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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Nós somos os romanos; ou, votos de Bom Ano Novo


O Fim do Ano nunca me evocou a inverniça imagem da decrepitude ou senescência de Chronos, mas a de florescências quasimicológicas, que nem bolor gerando-se geometricamente numa caixa de petri: pesadelos escatológicos dos esporos anunciantes daquilo que o Ano Novo poderá conter. É uma época em que vates vencidos pela vida hipnotizam leitores e espectadores com os mais diversificados augúrios, que se elencam num espectro que se estende entre o humorístico e o horroroso, mais parecendo diversas espécies de aves canoras pousadas em poleiros de diferentes alturas dentro da mesma gaiola -- umas chilreiam, outras grasnam. Feche-se os olhos e irá sentir-se o pivete pungente do inconfundível bouquet, mesclado de matéria cloacal e qliphoths de alpista, que denuncia o facto da gaiola precisar urgentemente de uma limpeza -- uma Daath em cada casa, cortesia de... Cortesia de nós todos, bem vistas as coisas: é espantosa a velocidade a que a escória do ainda infante século XXI se acumula à nossa volta com o nosso complacente consentimento.

Vivemos num período neo-romano, digo-o há muitíssimo tempo: neste período antipancalista, no sentido em que o Belo não é mais o valor fundamental, o harmonioso só terá licença para existir se for útil -- ou, pior (porque é verdade), utilitário. Os romanos achavam que o belo devia ser utilitário. Os romanos faziam telhas em cima do joelho e, de facto, nestes dias, tudo é feito em cima do joelho, apressadamente, sem respeito pelo suor e cultura que permitem aos anões actuais subir aos ombros de gigantes com cujo cotejo palidejam: qualquer ser pensante não passa de um clandestino nesta realidade desquiciada dos gonzos, mantida em pé, teimosamente, por uma espécie de milagre de feira chamado Mercado. Todos os artigos dispostos nas bancadas dos bufarinheiros do sistema têm de ser produzidos em massa, numerados, etiquetados com um preço injusto e postos à venda. Quando falo em artigos, incluo as pessoas: as pessoas, hoje, não passam de mercadorias. Quando deixam de ser úteis -- utilitárias -- são deitadas ao lixo, que nem electrodomésticos avariados. Com efeito, sem-abrigos, idosos, desempregados são, tal como electrodomésticos, formas de vida baseadas em algo que difere do carbono: são peças mecânicas de uma engrenagem inumana que começou a espiralar infernalmente com força há algumas décadas.

Não quero viver num mundo que deita pessoas para o lixo -- é tão simples quanto isso.
Rejeito um mundo em que o valor humano de um indivíduo é avaliado pela quantia que existe numa conta bancária e no qual os pobres têm, mais uma vez, de ser escravos ou gladiadores para sobreviver.
Sim, a cartilha da competitividade neoliberal transforma-nos a todos em gladiadores do empreendedorismo: directores de empresas lêem Sun Tzu na diagonal e sussuram entre dentes nas casas de banho dos seus gabinetes que assim é que se fazem ofertas públicas de aquisição. A plutocracia nunca foi tão palpável. Tão vaidosa.

Os anos anteriores provaram que a vida é vitrificável quando exposta às altas temperaturas da austeridade e da instabilidade: carne transmuta-se numa finíssima e dura membrana e parte-se. Há pessoas a passar fome e a desaparecer -- ali, ao dobrar da esquina. E, no entanto, a cultura neo-romana infiltra-se em todas as áreas da vida: é um veio que agarra em tudo para desenhar um único e unidimensional organismo, achatado e polinervado como uma folha. Sem mais do que uma dimensão para viver, perde-se o horizonte, perde-se a faculade de erguer a cabeça e olhar para cima. Estamos todos a olhar para o chão.

Os meus votos de Bom Ano Novo para 2015 é que se pare de olhar para o chão e se ganhe a coragem de criar um horizonte. Isso só acontecerá se se rejeitar a hegemónica cultura neo-romana que nos ensopa e, em vez de aceitarmos ser escravos ou nos resignarmos a ser gladiadores, nos atrevermos a ser filósofos.
Não vai ser de um dia para o outro; nem será ao mesmo ritmo para toda a gente. É provável que haja quem não consiga (ou não queira, sequer, tentar). Não obstante, não existe outra solução: é preciso tornar belas as coisas que são meramente utilitárias. Quem não entender isto não entenderá que já perdeu tudo.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Geração Única


O jornal Público está a publicar uma série de artigos que reflectem sobre problemáticas de confrontos geracionais com a contemporaneidade portuguesa: o primeiro artigo intitula-se GERAÇÃO 45-64: Vinte anos para gozar a vida de reformado; o segundo, adoptando o título de Criados para aquilo que não podem ou não querem ser, analisa a geração nascida entre 1965 e 1981. Eu nasci no dia 17 de Abril de 1976, por conseguinte - por comodidade discursiva - pertencerei à geração que o fotógrafo húngaro Robert Capa apelidou de Geração X, referindo-se à juventude do período pós-Segunda Grande Guerra: designação que, depois disso, passou a conhecer o significado que hoje lhe é atribuído.

Confesso que não me sinto parte de Geração X nenhuma - nem de outra, identificada com diferente letra ou número. Sinto-me, sim, parte de um grupo muito heterogéneo, formado, em principal, por indivíduos com idades iguais ou próximas da minha, mas esse sentimento de pertença predica por uma epidermia enorme, no sentido em que ele existe por generosidade de meia-dúzia de genéricas referências culturais que servem de aglutinador, porque, vistas bem as coisas, e perdoem-me o plebeísmo, ainda ando, passados tantos anos desde a minha adolescência, "às apalpadelas" no que diz respeito a pertenças de grupo: a verdade é que nunca me senti parte de grupo nenhum - e ainda hoje não sinto.

Dito isto, confessada a minha incapacidade de investir num exame mais profundo sobre como a problemática geracional me afecta, confesso em idêntica medida a minha perplexidade diante do discurso frequente e simplista segundo o qual a minha geração é mimada, privilegiada e outros "adas" que seria fastidioso elencar (poderia escolher apenas um: enganada, mas nestes apontamentos tenho vontade de ir por outra via). Eu sinto-me mais próximo de alguns indivíduos que pertencem a gerações diferentes da minha (tanto mais velhas como mais novas) e essa transversalidade permite-me observar o seguinte: ao contrário de classes, não existirão gerações privilegiadas. Talvez até nem sequer faça sentido o conceito de "geração", como neste tópico tem sido aplicado: o que se passa é que existem e continuarão a existir indivíduos, que nascem e vão morrer, e que terão, à maneira dos seus tempos, de encontrar estratégias, horizontes, e lutar contra os seus monstros. São os indivíduos, nas suas esferas privadas e nos seus espaços de intervenção pública, que - como terá dito o papa Clemente VII ao advento do saque de Roma organizado pelo imperador Carlos V - têm de olhar de frente o horror e indignar-se: «Meu Deus, deste-me vida para que pudesse ver isto?» Ou seja: acho que, no fundo, arrumar a sociedade em caixas convenientes chamadas "gerações" é mais divisivo do que outra coisa: afinal de contas, a sociedade é composta por mais do que uma geração - as gerações não se substituem umas às outras, como certas "raças mágicas" de alguns sistemas esotéricos oitocentistas: elas coexistem. Logo, partilham problemas e terão, também, de partilhar soluções.

A ideia que pretendo transmitir é que só existe uma "geração", formada por todos os indivíduos que estão vivos: uns a estudar, outros a trabalhar, outros desempregados, outros reformados, mas todos parte integrante e importante da sociedade portuguesa. Não existem "gerações": existimos nós.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Contra a estupidez, a inteligência


E é por isto que os eBooks nunca poderão substituir os livros a sério.

(Actualização: entretanto, imediatamente depois de publicar esta imagem, vi que saiu esta notícia: «O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, propôs "alterações profundas do sistema político" no período pós troika 
Sem adivinhar, escolhi a imagem certa no momento certo: nunca precisámos tanto de mão-firme e mente aguçada como agora. Se não formos mais activos, mais bem-informados e mais inteligentes, seremos escravos para sempre. A notícia encontra-se aqui: http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3067487.)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

«Extermine-se todos os brutos»


No livro profético Isaías (séculos VIII-VI a.C.) vaticina-se que «o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o novilho e o leão comerão juntos, e um menino os conduzirá. A vaca pastará com o urso, as suas crias repousarão juntas; o leão comerá palha com o boi», mas o filósofo norte-americano Jeff McMahan não está disposto a esperar que os predadores mudem de dieta e propõe uma solução mais radical para que o mundo alcance mais depressa um estádio harmónico.

Se vocês são indivíduos que acham que o veganismo já é radical o suficiente é porque ainda não se lembraram que existem animais (não humanos) que são carnívoros e que não têm ideias nenhumas em deixar de sê-lo. Que fazer com bichos assim, que continuam a comer outros bichos em vez de tofu ou seitan? McMahan diz que a única coisa a fazer é exterminá-los a todos.
Em 2010 escreveu uma peça intitulada The Meat Eaters, para o jornal The New York Times, na qual, em síntese, defende o extermínio de todas as espécies carnívoras para criar-se um mundo natural mais inclusivo (seja lá isso o que for) apenas com espécies herbívoras. Segue-se um excerto para perceber-se melhor qual o tipo de retórica de que se está a falar:
«The claim that existing animal species are sacred or irreplaceable is subverted by the moral irrelevance of the criteria for individuating animal species. I am therefore inclined to embrace the heretical conclusion that we have reason to desire the extinction of all carnivorous species».
(Imagem: Peace de William Strutt. 1896.)