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terça-feira, 22 de janeiro de 2019
Polémica de vãos de escadas
Os comentários que ouço e leio pela comunicação social e pela Internet influenciam-me a conjecturar que, de facto, pouca gente conhecia o poema Ode Triunfal do heterónimo Álvaro de Campos, criado por Fernando Pessoa, tais os niveis de estupefacção e indignação pela revelação que contém passagens algo heterodoxas.
Ora, Álvaro de Campos é o avatar pessoano de um estilo que se quer Futurista, logo muitíssimo severo para com a sociedade que a Europa herdou do século XIX, inspirando essa crítica violenta da sociedade urbana — cosmopolita, considerada imoral na sua atomização do indivíduo (o que é Kafka, senão uma espécie de futurista niilista?) — as de outros movimentos posteriores, de aspectos análogos, como o Dadaísmo, surgido em meados da Primeira Grande Guerra. Todavia, se o Dadaísmo enfatizava — e se opunha — ao absurdo e horror dessa guerra massificada, industrializada, o Futurismo abraçara a velocidade, a indústria e a violência como ferramentas revolucionárias que iriam esboroar uma ordem social liberal, considerada decadente. Já em 1909, Marinetti, pai do Futurismo, cantava no seu Manifesto que o ruído de um automóvel a correr ou os disparos de uma metralhadora eram mais belos e pertinentes que a Vitória de Samotrácia. Daí que as putas, mais as meninas que masturbam homens de aspecto decente em vãos de escada de Ode Triunfal, são como que lâminas nas quais se reflecte todo o estertor de uma sociedade liberal de início de século considerada corrupta, imoral e hipócrita pelos futuristas e outros istas (como os fascistas, mas isso é outra história).
Fica ainda a revelação que Pessoa escreveu várias vezes sobre as suas próprias práticas masturbatórias, onanistas, e que não andam meninas por essas fantasias solitárias.
terça-feira, 4 de dezembro de 2018
Em guerra com o epocalismo
Nas últimas semanas, passada a efeméride do armistício da Primeira
Grande Guerra, tem-se difundido a ideia errada que essa foi a primeira
guerra "moderna" ou "industrial", quando, na verdade, não foi nem uma
coisa, nem outra, muito menos a primeira guerra "mundial".
Quanto
à última classificação, essa deverá ser atribuída à Guerra dos Sete
Anos, de 1756 a 1763, conflito que, à época, envolveu toda a Europa e as
suas dependências ultramarinas, num inédito cenário global (a sátira Cândido, ou O Optimismo de Voltaire, publicada em 1759, tem como pano de fundo este confronto).
No que concerne aos primeiros dois epítetos, pertencerão à Guerra Civil
Americana, de 1861 a 1865, na qual figuraram profusamente granadas,
metralhadoras, bombas, caminhos de ferro, telégrafos, barcos couraçados e
submarinos. Aquilo que esta guerra perde em expansão continental
recupera em sanguinolência, pois também aqui se estreou o conceito de
"guerra total" (embora sem esse nome, que só apareceria na Primeira
Guerra Mundial).
Na realidade, a Primeira Guerra Mundial —
espécie de grande guerra civil europeia — deixou ainda bastantes
terrenos incólumes que, um pouco mais à frente, outra catástrofe de
contornos maciços tratou de terraplanar sem piedade: o impacto — este,
sim, autenticamente global — do 'crash' da bolsa de valores americana,
cuja reverberação afectou economias que a Primeira Guerra Mundial não
ameaçara drasticamente; e, sobretudo, teve um efeito devastador na
economia alemã — mais que a obrigação de pagar as reparações de guerra
estipuladas no tratado de Versalhes.
Para não complicar demasiado as coisas, nem sequer falei na Guerra da Crimeia, de 1853 a 1856...
segunda-feira, 9 de abril de 2018
Centenário da batalha de La Lys: história pessoal
Hoje assinala-se o centenário da batalha de La Lys, na qual o Corpo
Expedicionário Português, posicionado na Flandres francesa, sofreu com
uma pesadíssima ofensiva militar alemã. As vidas de dois bisavós meus
relacionam-se directamente com esta data: um, que se alistou
voluntariamente no CEP (com a idade de dezasseis anos), combateu na
batalha de La Lys e, já em Portugal, foi condecorado com a Cruz de
Guerra; o outro, também foi mobilizado, mas acabou por servir em
Portugal como maqueiro nos serviços de saúde do exército - no entanto,
faleceu com quarenta e sete anos de idade num dia 9 de Abril. Conheci o
primeiro bisavô de quem falo, que teve uma vida longa, mas não conheci o
segundo; contudo, para assinalar a efeméride, deixo um poema que ele
escreveu, em que interroga sobre se aquela guerra era justa ou não.
terça-feira, 28 de junho de 2016
A história e a fortuna
Faz hoje 102 anos que Gavrilo Princip espoletou a Primeira Guerra Mundial. Nem uma única alma poderia imaginar o que aí viria: Princip foi, bem avaliadas as coisas, a verdadeira, a autêntica, parteira do século XX. Um século tem sempre dois inícios: o inscrito no calendário, iniciado no primeiro ano de cada nova centúria; e outro, orgânico, que se relaciona com mudanças intensas, estruturais, que o transfiguram e, impelindo-o a abandonar a casca, o obrigam a um inexorável caminho às cegas. Às vezes, os dias em que isso acontece são reconhecíveis, mas na maioria das vezes nem se dá por isso, suave que é a maturação das eras - como trombas de água bebés, ainda mansas sob a imperturbável cútis oceânica. George III de Inglaterra terá deixado passar em branco um momento assim, quando a 4 de Julho de 1776 redigiu no seu diário «hoje não aconteceu nada importante». Dá que pensar o facto de que, hoje, com a disponibilidade veloz de informação que possuímos, andamos tão às cegas quanto George III e quanto os europeus de 1914. A história não tem um tufo de cabelos na testa em jaez igual à fortuna: ela passa e não se deixa agarrar. Só é possível ver o rasto da roda vincado na terra e esse é frio, mudo e críptico, tremendamente.
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