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sábado, 29 de junho de 2019

O dom da Última Palavra

Em cada período os indivíduos morrem de acordo com o espírito do seu tempo; e um dos aspectos mais deletérios da hodierna medicalização da morte é roubar-se aos moribundos o dom da Última Palavra — pois como podem proferi-la com tubos ensartados na boca?

Já não se crê que a alma vai adquirindo consciência de si enquanto se descarnifica e que, nesse revificante desamodorrar, alcança arcanos que olhos humanos são incapazes de perscrutar; não se atenta aos mussitares mortiços, plenos de memorabilia ultra-tumular, entoados com a desarmonia própria de sopros extintos. Trincafiados nos hospitais, amordaçados com látex ou silicone, os nossos mortos expiram em adiáfora aglossia, encarcerados em abjecto mutismo somente ferido por unissoantes monossílabos de desconforto — por vezes, é vertida por olhos sem luz uma peregrinante lágrima em reles reologia; quase sempre, secreções mucóides sarapintadas de sangue, padrões marginais de desespero.

Somos do tempo da morte açaimada.

Tendes alguma coisa que se coma?


Não consiste em nenhuma capciosa conclusão a de que o humanismo de Quinhentos sintetizou a cultura clássica com o cristianismo, porque este, com efeito, dirige-se à dimensão somática do indivíduo, na completa acepção da corporalidade.


Em dois trechos dos evangelhos radica essa obvenção: em Mateus 4,4, a célebre expressão «nem só de pão vive o homem» comporta uma resignificância que intima a pensar que para a restante criação o pão é o suficiente, enquanto que o ser humano, criatura catabática, somente se sacia quando se anula a consciência da falibilidade, quando este, através da cultura, se projecta para além da sombra meramente existencial; o outro excerto, enantiomorfologicamente iterável com o primeiro, pode ler-se em Lucas 24,41, quando Cristo recém-ressuscitado aparece aos espaventados apóstolos e lhes pergunta «tendes alguma coisa que se coma?» — este simbionte antropalelopático do espírito com a carnalidade regressa com fome do além-túmulo, recompondo os seus elementos etéreos com o bocado de peixe assado dado pelos discípulos. 


Este conjunto não-casuístico de ideias familiares a esta — e a que se pode adicionar aquela que está em Marcos 2,27, «o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado», que rompe decisivamente com a subordinação mosaica do indivíduo diante do divino — é um repertório de representações revalorizadoras do humano que, no fundo, são já o prenúncio do profundo encentramento operado pelos humanistas cristãos do Renascimento.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Na vacuidade do oceano cósmico

Atrevamo-nos a dar esta resposta à premente pergunta sobre se seremos náufragos na vacuidade do oceano cósmico: estamos sozinhos. Será assim tão desesperante compreender que Atlas poderá carregar um universo vazio?

A vida terrena é um hápax — é, além disso, prisioneira daquela excrescência arquitectónica que nenhum mestre conseguiu ainda erradicar: as enjuntas, triângulos formados pela inscrição de um círculo dentro de um quadrado. Na cosmogonia desenhada pelo artista quinhentista português Francisco d'Ollanda o triângulo é a forma fundamental; telúrio que se derrama sobre o globo para constituir os elementos e os seres, a unidade primeva da vida. Em simetria, para o novecentista inventor americano Buckminster Fuller também o triângulo era o primeiro objecto, a forma primordial por ele serializada em massa na esférica estrutura das suas cúpulas geodésicas.

A vida é uma enjunta formada pela sublime construção do universo; suprema superfluidade que prospera naturalmente, somente pelo harmonioso encaixe de cegas estruturas que em nada se lhe relacionam: termirácula, prodigeomaturga, unarrepetível. Na subitânea dimensão que lhe foi proporcionada, a vida é proteica, multifária, polimorfa; alfabeto adaptável a todos os idiomas e geografias.

No conto O Estudante, Chekhov descreve a comoção sentida por uma aldeã viúva e sua filha ao escutarem, enquanto se aquecem diante de uma fogueira, o relato da paixão de Cristo que lhes é narrado pelo titular estudante, que se lembrou de como Pedro negou Jesus enquanto se aquecia diante de uma fogueira no pátio do Sumo Sacerdote. As mulheres choram sob uma dor profunda, como se fossem elas próprias mãe e irmã do Messias — e o estudante afasta-se, perplexo, por presenciar essa plangência com dezanove séculos de atraso. Ao voltar de barco a casa, o jovem encontra a sua aldeia na linha do olhar e sente-se preenchido por um poderoso sentimento de «juventude, saúde e força» e por uma «felicidade misteriosa». Escreve o autor que «a vida parecia encantadora, miraculosa, imbuída de exaltante significância».

Existe exaltante significância na vacuidade do oceano cósmico. Existe exaltante significância neste esconso formado pelo arco de titânicas forças físicas. Está imbuído de um ininterrupto sinal que é emitido por este ínfimo lodaçal do tempo em que, por excepção, nascemos e que continuamente nos serve de guia no nevoeiro cruel da existência. Esse cordão invisível estendido entre o início e o fim nunca se recolhe ao toque: esse cordão repercute a linguagem da história e do mito. Diz-nos que não estamos abandonados. Acompanham-nos todas as vidas extintas que se intersectaram para chegarmos mais longe — admirável panteão que nos albergará um dia. No interior da inesgotável enjunta que nos deu o ser não somos derelictos.

Essa transparente iminência fez chorar as personagens de Chekhov. Essa proximidade emociona-nos quando lembramos os nossos mortos: onde estarão os pais e as mães desaparecidos senão aqui, na diáfana e improvável excepção que é a única realidade que conhecemos. A única verdade que conhecemos. Mortos e vivos, estamos todos aqui; numa perdida enjunta que mal se distingue na imensidade. Numa crudelíssima e friíssima fímbria do cosmos.


quarta-feira, 12 de junho de 2019

Uma hipociclóide trajectória de vida

 
A máquina humana é um eternigrama, cujo fulcro é o coração: em forma de cone, ele é a jóia orgânica que mais se assemelha à representação cónica do tempo conceptualizada pelos físicos, segundo a qual cada indivíduo é o orifício de uma pessoalíssima âmbula por onde passa como areia em vidro o fluido espácio-temporal — atrás, uma história vasta de ocorrências e possibilidades contra-factuais; em diante, todas as conjecturas. Somente o presente é pequenino, quasi-unidimensional. Em momentos de morbidez ou melancolia, essas imensidões atemorizam, uma por arrependimentos, outra pelo desconhecido — e em ambas o coração pronuncia-se aflito como pássaro em gaiola; infinitesimal ponto de fuga de todos os universos pessoais, uma topografia traçada em quadrícula por sismografias originadas nesse Cocito que é o occipício.

Porém, de que tempo estamos a falar? Mutante que se transfere por inteiro de uns anos para outros, objecto que oxida verdadeiramente e do qual a velhice é a ferrugem, o homem só se torna compreensível se for pensado como criatura híbrida de matéria e de espírito — de tempo —, tal como a marinha lesma verde e os vulgares cogumelos das nossas matas são seres híbridos entre o animal e o vegetal. O ser humano é um pólipo entre o carnal e o temporal, carneiro da Tartária entre animal e transcendente, na sua hipociclóide trajectória de vida não vive, verdadeiramente, nem no mundo, nem no tempo: erosivo, aquele esboroa-lhe o corpo com impiedosos rasgos de senectude; o outro fá-lo estrangeiro da sua própria identidade, ruína entre ruínas. Só no fluxo eterno está em casa o ser humano — só na coruscante sefira dos sonhos e dos deuses ele se encontra entre iguais, orbivagante e pluridimensional. Só aí nasce idoso e morre jovem; só aí acena uma despedida quando se aproxima; só aí, entre protaicos da mesma ordem, ele comunica com um sargaciante oceano de memórias em que coexistem todos os períodos.

A vida é, pois, como o coração, ponto de fuga entre dois estádios de não-existência. Nodular tirocínio que todos os seres precisam de atravessar.


quarta-feira, 29 de maio de 2019

Estrangeiro do presente


Somos holoedros anfíbios: vivemos multifacetadamente, em simultâneo, no presente e em outro tempo — no tempo exterior e num tempo interior. Um mede-se pelos ponteiros e é afectado pela atracção da força gravítica; o outro não se deixa agrilhoar pela física e mede-se com hieróglifos secretos que desenhámos a lápis e a giz na infância, mede-se através da aceleração do músculo cardíaco cada vez que rompemos num mergulho essa membrana feita de memórias. A relação axissimétrica entre ambos os tempos define o modo particular como nos comportamos no plano espacial: em harmonia com o presente ou estrangeiros do presente. O presente e nós como capitéis perclaramente nivelados ou, então, parêntesis afastados por sucessivos graus de infinitude.
O tempo interior é congénito, cronóvoro, eléctrico-resinoso de tanto se esfregar no âmbar em que se cristalizaram os nossos diversos eus: a genealogia das nossas identidades e idades é feita da impressão dessa cromatófora faísca com o pó das nossas células mortas, à guisa de dendrites lichtenberguianas — à primeira observação tão confusa quanto a turfa de Dürer, na remistura de ramagens, caules e raízes, mas única, com a singeleza e a autoridade mansa de um equinodermado borrão de tinta, pejado de fiordes, rombos e escolhos microscópicos que algum tipo de forma de vida, à sua escala, irá um dia navegar. Essas amorfidades falam connosco. Dizem-nos que o nosso tempo não é o tempo do mundo. O tempo do mundo será o nosso caixão, mas não foi o nosso berço, pois de outros tempos interiores nascemos — e para um outro tempo seu cognato viajaremos.
Por conseguinte, a obsessão em ser-se do tempo do mundo, um tempo que não é nosso, é uma moléstia bem miserável.

O sonho é um órgão autopoiético


O sonho é um órgão autopoiético: cada persona, cada panorama patenteado durante o sono, encerra parte de um padrão numa particularíssima e pessoal topologia que o próprio órgão vai desenvolvendo em detalhe. O órgão do sonho é, pois, físico e diáfano, em simultâneo: não flui sangue nas suas veias, mas memórias dos nossos mortos; e, assim como uma esponja se fragmenta ao ser coada, mas se regenera de imediato do lado oposto da malha de arame, o órgão de sonho dissolve-se quando despertamos, mas reintegra-se intacto cada vez que adormecemos. Este comportamento não é guiado por nenhum sistema nervoso — o órgão de sonho é antigo, primevo e pristino, parente de uma era em que luz e treva eram as coordenadas espaciais existentes. Uma era frondejante de simbolismo — substantivo que, aqui, volta a ser substância, pois simbolismo é metabolismo.
Os mortos por ele são atraídos: não os mortos, em suma, mas os vestígios que deixaram em nós — cada sonho a que o órgão de sonho dá o ser é um icnofóssil: resquícios de vidas que abandonaram a nossa companhia ocultam-se nas suas pregas e arquivoltas; vozes ainda familiares; gramática de cor e artefactos; gestos que pensávamos nunca mais voltar a ver. Serão os nossos mortos invocáveis a partir destas translúcidas palinfrasias? Destes duplos que, como esponjas e remanescentes teriomorfos pré-câmbricos, se dissolvem e sublimam constantemente?
Os pulmões oxigenam o sangue. Os olhos deixam passar a luz. Os sonhos ligam a vida à morte.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Histórias de café e tabaco


Da mesma maneira que as pessoas, a história nem sempre diz aquilo que pensa; daí ser preciso reparar nos pormenores. Um dos detalhes mais significativos do ascendente de Leni Riefenstahl sobre Adolf Hitler é visível por poucos segundos na segunda parte do documentário Olympia, intitulada Festival de Beleza: passados vinte minutos desde o início, durante a sequência da competição de vela, podemos ver um atleta vestido de preto a manobrar com energia o velame do seu barco enquanto fuma um cigarro. Enquadrado com esmero, o plano exsuda solicitude para com o tripulante tabagista que ocupa a dianteira da composição e nela tudo concorre para que o cigarro refulja como um pirilampo. A sempre sartorial Riefenstahl (embora – por culpa da sua inexpressão cubiculária – nunca se libertando de invocar uma peculiar imagem a que, posteriormente, Russell Hoban daria existência no romance Turtle Diary para caracterizar a quarentona Neaera H.: «parece a mulher de alguém sem o alguém») não se coíbia de ser fotografada de cigarro na boca, num contexto político hostil para fumadores: Hitler abominava tabaco (vira grandes fumadores, como o pai, mais o mentor político Dietrich Eckart, morrer tormentosamente) e as campanhas anti-tabagistas nacionais-socialistas eram as mais duras até à data.
Com efeito, Hitler orgulhava-se do facto de ele e dois ditadores seus próximos, Mussolini e Franco, não fumarem, ao mesmo tempo que líderes adversários, Churchill, Roosevelt e Estaline, não terem vergonha de mostrar-se em público como repugnantes viciados em charutos e cigarros. Profundo conhecedor e grande admirador de Westerns, Hitler gostava de definir o tabaco como «a fúria do Pele-Vermelha contra o Homem Branco, a vingança por todo o uísque que lhe fora dado a beber». Descrita como a medicina do estado, promovida por Himmler e Hess, a recrudescência da homeopatia acompanhou a guerra nacional-socialista contra a outrora chamada erva-santa; em principal, a homeopatia era utilizada contra casos de cancro causados por uso de tabaco, diagnósticos em que a iátrica nazi se especializou. A fumadora Leni, contratada por Hitler para lenificar (nunca um verbo terá feito tanto sentido como neste caso) os estragos morais provocados pela exibição do filme A Oeste Nada de Novo, de Lewis Milestone (baseado no romance do escritor alemão Erich Maria Remarque, veterano da Primeira Grande Guerra), realizou com enorme êxito dois documentários laudatórios da cosmovisão nacional-socialista, Triunfo da Vontade e Olympia, tornando-se, inclusive, uma influente mensageira do regime nazi em Hollywood, onde alguns grandes estúdios aquiesceram a colaborar regularmente com a agenda política alemã.
Em simetria, outra substância que Hitler considerava venenosa para a população adolescente era a cafeína – afortunadamente, a Alemanha havia inventado há umas décadas a descafeinação, processo que, a partir dos anos 30, foi sendo alvo de sucessivas pressões administrativas para tornar-se mais biológico.
Em contraste total com os ideais homeopáticos e holísticos dos protagonistas nacionais-socialistas, outros alemães alimentaram no passado relações menos obstinadas com os seus vícios – e o exemplo que resgato neste momento é o melhor de todos, porque mata dois coelhos com uma só cajadada: Bach, matemaníaco compositor barroco, autor de ascencionais e majestosas sinfonias e sonatas,  escreveu, precisamente, divertidas cantatas para celebrar com alegria o seu amor pelo café e pelo tabaco. Inveterado bebedor de café (e amante de vinho), em bachica (ou báquica) verve escreveu versos como «café, café, tenho de bebê-lo / se alguém me quer bem / então dê-me café», mas de igual modo não dispensava o cachimbo: «é sempre com o meu tabaco / que tenho as melhores ideias / e contente fumarei muito / na terra, no mar e em casa». Na verdade, o texto da cantata do tabaco constrói uma alegoria muito agradável entre a fragilidade do cachimbo, feito de barro, e a debilidade humana, também proveniente da argila: homem e cachimbo estão destinados a partir-se, a repulverizar-se no retorno à terra, mas felizmente serão o aconchego um do outro até chegar esse destino.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

As zebras da travessa


 
Estamos tão acostumados a ver graciosos cavalos criados para corridas e alardes acrobáticos que é fácil esquecer que os cavalos comuns, usados para os mais exigentes trabalhos agrícolas, chegavam a medir quase dois metros ao garrote e pesavam até uma tonelada.
Foram estes os cavalos megafáunicos que batalharam na Primeira Grande Guerra, a derradeira em que a cavalaria teve papel preponderante: relinchantes tanques de carne e osso que deram lugar aos troantes tanques feitos de metal e fogo. Os cavalos foram uma parte importante da paisagem urbana de Lisboa (assim como as carroças de lixo puxadas por bois, que se mantiveram no activo até à guinada para o século XX), mas com o advento do automóvel aposentaram-se para se dedicar ao tipo de provas de dexteridade equestre que os antigos muçulmanos de Al-Uxbuna chamavam de fantaziiâ; ainda assim, continuando a dar rendimentos aos incontáveis correeiros olisiponenses. Até há poucos anos situada ao lado da casa dos oitocentistas Pastéis de Belém, a pitoresca loja Barroso Sapateiros foi a melhor – e a última – sapataria de Lisboa especializada em calçado para cavalaria, reunindo em mais de cem anos de trabalho uma clientela nacional e internacional de enorme prestígio.   
Encontrar as origens do cavalo moderno (Equus caballus) é uma empreitada complexa: hoje sabe-se que é uma espécie originalmente americana que chegou à Europa durante a era do Pleistoceno através do desencoberto Estreito de Bering que ligava a América do Norte à Ásia. A espécie que se pensa ter sido a primeira a fazer essa travessia foi a Equus simplicidens, também chamada de zebra americana: esta espécie, que é a mais antiga representante do género Equus, é a “tetravó” dos primitivos cavalos selvagens asiáticos – dos quais descendem o extinto Tarpan e o recuperado Cavalo de Przewalski. Existe uma ligação directa de parentesco, comprovada por análise ao ADN mitocondrial, entre essa pioneira zebra americana e algumas das espécies de primordiais cavalos peninsulares (grupo Equus stenonis). A zebra americana é, analogamente, a antepassada das diversas espécies de zebras africanas.
Na realidade, estas só se chamam zebras por culpa dos zebros: foram os nossos mareantes quatrocentistas que assim as apelidaram por achá-las parecidas com esses cavalinhos ou burrinhos tipicamente ibéricos – como os que antigamente eram criados na vila de Benavente, no distrito de Santarém. Ora, quando se quer menorizar alguma coisa em língua portuguesa é habitual trocar-lhe o género: se o conceito original é masculino, o seu epígono passa a feminino – e vice-versa. Deste modo, ao chamar zebra ao listrado equídeo – que nasce preto antes de entremear-se de branco –, catalogou-se-lhe uma disposição de subalternidade em relação ao zebro: passou a ser uma zebra; em suma, um zebro de segunda categoria. Não obstante, no século XII o nome escrevia-se zevro, como aparece grafado no foral dado a Lisboa por D. Afonso Henriques em 1179 – e a pele destes zevros, longe de listrada, já era muito valorizada. Independentemente da irrequietude infernal que instiga as zebras foi um português que, em outras longitudes, ficou famoso por ter domesticado um desses diabretes dicromáticos: entre 1914 e 1924, enquanto foi cônsul de Portugal em Nairobi, capital do Quénia, o médico Rosendo Ayres Ribeiro (goês de ascendência portuguesa, nascido em 1871) fazia domicílios montado numa zebra que ele próprio domesticara, tornando-se uma respeitadíssima, mas excêntrica, figura local. Inscrita esta excepção, elucide-se que as zombeteiras zebras são, em geral, tão ariscas a mansidões que recusam até relinchar, preferindo gargalhar aos gorgolejos.
Até 1776, no Palácio das Leoneiras (Palácio Nacional de Belém), D. José I foi reunindo no seu Pátio dos Bichos mais de uma dezena de zebras (com nomes pitorescos, como Açucena, Carapeta e Verboneta), descendentes de um par enviado de Angola. A ménagerie josefina compilava animais de toda a parte do império português, desde leões (dos quais advém a alcunha do local), um tapir, um porco-espinho, alguns papagaios, um elefante, um veado, ursos e diversas aves, entre outras espécies. Há muito que as zebras josefinas desapareceram desse sítio (no fim do século XVIII já não existia nenhuma), mas a toponímia local recorda-as numa ruela encoberta pelo casario da Calçada da Ajuda, a um coice de distância do antigo Museu Nacional dos Coches que ocupa o local onde se situaram as antigas cocheiras do Palácio das Leoneiras.
É a Travessa das Zebras, na qual, em 1904, um clube futebolístico fundado em Belém, o Sport Lisboa, constituiu sede oficial: quatro anos depois, ligou-se a um clube de ciclismo e atletismo chamado Sport Club Benfica e dessa fusão nasceu o Sport Lisboa e Benfica. De acrescentar, já que o discurso desembocou no futebol, que, em gíria futebolística brasileira, a expressão “deu zebra” classifica uma partida de resultado indesejado...
Do futebol quase todos falam, já se sabe – mas as infelizes zebras só são lembradas quando o desfecho é aziago?
Dá que pensar.