Na
edição de hoje do Jornal i, numa chamada de capa, a NASA diz que não
tem ideia de (se eu entendi bem a frase) quem fabricou a bandeira que
está fincada em solo lunar. Porém, seria fácil a NASA recuperar essa má
memória se olhasse para o Diário de Notícias de 23 de Julho de 1969 e
lesse a entrevista dada pela costureira portuguesa Maria Isilda Ribeiro,
que, residente nos Estados Unidos desde 1966,
trabalhava na fábrica de bandeiras que produziu o mais universal
estandarte do século XX. Na altura com vinte e três anos, Maria Isilda
Ribeiro não imaginava, provavelmente, que as marcas impressas pelas suas
mãos ficariam indeléveis no espaço: existem impressões digitais
portuguesas na Lua — romântica coda para a senda renascentista dos
Descobrimentos de que fomos pioneiros, se se quiser ver assim.
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sexta-feira, 19 de julho de 2019
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Sobre a (Des)União Europeia
Pense-se na câmara fotográfica digital, que funciona de modo totalmente
diferente da analógica. Com efeito, nada daquilo que faz uma câmara
fotográfica tradicional ser uma câmara fotográfica tradicional se
relaciona com o vero funcionamento de uma câmara fotográfica digital.
Num determinado aspecto, as possibilidades deixadas em aberto pela
miniaturização de componentes técnicos digitais, mais similares a
bairros citadinos ligados por estradas e travessas do que às engrenagens
mecânicas dos anteriores modelos exclusivamente manuais, que tinham
tudo a ver com a lógica de organicidade fabril, na qual diversos
componentes isolados concorriam, em harmonia, para criar um corpo
organizado - tanto no sentido de coerente, como no de provido de órgãos -
não libertaram o design industrial das amarras do funcionalismo: ou
seja, se uma câmara fotográfica digital funciona de um modo muito
diferente de uma analógica, então a sua forma não precisaria de
mimetizar a desta para justificar a sua existência ou, sequer, para
funcionar. Uma câmara fotográfica digital poderia ser-nos apresentada
segundo uma lógica de desenho e de utilização totalmente inédita;
todavia, as expectativas do público, em relação à imagem arquetípica que
uma câmara fotográfica deve ter para ser considerada, de facto, uma
câmara fotográfica, tolhe, liminarmente, quaisquer audácias prototípicas
com que um aparelho dessa natureza poderia consubstanciar-se nas
oficinas das grandes marcas. Uma câmara fotográfica digital comum,
daquelas que podemos comprar em qualquer loja de centro comercial ou
hipermercado, ainda arreigada ao fenótipo das analógicas, sem,
verdadeiramente, de precisá-lo, é, assim, um objecto de transição -
sendo que "transição", neste sentido específico, não envolve nenhum real
comprometimento com uma hipotética ligação entre um pretérito estado
analógico e uma actual maneira de ser digital, porque essa ligação não
existe, de todo. O que existe é mero disfarce. Um disfarce conveniente
às vendas, porque o público que se dirige às lojas para comprar uma
câmara fotográfica, seja digital ou analógica, não quer, em suma, ser
confrontado com surpresas ou ambiguidades.
Será, pois, útil
pensar nesta União Europeia, sobre a qual vemos e ouvimos na comunicação
social, como uma entidade equivalente: tal como a câmara fotográfica
digital somente se adapta por mimetismo à aparência da câmara
fotográfica analógica, para ir ao encontro das expectativas do público,
também esta União Europeia pouquíssimo ou nada terá a ver com aquela que
existia há umas décadas, dando a entender que somente vai imitando, de
maneira postiça, a aparência desta para ser capaz de manter-se operante
diante do público. Os seus componentes internos, a sua fisiologia de
funcionamento já mudou - como mudaram umas câmaras fotográficas para as
outras - e nós, pobres cidadãos europeus, em certa medida iludidos pela
carapaça benfazeja das fronteiras abertas e de todos os autênticos
progressos do passado recente, não nos apercebemos disso - a tempo útil,
pelo menos.
Assim, a poucos dias do referendo na Grécia, as horas são, em simultâneo, de perplexidade e de ansiedade. Portugal, por tudo o que se sabe, deveria estar muitíssimo atento aos próximos desenvolvimentos desta situação, mas, provavelmente, não valerá a pena manter ilusões nenhumas acerca da conjecturada camaradagem europeia, porque esta União Europeia, a destes indivíduos tão empáticos quanto torradeiras (e igualmente frios e automatizados) que nos entram em casa pelas televisões adentro, já demonstrou, activa e consecutivamente, que não é a da solidariedade e a da confiança e a da irmandade. Na verdade, tem demonstrado reiteradamente, e com timbre de torcionário, o contrário: que aquilo que continua a existir parece ser, afinal de contas, a mais prosaica e brutal razão de estado, prosseguida pelos estados-nações mais fortes nas mesmas fórmulas egoístas e desapaixonadas do passado, excepto o, vá lá!, avanço ético, diga-se assim, de não o procurarem fazer pela guerra, mas com armas também destrutivas e, demasiadas vezes, mortíferas (que o digam os gregos, cujo tecido social se encontra completamente esfarrapado pelas medidas austeras do chamado Consenso de Washington: camisa de forças, de medida única, fornecida pelo FMI, com a ajuda dos seus parceiros, que não se compadece com as idiossincrasias e fragilidades de cada país em que é aplicada).
Enquanto Portugal faz figura de Pobre Diabo no palco do teatro internacional, cujos críticos não lhe perdoarão a interpretação miserável que está a desempenhar, a Grécia prepara-se para, sem muito tempo para reflexão, servir de exemplo histórico àqueles que ousarem enfrentar o Leviatã. Continuo a acreditar num projecto europeu e continuo a ser, como é óbvio, um europeísta, mas tenho cada vez mais dificuldades em reconhecer-me nesta desgraçada União Europeia na qual as políticas, manifestamente, são as da profunda hipocrisia e as da exploração - física e moral - dos países fracos. Algo de novo - e mais justo - é necessário, com total urgência.
Assim, a poucos dias do referendo na Grécia, as horas são, em simultâneo, de perplexidade e de ansiedade. Portugal, por tudo o que se sabe, deveria estar muitíssimo atento aos próximos desenvolvimentos desta situação, mas, provavelmente, não valerá a pena manter ilusões nenhumas acerca da conjecturada camaradagem europeia, porque esta União Europeia, a destes indivíduos tão empáticos quanto torradeiras (e igualmente frios e automatizados) que nos entram em casa pelas televisões adentro, já demonstrou, activa e consecutivamente, que não é a da solidariedade e a da confiança e a da irmandade. Na verdade, tem demonstrado reiteradamente, e com timbre de torcionário, o contrário: que aquilo que continua a existir parece ser, afinal de contas, a mais prosaica e brutal razão de estado, prosseguida pelos estados-nações mais fortes nas mesmas fórmulas egoístas e desapaixonadas do passado, excepto o, vá lá!, avanço ético, diga-se assim, de não o procurarem fazer pela guerra, mas com armas também destrutivas e, demasiadas vezes, mortíferas (que o digam os gregos, cujo tecido social se encontra completamente esfarrapado pelas medidas austeras do chamado Consenso de Washington: camisa de forças, de medida única, fornecida pelo FMI, com a ajuda dos seus parceiros, que não se compadece com as idiossincrasias e fragilidades de cada país em que é aplicada).
Enquanto Portugal faz figura de Pobre Diabo no palco do teatro internacional, cujos críticos não lhe perdoarão a interpretação miserável que está a desempenhar, a Grécia prepara-se para, sem muito tempo para reflexão, servir de exemplo histórico àqueles que ousarem enfrentar o Leviatã. Continuo a acreditar num projecto europeu e continuo a ser, como é óbvio, um europeísta, mas tenho cada vez mais dificuldades em reconhecer-me nesta desgraçada União Europeia na qual as políticas, manifestamente, são as da profunda hipocrisia e as da exploração - física e moral - dos países fracos. Algo de novo - e mais justo - é necessário, com total urgência.
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segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Geração Única
O jornal Público
está a publicar uma série de artigos que reflectem sobre problemáticas
de confrontos geracionais com a contemporaneidade portuguesa: o primeiro
artigo intitula-se GERAÇÃO 45-64: Vinte anos para gozar a vida de reformado; o segundo, adoptando o
título de Criados para aquilo que não podem ou não querem ser, analisa
a geração nascida entre 1965 e 1981. Eu nasci no dia 17 de Abril de
1976, por conseguinte - por comodidade discursiva - pertencerei à
geração que o fotógrafo húngaro Robert Capa apelidou de Geração X,
referindo-se à juventude do período pós-Segunda Grande Guerra:
designação que, depois disso, passou a conhecer o significado que hoje
lhe é atribuído.
Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.
Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.
A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.
Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.
Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.
A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.
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sexta-feira, 20 de junho de 2014
Laranjada*
Confesso o meu mau feitio: não considero que
países cujas formas de governo se apresentem como sendo monarquias
constitucionais sejam democracias autênticas. São monarquias: somente
não são absolutistas, mas não deixam de ser monarquias. No entanto, a
democracia é, mais do que um sistema de governo, o múnus de um certo
estado de coisas. Por exemplo, Portugal, que é um país democrático -
para ser mais preciso, é uma república semipresidencialista - ainda
possui certos tiques pouquíssimo democráticos (como, aliás, se pode ir
vendo, infelizmente). Tudo isto para comentar os recentes acontecimentos
políticos de Espanha.
Ora, a Espanha só é Espanha, propriamente dita, desde 1876, porque somente em Junho desse ano é que o país se passou a chamar oficialmente Espanha: até aí era o Reino das Espanhas, que é algo bem diferente. De facto, até ao século XIX nunca existiu Espanha nenhuma: existiram vários reinos peninsulares que foram sendo anexados por Castela que, para efeito de centralização e ilusão de homogeneidade territorial, foi buscar no século XVI a designação de Hispânia - o antigo nome que os romanos deram à península - para se auto-denominar. Existe documentação portuguesa (e não só) coeva em que se levantam vozes contra esta suasória estratégia de marketing - que funcionou. Existem países que ainda pensam que Portugal faz parte de Espanha ou que se tornou independente dela há pouco tempo, mas a verdade é que a Espanha é que foi criada "ontem" e colada com pouquíssima convicção, como se torna evidente pelos actuais ânimos catalães e outros (Madrid já se pronunciou contra o referendo que a Catalunha quer fazer a 9 de Novembro pela sua independência).
Enfim, a cerimónia de proclamação de Felipe VI foi algo anacrónica, um pouco beata, mas "democracia" não foi palavra que, em definitivo, me veio à lembrança, apesar de ser conspícua no discurso da comunicação social que, deslumbrada, comentava o evento.
E
a imagem do Manuel Godoy é só para lembrar aos mais distraídos que
existe ainda uma questão chamada Olivença. Parecendo que não, aborrece
um bocadito.
* Em calão quinhentista português, uma laranjada não é a bebida feita com o sumo de laranjas espremidas, mas o nome que se dá ao acto de atirar uma laranja - podre, de preferência - à cara de alguém. Isto em referência à chamada Guerra das Laranjas, que os mais historicamente atentos deverão conhecer.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Breves apontamentos sobre as touradas
Recentemente, vi parte de um episódio do programa televisivo Prós e Contras em que o tema de debate foi a tourada e isso infundiu-me a apontar aqui algumas meditações que tenho sobre esse assunto. Vale a pena começar por esclarecer que não gosto de touradas, logo o meu discurso não será simpático para com elas, mas estou longe de ser antitouradas, assim como considero desimaginoso e desanimador o desenho que, por vezes, aqueles que o são riscam sobre os aficionados, caracterizando-os como sendo pessoas perversas e carenciadas de empatia. Admitindo a falta de indicadores estatísticos que me comprovem a minha seguinte suposição, aposto com segurança que a maioria dos aficionados (para efeito de simplificação incluo neste grupo todos os agentes que fazem parte do mundo das touradas, espectadores e não só) não são assassinos, nem criminosos, nem psicopatas: são, somente, indivíduos comuns que gostam de touradas, que têm paixão por elas e que sobre elas projectam uma série de conceitos e valores positivos que escapam à leitura de todos aqueles que não gostam de touradas.
Embora me choque a conjunção de brutalidade e artificialismo que consubstancia o espectáculo das touradas não é tanto pela via da violência que se desenvolve o meu desgosto por elas. Na verdade, os circos ferem muito mais a minha sensibilidade do que as touradas. Aquilo que me faz desgostar de touradas é, notadamente, o facto de achá-las repetitivas, aborrecidas e anacrónicas: resquícios de uma congeminência cultural que, hoje em dia, não faz o sentido que fazia há, digamos, trezentos ou quatrocentos anos. Nesta óptica, penso que a proibição seria ineficaz, porque sendo a tourada uma tradição ou uma quasitradição só poderá desaparecer na mesma feição que todas as tradições desaparecem: quando deixam de veicular os desejos e as aspirações de uma comunidade.
Em rigor, a extinção das touradas passará por renovações naturais que, provavelmente, nem sequer estarão relacionadas com elas, mas com o modo como nós, enquanto sociedade, vamos criando outros costumes e novos processos de sentir o colectivo, muito mais sintonizados com a nossa contemporaneidade – o que vai acontecendo. Escrevo “sentir”, porque este fenómeno, como outros da mesma natureza, não investe através da razão, mas da emoção – e é pela via da emoção, colectiva, claro está!, que ele terá de ser vencido, tal como foram outras tradições inúteis. As ingluviosas presas do tempo não se condoem com improficiências. O significado que daqui se assaca é que as touradas ainda reverberam de uma forma mais ou menos vibrante nos nossos dias – não para todos, é certo, mas, ainda assim, para muitos. Caso contrário, não existiriam. Isso parece-me transparente e ignorá-lo é fechar-se os olhos diante de uma realidade que marca o nosso património de ideias.
Falando em património de ideias vale a pena perguntar se, de facto, as touradas serão cultura. A pergunta responde-se a si própria, mas gostaria de contribuir para esta reflexão com a lembrança de que quando se fala de touradas enquanto cultura – leia-se, a resistência do espírito de um grupo à erosão operada pela passagem do tempo – assume-se, de modo erróneo, que elas sempre foram idênticas à sua taxonomia actual, quando, na realidade, já foram muitíssimo diferentes.
A tourada contemporânea é mais recente do que, à partida, a maioria do público, aficionado ou não, poderá pensar. O toureio a pé, com muleta e estoque, é uma inovação da tourada espanhola, (que sempre foi, em vero aspecto, menos aristocrática que a nossa), inventada à entrada do terceiro decénio do século XVIII, que entrou tardiamente em Portugal. Até os tropos actuais da tourada espanhola são uma invenção do início do século XX: simplesmente, não se encontram nas touradas seiscentistas ou setecentistas. Do mesmo modo, a prática portuguesa da pega do touro, realizada pelos forcados (dantes chamados moços de forcado ou boieiros), não possui um ascendente mais transacto que os meados do século XIX: hoje é apontada como sendo a mais igualitária, chamemos-lhe isso, das práticas tauromáquicas, mas, de facto, chegou a ser proibida pelas autoridades na segunda metade do século XIX, porque a consideraram demasiado violenta (cerca de 1890 já tinha sido reinstituída, todavia). A tourada portuguesa de setecentos, por exemplo, consistia num espectáculo mais selvagem – em violência e desorganização – do que a actual.
O toureio realizava-se sempre a cavalo, com o cavaleiro munido de um chuço para matar o touro, e os espectadores assistiam às mortes não-coreografadas e atrozes de touros, cavalos e, às vezes, alguns homens. Havia a prática do touro-de-fogo: gado que entrava na arena com fachos ou paus de fogo-de-artifício amarrados aos cornos ou ao pescoço; outra variedade de touro-de-fogo constituía no arremesso de guirlandas de granadas aos cornos dos touros. Podia ver-se lutas de touros com cães, lutas de touros com outros touros, espicaçados para o efeito, e encenações bizarras em que os touros eram levados a investir contra bonecos e outras composições feitas de madeira, papel ou tecidos coloridos que nos seus interiores continham coelhos e gatos vivos: quando os touros as desmanchavam, os coelhos ou os gatos fugiam, confundidos, mas eram, de imediato, mortos à cacetada por dezenas de escravos armados de porretes, que corriam pelo picadeiro à caça deles para grande gozo do público. Tudo somado, a autêntica tourada tradicional portuguesa foi esta e não a sua reencarnação recente, organizada e amansada às sensibilidades liberais de meados do século XIX, por conseguinte quando se declara que as touradas são cultura é preciso definir qual tourada está a ser trazida à colação: se esta ou a outra. Se é a outra, tem de perguntar-se se matar coelhos e gatos à cacetada é cultura. Se não é, tem de perguntar-se por que razão é que matar coelhos e gatos à cacetada não é cultura, mas matar touros com estoques ou com pontilhas é cultura. Mais à frente, oferecerei uma possível resposta para esta ambiguidade.
Tenho alguma hesitação em ver as origens da tourada nos espectáculos romanos de lutas de feras contra feras e de feras contra homens. É muitíssimo provável que a origem das touradas se trace a partir daí, mas também é possível que elas possuam uma origem mais enviusada em relação a essas representações. Seja como for, o que interessa para esta exposição é o facto de que os efeitos públicos de catarse das touradas e das lutas romanas de feras são aproximados, assim como são análogos ao efeito de purga popular provocado pelas lutas de ursos com cães e de cães com cães que podiam ser vistas nas principais praças das cidades do norte da Europa até meados do século XIX. Na maioria das vezes, os ursos eram acorrentados a um poste e cegados para que os cães – buldogues e boxers, raças criadas artificialmente para este fim em específico – os pudessem desfazer aos pedaços. Até em Portugal se contam alguns incidentes destes. Um dos principais divertimentos europeus foi o de queimar milhares de gatos em fogueiras: toda a gente trazia gatos dentro de sacos e chegava-se à fogueira para atirá-los às chamas. Existem descrições chocantes de como as gentes riam até rebolarem no chão ouvindo os gritos de sofrimento dos animais imolados. Durante algum tempo estas práticas também foram consideradas cultura. Se as touradas se inscrevem neste rol de passatempos públicos que envolviam o sofrimento de animais, por que é que ainda subsistem? Existem duas respostas plausíveis para esta pergunta, segundo o meu pensamento.
A primeira é a de que a tourada sobreviveu à selecção natural que extinguiu a maioria desses passatempos porque se foi tornando gradualmente um sistema altamente organizado no qual muitos sectores da sociedade participam; um pouco à semelhança, com as devidas distâncias, é claro, do futebol, um desregrado e brutal jogo de rua que foi amansado e sistematizado até à cristalização contemporânea. A segunda é o facto de que as touradas lidam com touros: animais abatidos para consumo humano. Quando se olha para as lutas de cães com ursos ergue-se à nossa frente uma dimensão ética enorme, porque a sociedade mudou e hoje os cães e os ursos são animais que, de modos diferentes, estão sob nossa patronagem: amamos os primeiros e protegemos os segundos. Em oposição, comemos os touros: são animais dos quais cuidamos, note-se, mas que não amamos, nem protegemos. É por essa razão que ainda existem touradas, mas já não existem ursadas, nem queimas maciças de gatos em fogueiras. Simplesmente, achamos que é mais ético objectificar na arena uma espécie animal que já é vista, à partida, como sendo um objecto – neste caso, um alimento. Não tenho dúvida nenhuma que, por responsabilidade de um desvio histórico qualquer, se tivesse passado a comer gatos e ursos em vez de touros, as ursadas e as gatadas seriam tão conspícuas e legais quanto as touradas, porque seriam os ursos e os gatos a ser objectificados. Uma boa maneira de vencer a paixão pelas touradas seria lembrar que não se deve brincar com a comida.
Termino esta explanação com a ideia de que acho ético comer-se touros. Recuso com veemência a argumentação dos vegetarianos radicais, dos veganistas, dos frugívoros e dos anti-humanistas disfarçados de ambientalistas que conculcam constantemente o valor da vida humana em benefício do estatuto superior que atribuem à vida animal. Há quem advogue até que os animais carnívoros deveriam ser extintos para que restassem apenas os animais herbívoros, mas comer carne não é nenhuma imoralidade, nem nenhum crime: crime é tratar como lixo os animais que se criam para consumo humano em sórdidos degoladouros que evocam as masmorras medievais. Melhores condições de criação e abate custam muito mais dinheiro e são muito mais difíceis de implementar, mas o preço a pagar pelas escolhas do barato e do fácil é a nossa desumanização. A tortura enxovalha a vítima e desumaniza o perpetrador. Não existe nenhum justificativo para a tortura.
Seja na prisão, seja no matadouro, seja na arena.
Seja na prisão, seja no matadouro, seja na arena.
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segunda-feira, 5 de maio de 2014
Por apófase
É com desalento que concluo que, hoje, Portugal só pode ser explicado por apófase: ou seja, por tudo aquilo que não é.
Não me tornei, ainda, um verdadeiro pessimista, mas não consigo encontrar razões para me designar como optimista, daí que, talvez, seja um "céptico simbólico"; sendo que "simbólico", aqui, deve ser lido segundo a aplicação que lhe foi dada por Pierre Bordieu: leia-se, um invisível, mas presente, conjunto de preceitos que afectam de modo desoficial. Recair, ininterruptamente, sobre esses discursos invisíveis faz-me pensar na probabilidade de estar-se a assistir a uma desaceleração da democracia (se isso significa uma iminente e tout court abolição da mesma restará para ser visto). Agora que estamos prestes a sair "limpos", dizem, da purga que nos sanou das nossas supostas abligurições, veremos até que ponto o estrago provocado pela iatrogenia nos deixou, permanentemente, aleijados - no corpo e, principalmente, no espírito. Qualquer domador sabe que é preciso quebrar o espírito das criaturas de modo a obrigá-las a aceitar com resignação uma nova normalidade.
Não me tornei, ainda, um verdadeiro pessimista, mas não consigo encontrar razões para me designar como optimista, daí que, talvez, seja um "céptico simbólico"; sendo que "simbólico", aqui, deve ser lido segundo a aplicação que lhe foi dada por Pierre Bordieu: leia-se, um invisível, mas presente, conjunto de preceitos que afectam de modo desoficial. Recair, ininterruptamente, sobre esses discursos invisíveis faz-me pensar na probabilidade de estar-se a assistir a uma desaceleração da democracia (se isso significa uma iminente e tout court abolição da mesma restará para ser visto). Agora que estamos prestes a sair "limpos", dizem, da purga que nos sanou das nossas supostas abligurições, veremos até que ponto o estrago provocado pela iatrogenia nos deixou, permanentemente, aleijados - no corpo e, principalmente, no espírito. Qualquer domador sabe que é preciso quebrar o espírito das criaturas de modo a obrigá-las a aceitar com resignação uma nova normalidade.
(Quadro: Job, de Sir William Orpen. 1905.)
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quinta-feira, 25 de abril de 2013
domingo, 10 de março de 2013
O lado ventral do empreendedorismo
Nos dias que correm, em plena embriaguez neoliberal, somos bombardeados desde há dois anos na comunicação social com o quasi-truísmo de que ser-se "empreendedor" é pertencer a uma classe moralmente superior que pugna por um "empreendedorismo" de iniciativa - mais do quixotesca, contra uma sociedade lapidada pela austeridade e em progressiva deterioração - cruzadesca e orientada pela fé cega na mão invisível do mercado, que se põe por baixo, não do menino e do borracho, como no pregão popular, mas dos meninos que criam o seu próprio emprego e não têm medo de «bater punho», como é esclarecido no vídeo abaixo.
A mão invisível de Adam Smith e o «bater punho» de Miguel Caetano perfilham uma tradição de audaciosas alegorias e alusões, liberais e neoliberais, associadas à mão e ao trabalho de que ela é o símbolo mais representativo. Na tónica que coloca nas recompensas do trabalho árduo, o capitalismo contemporâneo de feição norte-americana não se dissocia da ética religiosa anglicana e protestante de que radica (veja-se, como um exemplo entre tantos, as Leis dos Pobres inglesas, que, desenvolvidas desde o século XVI, obrigavam os sem-abrigo e os desempregados ao internamento em casas de trabalhos forçados para banir o pecado da preguiça e reduzir o peso desses indivíduos sobre o estado) e cujo mote foi e continua a ser "as mãos ociosas são o instrumento do Diabo".
O ócio sempre foi mais tolerado pelo catolicismo romano, do qual os professos se colocam em outra mão, a da Providência Divina, que nem os pardais no Evangelho de Mateus (6:26). É possível observar o orgulho sentido pela olímpica herança do "empreendedorismo" numa série televisiva, produzida o ano passado para o Canal História, intitulada The Men Who Built America, que foi transmitida recentemente: em apenas quatro episódios, aprendemos como os grandes empreendedores norte-americanos (Cornelius Vanderbilt, J. P. Morgan, John D. Rockfeller, Andrew Carnegie e Henry Ford) vindos praticamente do nada, subiram a pulso (outra alegoria relacionada com a mão inefável) e, por virtude da sua astúcia e sentido de oportunidade, guiados por uma fé, dir-se-ia calvinista, na sua predestinação para o sucesso, ergueram os impérios que fizeram dos Estados Unidos uma super-potência global. Com efeito, a verdade histórica está longe dessa versão higienizada dos factos.
Para não alongar demasiado este artigo, vamos, somente, concentrar atenções no banqueiro John Pierpont Morgan (1837-1913), magnata que não fez fortuna aliando-se ao inventor norte-americano Thomas Edison na campanha feroz pela implementação da corrente contínua contra a corrente alternada do inventor austríaco Nikola Tesla (como sabem, a corrente alternada impôs-se), nem combatendo contra o político democrata William Jennings Bryan, que queria acabar com os monopólios e a especulação, mas com negociatas lucrativas, muitíssimo suspeitas. Aliás, o exemplo de Morgan é, em muitas faces, paradigmático, pois foi graças ao advento da Guerra Civil norte-americana, que opôs o Norte contra o Sul (1861-1865), que estes heróis do empreendedorismo, como o já mencionado Vanderbilt e outros menos conhecidos, como Philip Danforth Armour e as dinastias Du Pont e Studebaker, endeusados como sendo aqueles que construíram a América, fizeram as suas riquezas, enganando o governo e explorando ingenuidades e misérias alheias.
Tirando partido da grande necessidade que os militares tinham por armamento, Morgan, com apenas vinte e três anos de idade, engendrou um plano fraudulento para vender ao exército as armas que os seus inspectores rejeitavam como sendo defeituosas: através de um cúmplice, chamado Arthur Eastman, que sabia duas ou três coisas sobre armas, comprou cinco mil espingardas rejeitadas, a três dólares e cinquenta cêntimos cada, a um armazém militar situado em Governor's Island, a sul da ilha de Manhattan; em seguida, vendeu as armas defeituosas - que já tinham estropiado vários atiradores durante os testes de balística - de volta ao exército, pelo preço de vinte e dois dólares cada uma. Quando o logro foi descoberto, o caso foi julgado, evidentemente, mas o tribunal considerou válido o contrato de venda e quem ganhou o dia foi Morgan, que recebeu uma fortuna como indemnização.
Esta é que foi a verdadeira face do empreendedorismo prometeico dos tais homens que construíram a América: às armas defeituosas de Morgan e aos contratos milionários de Vanderbilt de venda e aluguer de navios podres ao exército, pintados de fresco para parecerem novos, outros exemplos poderíamos reunir sobre a falsidade do mito do trabalho árduo destes "empreendedores". Sob esse maldito canto de sereia, esconde-se, não poucas vezes, um oportunismo hipócrita e a mais elementar função de comprar por um para vender por dois: é a velha meta de "fazer dinheiro". «Money Matters», como dizem os monetaristas neoliberais da escola miltonfriedmaniana. Existe outra alegoria relacionada com a mão que se aplica aqui com muito mais correcção: "meter a mão ao bolso".
Outra face negra do mito do "empreendedorismo" - desta espécie de capitalismo redentor da ociosidade social - foi a progressiva substituição dos escravos por crianças, nos trabalhos forçados e tarefas industriais mais pesadas, depois das abolições das escravaturas.
Os "criadores de emprego" perceberam que as crianças podiam ser uma mão de obra tão especializada quanto os adultos, com a vantagem de ser muito mais barata: foi assim, através da aplicação em massa da exploração do trabalho infantil e dos seus salários "competitivos" - nas fábricas, nos campos e nas minas -, que os "empreendedores" setecentistas e oitocentistas, norte-americanos e europeus, foram acumulando fortunas anuais superiores aos produtos internos brutos de muitos países. Já no século XVII, os "criadores de empregos" compravam anualmente por ninharias aos orfanatos centenas de «meninos e meninas sem laços» para pô-las a trabalhar. O sociólogo e fotógrafo norte-americano Lewis Hine foi instrumental na mudança de mentalidades face à exploração do trabalho infantil quando, na primeira década do século passado, viajou pelos Estados Unidos para documentar as condições miseráveis em que milhões de crianças viviam e trabalhavam, mas hoje ainda existem cerca de trezentos milhões de crianças exploradas pelo "empreendedorismo", que não vão à escola e morrem prematuramente. A estas, espalhadas pelos países ditos em desenvolvimento (Índia, Bangladesh, Malásia, Tailândia, etc.), a mão invisível do mercado não se põe por baixo.
Numa nota mais negra ainda, para a nossa realidade interna, o documentarista inglês Peter Lee-Wright, reconhecido pelos seus trabalhos de denúncia sobre violações dos direitos humanos, coloca Portugal nesta lista terrível no seu livro Child Slaves (2009), no Capítulo 7 «A Storm at Any Port: Portugal Fails European Standards», no qual diz que «in Portugal, 12-year-olds manufacture clothes destined for British chain-stores». O livro foi publicado originalmente em 1990, mas, segundo o Eurostat, cerca de dois milhões e meio de portugueses vivem hoje no limiar da pobreza: números chocantes a que não são inocentes as medidas de austeridade sob as quais somos obrigados a viver e às quais adivinha-se a chegada da tão desejada baixa do salário mínimo nacional, que está fixa nos 485 euros mensais, para tornar a nossa economia mais "competitiva". Torná-la mais competitiva que as economias da Índia, do Bangladesh, da Malásia e da Tailândia, certamente.
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