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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Sobre Santo António no dia de sua morte

Foi a partir do reinado de D. Afonso III que as espécies monetárias começaram a figurar no pagamento do salário dos trabalhadores, que, dessa forma, passou a ser misto: em dinheiro e em géneros (nos quais se contava o vestuário). Espoletou-se, pois, uma economia baseada no dinheiro e não na troca mais ou menos equivalente de produtos e de serviços. De igual modo, foi com esse rei que a circulação da libra se vulgarizou, abrindo o sistema monetário português ao resto da Europa; facto que ditou a extinção lenta, mas inexorável, do morabitino (ou maravedi: moeda exclusivamente peninsular). O sistema de contagem em libras, soldos e dinheiros perdurou até D. Afonso V iniciar o seu reinado; período em que a libra foi substituída pelo real. No reinado dionisino, uma libra valia vinte soldos e um soldo equivalia a doze dinheiros. Estes eram cunhados numa liga metálica de prata e cobre, na qual a percentagem da primeira era muito baixa: essa liga chamava-se bolhão – nome que se transformou em sinónimo dos dinheiros e nome que se relaciona directamente com o cerne do nosso assunto.

Seria engraçado que esse nome estivesse na origem do suposto apelido Bulhões do jovem Santo António (nascido a dois passos de distância da Sé, por alturas de 1190, segundo a tradição), cujo nome de baptismo seria Fernando Martins. Uma tradição oral do século XIV foi estabelecendo na memória popular que os seus pais foram Martinho e Teresa de Bulhões, mas não existe nenhuma fonte histórica que o corrobore, assim como os primeiros cronistas da vida de Santo António nunca mencionaram sequer o apelido Bulhões. Em suma: dizer-se que Santo António se chamava Fernando de Bulhões, e que foi filho de Martinho e de Teresa, será, em última análise, uma ficção. No entanto, a tradição oral supracitada também refere que o pai de Santo António trabalhava para a câmara de Lisboa. Ora, se trabalhasse como cobrador, até pode conjecturar-se, como puro exercício especulativo, se o apelido Bulhões não fosse, em vez disso, uma alcunha derivada do nome das moedas que ele cobrava: os bolhões. Nesse caso é fácil imaginar que o tal Martinho pudesse ter sido conhecido pelos populares como “Martinho dos Bolhões”: ou seja, como o “homem que vem buscar os bolhões”. Por culpa disso, o filho ganharia a alcunha de “Fernando do Bolhões”: ou seja, o “Fernando que é filho do Bolhões”.

Então, como é que Fernando – Martins ou Bulhões – deu lugar a António? A resposta é simples: o nome António, de aristocrática origem romana, cuja etimologia incerta talvez possa estar relacionada com a palavra grega para flor (anthos), foi um nom de plume adoptado pelo santo quando esteve na Itália, por razões que, hoje, não são claras. No entanto, o que é claro é que o nome masculino de António se generalizou muitíssimo após o prestígio granjeado pelo santo; e, ao contrário do que se possa pensar, a sua manutenção fez-se por via culta, em oposição à coexistente degenerescência na redução Antão ou Anto, verificada em contextos populares (o poeta António Nobre usou durante algum tempo o hipocorístico Anto).

À parte das enturbadas origens do nome de Santo António, outros aspectos da vida deste santo permanecem desconhecidos do público. À cabeça, lembro-me de uma curiosidade interessantíssima que tem andado algo esquecida: a tradição estabelece que foi o rex inutilis D. Afonso VI (quando ainda era Príncipe do Brasil) que, em 1655, durante o período da guerra com Castela pela independência do reino de Portugal, tornou Santo António o protector do exército português, ordenando que este assentasse praça como soldado e lhe fosse pago soldo por esse serviço. Assim, Militar, inversamente a Casamenteiro, consiste no mais ignoto atributo antonino.

Imagem: Santo António de Meinedo (séc. XV). Encontrada na freguesia de Meinedo, concelho de Lousada, esta imagem é uma das mais antigas representações de Santo António com o Menino Jesus ao Colo.

sábado, 11 de junho de 2016

Evocação dos santos gémeos de Lisboa em período das Festas dos Santos Populares


Neste período festivo devotado ao culto folclórico dos Santos Populares de Lisboa é fácil esquecer que outras sacralizadas figuras houve que, em tempos de antanho, foram idolatradas em vez de Santo António, São João ou São Pedro. Já falei aqui várias vezes dos irmãos Veríssimo, Máxima e Júlia, os três santos mártires de Lisboa (nos quais a antiga freguesia lisboeta de Santos-o-Velho integrada na nova freguesia da Estrela, desde 2012 guindou o seu nome); porém, também antigos, são os nomes de São Crispim e São Crispiniano: os dois santos gémeos de Lisboa, cuja importância nos primeiros tempos da reconquista da cidade tem sido esquecida. Vale a pena recordá-los, evocando-os a partir da sua representação mais significativa: a que se encontra plasmada na tela seiscentista de autor anónimo conservada no Museu de Lisboa (e cuja imagem aqui reproduzo).

Com dois metros e meio de altura e três metros de largura, este quadro argumenta connosco sobre como poderá ter sido a conquista de Al-Uxbuna, por D. Afonso Henriques, em 1147. Escrevi “argumenta”, porque a sua imponência é impositiva: esta tela, que preenche todo o campo de visão, não serve tanto para retratar a conquista da cidade, como para celebrar a dedicação desta aos santos mártires São Crispim e São Crispiniano. Segundo o hagiológio, estes irmãos romanos foram martirizados em finais do século III, no período das perseguições imperiais ao cristianismo, na cidade de Soissons onde trabalhavam com peles, estando ainda por decidir se foram peliteiros, surradores, sapateiros ou correeiros – a dúvida é prerrogativa dos homens, mas, por vezes, também beneficia os santos, porque em vez de remetê-los para um canto nublado da hagiografia, esta indefinição tornou estes gémeos os padroeiros de todos os ofícios que têm o couro como matéria-prima. Podemos vê-los no canto superior esquerdo da tela, sentados no regaço das nuvens e agarrando as palmas – símbolos de martírio –, enquanto olham com entusiasta aprovação para o abalroamento das portas da cidade pelas milícias cristãs, compostas por cavaleiros portugueses e cruzados norte-europeus arrebanhados na cidade do Porto, no âmbito da (fracassada) Segunda Cruzada, instigada pelo papa cisterciense Eugénio III para recuperar o condado de Edessa (criado durante a Primeira Cruzada).

O quadro é uma quimera plena de romantismo. «Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar», escreveu Álvaro de Campos, «todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma». Al-Uxbuna é Lisboa, a nossa, com o Atlântico a magnetizar-nos o olhar – ontem como hoje – e esta tenebrina tela, cujas armas nacionais que podem ver-se em primeiro plano são como o tal «coração que tem que pulsar através da vigília e do sono», quase nos faz esquecer o caos e o horror que uma guerra sempre confina. Nem de propósito, falando em caos, ao ler-se a crónica de Osberno fica-se com a ideia de que o desfecho foi mais rendimento do improviso que de estratégia bem esboçada. Na verdade, a páginas tantas, D. Afonso Henriques tem mais dificuldade em gerir as intrigas particulares das várias facções que o acompanham – em principal a flamenga, liderada pelo conde Arnoldo de Aarschot: personagem que parece obcecada em rapinar a égua do governante almóada da cidade.

A data de 25 de Outubro é, de maneira geral, indicada como sendo a da conquista da cidade, somente porque foi nesse dia que D. Afonso Henriques passou triunfante pelos seus portões: nessa manhã já começara o êxodo dos muçulmanos, mas à tarde, na alcáçova, na comparência do rei, clérigos e cruzados, ergueu-se uma cruz na torre mais alta e celebrou-se o êxito da expugnação com um Te Deum. É nesta coincidência que reside a chave para decifrar-se o enigma da presença dos santos gémeos Crispim e Crispiniano no quadro que nos relata esta história, pintado para celebrar o quinto centenário da conquista de Lisboa, em 1647 – data tornada ainda mais especial em virtude da restauração da independência a 1 de Dezembro de 1640. É que (no calendário litúrgico) o dia 25 de Outubro é o de São Crispim e São Crispiniano. Merecem ser evocadas as palavras de Oliveira Martins: «Lisboa, mais do que a capital do reino, era a razão de ser da sua independência».

Comprova-se a existência da antiga veneração prestada pela cidade a estes santos e que, mais tarde, a dinastia de Avis – ela própria devendo tanto a Lisboa – recuperou numa altura em que os nomes Crispim e Crispiniano começavam a ser deslembrados pelo povo: reis como D. João II e D. Sebastião foram fervorosos adeptos do culto destes dois santos e escreveram à câmara de Lisboa para que não descuidasse a procissão anual em sua honra. Na carta escrita por D. Sebastião a 24 de Outubro de 1575, por exemplo, pode ler-se: «E sendo esta procissão e festa de tamanha obrigação e tão devida a estes santos mártires pela mercê que Nosso Senhor fez à Cidade e a este Reino em seu dia e por sua intercessão, o tempo foi gastando a lembrança e conhecimento dela (…) Pelo que vos encomendo muito e mando que daqui em diante ordenais e façais esta procissão no dia destes santos mártires a qual irá da Sé a São Vicente de Fora como sempre foi (…) para que vá em crescimento a lembrança e devoção de tão grandes santos e da mercê e benefício que a Cidade recebeu em seu dia». São Crispim e São Crispiniano foram interpretados como sendo os símbolos efectivos da vitória da fé cristã sobre o credo muçulmano. É sedutor observar que, cerca de cem anos depois do Concílio de Trento, este quadro, que na sua umbrosidade e densidade pode ser definido como sendo protobarroco ou prototenebrista (ao estilo do pintor lisboeta Gregório Antunes), agarra nas premissas estipuladas nesse sínodo sobre a representação dos santos e eleva-as a uma singular categoria.

É que a religião cristã nunca foi anicónica e a iconografia hagiológica cumpre o papel de reforçar na imaginação dos crentes a missão dos santos como seus intercessores diante de Deus. Na veneração dos santos está, pois, implícito o próprio louvor a Deus, mas intermediado pelos Seus eleitos: escolhidos pela santidade que demonstraram. Mas essa santidade define-se pela marca de moralidade religiosa que detêm: é uma concepção que nos diz que não nascemos “santos”, mas que poderemos sê-los se nos colocarmos ao serviço de Deus, praticando a virtude num elevado grau de perfeição. O próprio Cristo é referido como sendo o santo de Deus – e os cristãos também são chamados de santos por pertencerem a Cristo (Romanos 1:7). Mesmo assim, os santos devem ser venerados (ou seja, respeitados), mas não devem ser adorados. Nesse sentido, o culto dos santos não traz a salvação, porque eles, apesar de todos os seus atributos, não são divinos.

Porém, estes São Crispim e São Crispiniano foram pintados num feitio inequivocamente divino – mais do que isso, parecem genuinamente divertidos com a estultice espraiada em baixo, ao estilo de deidades greco-romanas. O culto dos santos nasceu da perpetuação da memória dos primeiros mártires cristãos, sendo que, em grego, a palavra mártir significa testemunha: os martirizados são-no, porque através do seu sofrimento testemunham a Paixão de Cristo. Tal como os dois santos gémeos são testemunhas da conquista de Al-Uxbuna. Em relação a este quadro, não deixa de ser verdade que estamos longe da comum arte religiosa, mas também não pode dizer-se que se trata de uma simples reconstituição histórica; o que é espantoso, posto que é um quadro evocador da história pintado para estar exposto numa igreja.


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Enterrando sardinhas


Agora que chegou o intermezzo da ictiofagia bairrista - e não só em Lisboa -, vale a pena dar o alvitre sobre a espantável tradição do Enterro da Sardinha (quarta-feira de cinzas): misto de piedade popular e Carnaval, que, infelizmente, tem andado um bocado esquecido. Cortesia de Francisco Goya é o chinfrineiro charivari que aqui publico, pintado em 1819 no dealbar da realização da série das Pinturas Negras pelas quais o quasimodiano artista ficou famoso no nosso tempo - e, com efeito, já há muito de pintura negra nesta caliginosa composição - na qual, curiosamente, o pelágico clupeiforme está ausente. Já foi enterrado, provavelmente.

Coda:
1) o Enterro da Sardinha é uma espécie de Enterro do Bacalhau, também praticado na quarta-feira de cinzas;

2) nas Posturas Antigas sobre o pescado na cidade de Lisboa, três posturas, pelo menos, falam exclusivamente sobre problemas relacionados com o comércio e pesca de sardinhas; a minha preferida é a «Postura do Preço das Sardinhas e Contadeiras que Sejam Casadas e Não Solteiras» que regula tanto a mercadoria como o estado civil de quem a pode ou não vender;

3) além de servir para a confecção de pastas e acepipes de variável grau de requinte e exigência, a sardinha era usada pelo vulgo como ingrediente principal em mezinhas muitíssimo curiosas (lia-se as vísceras das sardinhas para adivinhar quase tudo, mas, em principal, o sexo dos bebés era adivinhado lançando-se uma espinha de sardinha ao lume e observando como se comportava - se levantasse, nasceria um rapaz). Aliás, nem só pelo vulgo, pois o Dr. Cipriano de Pina Pestana, médico da câmara de D. João V e físico-mor do reino (houve três médicos de câmara neste reinado, mas penso que este é o nome certo para o caso), saudava o efeito expurgante da cabeça de sardinha quando empregada como supositório em casos de prisão de ventre.
 

domingo, 12 de junho de 2011

Breve nota sobre os Santos Populares de Lisboa


No número 15 da Rua de Santos-O-Velho, em Lisboa, encontra-se a igreja paroquial homónima que durante três séculos guardou as relíquias dos três principais santos mártires da cidade: Veríssimo, Máxima e Júlia. Ainda podemos vê-los, junto à entrada da igreja, num baixo-relevo em que se apresentam com bastões nas mãos, invés das mais comuns palmas de martírio (já se verá porquê).

Nascidos em Lisboa, os três irmãos foram martirizados em 305, durante o domínio romano da Península Ibérica, a mando do Imperador Diocleciano, por terem recusado a obrigação redigida em edital de sacrificarem animais aos deuses pagãos. Uma vez prisioneiros, sofreram os martírios da fome, do potro, dos ferros incandescentes e, amarrados pelos pés às caudas de cavalos, ainda foram arrastados pelas ruas de Lisboa; depois de lapidados, os corpos foram decapitados e atirados ao Tejo, perto de Almada, com pesos amarrados aos pés. Independentemente disso, conta-nos o martirológio, os corpos deram à margem de Lisboa (antes dos barcos dos algozes regressarem), na zona em que hoje se ergue o Palácio dos Marqueses de Abrantes, a actual Embaixada de França.

Daí o topónimo Santos dessa área que, diz-se, começou por ser cumeada por uma humilde ermida, levantada por piedosos em memória dos três santos martirizados, e transformada posteriormente em igreja por D. Afonso Henriques após a conquista de Lisboa. Quanto a ser Santos-O-Velho, isso relaciona-se com o facto de D. João II ter mandado construir, para os lados de Xabregas, na orla oriental de Lisboa, um convento maior que albergasse as comendadeiras da Ordem de Santiago, cujo número elevado já tornava pequeno o seu convento de Santos. Este, doado aos freires de Santiago da Espada (os espatários) por D. Sancho II, passou quase de imediato a ser ocupado em exclusivo pelas mulheres, filhas e viúvas desses cavaleiros, convertendo-se no Mosteiro das Comendadeiras da Ordem de Santiago. Ora, desocupando esse velho e exíguo convento de Santos, em 1490, as freiras passaram para o novo e espaçoso convento de Xabregas (possui o maior claustro da Península Ibéria...), levando consigo as relíquias dos três santos mártires e, também, o topónimo. É pela influência da Ordem de Santiago que Veríssimo, Máxima e Júlia aparecem trajados à moda de São Tiago, o peregrino, no supra-mencionado baixo-relevo que se encontra sobre a entrada da igreja paroquial de Santos-O-Velho.

As referências às vidas e ao martírio de Veríssimo, Máxima e Júlia são escassas: conhece-se, por exemplo, o relato contido num códice pertencente ao acervo da biblioteca pública de Évora (o CV/1-23d) e a menção descrita no martirológio do monge Usuardo.

No meu romance O Evangelho do Enforcado (Saída de Emergência, 2010), Veríssimo, Máxima e Júlia são três prostitutos que, depois de mortos - martirizados... - pelo pintor Nuno Gonçalves, alcançam a santidade através do culto popular que lhes é prestado pelos mais pobres.

Imagem: Veríssimo, Máxima e Júlia numa pintura do artista maneirista português Garcia Fernandes (meados do século XVI).

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sardinhada

Agora que vêm aí os Santos Populares é que vai ser cá uma sardinhada! Uma sardinhada e pêras! (As pêras estão fora da imagem.)