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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

A filosofar contra o capote*


Assistir na televisão a emissões do programa Prós e Contras sobre o tema das touradas já se vai tornando, por mérito próprio, uma espécie de para-tradição; ontem à noite*, mais uma vez os defensores e os opositores da dita festa brava esgrimiram veementemente argumentos antagónicos sem que se chegasse a qualquer tipo de conclusão. Do meu ponto de vista, ambas as trincheiras projectaram metralha: entenda-se, nuvens fragmentárias de munição pulverizada, eficaz em fazer estrago imediato, mas quiçá inútil em ganhar a guerra — que é outra forma de dizer que foram quase sempre argumentos improvisados a partir das palavras dos adversários, em vez de teses bem concertadas e impactantes.

Um dos erros frequentes, nesse debate e não só, é confundir-se constantemente a violência da tourada (no caso português, em menor grau que em outros países também tauróctonos) com um espírito passadista, caquético. Com efeito, o espectáculo da tourada possui muitos elementos anacrónicos e repetitivos, mas a violência não é um deles, pois esta é, em virtude da sua natureza, quase sempre revolucionária. Ou seja, não é pela via da crueldade e da exposição da carne coreotransmutada que a tourada estará ultrapassada. No actual panorama cultural, no nosso particular epocalismo, a violência é ritualizada, higienizada e adstrita a áreas exclusivas — à memória, assoma o trabalho seminal de Norbert Elias, Desporto e Sociedade, entre títulos diferentes de outros autores. Destapada da estanque caixa de Petri em que a enclausuramos, a violência patenteia o seu ethos mercurial, corrosivo e, sobretudo, incontrolável.

O erro de percepção permanece, por exemplo, nas comuns interpretações do fascismo que, nas últimas semanas, têm preenchido as páginas dos jornais e os ecrãs televisivos. Na entrevista que deu na edição do jornal Público do passado dia 5 de Novembro, Madeleine Albright reitera a acepção de que o fascismo é violento, porque é reaccionário, um tipo de retrocesso a um tempo de barbárie, mas se esse binómio pode ser atractivo para alguns leitores, não se sustenta à observação mais rigorosa do carácter revolucionário do fascismo e do projecto fascista de renovação de uma sociedade liberal de entre-guerras considerada fracassada e decadente; assim, a violência no fascismo que Albright traduz sob o signo do atavismo é, na verdade, uma ferramenta transformativa. Em simetria, a mesma lógica se encontra em outros projectos político-messiânicos e revolucionários do século XX, como o comunismo soviético, chinês e cambojano e no nacional-socialismo alemão: a violência ritualizada, mas jactante, abrupta, é, nestes campos, um éter que suporta o espírito de um tempo industrializado, eléctrico, um relâmpago de ruptura.

Ora, a violência na tourada é, também, revolucionária, no sentido transformativo: no livro O Processo Ritual, Victor Turner falava do espectador desta estirpe de espectáculos como um ser liminal, à beira da transformação — e, na verdade, pouco existirá de projecção mútua entre espectador e touro no que concerne aos valores que subjazem à tourada enquanto cápsula do tempo; em suma, só a regeneração catártica da violência se encontra, ainda, operativa. Só ela se afirma, pois as restantes dimensões históricas, até religiosas, quem sabe?, que coalesceram o espectáculo desapareceram.

Para ilustrar essa ideia recupero uma imagem do filme Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci, sobre a emergência do fascismo. O filme é politicamente comprometido e o retrato histórico que se quer fidedigno apresenta-se, em demasiados aspectos, caricatural; contudo, lembrei-me dele em virtude da infame cena em que a personagem interpretada por Donald Sutherland, um fascista recém-saído do casulo, pendura num cabide com o auxílio do seu cinto um gato que desfaz com uma cabeçada para mostrar aos seus gemebundos colegas a maneira correcta de lidar com os comunistas. Ignoro o grau de conhecimento histórico que o realizador e argumentistas teriam das tradições populares italianas, mas calculo que entre os espectadores mais idosos tenha existido quem recordasse uma velha tradição italiana que consistia, precisamente, em amarrar gatos a postes ou troncos para, de seguida, cabeceá-los até à morte.

Em determinados períodos, esta prática revestiu-se de contornos de concurso e os participantes, de mãos atadas atrás das costas e cabeças rapadas, tentavam não ser gazofilados pelas garras enquanto procuravam esmagar com a testa os crânios dos gatos. Em tempos mais recuados, usavam capacetes pontiagudos, pelo que pode arguir-se, com cinismo, que o novo figurino, de mãos atadas e cabeças nuas, foi um encontro a uma contenda mais justa, de molde a que os gatos melhor mostrassem a sua bravura. Todavia, o que pretendo reter desta memória histórica — que, certamente, tem passado ao lado de quem viu o filme ou se dedica à sua crítica — é o facto de a violência, mesmo quando irrompe por via do atavismo, que neste caso é a tradição miserável de cabecear gatos, tem como horizonte a transformação, como no caso do fascismo de Novecento. A personagem de Sutherland não se vê como um agente a soldo do passado — pelo contrário, despreza-o e intenta ultrapassá-lo.
Não estou, de modo algum, a criar pontes entre fascismo e tourada: estou, sim, a reforçar a noção que a violência é sempre actual, futurista. Mesmo quando parece prisioneira de velhíssimas tradições rurais. Ao contrário do que pensam os detractores das touradas, é precisamente pela via da violência que esta mantém a sua actualidade.

*Artigo publicado originalmente a 20 de Novembro na minha página de Facebook.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Onde está a esperança?, pergunta-se


Há poucos minutos, na RTP1, no programa Prós e Contras desta semana, cujo tema era «Onde Está a Esperança?», João Machado, presidente da Confederação de Agricultores de Portugal, regozijou-se com o facto de muitos arquitectos, professores e outras gentes com formações académicas estarem, neste momento, a tornarem-se agricultores - até agricultores que, segundo as suas palavras, conseguem ser melhores que os outros agricultores, porque possuem formação académica.

 Isto significará o quê?

Que um arquitecto é, no limite, mais qualificado, por exemplo, para cavar batatas que um agricultor "tradicional", porque a sua facilidade em pensar quadridimensionalmente lhe permite acertar com a enxada num ponto optimal e rentabilizar o crescimento de tubérculos por metro quadrado de terreno? Então, por conseguinte, isto não significará que andámos enganados - desde a alvorada do agriculto no Crescente Fértil - ao deixar o cultivo da terra nas mãos de indivíduos sem cursos superiores, porque este tipo de formação, apesar de não garantir empregos nas áreas respectivas de especialização, garante super-agricultores, muitíssimo tarimbados? Como se pode sentir alegria pela falta de oportunidades de trabalho que leva estes jovens licenciados a voltarem à terra dos pais, de onde saíram para irem estudar para Lisboa, Porto e Coimbra, e os obriga a virarem-se para a prática da agricultura como último recurso?

Além disso, Machado voltou-se para uma jovem estudante de arquitectura que estava na audiência, acabada de intervir no debate em curso, dizendo-lhe que, provavelmente, até daria uma óptima agricultora. Em suma: o governo pede aos universitários que emigrem - Machado, com maior sensibilidade filial à terra mátria, pede-lhes que fiquem para cavar batatas. Isto é grave e revelador de que quando um país está desgovernado, a impunidade diante da rusticidade é completa. O exemplo, percebe-se, vem de cima.

Quando acabará esta catástrofe que nos sufoca mais e mais, a cada dia que passa?
Quando nos veremos livres deste governo que, segundo anunciou Luís Bento no mesmo programa, prepara mais um pacote de medidas de austeridade para Março de 2013, que contempla, entre outras determinações, o aumento da base tributável para efeitos de cálculo de IRS.
Será possível espremer ainda mais dinheiro dos bolsos dos indivíduos? Quanto tempo se pode viver na miséria?
Quantas famílias se atirarão pelas janelas nessa altura?
Espero que se compreenda - e bem - que estamos a falar de novas medidas de austeridade planeadas neste momento para serem aplicadas depois do orçamento de estado para 2013 ser aprovado em definitivo.