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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Sobre Lovecraft


Não sou um fã fervoroso dos contos de H. P. Lovecraft, mas não pertenço ao campo dos seus detractores literários, nem tão-pouco ao dos seus assassinos de carácter, que, com odiosa curiosidade, o querem reduzir à caricatura de racista virulento (como o escritor francês Michel Houellebecq, autor da biografia H.P. Lovecraft: Contre le monde, contre la vie, que, no mínimo, pode ser caracterizada como carente de fontes fidedignas). Quero acreditar que a maioria desta gente, de facto, não conhece a vida e a obra de Lovecraft e, pela rama, escreve e fala sobre o que não sabe.

O racismo de Lovecraft foi um racismo de pechisbeque: um arremedo adolescente de alguém que, inserido num contexto muito provinciano, cresceu a pensar de um modo tradicionalista e ultra-conservador. Orientado por um elitismo de inspiração aristocrática, a que, em dada altura, quis almejar, Lovecraft desgostava e desconfiava das massas, mas - o que tem piada! - nunca rejeitou o indivíduo - fosse ele branco, negro ou de outra etina, algo que a sua profusa correspondência pessoal demonstra com clareza.

Outra coisa que a sua obra (é numerosa e literariamente significante para ser assim considerada) epistolar demonstra sem margem para dúvida é que o escritor, ao longo dos anos, afastou-se da matriz ultramontana e isolacionista da Direita norte-americana do seu tempo para tornar-se um homem aberto, mais positivo, menos pessimista e, sobretudo, menos precipitado nos seus julgamentos de sofá - até porque já se atrevia a sair de casa, de quando em quando, para visitar alguns amigos epistolares.

De facto, nas vésperas da morte, Lovecraft tornou-se um simpatizante da Esquerda e escreveu com entusiasmo sobre a democracia. Estamos, por conseguinte, muitíssimo longe dos textos intolerantes que escreveu na juventude e nos primeiros anos da idade adulta (como as histórias The Horror of Red Hook e He, por exemplo). A sua ficção patenteia essa viragem. Se nos primeiros contos ele observou com horror a proximidade do Outro - se desejarmos ler a obra dessa forma (a obra permite mais do que uma leitura) -, nos contos finais o contacto com o Outro - com o alienígena (em inglês, alien também significa imigrante) - é procurado como uma hipótese transformadora e até redentora: ao ponto de escrever, em At the Mountains of Madness, que os Outros «radiates, vegetables, monstrosities, star spawn — whatever they had been, they were men!». Quando o narrador de The Shadow Over Innsmouth descobre que é um mestiço e que tem sangue do Outro nas veias reage com maravilhamento, em vez de sentir repulsa: «the tense extremes of horror are lessening, and I feel queerly drawn toward the unknown sea-deeps instead or fearing them. I hear and do strange things in sleep, and awake with a kind of exaltation instead of terror. Stupendous and unheard of splendours await me below, and I shall seek them soon. (...) in that lair of the Deep Ones, I shall dwell amidst wonder and glory forever».
Dificilmente este será o ponto de vista de quem encara com repúdio uniões multiétnicas.

Sobre essa questão, acrescente-se o casamento de Lovecraft com Sonia Greene, uma judia ucraniana, sete anos mais velha que ele. A união de Lovecraft com Sonia fez-se de verdadeira cumplicidade e afeição, embora esta se tenha dissolvido, de modo amigável, por culpa das circunstâncias laborais de Greene, obrigada a viajar de um lado para o outro, ficando Lovecraft muito tempo sozinho no pequeno apartamento que ambos tinham alugado numa zona muito pobre de Brooklyn, em Nova Iorque. Com efeito, em segredo, Lovecraft nunca assinou o documento do divórcio, na sincera esperança de que ele e a mulher, em breve, voltassem a viver juntos. Se este é o comportamento de um racista virulento, anti-semita e misógino, então eu não sei qual é o comportamento de alguém de sinais opostos.

Ainda assim, mesmo que Lovecraft correspondesse à caricatura racista que dele alguns querem fazer (até existe um jogo na Internet que o compara com Hitler), o que é que isso tem a ver com a autêntica apreciação literária da sua obra? É óbvio que somos livres de não querer ler obras de autores que não admiramos pelos mais variados motivos (eu, por exemplo, recuso ler livros escritos por quem escreve mal), mas recusarmos ver o valor literário que as obras têm, por culpa do nosso desgosto ou preconceito sobre os autores, é totalmente errado.

Lovecraft viveu toda a vida como um indigente, que mal tinha dinheiro para comer e, pese essas dificuldades, preferia gastá-lo em livros e em papel de carta para se corresponder com os seus múltiplos amigos epistolares - que, genuinamente, o admiravam e acarinhavam. Foi, em suma, alguém que recusou uma vida normal, fácil, com um emprego banal, das nove às cinco, para se entregar com toda a alma à criação literária de mundos imaginários que, hoje, reverberam com uma força imensa. Quando penso em Lovecraft, não é a imagem do racista a espumar da boca que evoco, mas a do escritor esforçado - e culto - que se sacrificou diariamente para deixar obra feita: a obra que ele quis e não aquela que as modas do seu tempo poderiam ter ditado.

Hoje como ontem, o preço a pagar pela integridade, pela ética e pelo sacrifício é sempre o isolamento. Não direi sobre Lovecraft o que Pierre Klossowski disse sobre Sade, mas posso dizer que, para mim, Lovecraft é um exemplo luminoso: se eu, enquanto autor, me juntasse ao coro de detractores lovecraftianos, rapidamente me vergaria até aos calcanhares sobre o peso insuportável da vergonha mais desonrosa. Aviltar de modo tão cobarde quem amou tanto as letras e o mundo imaginal que criou de maneira tão especial é uma veleidade de homens pequenos.


A bodega de Lisboa

Não há outra forma de dizê-lo e tentá-lo seria, ao mesmo tempo, uma hipocrisia e uma perda de tempo: este texto que o The New York Times publicou sobre Lisboa é uma bela bodega.

Aqui, pode ler-se a apologia de uma espécie de turismo rural olisiponense, no qual a cidade, longe de possuir uma história antiquíssima (Lisboa foi fundada em 1200 a.C.) que urge descobrir, irrompe como uma simples e simpática aldeiazinha alcandorada ao Tejo, que convida o turista - cansado da história e da cultura que encontra em outras cidades europeias mais interessantes - ao ócio desmiolado, em restaurantes e ostarias hipster que, ainda por cima, como Portugal atravessa uma crise economico-financeira, são muito mais baratos que os das restantes capitais. Ena, pá! Sobretudo, nesta visão miserabilista sobre Lisboa, a cidade é minúscula: adstrita ao Parque Eduardo VII - onde pululam cachorros amestrados (tão giro que isto é) -, às ruas da Baixa - onde pululam serventes amestrados (tão prático que isto é) - e à colina do Castelo - onde pulula a parenética amestrada sobre o território (tão conceptual que isto é) - , como se o resto não existisse. Aos olhos de Frank Bruni, antigo crítico de restauração do The New York Times, Lisboa é um diorama sem delínquio, simplesmente porque não exige nada ao visitante: segundo o cronista, não tem locais de relevo para visitar, não tem museus, não tem sítios com interesse artístico e histórico, não tem nada a não ser dois restaurantes do caraças e meia-dúzia de hotéis super-chiques (onde também pululam os serventes amestrados). O Rei Midas iria gostar da talha dourada da Igreja de São Miguel, escreve Bruni: aqui já se está no campo da alta literatura, pelos vistos. É comovente, assim como comove a abulia que, segundo Bruni, é o trunfo de Lisboa.

Lisboa é descrita como sendo o castelo da Fera do filme de animação Beauty and the Beast, dos estúdios Disney, durante o segmento musical «Be Our Guest»; é tão fácil imaginar o cronista sentado à sossega, ao entardecer, numa das esplanadas in dos hóteis que cita no artigo, enquanto a fauna mágica da criadagem lisboeta se desunha para o deslumbrar com as suas qualidades subservientes: «be our guest, be our guest, put our service to the test, tie your napkin round your neck, cherie, and we provide the rest». Eu acho isto digno de dó. Aliás, vou reformular o que escrevi no primeiro parágrafo: o artigo não é uma bela bodega. É uma grande merda.


E aqui está, como complemento, uma bucólica cena recente, observada pela manhãzinha no último Mega Picnic, na Avenida da Liberdade. (O The New York Times iria gostar.)

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Breves apontamentos sobre as touradas


Recentemente, vi parte de um episódio do programa televisivo Prós e Contras em que o tema de debate foi a tourada e isso infundiu-me a apontar aqui algumas meditações que tenho sobre esse assunto. Vale a pena começar por esclarecer que não gosto de touradas, logo o meu discurso não será simpático para com elas, mas estou longe de ser antitouradas, assim como considero desimaginoso e desanimador o desenho que, por vezes, aqueles que o são riscam sobre os aficionados, caracterizando-os como sendo pessoas perversas e carenciadas de empatia. Admitindo a falta de indicadores estatísticos que me comprovem a minha seguinte suposição, aposto com segurança que a maioria dos aficionados (para efeito de simplificação incluo neste grupo todos os agentes que fazem parte do mundo das touradas, espectadores e não só) não são assassinos, nem criminosos, nem psicopatas: são, somente, indivíduos comuns que gostam de touradas, que têm paixão por elas e que sobre elas projectam uma série de conceitos e valores positivos que escapam à leitura de todos aqueles que não gostam de touradas.

Embora me choque a conjunção de brutalidade e artificialismo que consubstancia o espectáculo das touradas não é tanto pela via da violência que se desenvolve o meu desgosto por elas. Na verdade, os circos ferem muito mais a minha sensibilidade do que as touradas. Aquilo que me faz desgostar de touradas é, notadamente, o facto de achá-las repetitivas, aborrecidas e anacrónicas: resquícios de uma congeminência cultural que, hoje em dia, não faz o sentido que fazia há, digamos, trezentos ou quatrocentos anos. Nesta óptica, penso que a proibição seria ineficaz, porque sendo a tourada uma tradição ou uma quasitradição só poderá desaparecer na mesma feição que todas as tradições desaparecem: quando deixam de veicular os desejos e as aspirações de uma comunidade.
Em rigor, a extinção das touradas passará por renovações naturais que, provavelmente, nem sequer estarão relacionadas com elas, mas com o modo como nós, enquanto sociedade, vamos criando outros costumes e novos processos de sentir o colectivo, muito mais sintonizados com a nossa contemporaneidade – o que vai acontecendo. Escrevo “sentir”, porque este fenómeno, como outros da mesma natureza, não investe através da razão, mas da emoção – e é pela via da emoção, colectiva, claro está!, que ele terá de ser vencido, tal como foram outras tradições inúteis. As ingluviosas presas do tempo não se condoem com improficiências. O significado que daqui se assaca é que as touradas ainda reverberam de uma forma mais ou menos vibrante nos nossos dias – não para todos, é certo, mas, ainda assim, para muitos. Caso contrário, não existiriam. Isso parece-me transparente e ignorá-lo é fechar-se os olhos diante de uma realidade que marca o nosso património de ideias.

Falando em património de ideias vale a pena perguntar se, de facto, as touradas serão cultura. A pergunta responde-se a si própria, mas gostaria de contribuir para esta reflexão com a lembrança de que quando se fala de touradas enquanto cultura leia-se, a resistência do espírito de um grupo à erosão operada pela passagem do tempo assume-se, de modo erróneo, que elas sempre foram idênticas à sua taxonomia actual, quando, na realidade, já foram muitíssimo diferentes.
A tourada contemporânea é mais recente do que, à partida, a maioria do público, aficionado ou não, poderá pensar. O toureio a pé, com muleta e estoque, é uma inovação da tourada espanhola, (que sempre foi, em vero aspecto, menos aristocrática que a nossa), inventada à entrada do terceiro decénio do século XVIII, que entrou tardiamente em Portugal. Até os tropos actuais da tourada espanhola são uma invenção do início do século XX: simplesmente, não se encontram nas touradas seiscentistas ou setecentistas. Do mesmo modo, a prática portuguesa da pega do touro, realizada pelos forcados (dantes chamados moços de forcado ou boieiros), não possui um ascendente mais transacto que os meados do século XIX: hoje é apontada como sendo a mais igualitária, chamemos-lhe isso, das práticas tauromáquicas, mas, de facto, chegou a ser proibida pelas autoridades na segunda metade do século XIX, porque a consideraram demasiado violenta (cerca de 1890 já tinha sido reinstituída, todavia). A tourada portuguesa de setecentos, por exemplo, consistia num espectáculo mais selvagem – em violência e desorganização – do que a actual.
O toureio realizava-se sempre a cavalo, com o cavaleiro munido de um chuço para matar o touro, e os espectadores assistiam às mortes não-coreografadas e atrozes de touros, cavalos e, às vezes, alguns homens. Havia a prática do touro-de-fogo: gado que entrava na arena com fachos ou paus de fogo-de-artifício amarrados aos cornos ou ao pescoço; outra variedade de touro-de-fogo constituía no arremesso de guirlandas de granadas aos cornos dos touros. Podia ver-se lutas de touros com cães, lutas de touros com outros touros, espicaçados para o efeito, e encenações bizarras em que os touros eram levados a investir contra bonecos e outras composições feitas de madeira, papel ou tecidos coloridos que nos seus interiores continham coelhos e gatos vivos: quando os touros as desmanchavam, os coelhos ou os gatos fugiam, confundidos, mas eram, de imediato, mortos à cacetada por dezenas de escravos armados de porretes, que corriam pelo picadeiro à caça deles para grande gozo do público. Tudo somado, a autêntica tourada tradicional portuguesa foi esta e não a sua reencarnação recente, organizada e amansada às sensibilidades liberais de meados do século XIX, por conseguinte quando se declara que as touradas são cultura é preciso definir qual tourada está a ser trazida à colação: se esta ou a outra. Se é a outra, tem de perguntar-se se matar coelhos e gatos à cacetada é cultura. Se não é, tem de perguntar-se por que razão é que matar coelhos e gatos à cacetada não é cultura, mas matar touros com estoques ou com pontilhas é cultura. Mais à frente, oferecerei uma possível resposta para esta ambiguidade.

Tenho alguma hesitação em ver as origens da tourada nos espectáculos romanos de lutas de feras contra feras e de feras contra homens. É muitíssimo provável que a origem das touradas se trace a partir daí, mas também é possível que elas possuam uma origem mais enviusada em relação a essas representações. Seja como for, o que interessa para esta exposição é o facto de que os efeitos públicos de catarse das touradas e das lutas romanas de feras são aproximados, assim como são análogos ao efeito de purga popular provocado pelas lutas de ursos com cães e de cães com cães que podiam ser vistas nas principais praças das cidades do norte da Europa até meados do século XIX. Na maioria das vezes, os ursos eram acorrentados a um poste e cegados para que os cães – buldogues e boxers, raças criadas artificialmente para este fim em específico – os pudessem desfazer aos pedaços. Até em Portugal se contam alguns incidentes destes. Um dos principais divertimentos europeus foi o de queimar milhares de gatos em fogueiras: toda a gente trazia gatos dentro de sacos e chegava-se à fogueira para atirá-los às chamas. Existem descrições chocantes de como as gentes riam até rebolarem no chão ouvindo os gritos de sofrimento dos animais imolados. Durante algum tempo estas práticas também foram consideradas cultura. Se as touradas se inscrevem neste rol de passatempos públicos que envolviam o sofrimento de animais, por que é que ainda subsistem? Existem duas respostas plausíveis para esta pergunta, segundo o meu pensamento.
A primeira é a de que a tourada sobreviveu à selecção natural que extinguiu a maioria desses passatempos porque se foi tornando gradualmente um sistema altamente organizado no qual muitos sectores da sociedade participam; um pouco à semelhança, com as devidas distâncias, é claro, do futebol, um desregrado e brutal jogo de rua que foi amansado e sistematizado até à cristalização contemporânea. A segunda é o facto de que as touradas lidam com touros: animais abatidos para consumo humano. Quando se olha para as lutas de cães com ursos ergue-se à nossa frente uma dimensão ética enorme, porque a sociedade mudou e hoje os cães e os ursos são animais que, de modos diferentes, estão sob nossa patronagem: amamos os primeiros e protegemos os segundos. Em oposição, comemos os touros: são animais dos quais cuidamos, note-se, mas que não amamos, nem protegemos. É por essa razão que ainda existem touradas, mas já não existem ursadas, nem queimas maciças de gatos em fogueiras. Simplesmente, achamos que é mais ético objectificar na arena uma espécie animal que já é vista, à partida, como sendo um objecto – neste caso, um alimento. Não tenho dúvida nenhuma que, por responsabilidade de um desvio histórico qualquer, se tivesse passado a comer gatos e ursos em vez de touros, as ursadas e as gatadas seriam tão conspícuas e legais quanto as touradas, porque seriam os ursos e os gatos a ser objectificados. Uma boa maneira de vencer a paixão pelas touradas seria lembrar que não se deve brincar com a comida.

Termino esta explanação com a ideia de que acho ético comer-se touros. Recuso com veemência a argumentação dos vegetarianos radicais, dos veganistas, dos frugívoros e dos anti-humanistas disfarçados de ambientalistas que conculcam constantemente o valor da vida humana em benefício do estatuto superior que atribuem à vida animal. Há quem advogue até que os animais carnívoros deveriam ser extintos para que restassem apenas os animais herbívoros, mas comer carne não é nenhuma imoralidade, nem nenhum crime: crime é tratar como lixo os animais que se criam para consumo humano em sórdidos degoladouros que evocam as masmorras medievais. Melhores condições de criação e abate custam muito mais dinheiro e são muito mais difíceis de implementar, mas o preço a pagar pelas escolhas do barato e do fácil é a nossa desumanização. A tortura enxovalha a vítima e desumaniza o perpetrador. Não existe nenhum justificativo para a tortura.
Seja na prisão, seja no matadouro, seja na arena.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

«A Melhor Oferta»


Estreou ontem A Melhor Oferta, de Giuseppe Tornatore, realizador de, entre outros filmes, Cinema Paraíso. Com Geoffrey Rush e Donald Sutherland, dois dos meus actores preferidos, que aqui, longe da pipoquice hollywoodiana em que pontualmente participam, compõem duas grandes personagens, plenas de intrigantes subtilezas, devedoras de teatro da melhor cepa. A Melhor Oferta é um grande filme, artístico e alegórico, cujo argumento me fez lembrar algumas inclinações temáticas dos escritores Jerome Charyn e Gerard Reve (mas sem a tónica homossexual deste). Não estamos, exactamente, no campo do chamado "realismo mágico", nem da simples alegoria, mas num mundo ficcional muito parecido com o nosso, embora permeável a elementos que, em outro contexto e apresentados com outro peso, se poderiam denominar como sendo pertencentes ao Fantástico. É, também, um filme que beneficiaria de um olhar mais gélido, mais negro, porque, com efeito, é desse território que estamos a falar. Tornatore é, ainda assim, e apesar da sua finura de esteta, capaz de criar-nos angústia: o seu filme é, pois, como um quadro tenebroso, pintado à moda clássica - impressiona pela riqueza de detalhe e pelo elevado grau de perfeição, mas não horripila, verdadeiramente. Um dos melhores filmes que poderão ver, nestes dias, em exibição - e, já, um dos melhores deste ano.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Àquele que não tem, ser-lhe-á tirado mesmo o que tem


A política faz-se de ideologias, embora seja fácil esquecer isso, em especial nos dias contemporâneos, mas o facto é o de que as ideologias influenciam, marcam e definem as políticas; e, nesse sentido, as medidas de austeridade avançadas pelo governo em vigência inserem-se numa ideologia neo-liberal, plutocrática, pugnada por algumas escolas economicistas dos últimos três decénios do século passado, como a famosa "Escola de Chicago".

Sob a égide dessa ideologia da desvalorização do trabalho realizado pelos chamados trabalhadores por conta de outrem, observados como "comedores inúteis" pelos deificados criadores de empregos - os tais "empreendedores" -, cada indivíduo só é considerado como tal se se tornar um empresário; ou seja, uma pessoa influente em virtude da sua riqueza, valendo, em exclusivo, pelo dinheiro que faz ao ano.
Faz lembrar a lei da Limpeza de Sangue que, até há poucas centenas de anos, era mandatória para se aceder a cargos públicos em Portugal: só quem tivesse sangue limpo, nobre e despoluído de cruzamentos indesejáveis, era aceite como sendo um cidadão com direitos - aqui, essa lex sanguinis é substituída pelo recheio da conta bancária: mas já o Novo Testamento (leitura preferida nestes círculos nos quais ir-se à missa é que é sinónimo de uma boa cidadania - e o resto são, apenas, negócios) avisa que «pois àquele que tem, dar-se-lhe-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, ser-lhe-á tirado mesmo o que tem».

Importa reter que esta ideologia almeja a construção de um novo tipo de homem - ou melhor, dois novos tipos: um, o tal empresário - tão auto-suficiente que até é capaz de segurar sozinho aos ombros, como Atlas, o edifício empresarial que construiu com as suas próprias mãos, como se os apoios estatais e privados não existissem - e, o outro, o operário desqualificado, sustentado com um salário de sobrevivência, no limiar da miséria.

Este pesadelo quasi-malthusiano está prestes a tornar-se realidade. Não duvidem que iremos, muito em breve, e até bem perto de nós, com certeza, assistir a grandes mudanças para pior, se esta draconiana desvalorização dos indivíduos for em frente. Nem nos piores tempos nepóticos dos séculos XVII e XVIII, uns quantos colocaram em Portugal um peso tão grande em tantos. E a Troika, excelente bicho-papão, nem sequer precisa de ser para aqui chamada como ceifeiro da desgraça: a austeridade do governo é parte indissolúvel do seu programa político e figurava já em 2010 no espantoso projecto de alteração da Constituição da República Portuguesa (as privatizações, a extinção da classe média e outras medidas ainda piores que, suspeita-se, estarão a ser reservadas para o segundo mandato). Sim, temos cá o FMI, mas o neo-liberalismo é do governo, completamente: abram os olhos, investiguem e pensem.
Por enquanto, ainda se pode.