«É provável que o registo mais antigo sobre a lenda destes três santos mártires seja a narrativa contida no Martirológio do monge beneditino Usuardo, terminado em 875 (o livro, neste caso; embora o monge também tenha falecido nesse ano). Ora, cerca de dezassete anos antes, Usuardo esteve na península e não é nada extravagante que tenha recolhido informações sobre os cultos prestados aos mártires pelas comunidades cristãs do Al-Andalus; entre as quais, conjectura-se, a de Al-Uxbuna. A história desses três santos não é, em síntese, nem original, nem dissemelhante dos restantes relatos de martírios ocorridos durante o período das perseguições dioclecianas, como comprovam, por exemplo, as histórias de Santa Eulália em Mérida, São Félix em Gerona, Santa Engrácia em Saragoça, Santa Leocádia em Toledo, Santa Rufina e Santa Justa em Sevilha, São Vicente, Santa Sabina e Santa Cristeta em Ávila (os últimos, martirizados de modo análogo a Veríssimo, Máxima e Júlia, desempenham em Évora um papel muitíssimo semelhante a estes). Em síntese, é-nos contado como os três irmãos recusaram renegar a fé cristã diante das autoridades romanas e foram, em consequência, postos no potro, escarnificados com garras de ferro e decapitados. Segundo a lembrança popular, os corpos foram arrastados até à beira-rio (para um local onde hoje, em plena Calçada Ribeiro Santos, podemos erguer o olhar e ver, a Ocidente, as torres sineiras da igreja paroquial de Santos-o-Velho) e deitados à água, perto de Almada. Pese terem sido laçados a enormes mós, os corpos mutilados voltaram à margem onde tinham sido embarcados e, de imediato, uns devotos recolheram-nos numa rude ermida, por eles construída no cume da colina. Esse local de devoção divulgou-se e deu espaço a uma igreja que, supõe-se, serão as ruínas descritas por Osberno. Em similitude, também é tradicional contar-se que ainda não tinha assentado a poeira levantada pelos cruzados durante a conquista da cidade e D. Afonso Henriques já ordenava a reconstrução da igreja, mas, de facto, essas notícias não mencionam nenhumas relíquias. Estas surgiram mais tarde, referidas na doação que D. Sancho I fez dessa igreja à Ordem de Sant’Iago, em 1194, na qual expressou que era a casa em que repousavam os restos mortais de Veríssimo, Máxima e Júlia: «quorum corpora ibi requiescunt». Contudo, o culto das relíquias só ganhou dimensão no século XIII, com as diligências das freiras de Sant’Iago
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Recordando os três santos mártires de Lisboa
«É provável que o registo mais antigo sobre a lenda destes três santos mártires seja a narrativa contida no Martirológio do monge beneditino Usuardo, terminado em 875 (o livro, neste caso; embora o monge também tenha falecido nesse ano). Ora, cerca de dezassete anos antes, Usuardo esteve na península e não é nada extravagante que tenha recolhido informações sobre os cultos prestados aos mártires pelas comunidades cristãs do Al-Andalus; entre as quais, conjectura-se, a de Al-Uxbuna. A história desses três santos não é, em síntese, nem original, nem dissemelhante dos restantes relatos de martírios ocorridos durante o período das perseguições dioclecianas, como comprovam, por exemplo, as histórias de Santa Eulália em Mérida, São Félix em Gerona, Santa Engrácia em Saragoça, Santa Leocádia em Toledo, Santa Rufina e Santa Justa em Sevilha, São Vicente, Santa Sabina e Santa Cristeta em Ávila (os últimos, martirizados de modo análogo a Veríssimo, Máxima e Júlia, desempenham em Évora um papel muitíssimo semelhante a estes). Em síntese, é-nos contado como os três irmãos recusaram renegar a fé cristã diante das autoridades romanas e foram, em consequência, postos no potro, escarnificados com garras de ferro e decapitados. Segundo a lembrança popular, os corpos foram arrastados até à beira-rio (para um local onde hoje, em plena Calçada Ribeiro Santos, podemos erguer o olhar e ver, a Ocidente, as torres sineiras da igreja paroquial de Santos-o-Velho) e deitados à água, perto de Almada. Pese terem sido laçados a enormes mós, os corpos mutilados voltaram à margem onde tinham sido embarcados e, de imediato, uns devotos recolheram-nos numa rude ermida, por eles construída no cume da colina. Esse local de devoção divulgou-se e deu espaço a uma igreja que, supõe-se, serão as ruínas descritas por Osberno. Em similitude, também é tradicional contar-se que ainda não tinha assentado a poeira levantada pelos cruzados durante a conquista da cidade e D. Afonso Henriques já ordenava a reconstrução da igreja, mas, de facto, essas notícias não mencionam nenhumas relíquias. Estas surgiram mais tarde, referidas na doação que D. Sancho I fez dessa igreja à Ordem de Sant’Iago, em 1194, na qual expressou que era a casa em que repousavam os restos mortais de Veríssimo, Máxima e Júlia: «quorum corpora ibi requiescunt». Contudo, o culto das relíquias só ganhou dimensão no século XIII, com as diligências das freiras de Sant’Iago
domingo, 12 de junho de 2011
Breve nota sobre os Santos Populares de Lisboa

Nascidos em Lisboa, os três irmãos foram martirizados em 305, durante o domínio romano da Península Ibérica, a mando do Imperador Diocleciano, por terem recusado a obrigação redigida em edital de sacrificarem animais aos deuses pagãos. Uma vez prisioneiros, sofreram os martírios da fome, do potro, dos ferros incandescentes e, amarrados pelos pés às caudas de cavalos, ainda foram arrastados pelas ruas de Lisboa; depois de lapidados, os corpos foram decapitados e atirados ao Tejo, perto de Almada, com pesos amarrados aos pés. Independentemente disso, conta-nos o martirológio, os corpos deram à margem de Lisboa (antes dos barcos dos algozes regressarem), na zona em que hoje se ergue o Palácio dos Marqueses de Abrantes, a actual Embaixada de França.
Daí o topónimo Santos dessa área que, diz-se, começou por ser cumeada por uma humilde ermida, levantada por piedosos em memória dos três santos martirizados, e transformada posteriormente em igreja por D. Afonso Henriques após a conquista de Lisboa. Quanto a ser Santos-O-Velho, isso relaciona-se com o facto de D. João II ter mandado construir, para os lados de Xabregas, na orla oriental de Lisboa, um convento maior que albergasse as comendadeiras da Ordem de Santiago, cujo número elevado já tornava pequeno o seu convento de Santos. Este, doado aos freires de Santiago da Espada (os espatários) por D. Sancho II, passou quase de imediato a ser ocupado em exclusivo pelas mulheres, filhas e viúvas desses cavaleiros, convertendo-se no Mosteiro das Comendadeiras da Ordem de Santiago. Ora, desocupando esse velho e exíguo convento de Santos, em 1490, as freiras passaram para o novo e espaçoso convento de Xabregas (possui o maior claustro da Península Ibéria...), levando consigo as relíquias dos três santos mártires e, também, o topónimo. É pela influência da Ordem de Santiago que Veríssimo, Máxima e Júlia aparecem trajados à moda de São Tiago, o peregrino, no supra-mencionado baixo-relevo que se encontra sobre a entrada da igreja paroquial de Santos-O-Velho.
As referências às vidas e ao martírio de Veríssimo, Máxima e Júlia são escassas: conhece-se, por exemplo, o relato contido num códice pertencente ao acervo da biblioteca pública de Évora (o CV/1-23d) e a menção descrita no martirológio do monge Usuardo.
No meu romance O Evangelho do Enforcado (Saída de Emergência, 2010), Veríssimo, Máxima e Júlia são três prostitutos que, depois de mortos - martirizados... - pelo pintor Nuno Gonçalves, alcançam a santidade através do culto popular que lhes é prestado pelos mais pobres.
Imagem: Veríssimo, Máxima e Júlia numa pintura do artista maneirista português Garcia Fernandes (meados do século XVI).
