A cultura verdadeira é matéria efervescente, infundida de ânimo pelo fogo da imaginação, mas é, também, plutónica - abissal - e à sua superfície solidifica-se outra cultura: leviana; em cremosos atóis que ocultam a agitação inferior, mas que nunca poderiam existir sem ela. São, pois, duas culturas diferentes - uma profunda, límpida e transformadora; e outra informe, inútil e opaca.
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Polissemia

Depois de um trocadilho ingénuo com um amigo reflicto com alegria sobre o espantoso facto de que a palavra portuguesa pasta é bem capaz de ser uma das mais polissémicas do nosso léxico. Lembro-me dos seguintes significados: dentífrico; terceira pessoa do singular do verbo pastar; mala; directoria de um disco rígido; massa alimentícia; ministério; mistela para rebocar paredes; dinheiro.
(O magnífico reclamo que ilustra este post foi publicado no peródico português O Século Ilustrado nº346, em 1944. Confiram aqui. Juro que não é nenhuma alegoria do tempo presente.)
(O magnífico reclamo que ilustra este post foi publicado no peródico português O Século Ilustrado nº346, em 1944. Confiram aqui. Juro que não é nenhuma alegoria do tempo presente.)
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Votos para 2012
O ano de 2011 já se roja até à região antárctica do calendário para morrer, qual floco de cotão empurrado por baixo da porta, mas será 2012 o annus horribilis profetizado tanto pelos extintos Maias como pelas Sibilas contemporâneas do comentário público?
A verdade assustadora não é a de que vem aí o Apocalipse, nem a de que ele já chegou sem darmos por isso: é a de que nunca existiu outra coisa -- vivemos no eschaton todos os minutos de todos os dias. É por isso que não compreendo o pessimismo. Na verdade, também não compreendo o optimismo, porque ambos se apoiam na esperança: um na esperança de que será tudo mau e o outro na esperança de que será tudo bom. Sou ateu: não me norteio por virtudes teológicas. Oriento-me pela realidade e ela demonstra que o mundo só adquire significado se nós lho imprimirmos. Gravidade, electromagnetismo, força fraca e força forte: estes são os pilares do universo -- quatro, claro. Frias forças físicas. Mas existe uma quintessência radiante, muito mais transcendente: a nossa imaginação.
Todos os dias nos dizem que não podemos imaginar.
Que não podemos sonhar.
Dizem-nos tantas vezes que, às tantas, alguns indivíduos dão por si a acreditar nisso. É uma tragédia.
Na peça Cymbeline (1611) de William Shakespeare, a deleitosa Imogen é o epítome da beleza e da generosidade -- ela é tão celeste que é quase exosférica. Mesmo assim, o marido, Posthumus, não parece satisfeito e aceita a aposta que Iachimo propõe, de que é capaz de seduzir-lhe a mulher. É claro que Imogen, puríssima, é imune a essas manivérsias, mas Iachimo é engenhoso o suficiente para lhe entrar no quarto enquanto ela dorme, semi-nua, e descobrir o sinal que têm num seio. Quando descreve o sinal a Posthumus, este acredita que a mulher deixou-se corromper por Iachimo e ordena a um criado que a mate.
Nós não podemos ser os Posthumus das nossas Imogens. Das nossas imaginações.
É natural que, às vezes, nos sintamos inseguros, como Posthumus, diante da imensa grandeza, da imensurável nobreza da imaginação, e achemos que não merecemos tão refinado ouro. Nos nossos momentos mais negros até sentimos vergonha daquilo que temos de melhor -- e deixamos que os Iachimos da vida, os humanóides que lucram com a miséria e com o desespero, nos enxovalhem as mentes. Nesses casos, os cornos nas nossas testas não são os do adultério, que, como se viu, nunca aconteceu: são os das bestas muares; daquelas que se deixam encaminhar pelos demagogos, venham eles de onde vierem.
São sempre homens inferiores.
A razão pela qual se dedicam a apagar as chamas da imaginação é porque sabem que só elas podem mudar o mundo. A austeridade não mudará o mundo. Comprar produtos por um euro para vendê-los por dois não mudará o mundo. Só a Arte pode mudar o mundo, porque só ela nos mostra que é possível. E é possível: todos os mais progressivos e luminosos períodos da história foram tempos de profundas mudanças culturais, científicas e artísticas. Só a cultura pode mudar o mundo.
Por conseguinte, os meus votos para 2012 são os seguintes: sejam imaginativos, sejam criativos, sejam mais inteligentes, nobres e generosos do que foram este ano. Leiam mais livros, visitem mais museus, ouçam mais música, vejam mais beleza. Não acreditem quando vos disserem que imaginar não é possível, porque não é verdade.
É uma mentira descarada: na peça, ninguém foi capaz de matar Imogen. Ela sobreviveu.
Ela vive. Ela vive.
(Imagem: Imogen, Wilhelm Ferdinand Souchon. 1872.)
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Aforismo de tempo de crise

Aforismo de tempo de crise: um português desanimado olha cabisbaixo para os seus pés; um português confiante olha cabisbaixo para os pés de outra pessoa.
(Imagem: Pés, Vincent Van Gogh. 1887.)
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Sobre flexões nominais

O escritor norte-americano David Foster Wallace escreveu o seguinte no ensaio "E Unibus Pluram", contido no livro A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again (1997):
Na maioria das vezes, os programas televisivos difundem uma versão desidiosa da língua; como flocos liofilizados, ela é servida em porções desenergizadas às quais a falta de tempo e a falta de informação impede que se junte água - uma infra-linguagem indicada para empregar nos rodapés rolantes dos noticiários ou nos palimpsestos contemporâneos da internet, mas demasiado inexacta e inculta para veicular conhecimentos. O lugar-comum da televisão como ama-seca dos espectadores volta a soar acertado quando se pensa sobre a linguagem televisiva como sendo análoga aos arrulhos usados para acalmar crianças - e talvez mais do que em qualquer outra altura, ela arrulhe mais alto no período natalício.
Alguns dos erros mais frequentes que se ouvem na televisão são erros no uso das regras de flexão, que se divide em nominal e verbal. À primeira cabe, entre outras coisas, o tratamento do género e do número dos nomes e dos adjectivos. O género pode ser masculino ou feminino e o número pode ser singular ou plural. Existem línguas, como as da família ugro-finlandesa (finlandês, estónio, húngaro) que se caracterizam pela ausência de género, ou seja o mesmo pronome é usado para designar tanto o género masculino como o feminino (politicamente correcto, não?), mas no caso do português existem regras específicas para o uso do género e do número. No último caso, os erros mais vulgares ocorrem na escrita de palavras compostas ou compostos (nem sempre ligados por hífen).
Por exemplo, nesta altura do ano ouve-se dezenas de vezes "pais natal", mas o plural de Pai Natal é pais natais, porque é um composto formado por um nome e um adjectivo. O mesmo acontece com o plural bolos-reis do composto bolo-rei, formado por dois nomes. Quando o composto é formado por dois adjectivos, ambos se usam no plural.
Nos compostos formados por um verbo e um nome, só o nome muda para plural. Todavia, nos casos em que existe uma preposição entre dois ou mais elementos (são os chamados compostos preposicionais) só o primeiro adquire a forma de plural: é por isso que se diz pães-de-ló e não pão-de-lós ou pães-de-lós (muito menos "pãos-de-ló").
A dada altura, Foster Wallace também escreve:
Qualquer biólogo sério vos poderá esclarecer que estamos programados para procurar alimentos açucarados e que é ingrato lutar contra essa tendência congénita. É por isso que o Natal é particularmente periculosu: por culpa dos tradicionais doces e pontapés no português.
«I'm not saying that television is vulgar and dumb because the people who compose the Audience are vulgar and dumb. Television is the way it is simply because people tend to be extremely similar in their vulgar and prurient and dumb interests and wildly different in their refined and aesthetic and noble interests.»
Na maioria das vezes, os programas televisivos difundem uma versão desidiosa da língua; como flocos liofilizados, ela é servida em porções desenergizadas às quais a falta de tempo e a falta de informação impede que se junte água - uma infra-linguagem indicada para empregar nos rodapés rolantes dos noticiários ou nos palimpsestos contemporâneos da internet, mas demasiado inexacta e inculta para veicular conhecimentos. O lugar-comum da televisão como ama-seca dos espectadores volta a soar acertado quando se pensa sobre a linguagem televisiva como sendo análoga aos arrulhos usados para acalmar crianças - e talvez mais do que em qualquer outra altura, ela arrulhe mais alto no período natalício.
Alguns dos erros mais frequentes que se ouvem na televisão são erros no uso das regras de flexão, que se divide em nominal e verbal. À primeira cabe, entre outras coisas, o tratamento do género e do número dos nomes e dos adjectivos. O género pode ser masculino ou feminino e o número pode ser singular ou plural. Existem línguas, como as da família ugro-finlandesa (finlandês, estónio, húngaro) que se caracterizam pela ausência de género, ou seja o mesmo pronome é usado para designar tanto o género masculino como o feminino (politicamente correcto, não?), mas no caso do português existem regras específicas para o uso do género e do número. No último caso, os erros mais vulgares ocorrem na escrita de palavras compostas ou compostos (nem sempre ligados por hífen).
Por exemplo, nesta altura do ano ouve-se dezenas de vezes "pais natal", mas o plural de Pai Natal é pais natais, porque é um composto formado por um nome e um adjectivo. O mesmo acontece com o plural bolos-reis do composto bolo-rei, formado por dois nomes. Quando o composto é formado por dois adjectivos, ambos se usam no plural.
Nos compostos formados por um verbo e um nome, só o nome muda para plural. Todavia, nos casos em que existe uma preposição entre dois ou mais elementos (são os chamados compostos preposicionais) só o primeiro adquire a forma de plural: é por isso que se diz pães-de-ló e não pão-de-lós ou pães-de-lós (muito menos "pãos-de-ló").
A dada altura, Foster Wallace também escreve:
«Television, from the surface on down, is about desire.
Fictionally speaking, desire is the sugar in human food.»
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domingo, 11 de dezembro de 2011
Portas brancas
As Portas Brancas (1905) do pintor dinamarquês Vilhelm Hammershoi (1864-1916), um dos meus artistas preferidos. Os quadros de Hammershoi são esmagadores. Neles, inversamente ao que possa parecer, não há lugar para a minimidade, nem para elipses: a solidão vocifera e predomina em tudo. Aqui, sim, mais do que em Munch, se grita de modo ensurdecedor.
Aceita-se o truísmo de que vivemos na era da imagem, mas, na verdade, como lhe damos pouca importância. Valorizamos as imagens em movimento de algum cinema e da televisão, mas o poder que operam sobre nós é somente um poder orgásmico, reduzido no tempo e na topografia. A apreensão epifânica de um verdadeiro significado (de natureza variável, conforme cada indivíduo) pertencerá, ainda, ao domínio da imagem parada, como a da pintura e da fotografia. Observar um quadro, como este de Hammershoi -- que é quase toreumatográfico --, é viajar para dentro dele, numa constelação fecundativa. Precisamos, talvez, nesta era das imagens, de redescobrir o valor delas.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Novos monstros
Hoje sabemos quais são as formas que os monstros afigurados pela Razão podem assumir, mas ainda não sabemos em que feitios se manifestarão os monstros concebidos pela Emoção.
(Quadro: As Quatro Divisões, Vilhelm Hammershoi. 1914.)
(Quadro: As Quatro Divisões, Vilhelm Hammershoi. 1914.)
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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Anonymous
Começando com um prólogo teatral, passado nos nossos dias, com o actor inglês Derek Jacobi sozinho no palco, à guisa de Grilo Falante, enunciando ao público as razões pelas quais o dramaturgo inglês William Shakespeare não pôde ter sido o verdadeiro autor dos seus trabalhos, o filme Anonymous de Roland Emmerich é desonesto desde o início. Na verdade, o filme, com mais de duas horas de duração, mais parece um trailer a posteriori, apenas realizado para justificar a projecção do prólogo e do epílogo de Jacobi. De outra forma, qual é a justificação desses segmentos numa obra cinematográfica de ficção? A única justificação possível é a de que servem unicamente para provocar a opinião do público e granjear publicidade para o filme: adivinha-se que quanto mais polémico for o discurso, mais espectadores o filme terá e, nesse sentido de estratégia de mercearia de bairro, é um truque tão natural quanto outro qualquer. Porém, não deixa de ser desonesto em virtude disso: é uma estratégia que não deixa o filme respirar, nem oferece espaço ao espectador para retirar da história as suas próprias conclusões. Anonymous não é, pois, diferente de qualquer panfleto de propaganda eleitoral: o filme escolheu o seu candidato para autor das obras de Shakespeare, na figura de Edward de Vere, 17º conde de Oxford, e tudo faz para que os espectadores votem nele. Ora, eu não voto.Enquanto filme, no mínimo enquanto espectáculo, Anonymous tem alguns méritos -- a cenografia, guarda-roupa e fotografia são de qualidade, assim como o trabalho superlativo da maioria dos actores (em principal Rhys Ifans como o mirífico Edward de Vere e Edward Hogg como o gebo Robert Cecil) --, mas não são suficientes para ofuscar a amargura de um argumento desastrado. O problema de Anonymous é que tem tudo para ser um filme interessante, mas recusa-se a ser um filme, de todo, apresentando-se como um panfleto de propaganda eleitoral, como já referi. No final do tempo de antena, depois de mostrada a arenga da praxe, pejada de intrigas palacianas, à la "Código da Vinci" quinhentista, e alguns complexos de Édipo, lá aparece Jacobi novamente, no seu melhor como porta-voz de campanha, a resumir com paternalismo as razões pelas quais se deve votar no candidato apresentado, não vá o espectador enganar-se e ir para casa sem a cartilha bem aprendida. Dá sempre jeito ter um senhor de cabelos brancos e com aspecto de cavalheiro respeitável para papaguear umas barbaridades, quando o objectivo é que elas pareçam credíveis.
Sobre o filme, pouco ou nada mais há que comentar, porque, com efeito, o filme verdadeiro, aquele que, de facto, o realizador está ansioso por nos mostrar, é composto pelo prólogo e pelo epílogo. E esse transmite algumas mensagens perigosas, mas que, enfim, devem estar sintonizadas com o tempo em que vivemos, no qual ter talento não interessa nada. A tónica colocada nas origens iletradas de Shakespeare, insistindo que ele não poderia ter escrito os seus trabalhos porque o pai não sabia ler, e porque as suas filhas também não, parece retirado a papel-químico dos discursos de Marcelo Caetano, delfim de António de Oliveira Salazar, que defendia a ideia de que a inteligência e o talento eram faculdades que apenas se refinavam «no seio de uma família» (à laia de lamarckismo revisto pelo Estado Novo). Ou seja: na visão de Emmerich, Shakespeare não tinha nada de ser escritor e deveria ter sido fabricante de luvas como o pai; tal como, na lógica de Caetano, ao filho de um sapateiro só era permitido ser sapateiro. Anonymous tem, como se vê, a finura do feitor de castas: a cada um, de acordo com o seu berço.
Mas há mais: numa observação totalmente contemporânea sobre a vida de indivíduos que já morreram há mais de três séculos, Jacobi ainda refere que Shakespeare não poderia ter escrito os seus trabalhos porque só tinha o ensino primário (no original, grammar school). É um argumento tão anacrónico que nem sequer merece uma refutação séria. Prefiro deixar o esclarecimento de que a maioria dos indivíduos da sociedade quinhentista isabelina não teriam muitos anos de estudo, nem sequer os nobres, dos quais se resgatou a personagem Edward de Vere: a função da nobreza não era saber ler nem escrever, mas saber guerrear. Para ler e filosofar havia o clero e para governar havia o rei (ou a rainha). Como é que, por um lado, Anonymous faz questão de ostentar o desprezo cabal dos nobres pela literatura (não esquecer que é esse desprezo que está na base da teoria da conspiração que serve de esqueleto ao filme) e, por outro, defender que um campónio, que tinha um pai analfabeto, ainda por cima, também seria incapaz de escrever? Então, quem é que escrevia naquele país? É verdadeiramente espantoso como uma sociedade tão tacanha como a retratada no filme foi capaz de servir de parteira a um dramaturgo tão genial, viesse ele de que classe social viesse. É um mundo muito feio, o de Emmerich e John Orloff (argumentista).
Anacrónico, preconceituoso e panfletário podiam ser boas designações para Anonymous, mas não são. Não são, porque Anonymous não existe enquanto filme: só existe enquanto tempo de antena de campanha eleitoral, na projecção do prólogo e do epílogo. As duas horas e dez minutos que estão no meio são apenas a música de baile que os mestres-de-picadeiro escolheram para dourar a pílula.
Vale a pena ver este teaser em que Emmerich expõe as suas dez razões para que Shakespeare não possa ter escrito os seus trabalhos -- em síntese, é o discurso de Jacobi em Anonymous, mas com a desvantagem de ser Emmerich a soliloquar, em vez de ser um actor profissional: http://www.imdb.com/video/imdb/vi1157013017
Mesmo assim, no que diz respeito a candidatos alternativos para a autoria das obras de Shakespeare, Edward de Vere, deixa um pouco a desejar, como se pode ler em Brief Lives, do cronista seiscentista John Aubrey. De Vere cometeu uma falha imperdoável junto da rainha Elizabeth I, quando a ela foi apresentado: o conde estava tão nervoso por conhecê-la que, ao realizar os salamaleques da praxe, descuidou-se em alto e bom som. O episódio foi um escândalo e Edward de Vere andou exilado cerca de sete anos, sem sequer olhar na direcção de Inglaterra. Ao retornar, foi ter com Elizabeth I, como era mandatório, e ela disse-lhe: «Caro Senhor, já me esqueci do seu peido [sic]». A ser verídica a tese oxfordiana, quem sabe se sem esse tirocínio forçado pela Europa, De Vere não teria sido capaz de inspirar-se na alta cultura florentina para escrever. Nesse caso, devemos agradecer não à providência, mas à flatulência, uma das maiores obras literárias mundiais.
No fim do epílogo de Anonymous, depois de Jacobi ter cumprido o papel de advogado do Diabo e desaparecer atrás da cortina, vemos os espectadores esclarecidos a levantarem-se dos seus lugares. A caminho das urnas, portanto, prontos a assinarem de cruz como o pai de Shakespeare.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
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domingo, 26 de junho de 2011
A Era do Giro

O costume contemporâneo de montar um circo cada vez que se pretende protestar contra aquilo que se acha ser incorrecto é uma prova de que a nossa sociedade, de maneira geral, está cada vez mais infantil e sofre de uma incapacidade crónica de discutir com seriedade seja que assunto for.
Essa regressão mental é, infelizmente, uma das causas do cada vez maior aviltamento do discurso científico, presente nos meios de comunicação e entre as opiniões populares, e também da elevação do emocional em detrimento do racional. Este emocional, claro, em nada se relaciona com as emoções verdadeiras, das quais, como já provou a neurociência, a razão é indissociável, mas com as emoções de pechisbeque que tornam os adultos em autênticas crianças, guiados por memórias atávicas de tempos mais simplórios, mais confortáveis e, qualidade superlativa, mais giros.
O giro é o grande predicado deste período histórico e orienta todas as áreas da vida, desde a moda, os produtos de entretenimento e, ao que parece, a intervenção cívica.
Neste sentido (circense), a intervenção gira, com pinturas, perucas, máscaras e acessórios estapafúrdios, não é diferente da popularucha festa stultorum, a festa dos parvos, em que os campónios se disfarçavam de grandes senhores e tinham o direito de apupá-los em público, enquanto estes se apresentavam em trajes humildes: importa reter o carácter grotesco e humorístico desta festa que, dadas as circunstâncias, poderia ter-se vertido num verdadeiro protesto social - com consequências. Quis sempre o modelo mental das sociedades coevas que ela se mantivesse no registo da paródia e que não se transformasse em revolução.
Ora, quer o nosso modelo mental - contemporâneo - que o giro seja o tom dominante de tudo, fazendo-nos esquecer que ele e a brincadeira são, por excelência, composições do mundo das crianças: elementos que apenas por desvio ou por acidente encontram lugar de nidificação no universo dos adultos. Em suma: hoje tudo tem que ser giro - tudo tem que ser reforçado com as simples expressões dos emoticons. Até as intervenções cívicas. Já passámos o período do camp, tão bem teorizado por Susan Sontag no livro Against Interpretation: hoje vivemos sob o triunfo total do giro. Um giro que nada tem de satírico, de mordaz ou até mesmo de caricatural. É, somente, um giro que comunica com a falta de inteligência e a falta de sentimentos sofisticados.
É nessa classe de giro que observo o fenómeno do ciclismo "nudista" que hoje pedalou pela íngreme Lisboa (de cima para baixo e com bom tempo, está claro). O argumento de que a nudez hoje em dia não aborrece ninguém desvirtua a escolha da própria nudez como gimmick, pois se ela não choca ou não atrai curiosidade para quê o seu uso? E em que modo ela se relaciona com a mensagem de que andar de bicicleta é melhor para a saúde dos indivíduos? Não se relaciona: é, ao estilo da festa stultorum, um arremedo de protesto que, ao fim e ao cabo, não tem como objectivo mudar o statu quo, mas folgar durante uns momentos. Quanto ao pensamento que lhe subjaz, de que andar de carro na cidade é «obsceno» [diziam alguns cartazes dos ciclistas que «obsceno é o trânsito»] e imoral, só tenho a dizer que ele se inclui no ecologismo de pechisbeque de quem se habituou a olhar para o planeta como sendo um berçário cheio de peluches engraçados e que não pensa, verdadeiramente, nas consequências de um retrocesso tecnológico. Um protesto credível seria pedalar no sentido inverso, de baixo para cima, e no Inverno. Mas esta patetice inscreve-se na visão diabolizada da intervenção humana e tecnológica no ambiente de que a nossa sociedade contemporânea padece. Uma sociedade que já sofre os efeitos da, também gira e verde, recusa de vacinar as crianças e dar-lhes medicamentos químicos, alegando que não são "práticas naturais".
Vacinas? Aspirinas? Xaropes? Essas invenções que só servem para nos pôr doentes e dar dinheiro às indústrias farmacêuticas? O sangramento é que é bom: com uma gamela e uma lanceta, flebotomize-se sempre que se começar a ter febre ou a espirrar.
Não é poluente e promove o contacto com os mecanismos secretos do corporal e do espiritual.
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quinta-feira, 23 de junho de 2011
Sobre os livros e a vida

A vida tem o mesmo problema que uma transmissão noticiosa em directo para a televisão: a falta de edição.
É, em essência, material em bruto - e sem sentido, a não ser aquele que lhe é, mal ou bem, colocado a posteriori por quem vive. Em oposição, uma notícia editada é, se for realizada com êxito, uma peça cirúrgica sobre a vida. É algo esclarecedor, que faz pensar. Quando são bons, os livros são ainda melhores: não só têm sentido, como têm uma visão. E essa visão, se for escrita com sofisticação, com alcance, pode mudar o mundo. Por conseguinte, nós, escritores, somos (ou deveríamos ser) intermediários entre a vida, entre material em bruto, tão sujo e ineficaz quanto minério, e o papel, palimpsesto para visões refinadas como aço ou cristal na fornalha fervente da mente.
Aqueles que dizem que o conhecimento livresco é inferior ao vivido não sabem do que estão a falar: onde é que se pode aprender como morre uma estrela, numa explosão tão intensa que observá-la de perto daria a impressão de demorar séculos a fio, a não ser num livro? Onde é que se pode ver borboletas com asas feitas de pão-de-forma (já barradas com manteiga), a não ser num livro? E onde é que se pode encontrar o suposto salvador de toda a humanidade, cingido e sangrante, a não ser num livro? Basta abrir um livro para dar luz à casa.
Os livros são vida editada pelos escritores. Já a vivemos, já fomos enganados pelas suas emboscadas, e apresentamos a nossa visão sobre ela. As nossas ideias.
As ideias, claro, não existem. Não se pode tropeçar numa ideia.
Mas só elas são capazes de mudar o mundo.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Cidade é Natureza
O facto de que existem pouquíssimos fósseis de hominídeos idosos e de meia-idade deveria ser uma pista para a maioria dos indivíduos calcular que a vida do campo está muito longe de ser o estado ideal da nossa espécie. Não é à toa que o reality show que coloca um grupo de pessoas no meio do mato para os espectadores verem como elas se comportam se chama Survivor. Até nas nossas cidades contemporâneas se pode morrer de frio ou de calor, em poucas horas, se, por uma razão ou outra, dermos connosco desprotegidos face ao clima das estações. O mundo é um local que coloca todas as criaturas à beira do perigo ou da morte a todos os instantes e, desde que a vida germinou, extinguiu 99,9% de todas as espécies que o povoaram. O mundo não é a maternal biosfera que o pensamento romântico contemporâneo nos quer fazer acreditar que é: é, apenas, um habitat - hostil, cheio de doenças, predadores e parasitas. Com efeito, o habitat natural - ideal - do homo sapiens sapiens - aquele em que, de facto, ele (nós) se desenvolveu e teve capacidade de delinear estratégias de sobrevivência, como a agricultura e a escrita - é a cidade.Enquanto espécie, não nos podemos desentrelaçar da cidade (e das suas versões beta, claro - a aldeia e a vila).
Por isso é com alguma estupefacção que vejo aquilo que só posso apelidar de beato deslumbramento diante da terceira edição do evento Mega Piquenique Modelo que teve lugar no centro de Lisboa, e que transformou a Avenida de Liberdade numa quinta, com animais, legumes e frutos. A iniciativa, em si, não me aquece, nem arrefece, mas penso que, de modo indirecto, fortalece uma ideia popular, e errada, de que a cidade é intrinsecamente imoral, enquanto que o campo, por estar mais perto de uma concepção "disneyesca" da Natureza, é profundamente moral - e o estado dourado que perdemos com a queda citadina da graça. Qualquer indivíduo que seja um leitor mediano de História é capaz de perceber o quanto essa criação provinciana está errada. Não só o nosso habitat natural é a cidade, como sem ela não seríamos capazes de viver: desde que nos erguemos para caminhar em marcha bípede, e aprendemos a usar ferramentas, que modificamos o mundo à nossa volta para garantir a nossa sobrevivência e isso, na verdade, não é nenhuma desgraça, mas o comportamento natural da nossa espécie. A cidade é uma das nossas estratégias mais antigas - e aquela que, ao contrário do campo, nos deu mais frutos.
Até a agricultura biológica, que é servida hoje nos meios de comunicação como panaceia para os diabolismos do mundo industrializado, é um mito: a agricultura é, sempre foi e sempre será artificial.
Nenhumas das espécies vegetais cultivadas pelo homem se assemelham minimamente às versões selvagens das quais descendem e foram transformadas por tentativa e erro pelos nossos primitivos antepassados de maneira a darem mais grãos, mais frutos e medrarem em solos desnutridos. Na realidade, nenhum cereal da nossa dieta é capaz de sobreviver sem a mão humana - e nenhuma espécie de cereal contemporânea, consumida hoje (seja trigo, milho ou arroz), tem mais de sessenta ou setenta anos: são versões desenvolvidas por cruzamentos genéticos, inventadas em laboratório para serem mais férteis, mais rentáveis, mais adaptáveis a condições adversas e, também, mais nutritivas. Sem o processo Haber-Bosch, inventado em meados do primeiro decénio do século passado, e usado para criar os constituintes essenciais aos fertilizantes contemporâneos, como nitrogénio e sais amoniacais, não haveria agricultura - "biológica" ou outra!... - que sustentasse a nossa população, já que são esses fertilizantes que permitem rentabilizar o espaço cultivado: menos espaço que dá mais colheitas por ano. Se revertêssemos para a agricultura "biológica" (primitiva) precisaríamos do dobro ou do triplo do espaço para colher as mesmas quantidades - e isso, sim, é que seria uma ameaça para as áreas florestais e para as espécies animais que nelas habitam.
A cidade é Natureza: é tão natural quanto uma floresta, porque o homem é uma criatura natural. É, também, tal como a própria Natureza, algo que continua a evoluir. Precisamos de optimizar ainda mais as nossas cidades, que são o nosso repositório de memórias, de cultura. Mas isso não se fará revertendo a cidade para um Ilídio rural, para uma eutopia pastoril, sem carros e sem habitantes, que nunca existiu a não ser nos produtos de entretenimento.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Sardinhada
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segunda-feira, 23 de maio de 2011
Thumbs up? Or down?...
Nunca tinha visto nenhum episódio da série Spartacus, mas pareceu-me uma espécie de epígono entre Rome e o filme 300... Gostei do arrojo das cenas que vi, mas o CGI omnipresente dá um aspecto muitíssimo artificial, o que é uma pena. De qualquer das maneiras, a série investe nos mesmos erros de outras produções de época...Por exemplo: mas será que ainda ninguém aprendeu que NUNCA se usou o polegar para cima para indicar que um gladiador deveria viver? Usava-se o polegar para baixo, para indicar que a arma usada pelo vencedor deveria cair na arena. Para ordenar que o vencido morresse, usava-se o polegar virado para o peito. Na verdade, o gesto do polegar para cima era um insulto. Ainda hoje, em certas regiões mediterrâneas, o gesto é considerado extremamente ofensivo.
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sexta-feira, 20 de maio de 2011
Petição Pública
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quinta-feira, 31 de março de 2011
Poema

O Macaco (Valsa Lisboeta)
Nunca se sabe até que ponto um macaco
pode chegar na ânsia de nos imitar
Dizem alguns autores ser o macaco
difícil de apanhar - mas não
Em qualquer mundana reunião
num ombro numa frase num olhar
no jeito «humanista» de falar
aí temos o macaco a trabalhar
procurando aproveitar a confusão
Pessoalmente sou de opinião
que o macaco é fácil de caçar
até à mão.
Alexandre O'Neill (in Poemas Com Endereço, 1962)
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terça-feira, 29 de março de 2011
Os Falidos do Intelecto

A quantidade de visitantes portugueses e brasileiros que vêm parar ao Cadernos de Daath com pesquisas como «livro-tal sinopse» ou «trabalho sobre livro-assim e assim» ou «tese sobre o-tal-livro» faz-me pensar que anda por aí muito aldrabão nos ensinos secundário e superior.
Já que não querem ter o trabalho de ler os livros, ao menos tenham o de imprimir os vossos mafianços sem os endereços de Internet na margem das páginas. Já muitos falidos do intelecto foram apanhados dessa maneira, santa burrice!...
terça-feira, 22 de março de 2011
Epifania
Talvez tenha tido uma epifania (a palavra vulgarizou-se tanto, por isso quem sabe?), mas quase que tenho a certeza de que se se olhar com atenção para o quadro As Rosas de Heliogábalo, de Alma-Tadema (1888), a pintura nos desvendará todos os segredos do universo.
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terça-feira, 1 de março de 2011
Hoje é Dia de São David

Hoje é dia de São David!
Patrono dos poetas, dos recitadores e dos fogos-fátuos!
É, normalmente, representado em cima de uma colina elevada, com um livro aberto na mão e com o Espírito Santo d'Orelha, ao ombro, a aconselhá-lo.
No dia de São David, realiza-se o tradicional festival Eisteddfod: um evento que mistura literatura, música e declamação.
Fitting, é tudo o que posso dizer...
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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
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