ilustração no Ar.Co, não me considero nenhum ilustrador. O meu novo romance também não é sobre vampiros nem tem vampiros nenhuns. A confusão adveio do facto de eu ter dito no lançamento que estava a escrever uma história com eles para uma antologia de contos de horror que vai sair este Natal pela Chimpanzé Intelectual.

Em breve darei notícias sobre esse livro, e outros em que vou participar, assim como desvendarei pormenores sobre o meu novo romance.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Animais novos (e velhos)

Duas criaturas novas que eu adquiri. O novo livro de Richard Dawkins, The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution e...

... o romance 2666 de Roberto Bolaño.

Estou ansioso em relação aos dois, claro, mas como Bolaño é, ainda, animal criptozoológico no meu biblestiário (e Dawkins é velho conhecido, lido e relido e trirelido) é sobre ele que a curiosidade se debruça de modo mais inquisitivo: será tão bom como andam por aí a dizer?... É capaz, é capaz, mas de autores geniais estão as minhas estantes cheias, dos mais obscuros aos mais afamados, por isso a concorrência vai ser forte. É a tal lei da selecção natural de que falava Darwin. Hum!... Dawkins e Bolaño... Faz todo o sentido, pelos vistos. Ou fará. Depois de ler, logo vos direi.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lançamentos da Canto Escuro (mas às claras)

A editora Canto Escuro, do poeta Vítor Vicente, irá lançar dois novos livros no próximo sábado, dia 15: Grafipoesis de Rui Carlos Souto e Odes de Ana Salomé. As apresentações terão lugar na Livraria Trama, às 17H00 (ao Largo do Rato em Lisboa, na Rua São Filipe Nery, nº25B).
Souto já deu à estampa o livro A Poesia dos Pequenos Insectos (Canto Escuro, 2006) e Salomé publicou o livro Anáfora (Edições Pena Perfeita, 2006).

Mas não é tudo: em conjunto, será lançado o novo livro de Vítor Vicente, intitulado Histórias com Pénis e Cabeça, numa publicação das Edições Mortas. (A capa é da autoria de Ana Biscaia.)
Quem está familiarizado com a poesia e a prosa do Vítor terá mais uma oportunidade para levar para casa um novo trabalho que é, simultaneamente, divertido, sensível e que faz pensar. Para aqueles que ainda não conhecem o registo acutilante do autor de As Noites Contadas ou O Tríptico do Narciso, fica o convite para aparecerem (ouçam a entrevista que o Vítor deu a Gilda Castro da TV Universitária de Uberaba, aquando da publicação no Brasil de As Noites Contadas pela Editora O Clássico, que vale a pena).

Consultem o weblog da Canto Escuro e o site das Edições Mortas para saberem mais pormenores destes lançamentos.
Apareçam!

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Sugestões para o Dia das Bruxas

Com tantas cegadas pagãs que nós temos, lá tivemos de importar o Dia das Bruxas, como é festejado de acordo com o modelo norte-americano... Este ano vou-me mascarar de quê? Enquanto não me lembro de nada que valha a pena fazer-me sair do sofá, deixo-vos com duas sugestões de meter medo ao susto.

A primeira é a exposição Endoscopia do Medo, que é inaugurada daqui a umas horas (19H00) na Galeria Articula, em Alfama. Trata-se de uma mostra de peças de joalharia, inspiradas no tema do Horror, produzidas no âmbito de um concurso de ourivesaria organizado pelo Cineclube de Terror de Lisboa durante o pretérito MOTELx 08. As jóias foram criadas por finalistas da Escola Secundária de Ensino Artístico António Arroio.

Nenhuma profissão actual evoca sentimentos de angústia e desespero tão fortes quanto a de professor e, à chegada do Dia das Bruxas, período em que essas emoções adquirem maior cunho libertário, recomendo uma ida ao cinema para verem A Turma, o novo filme de Laurent Cantet (Recursos Humanos, O Emprego do Tempo).
Consiste num misto de documentário e ficção, cujo enredo se desenvolve em órbita de uma turma vulgar numa comum escola secundária de um bairro problemático de Paris. Baseado no livro Entre Les Murs de François Bégaudeau (cuja edição em português será assegurada pela Dom Quixote), o filme continua a progressão do cinema de Cantet, todo ele centrado no drama entre o indivíduo e a instituição, e foi premiado com a Palma de Ouro na passada edição do Festival de Cinema de Cannes.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Histórias com letras

O vencedor da primeira edição do prémio literário Leya é o jornalista brasileiro Murilo António Carvalho e o manuscrito premiado intitula-se O Rastro do Jaguar.



No seu novo livro, o provocante Russel A. Berman reflecte sobre o papel da literatura de ficção no desenvolvimento da sociedade ocidental. O trabalho tem como título Fiction Sets You Free: Literature, Liberty and Western Culture.

A historiadora Irene Flunser Pimentel editou um novo livro, Biografia de um inspector da PIDE: Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português, pela Esfera dos Livros. Para quem está familiarizado com as personagens do regime salazarista, o nome de Fernando de Araújo Gouveia não é inédito, até porque o próprio, em 1979, editou uma espécie de auto-biografia, anti-comunista, sob o título Memórias de Um Inspector da Pide. A Organização Clandestina do PCP (Roger Delraux). Recomendo a leitura dos dois, assim como a do livro A Hisória da Pide (Temas & Debates, 2007), também da autoria de Pimentel.

domingo, 26 de outubro de 2008

Uma leitura

Na passada sexta-feira, no decurso da mesa redonda promovida pela Bedeteca de Lisboa, falei sobre a minha experiência enquanto autor de banda desenhada e da forma como me relaciono com a crítica especializada que observa os meus trabalhos. Como expus à assistência, a minha carreira de autor possui duas faces: a de autor de BD e a de escritor; e foi nesse contexto que esclareci que entendo a crítica como uma espécie de meta-leitura da obra. Diante da impossibilidade de conhecer a opinião individual de cada leitor, a análise crítica pode oferecer pistas para se perceber como o trabalho é recebido. Ou seja, o agente crítico acaba por representar, nesse instante reflexivo, o pensamento da massa anónima que se compõe pelo conjunto de potenciais leitores.

Em seguida, e para responder a uma pergunta sobre o problema da falta de hábitos de leitura de banda desenhada manifestada pelas novíssimas gerações, descrevi uma ideia com a qual já andava a brincar há algum tempo: ela correlaciona-se com a questão da iliteracia (aparentemente, lê-se cada vez menos, apesar de se venderem mais livros), mas apenas à superfície, porque acredito que o livro e o álbum de BD acabam, na verdade, por ser objectos estranhos e pouco apelativos para as crianças, sobretudo se não forem habituadas a contactar com eles desde a infância. Adicionando isso a um naturalíssimo bias pelo estímulo visual, pela imagem, é também natural que a leitura de banda desenhada pelos jovens tenha sido regular durante a década de oitenta do século passado, mas que se tenha deteriorado nos períodos seguintes. Dá-me a impressão que a BD se vendia mais nessa altura porque, com efeito, consistia no único produto de merchandising disponível para comércio que possibilitava aos miúdos o contacto com as personagens que viam nos desenhos animados.

A influência que a televisão opera sobre o espectador é muito grande e tudo aquilo que é anunciado por esse meio de comunicação adquire uma auréola de importância enorme; um único anúncio televisivo é muitíssimo mais eficaz que um spot de rádio repetido a cada hora ou uma publicidade de meia-página publicada num jornal durante um mês. Prosseguindo por este caminho, basta um breve exercício de memória para perceber que todas as séries de animação transmitidas na televisão durante essa década, desde aquelas que apresentavam as personagens de Walt Disney às criadas pelos estúdios Warner Bros e Hanna-Barbera, passando por adaptações de histórias franco-belgas do Tintin e dos Estrumpfes até aos heróis da Marvel, possuíam um reflexo impresso em papel sob a forma de revistas e álbuns de banda desenhada. Em suma: num esforço para prolongar a vida útil da personagem televisionada, a compra dos álbuns e revistas era, em última analise, o único desfecho possível; uma procura esporeada pelo televisionamento. É claro que o hábito da leitura, mesmo que a leitura per se, não seja o móbil (o objectivo pode ser, somente, prolongar a vida útil da personagem televisionada), acaba por criar efeitos secundários: o gosto pelos livros, a valorização do conhecimento e o alcance que a cultura é útil na vida diária. Mesmo assim, todas essas qualidades, por mais nobres que sejam, são, de igual modo, colaterais a uma actuação que não as ambicionou.

Mais ou menos no início da década de noventa, quando o merchandising em órbita das personagens animadas começou a ser feito com action-figures, perfeitamente miméticas, e com jogos virtuais, que reproduzem com grande verosimilhança a aparência da animação televisiva, o livro perdeu peso porque se trata de um objecto informe, no que diz respeito à aproximação que faz às personagens animadas: é fraco enquanto simulacro da personagem preferida e perde para com a action-figure e o jogo enquanto objecto de afecto, simplesmente porque estes são mais rápidos a criar emoções fortes. Perde, até injustamente, por culpa da biologia: jogar computador com regularidade liberta uma quantidade excessiva do neurotransmissor dopamina no nucleus accumbens do cérebro; a hiper-estimulação do córtex pré-frontal que ocorre em consequência disso irá traduzir-se, a médio prazo, em efeitos análogos aos manifestados por indivíduos viciados em heroína. A tolerância anormal à dopamina, e a necessidade de doses cada vez mais elevadas para que o córtex pré-frontal seja excitado, cria sintomas como a desatenção, a perda de memória e, mais importante, a incapacidade de relacionar um item com outro – ou seja, perde-se a capacidade de viver no tempo inteiro (planear o futuro) para se viver somente no presente. Todas as actividades que não se cifrem num estímulo imediato (algo que ofereça uma recompensa rápida) são, liminarmente, rejeitadas. Actividades como a leitura, portanto.

No seguimento deste raciocínio, concluí a minha participação na mesa redonda com o argumento que a banda desenhada é, provavelmente, uma arte em vias de extinção: pois se os jovens não a lêem (não lêem BD nem coisa nenhuma, na pior das hipóteses) como é que podemos estar à espera que alguns deles venham a querer ser autores de BD? Ou até a possuir a habilidade necessária para o efeito, já que a leitura é fundamental à cristalização de uma voz autoral forte? Acredito que a ilustração e o cartoon, tantas vezes confundidos com a banda desenhada, irão estar connosco por mais tempo: em primeiro lugar, têm a vantagem de ser artes visuais, e as novas gerações são as da imagem (a BD é, sobretudo, uma linguagem narrativa); em segundo lugar, são áreas que absorvem de modo célere e hábil as aplicações técnicas que as ferramentas digitais possibilitam, e este fascínio tecnófilo é bastante importante porque a tecnologia irá transformar os mundos da arte, do entretenimento e do trabalho. A fronteira entre aquilo que é trabalho e aquilo que é lazer encontra-se cada vez mais diluída e as noções de sacrifício e de dever são alienígenas para quem, hoje, tem menos de vinte anos. Nessa óptica não é falacioso projectar que a escola irá mudar bastante, porque se trata uma instituição que acompanhou sempre as sismografias da esfera laboral.

É (muito) fácil olhar para a escola com alguma poesia, mas convém lembrar que a sua função de origem é, apenas, formar peças para a engrenagem social: sejam elas médicos, advogados, técnicos de contabilidade ou, simplesmente, outros professores. A escola não tem, à priori, o intuito de transmitir conhecimento de um modo desinteressado ou até altruístico: a escola modela trabalhadores para o futuro – ou assim esperamos. O facto de um aluno poder desenvolver uma carreira intelectual, individual, e, graças a essa valorização, tornar-se alguém que se destaque da média é uma contingência da escola lhe ter oferecido um meio conveniente ao estudo, à experiência e ao refinamento do conhecimento; contudo, isso não deixa de ser transversal. O objectivo principal da escola, desde que esse conceito foi criado, é formar os acessórios que a sociedade precisa para se sustentar. Lembrem-se que as massas só começaram a aprender a ler quando se tornou necessário decifrar as instruções das máquinas inventadas após a Revolução Industrial.

"Quem é que sabe dizer de cor quais são todos os rios de Moçambique?"
"Eu, eu, Senhor Professor! São o Búzi, o Pungué, o Limpopo, o..."
Na escola do Estado Novo, por exemplo, a transmissão de conhecimento estava subordinada à agenda política do regime.

Se o mercado de trabalho se tornar, definitivamente, diferente daquilo que é hoje (o que irá acontecer, de certeza absoluta), o modelo de escola plasmado pelo cânone do século XX vai desaparecer. De facto, manter uma escola física exige um orçamento anual tão elevado que várias instituições encontram-se já a desenvolver feições de implementar, de uma maneira perdurável, a escola virtual (o b-learning e o e-learning) na qual cada aluno estudará em casa, através do computador, as disciplinas que irão ao encontro dos seus interesses; ou, in the long run, às exigências de um mercado de trabalho virtual. O trabalho do futuro será virtual, especializado e suportado pela prática de outsourcing: será um sistema feito de pequenos pólos complementares, altamente especializados, invés de grandes complexos empresariais, como os que ainda hoje subsistem. Não é fácil pensar sobre qual será o futuro do livro num ambiente dessa natureza, mas tenho uma ideia.

Assumindo que continuará a ser possível fabricar papel (ou uma imitação eficaz), acho que o livro poderá sobreviver enquanto veículo de contra-cultura, impresso de modo artesanal em pequenas e anacrónicas tipografias, mas nunca como produto de entretenimento e de transmissão de conhecimento porque esses, e o modo como os entendemos agora, não serão os mesmos. Nada disto é novo: pensem na quantidade de ofícios, artes e métodos de transmitir conhecimento que se perderam ao longo da história; de certeza que houve, durante anos a fio, incas saudosistas da linguagem quipu que foi descartada em favor da introdução da escrita na região andina pelos conquistadores espanhóis. É uma pena que os hábitos de leitura venham a desaparecer, mas isso é, até ao momento, um caminho inevitável.
Um futuro sem leitores, mas, também, sem livros para ler poderá ser, em verdade, um futuro equilibrado.