Mostrar mensagens com a etiqueta Neo-Liberalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Neo-Liberalismo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sobre o Syriza

 
O encontro entre o ministro grego das finanças, Yanis Varoufakis, e o presidente holandês do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem (o do mestrado falso, ao que parece) tornou-se um poderoso símbolo de resistência face à ortodoxia monetarista que organismos como o FMI representam; com efeito, não é com leviandade que emprego a palavra "ortodoxia" e sublinho o carácter quasi-religioso que ela comporta.

A ortodoxia, aqui, consiste no chamado "Consenso de Washington": designação pela qual ficou conhecida (desde os anos oitenta do século passado) a receita neoliberal para resgate das economias em apuros, fórmula única de desmantelamento dos estados em benefício dos sectores privados, independentemente das diferentes condições sociais e políticas dos países. A economia não é uma ciência e, nesse feitio, toda a canga pseudocientífica que se lhe coloque não passa de artigos de fé - e, no que diz respeito à fé, a ortodoxia não gosta de heresias.

O impacto que a eleição do Syriza está a ter, observando o autêntico histerismo da maioria da Direita, pode ser equiparado à anexação das noventa e cinco teses de Martinho Lutero na porta da igreja do castelo de Wittenberg: ai, meu Deus, que a casa (a Europa) vem abaixo.

Para já, temos o que era preciso: uma contracorrente forte e com ideias, capaz de mobilizar os descontentes que estão longe de ser radicais (a vitória do Syriza deve-se ao eleitorado do Pasok, como é evidente). Veremos como, afinal de contas, todas estas questões aparentemente científicas ou técnicas não passavam de teimosias de uma fé ortodoxa no "Consenso de Washington" e numa visão quasi-neodarwinista aplicada ao mercado. A gente esquece-se que, tudo somado, as ideologias ainda mandam muito.

Resta descobrir se o estado de graça "luterano" do Syriza (e dos seus aliados de sinal político oposto) não terminará num perigoso caos absurdo à la João de Leiden (para lembrar outro heterodoxo) em Münster. Confiemos, portanto - mas atentos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Nós somos os romanos; ou, votos de Bom Ano Novo


O Fim do Ano nunca me evocou a inverniça imagem da decrepitude ou senescência de Chronos, mas a de florescências quasimicológicas, que nem bolor gerando-se geometricamente numa caixa de petri: pesadelos escatológicos dos esporos anunciantes daquilo que o Ano Novo poderá conter. É uma época em que vates vencidos pela vida hipnotizam leitores e espectadores com os mais diversificados augúrios, que se elencam num espectro que se estende entre o humorístico e o horroroso, mais parecendo diversas espécies de aves canoras pousadas em poleiros de diferentes alturas dentro da mesma gaiola -- umas chilreiam, outras grasnam. Feche-se os olhos e irá sentir-se o pivete pungente do inconfundível bouquet, mesclado de matéria cloacal e qliphoths de alpista, que denuncia o facto da gaiola precisar urgentemente de uma limpeza -- uma Daath em cada casa, cortesia de... Cortesia de nós todos, bem vistas as coisas: é espantosa a velocidade a que a escória do ainda infante século XXI se acumula à nossa volta com o nosso complacente consentimento.

Vivemos num período neo-romano, digo-o há muitíssimo tempo: neste período antipancalista, no sentido em que o Belo não é mais o valor fundamental, o harmonioso só terá licença para existir se for útil -- ou, pior (porque é verdade), utilitário. Os romanos achavam que o belo devia ser utilitário. Os romanos faziam telhas em cima do joelho e, de facto, nestes dias, tudo é feito em cima do joelho, apressadamente, sem respeito pelo suor e cultura que permitem aos anões actuais subir aos ombros de gigantes com cujo cotejo palidejam: qualquer ser pensante não passa de um clandestino nesta realidade desquiciada dos gonzos, mantida em pé, teimosamente, por uma espécie de milagre de feira chamado Mercado. Todos os artigos dispostos nas bancadas dos bufarinheiros do sistema têm de ser produzidos em massa, numerados, etiquetados com um preço injusto e postos à venda. Quando falo em artigos, incluo as pessoas: as pessoas, hoje, não passam de mercadorias. Quando deixam de ser úteis -- utilitárias -- são deitadas ao lixo, que nem electrodomésticos avariados. Com efeito, sem-abrigos, idosos, desempregados são, tal como electrodomésticos, formas de vida baseadas em algo que difere do carbono: são peças mecânicas de uma engrenagem inumana que começou a espiralar infernalmente com força há algumas décadas.

Não quero viver num mundo que deita pessoas para o lixo -- é tão simples quanto isso.
Rejeito um mundo em que o valor humano de um indivíduo é avaliado pela quantia que existe numa conta bancária e no qual os pobres têm, mais uma vez, de ser escravos ou gladiadores para sobreviver.
Sim, a cartilha da competitividade neoliberal transforma-nos a todos em gladiadores do empreendedorismo: directores de empresas lêem Sun Tzu na diagonal e sussuram entre dentes nas casas de banho dos seus gabinetes que assim é que se fazem ofertas públicas de aquisição. A plutocracia nunca foi tão palpável. Tão vaidosa.

Os anos anteriores provaram que a vida é vitrificável quando exposta às altas temperaturas da austeridade e da instabilidade: carne transmuta-se numa finíssima e dura membrana e parte-se. Há pessoas a passar fome e a desaparecer -- ali, ao dobrar da esquina. E, no entanto, a cultura neo-romana infiltra-se em todas as áreas da vida: é um veio que agarra em tudo para desenhar um único e unidimensional organismo, achatado e polinervado como uma folha. Sem mais do que uma dimensão para viver, perde-se o horizonte, perde-se a faculade de erguer a cabeça e olhar para cima. Estamos todos a olhar para o chão.

Os meus votos de Bom Ano Novo para 2015 é que se pare de olhar para o chão e se ganhe a coragem de criar um horizonte. Isso só acontecerá se se rejeitar a hegemónica cultura neo-romana que nos ensopa e, em vez de aceitarmos ser escravos ou nos resignarmos a ser gladiadores, nos atrevermos a ser filósofos.
Não vai ser de um dia para o outro; nem será ao mesmo ritmo para toda a gente. É provável que haja quem não consiga (ou não queira, sequer, tentar). Não obstante, não existe outra solução: é preciso tornar belas as coisas que são meramente utilitárias. Quem não entender isto não entenderá que já perdeu tudo.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Quando o Falso Profeta é, também, a Besta

(Moisés diante da Sarça Ardente não se interrogaria melhor.)

A boçalidade do discurso de Miguel Gonçalves, o miriápode do neoempreendedorismo, agora mercenário do miserável governo de Pedro Passos Coelho, cristaliza toda a saloiice, a rudez e a doblez que nunca abandonaram a cartilha de quem, com panegíricos, lauda as virtudes da dita "escola da vida" ao mesmo tempo que denuncia os vícios do "saber livresco" e da cultura "inútil": "Isso é para intelectuais", costuma ouvir-se nessas situações, "fala-me de algo que eu possa entender", não como quem tem vergonha das suas lacunas, mas como quem não deseja contaminar-se com essa coisa esquisita que não pode ser comprada por um euro para ser vendida por dois.

Recordo alguns dos textos que já escrevi sobre "empreendedorismo":


A Selecção Natural Segundo o Governo 

domingo, 10 de março de 2013

O lado ventral do empreendedorismo

Nos dias que correm, em plena embriaguez neoliberal, somos bombardeados desde há dois anos na comunicação social com o quasi-truísmo de que ser-se "empreendedor" é pertencer a uma classe moralmente superior que pugna por um "empreendedorismo" de iniciativa - mais do quixotesca, contra uma sociedade lapidada pela austeridade e em progressiva deterioração - cruzadesca e orientada pela fé cega na mão invisível do mercado, que se põe por baixo, não do menino e do borracho, como no pregão popular, mas dos meninos que criam o seu próprio emprego e não têm medo de «bater punho», como é esclarecido no vídeo abaixo.   



A mão invisível de Adam Smith e o «bater punho» de Miguel Caetano perfilham uma tradição de audaciosas alegorias e alusões, liberais e neoliberais, associadas à mão e ao trabalho de que ela é o símbolo mais representativo. Na tónica que coloca nas recompensas do trabalho árduo, o capitalismo contemporâneo de feição norte-americana não se dissocia da ética religiosa anglicana e protestante de que radica (veja-se, como um exemplo entre tantos, as Leis dos Pobres inglesas, que, desenvolvidas desde o século XVI, obrigavam os sem-abrigo e os desempregados ao internamento em casas de trabalhos forçados para banir o pecado da preguiça e reduzir o peso desses indivíduos sobre o estado) e cujo mote foi e continua a ser "as mãos ociosas são o instrumento do Diabo".
O ócio sempre foi mais tolerado pelo catolicismo romano, do qual os professos se colocam em outra mão, a da Providência Divina, que nem os pardais no Evangelho de Mateus (6:26). É possível observar o orgulho sentido pela olímpica herança do "empreendedorismo" numa série televisiva, produzida o ano passado para o Canal História, intitulada The Men Who Built America, que foi transmitida recentemente: em apenas quatro episódios, aprendemos como os grandes empreendedores norte-americanos (Cornelius Vanderbilt, J. P. Morgan, John D. Rockfeller, Andrew Carnegie e Henry Ford) vindos praticamente do nada, subiram a pulso (outra alegoria relacionada com a mão inefável) e, por virtude da sua astúcia e sentido de oportunidade, guiados por uma fé, dir-se-ia calvinista, na sua predestinação para o sucesso, ergueram os impérios que fizeram dos Estados Unidos uma super-potência global. Com efeito, a verdade histórica está longe dessa versão higienizada dos factos.


Para não alongar demasiado este artigo, vamos, somente, concentrar atenções no banqueiro John Pierpont Morgan (1837-1913), magnata que não fez fortuna aliando-se ao inventor norte-americano Thomas Edison na campanha feroz pela implementação da corrente contínua contra a corrente alternada do inventor austríaco Nikola Tesla (como sabem, a corrente alternada impôs-se), nem combatendo contra o político democrata William Jennings Bryan, que queria acabar com os monopólios e a especulação, mas com negociatas lucrativas, muitíssimo suspeitas. Aliás, o exemplo de Morgan é, em muitas faces, paradigmático, pois foi graças ao advento da Guerra Civil norte-americana, que opôs o Norte contra o Sul (1861-1865), que estes heróis do empreendedorismo, como o já mencionado Vanderbilt e outros menos conhecidos, como Philip Danforth Armour e as dinastias Du Pont e Studebaker, endeusados como sendo aqueles que construíram a América, fizeram as suas riquezas, enganando o governo e explorando ingenuidades e misérias alheias.
Tirando partido da grande necessidade que os militares tinham por armamento, Morgan, com apenas vinte e três anos de idade, engendrou um plano fraudulento para vender ao exército as armas que os seus inspectores rejeitavam como sendo defeituosas: através de um cúmplice, chamado Arthur Eastman, que sabia duas ou três coisas sobre armas, comprou cinco mil espingardas rejeitadas, a três dólares e cinquenta cêntimos cada, a um armazém militar situado em Governor's Island, a sul da ilha de Manhattan; em seguida, vendeu as armas defeituosas - que já tinham estropiado vários atiradores durante os testes de balística - de volta ao exército, pelo preço de vinte e dois dólares cada uma. Quando o logro foi descoberto, o caso foi julgado, evidentemente, mas o tribunal considerou válido o contrato de venda e quem ganhou o dia foi Morgan, que recebeu uma fortuna como indemnização.

Esta é que foi a verdadeira face do empreendedorismo prometeico dos tais homens que construíram a América: às armas defeituosas de Morgan e aos contratos milionários de Vanderbilt de venda e aluguer de navios podres ao exército, pintados de fresco para parecerem novos, outros exemplos poderíamos reunir sobre a falsidade do mito do trabalho árduo destes "empreendedores". Sob esse maldito canto de sereia, esconde-se, não poucas vezes, um oportunismo hipócrita e a mais elementar função de comprar por um para vender por dois: é a velha meta de "fazer dinheiro". «Money Matters», como dizem os monetaristas neoliberais da escola miltonfriedmaniana. Existe outra alegoria relacionada com a mão que se aplica aqui com muito mais correcção: "meter a mão ao bolso".


Outra face negra do mito do "empreendedorismo" - desta espécie de capitalismo redentor da ociosidade social - foi a progressiva substituição dos escravos por crianças, nos trabalhos forçados e tarefas industriais mais pesadas, depois das abolições das escravaturas.
Os "criadores de emprego" perceberam que as crianças podiam ser uma mão de obra tão especializada quanto os adultos, com a vantagem de ser muito mais barata: foi assim, através da aplicação em massa da exploração do trabalho infantil e dos seus salários "competitivos" - nas fábricas, nos campos e nas minas -, que os "empreendedores" setecentistas e oitocentistas, norte-americanos e europeus, foram acumulando fortunas anuais superiores aos produtos internos brutos de muitos países. Já no século XVII, os "criadores de empregos" compravam anualmente por ninharias aos orfanatos centenas de «meninos e meninas sem laços» para pô-las a trabalhar. O sociólogo e fotógrafo norte-americano Lewis Hine foi instrumental na mudança de mentalidades face à exploração do trabalho infantil quando, na primeira década do século passado, viajou pelos Estados Unidos para documentar as condições miseráveis em que milhões de crianças viviam e trabalhavam, mas hoje ainda existem cerca de trezentos milhões de crianças exploradas pelo "empreendedorismo", que não vão à escola e morrem prematuramente. A estas, espalhadas pelos países ditos em desenvolvimento (Índia, Bangladesh, Malásia, Tailândia, etc.), a mão invisível do mercado não se põe por baixo.

Numa nota mais negra ainda, para a nossa realidade interna, o documentarista inglês Peter Lee-Wright, reconhecido pelos seus trabalhos de denúncia sobre violações dos direitos humanos, coloca Portugal nesta lista terrível no seu livro Child Slaves (2009), no Capítulo 7 «A Storm at Any Port: Portugal Fails European Standards», no qual diz que «in Portugal, 12-year-olds manufacture clothes destined for British chain-stores». O livro foi publicado originalmente em 1990, mas, segundo o Eurostat, cerca de dois milhões e meio de portugueses vivem hoje no limiar da pobreza: números chocantes a que não são inocentes as medidas de austeridade sob as quais somos obrigados a viver e às quais adivinha-se a chegada da tão desejada baixa do salário mínimo nacional, que está fixa nos 485 euros mensais, para tornar a nossa economia mais "competitiva". Torná-la mais competitiva que as economias da Índia, do Bangladesh, da Malásia e da Tailândia, certamente.
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Vem aí a extinção do salário mínimo?


O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho recusa-se, determinantemente, a aumentar o famélico salário mínimo português, que, actualmente, anda por volta dos 485 euros mensais. O chefe do executivo (ainda) em vigência reitera que para auxiliar o regresso aos mercados de um país que sofra com um elevado nível de desemprego «a medida mais sensata que se pode tomar é exactamente a oposta» - leia-se, a de baixar o salário mínimo.

Esta ideia de baixar o salário mínimo (ideia que será posta em prática, brevemente) é, apenas, o primeiro passo na direcção de extingui-lo - e se acham que esta sugestão parece retirada de um panfleto de teorias da conspiração é porque, cabalmente, não conhecem nada de economia, nem sabem nada de história (disciplina que, segundo disse recentemente um dos Yes Men favoritos do governo de coligação PSD/CDS-PP, até nem serve para nada).
A extinção do salário mínimo é um dos axiomas do neoliberalismo, tal como foi desenvolvido pelos economistas da infame "Escola de Chicago", em meados do século passado. Para os neoliberais, o salário mínimo sustenta os "comedores inúteis" e destrói a competitividade das empresas. Desde o Dia 1 que escrevo sobre isso aqui nos Cadernos de Daath (basta clicarem nas etiquetas abaixo para lerem os artigos anteriores), mas se não acreditam nas minhas palavras, acreditem nas do próprio Milton Friedman, um dos Papas do neoliberalismo contemporâneo - proferidas pela sua boca. Ouçam e vejam com atenção o vídeo abaixo e reflictam com profundidade sobre um pensamento económico que repudia o salário mínimo, mas que não encontra nada de errado na caridade.




terça-feira, 20 de novembro de 2012

O futuro de Portugal

Observem com atenção a seguinte sequência de imagens, que mostra uma mulher a ser agredida pelo corpo policial de intervenção durante a vaga de dispersão operada sobre os manifestantes que se reuniram na passada quarta-feira, dia 14, em frente à escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, para protestarem contra o governo de coligação, liderado por Pedro Passos Coelho, (ainda) em vigência. Nesta ligação e nesta já escrevi sobre esta carga policial cobarde e degradante, que nos devia envergonhar a todos, por isso quem ainda não leu esses textos poderá fazê-lo quando desejar, mas, para já, peço que observem por uns instantes estas imagens.

  
Peço-vos que se concentrem na expressão da mulher caída no chão.
Não é um rosto anónimo.
Tem um nome: esta mulher chama-se Cecília Silveira.
A imagem e o nome circulam nas redes sociais. Cecília Silveira é «uma desempregada de longa duração, sem direito a qualquer apoio da Segurança social, e vive da caridade de amigos». Cecília «passa fome, nem rendimento de inserção recebe, não tem qualquer apoio a não ser dos amigos, muitas vezes de pessoas que têm muito pouco, mas que ainda conseguem dividir uma sopa, um pão, um abraço». No entanto, como se isso não fosse aviltante o suficiente, Cecília ainda foi injustamente agredida por um homem blindado, couraçado com capacete, viseira e cassetete, e, no mínimo, com o triplo da sua força física.
Agredida com violência enquanto protestava, legitimamente, como era seu direito, contra as agressões igualmente violentas perpetradas pelo governo liderado por Pedro Passos Coelho. Atirada ao chão, perigosamente perto dos molossos que, esticando as trelas agarradas por criaturas não menos selvagens, salivam de antecipação sanguissedenta; atirada ao chão, perigosamente perto das biqueiras de aço das botas dos agentes do corpo policial de intervenção. Examinem o rosto de Cecília.
É uma face fatigada.
As pregas na pele, cinzeladas pela carestia e pelo desespero diários, têm, em vida, a retesia de um rigor mortis. Os olhos, vítreos como os de uma boneca, não reflectem a luz e só o gesto tímido de um braço estendido, que tacteia por auxílio, lhes empresta um ponto de fuga que nos deixa vislumbrar vida.
Este é o rosto penoso de uma pessoa angustiada. Este é um rosto repleto de vergonha - profundamente humilhado. Um rosto confundido pela injustiça extrema de ser agredido quando já pouquíssimo havia para agredir.
Observem bem este rosto. O rosto de Cecília.
Este é o rosto que costumam ter as vítimas de crimes de guerra.
Este é o rosto que se vira contra a parede à entrada do carrasco na cela.
Este é um rosto totalmente deformado pelo desamparo.

Observem muito bem este rosto. Memorizem muito bem esta expressão.
Olhem para o rosto de Cecília.
E imaginem que é o rosto da vossa mãe.


Imaginem que é o rosto da vossa irmã. Ou da vossa filha.
Imaginem que é o vosso rosto - ali, atirado ao chão, entre os animais.
Interroguem-se: esta é a sociedade em que querem viver? Interroguem-se: querem que este governo continue a governar-nos? Um governo que classificou a carga policial retratada acima como: «impecável», «estóica», «adequada», «profissional», «notável», «serena», «firme», «cheia de profissionalismo», «inevitável».
Olhem para o rosto na fotografia acima: devem-lhe uma resposta para estas perguntas. Devem-lhe a vossa vergonha sobre a desprezível manobra de estratégia do medo, orquestrada com maquiavelismo, a que se assistiu na passada quarta-feira. Devem-lhe aquilo que o governo lhe tem negado: humanidade.
 
Este é o rosto da desumana ideologia neo-liberal, desenvolvida em meados dos anos setenta do século passado pela chamada "Escola de Chicago": grupo de economistas do departamento de economia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, do qual fez parte o "monetarista" Milton Friedman, o principal pugnador da doutrina económica neo-liberal que veio a ganhar uma preponderância cada vez maior na política ocidental, desde o início da década de oitenta do século passado.
Engendrada como teoria económica, cujo único objectivo é, evidentemente, maximizar os lucros independentemente dos meios (o famoso slogan «money matters» é um dos seus mais conhecidos cartões de visita), a ideologia neo-liberal defende o desmantelamento do papel do estado na fixação e autorização de preços, o desregulamento total da banca privada, a privatização total dos serviços públicos e a extinção do salário mínimo.
Entretecida com o mundo da política, a ideologia económica neo-liberal transforma-se numa devastadora ferramenta de engenharia social que extingue a classe média e cria, somente, dois tipos de classes: a dos muito ricos e a dos muito pobres.
Um governo neo-liberal é um governo plutocrático: ou seja, é um governo dos muito ricos para exclusivo benefício dos muito ricos. O neo-liberalismo cria uma espécie de nova nobreza, mas uma que frui das grandes fortunas e não das famílias ancestrais de outrora. É uma política nova para cristalizar um mundo novo: um mundo que, para os muito ricos, é um mundo de facilidades e felicidades, mas que, para os muito pobres, é um mundo de desespero vivido no limite da sobrevivência.
No vídeo abaixo poderão ver como um par de anos de aplicação de ideologias neo-liberais na Grécia já acabaram com a sua classe média. O que acabo de escrever é, reitero, totalmente factual: isto é a doutrina económica neo-liberal escalpelizada ao nível mais elementar.     



As pessoas que viram neste vídeo poderão ser vocês em Março de 2013.
Quando receberem o vosso vencimento do próximo Janeiro, truncado pelas lâminas do orçamento de estado para 2013 que o governo vai aprovar em definitivo no próximo dia 27 de Novembro, talvez comecem, de facto, a prestar atenção ao que se está a passar em Portugal: usando a crise financeira como Cavalo-de-Tróia, o governo de coligação liderado por Pedro Passos Coelho está a usar o bê-a-bá do neo-liberalismo para empobrecer compulsoriamente o país, desvalorizar todos os salários e reduzir o salário mínimo para extingui-lo, desqualificar os indivíduos e privatizar todos os serviços públicos (incluindo a RTP com o seu arquivo histórico, a Caixa Geral de Depósitos e, ainda, património cultural e histórico) para transformar Portugal numa nação de trabalhadores pobres, no limiar da sobrevivência, que sirva de incubadora de mão-de-obra barata para os sectores secundários estrangeiros que, aliciados pelos salários miseráveis aqui aplicados, abrirão fábricas e manufacturas diversas como se não houvesse amanhã.

E, com efeito, para nós, aqueles que desejariam viver em Portugal com dignidade, poderá não haver amanhã nenhum.
O rosto de Cecília - não duvidem - é o nosso rosto. E poderá ser rosto do futuro de Portugal.
Com cinismo, o governo pede-nos para sairmos das nossas "zonas de conforto": poderemos, juntos, mostrar-lhe que isso quer dizer algo bem diferente daquilo que ele está à espera. Não temos nada a perder, a não ser o nosso futuro.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Discurso neo-liberal à porta fechada

Eis o verdadeiro discurso neo-liberal, proferido quando, na mesma sala, à porta fechada, os indivíduos se sentem à vontade para dizer o que realmente pensam: só surpreende quem se deixa enganar pela aura de credibilidade de que estes indivíduos se conseguem arrogar. Não se deixem ludibriar pelo facto de Romney ser norte-americano: o neo-liberalismo é uma linguagem universal - e em Portugal é a linguagem do governo.

Esta é a ideologia neo-liberal que circula à vontade, por trás das portas fechadas dos gabinetes do Palácio de S. Bento.
É um governo como este que vocês querem?
O que é que estão dispostos a fazer pela mudança?


domingo, 16 de setembro de 2012

Depoimento


Caros leitores:

Por escolha pessoal, sempre mantive em separado aquilo que é a minha face pública de autor e a minha vida e convicções privadas, mas este período negríssimo pelo qual passamos, e que emerge como sendo decisivo nas vidas de todos nós, obriga-me a desfazer essa separação e a pronunciar-me publicamente sobre política; em principal, sobre a perigosa política actual que nos conduz e que nos levará à ruína.
Por conseguinte, enquanto autor e enquanto indivíduo, não posso calar-me, pois a palavra é a minha ferramenta de trabalho e é através dela que tenho forma de fazer-me ler e escutar por todos.
Abaixo, encontram-se duas ligações para dois artigos que escrevi aqui no Cadernos de Daath sobre os últimos dias: um antes da Manifestação de 15 de Setembro - a que fui e à qual dei o meu contributo de protesto contra um governo injusto e fanático que urge remodelar - e outro que escrevi depois de chegar da Manifestação. Apresento-vos as ligações por ordem cronológica para que leiam, pensem e partilhem.

Reforço a ideia, axial nos textos, de que estas políticas actuais nada têm a ver com as políticas a que o(s) partido(s) em governo de coligação nos habituaram ao longo das últimas dezenas de anos, mas que se correspondem com ideologias novas, muito diferentes e mais perversas do que temos experimentado.
É o contributo que me é possível para mudar de uma vez por todas esta situação irrespirável, porque não tenho outro modo de agir. Sou escritor, sou um homem das letras, e é por elas que tenho de chegar aos outros: enquanto me for permitido e enquanto for, de modo geral, permitido.

Porque não desejo viver no Portugal que nos estão a construir, este governo irresponsável e perigoso tem de ser remodelado. Já! Antes de ser demasiado tarde, façam-se ouvir, protestem, manifestem-se nas vossas áreas se, tal como eu, também não querem que nos seja arruinado o país.
Obrigado.

http://cadernosdedaath.blogspot.pt/2012/09/aquele-que-nao-tem-ser-lhe-tirado-mesmo.html

http://cadernosdedaath.blogspot.pt/2012/09/ruas-sem-medo.html

Cumprimentos.
David Soares.
Lisboa, 16 de Setembro de 2012