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terça-feira, 6 de novembro de 2018

A Ignota Ilha Digital; ou, O verdadeiro Fernão de Magalhães que se levante, por favor



Ontem, na abertura oficinal (não se trata de erro: quis, de facto, usar esta palavra, que melhor expressa o aspecto de receituário técnico exudado por esse protocolo), do Web Summit, o presidente da câmara municipal de Lisboa Fernado Medina comparou Paddy Cosgrave, criador do evento, a Fernão de Magalhães, assinalando-o com a oferta em palco de um retrato desse navegador português. Segundo as palavras de Medina, agora Lisboa abre fronteiras por mérito de Cosgrave.

A partir daqui, interessa-me uma observação mais rigorosa sobre o generalizado fenómeno da importância desmesurada que é atribuída às tecnologias digitais — sobretudo quando o seu poder é comparado a uma ruptura epistemológica que, na verdade, não precisou de Internet para coisa alguma: a da navegação astronómica dos seculos XV e XVI, desenvolvida, em principal, por navegantes portugueses, com o auxílio de ferramentas bastante simples. Com efeito, as técnicas e instrumentos que permitiram o descobrimento de novas rotas marítimas durante esse período da expansão portuguesa — e que serviram, de facto, para desencravar o mundo — estão em oposição às tecnologias digitais, que, por mais complexas que sejam as suas cabalísticas linguagens, somente compreendidas na totalidade por engenheiros informáticos e programadores especializados, se cifram em atalhos comunicacionais que, quase sempre, se tornam a si próprios obsoletos. Como se se operasse em smartphones e tablets uma senescência programada da mesma ordem que aquela que delimita a vida útil de outros electrodomésticos menos vistosos, como torradeiras e máquinas de lavar louça.

Em suma, a vantagem do uso das tecnologias digitais está em alcançar de modo mais veloz, imediato e, em alguns casos excepcionais, exacto, tarefas que, no fundo, poderiam perfeitamente continuar a ser realizadas de maneiras analógicas. Inversamente à ruptura epistemológica estreada com o advento da navegação astronómica (ao nivel do impacto que tiveram os desenvolvimentos das concomitantes artilharia móvel e imprensa de caracteres móveis), essa madrinha da Modernidade, o surgimento da Internet ainda não trouxe nenhum mundo novo ao Mundo. E se a estética digital se arroga, por vezes de modo precipitado, de tropos pertencentes a alguma cinemática ficção científica para se apresentar num jaez mais profético (Steve Jobs desempenhava muito bem esse papel de pajé, revelando no ecrã gigante as visões com que a Deusa Tecnologia o havia honrado), esse desiderato desaba no instante em que recordamos que para ir várias vezes à Lua a humanidade não precisou de Internet para nada: bastou-lhe utilizar com arte e coragem ferramentas relativamente simples, tal como bastou aos navegadores quinhentistas. Não há, bem vistas as coisas, um antes e um depois da Internet, do mesmo modo que houve um antes e um depois da roda, um antes e um depois da passagem do cabo Bojador ou um antes e depois de Gutenberg. Tudo o que há é a ágil reprodução de mecanismos que, até há pouco tempo, eram analógicos.

Assim, comparar Cosgrave a Magalhães, navegador que encetou a grande viagem de circum-navegação do planeta (descoberta que faz parte da supramencionada ruptura epistemológica) — e que morreu violentamente no decurso desse empreendimento (uma atitude que se caracteriza por aquilo a que o autor Nicholas Nassim Taleb chamou no seu livro mais recente de skin in the game) — pode consistir numa manobra de marketing que dá nas vistas (o que é completamente legítimo, note-se...), mas falha em estabelecer um verdadeiro vínculo entre uma actividade e outra.

Não é de espantar que assim seja: Magalhães e outros seus próximos orientaram-se por estrelas; estes epígonos hodiernos são orientados pelo estrelato — que até soa parecido, mas é algo muitíssimo diferente.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Novas rotas de medo e interdição


 A cultura de entretenimento agiliza-se em detectar renovações prototípicas nos procedimentos psicossociais das comunidades; sob esse enunciado, uma tendência que está a consolidar-se, em determinados filmes e livros de terror e de ficção científica, é a comutação do espaço, enquanto porosa fronteira do desconhecido, pela – igualmente inescrutável – imensidão virtual contemporânea; somando-se-lhe todo o costumeiro repertório de acessórios tecnológicos que a ela estão associados, como robôs, computadores, programas informáticos.

Provavelmente, a mais incontestável exteriorização desta mudança de pólo magnético encontra-se nos filmes que Ridley Scott se encontra a realizar actualmente no âmbito do mundo das personagens que concebera no filme Alien (1979): a nova grelha de referências aplicada em Prometheus (2012) e Alien: Covenant (2017) flutua como escuma sobre a nova psique global que, aceleradamente, abandona a noção de que o perigo reside sob formas extraterrestres no bioma espacial, em favor do fatalismo sentido à aproximação de ameaças procedentes de supositícios progressos nos campos da robótica e da inteligência artificial. Não deixa de ser curioso que a efeméride dos duzentos anos da publicação de Frankenstein de Mary Shelley escorregue neste momento por baixo da baia que delimita um terror do outro, à guisa de emblema do período neo-paracelsiano que atravessamos, no qual o horror homuncular se cifra como astro-rei – pois o que são os antropomorfizados cérebros electrónicos e robôs da hodiernidade, plenos de percepções, instintos e motivações puramente humanos, senão novíssimas representações do mito da concepção na retorta?

O labéu que perpassa toda a condenação moral do ofício paracelsiano sustenta-se na noção que a criação de um homem artificial – ou de uma inteligência artificial – por outro homem será sempre um empreendimento torpe e ímpio, destinado ao fracasso; mas, facto que não escapará aos observadores atentos, o processo da selecção natural depende, em exclusivo, de fracassos pontuais: leia-se, de mutações – imperfeições.
Em suma, a vida deseja a imperfeição; em última análise, nem sequer existe sem ela.

O que diferencia as diversificadas criações naturais das criações operadas por mão humana não é, como se poderia pensar, a imperfeição destas face àquelas, mas o problema de uma delineação inicial: é que no mundo sujeito à selecção natural, a forma antecede a função; no sentido que uma qualquer imprevista imperfeição numa cópia de material genético pode apresentar-se vantajosa para que, num curto intervalo de tempo, o indivíduo que dela concorra possa antecipar-se aos outros na propagação do seu próprio material genético imperfeito. Ora, no múnus da criação paracelsiana – artificial, mecânica, industrial, científica – é sempre a função que antecede as formas: não existe desenho sem objectivo, a forma subordina-se à função. Porém, na natureza, não existe nenhuma contiguidade pré-planeada ou fabricada que aproxime, a priori, objectos tão dissemelhantes como causa e consequência, forma e função. A beleza e o sucesso da criação por selecção natural reside na sua cega arbitrariedade: de facto, a forma vem primeiro – depois logo se verá o que é possível fazer-se com ela.

Na tradição esotérica, os homúnculos costumam, em regra, ser representados como tendo somente quatro dedos em cada mão: a razão para que isto aconteça relaciona-se directamente com a ideia numinosa de o número de cinco dedos ser a marca do ser humano – logo, um homem artificial, fruto da concepção laboratorial, seria imperfeito, exibindo apenas quatro dedos. Os velhos caricaturistas e autores de banda desenhada conheciam esta noção e é por isso que as personagens mais antigas, em particular homúnculos de jaez zoomórfico, como o Rato Mickey ou o Pato Donald, para restringir a amostra a algumas das mais conhecidas, só têm quatro dedos em cada mão. Pelo contrário, homúnculos actuais, como os robôs David 8 e Walter 1 dos recentes filmes de Scott, assumem uma extrema contiguidade com o molde humano – ao ponto de, no caso de Walter 1, serem capazes de digerir alimentos orgânicos sólidos, truque que, dispensado pela ausência de biologia, só se justifica pela função de mimarem, na perfeição, o humano. Na criação paracelsiana, artificial, a função precede e subordina a forma.

À medida que, gradualmente, o elemento robótico (que aqui nem sequer nada tem de orgânico, compondo-se, totalmente, de constituintes sintéticos) vai ocupando o espaço outrora reservado aos antagonistas alienígenas, compreende-se a mudança que efervesce na mente do público, habitante num mundo globalizado por canais virtuais de comunicação: já não é o mundo que é estranho, muito menos o espaço, mas os próprios canais. Estes, virtuais, ariscos, volúveis, é que são, em simultâneo, as rotas recém-descobertas e as áreas em branco povoadas por dragões.
O xenomorfo mete menos medo que o robô. Este é um poderoso sinal dos tempos.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Esboços sobre o Ontem e o Hoje (perspectivas)


No final do século XX, em Portugal, estabeleceram-se, definitivamente, ao alcance do grande público, duas tecnologias que, de facto, operaram uma mudança na sociedade: o telemóvel e a internet; dois eixos de modernidade que, hoje, se encontram, até, mais consonados do que alguma vez se pôde pensar, na configuração do smartphone, aparelho que é um verdadeiro canivete suíço digital. A concomitância do advento destas tecnologias com o final do século XX e com o final do segundo milénio da Era Comum (escrevo concomitância, porque, aqui, a palavra simultaneidade comportaria um incorrecto lastro de intencionalidade) emprestou-lhes um determinado nimbo parusístico - como se, a partir daqui, os cenários mais empolgantes e optimistas, teorizados pelos teólogos da religião do Progresso, estivessem, de facto, a dois dedos de distância da singularidade. Hoje, passada a embriaguez da novidade, percebe-se que não é - não será - assim (tão fácil). Contudo, o que interessa reter é que, após o estabelecimento dessas tecnologias, a paisagem humana mantém-se relativamente estável, no que às mudanças estruturais diz respeito.

Ou seja: pode falar-se num antes e num depois, considerando a ruptura provocada pela introdução nas nossas vidas dos telemóveis e da internet, mas reiniciando a contagem a partir daí detecta-se a homogeneidade dos costumes: os chamados nativos-digitais terão uma experiência do mundo muito diferente das gerações que os antecederam, no aspecto em que estas assistiram a algumas sismografias - a saltos na criação, para ser metafísico - que, desde 2001 para cá, ainda não encontraram ocorrências análogas. A cada ano, surgem novas versões de programas digitais, aplicações e equipamentos, mas, na verdade, as tecnologias de finais dos anos noventa do século XX permanecem as mesmas: um telemóvel (misto com computador pessoal - que é um artefacto ainda mais antigo) e a internet. A ser-se obrigado a elencar, precipitadamente, outro item igualmente impactante teria de referenciar-se a rede social.

No entanto, a rede social, enquanto princípio, tem mais semelhanças com os nossos velhos hábitos do que se poderia, à partida, pensar. Já tenho escrito, desde há muito tempo, que estabelecer ligação a uma rede social é muito parecido ao acto de ir a um café conversar com um grupo conhecido de pessoas: entramos, sentamo-nos à mesa com quem lá se encontrava antes de nós, vamos conversando; à medida que uns se vão ausentando outros vão chegando, criando-se conversas paralelas entre indivíduos que estão na mesma mesa, entre pessoas que estão nas mesas do lado e tudo se vai entrecruzando. Observa-se isso no modo como, por exemplo, se vão desenvolvendo os comentários nas publicações de Facebook, nos espaços previstos para o efeito. Até a publicidade que vai aparecendo nas margens e nas molduras das janelas de navegação equivale à televisão ligada no café ou aos jornais e revistas folheados por quem está ao nosso lado e que vão, pontualmente, concorrendo para chamar-nos a atenção. Uma das grandes diferenças entre ambas as experiências - o ir-se a um café para conversar ou aceder a uma rede social para conversar por escrito (ou não) - reside no feitio como se desdobram as consequências e o fenómeno do inesperado.

No mundo físico, as consequências são imediatas - demasiado, até. No mundo digital, as consequências são distantes - demasiado, também. Isto significa que apesar de a rede social transportar com sucesso para uma esfera digital um simulacro de uma experiência física, com todos os equivalentes a que já se aludiu, ela é incapaz de transpor a distância encurtada pelo imediato, no sentido em que este e o imprevisto são apanágio daquilo que é orgânico. O orgânico emite, constantemente, mensagens, sinais, reinterpreta a cada momento o que é emitido e o que é recebido, tudo mescla em diferentes linguagens (oral, corporal, abstracta) e níveis de entendimento (esotérico, exotérico, intrínseco e extrínseco) - e rapidamente, imediatamente. Até em relações mais especiais, inter-espécie - há uma matriz comum que pertence, em exclusivo, ao orgânico. O digital é incapaz de reproduzi-la. Espera-se demasiado do digital, tal como se esperou demasiado do telégrafo, do telefone, da televisão, das torradeiras e dos aspiradores. A comunicação está mais rápida, em certos casos, mas a consequência - ou, para ser ainda mais explícito, a inscrição - está sempre à distância. Uma distância desincorporada, como um segmento de recta a flutuar no éter: uma distância que desconhece pertença.

Desde 2001 que se anda a viver num segmento de recta desse jaez: enquanto ele flutuar num mar de equanimidade, manter-se-á a ilusão de estabilidade em que se está a tentar construir um presente. Um sintoma de que estamos a solidificar - em sublimação, do estado gasoso do incremento tecnológico estrutural de final do milénio e final de século para o actual estado sólido, em que tudo se vai sucedendo, mas em repetição, em versões actualizadas, mas sem autêntica novidade - é o do desaparecimento da especulação científica no discurso do entretenimento popular. Os indivíduos dos anos cinquenta do século passado sabiam que a ameaça nuclear era orgânica - tão orgânica quanto as torradas comidas ao pequeno-almoço. Hoje, as ameaças dos nossos dias continuam a ser orgânicas, mas vive-se, cada vez mais, na transplantação desse orgânico para um incipiente devir digital; logo, elas inscrevem-se cada vez menos: não é tanto apatia generalizada, ou anquilosamento ético, mas muito mais um desencontro entre planos ortogonais de existência que se aproximam sem se cruzar. Que se observam, lá está!, à distância.

O modelo digital é o da compartimentalização: hoje, compartimentalizamos tudo, sem que exista comunicação entre as categorias estanques em que se arrumam diferentes elementos.

(Imagem: Alegoria da Simulação. Lorenzo Lippi, 1640.)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Canivete-suíço digital


O smartphone actual é, bem avaliadas as coisas, uma espécie de reinvenção digital do canivete-suíço: uma panóplia portátil de um florilégio de funções (entre outras, relógio, calculadora, bloco de notas, câmara fotográfica, rádio, vídeo, navegador de Internet, gravador de voz, mapa, e, claro, telefone), reunidas num único aparelho muitíssimo transportável, cujas dimensões o tornam afectuoso e intimíssimo -- contudo, a palavra "funções" deve ser considerada com cristalina prioridade; ao contrário de um canivete-suíço, em toda a glória victorinoxidável, não existem objectos num smartphone. Apenas existem funções desincorporadas dos objectos (como fantasmas capturados por uma armadilha de muões).

No que concerne às morfologias física e digital, o smartphone (designação criada em meados da década de noventa do século passado), na sua, já arquetípica, encarnação desenhada pelo quimérico Jonathan Ive, vai ao encontro da comum calculadora: em especial, mimetiza a aparência da calculadora desenhada por Dieter Rams para a outrora teutónica e titânica Braun, uma pequena maravilha de elegância e depuração. É provável que essa ausência de objectos num smartphone nunca passe, sequer, pelas cabeças dos utilizadores; no entanto, quando se pensa nela, curiosas questões ontológicas medram na mente.

Por exemplo: até que ponto são utilizáveis essas funções-fantasmas?

Pense-se no tradicional canivete-suíço: serão os seus objectos, ocultos em estreitas bainhas (que nem pinturas escondidas em cortes dianteiros de livros, relevadas quando se repelam as páginas) -- frágeis ersatzs miniaturizados de ferramentas úteis, como tesouras, chave de fendas, saca-rolhas, abre-latas, corta-unhas, alicate, palitos e talheres --, verdadeiramente úteis? Ou, por outro ponto de vista, serão uma selecta sincrética que, somente, tem como objectivo compor um objecto singular para fetichistas de MacGyver? Conservem esta concepção enquanto observam as funções desincorporadas que um smartphone possui e a problemática adquire uma perspectiva totalmente nova: esses aparelhos estão cheios de funções que nunca são usadas -- ou usadas uma ou duas vezes. Ninguém, realmente, usa essas funções para realizar trabalhos sérios: elas são, como os objectos algo caricaturais de um canivete-suíço, um conjunto de características curiosas.

Funções desincorporadas dão-me pistas importantes para pensar na demanda pela inteligência artificial: é absurdo achar que um programa informático venha a reunir as condições necessárias para desenvolver uma inteligência de tipo humano sem que o seu hardware seja humanizado primeiro. O temporizador do smartphone informa-nos sobre as horas, é muito certo, mas não é nenhum relógio: é, isso sim, a função desincorporada de um relógio. Logo, não será possível criar uma mente humana artificial, sem criar-se, primeiro, um invólucro antropomórfico para a albergar, porque a mente humana é o somatório do cérebro e do corpo humanos -- se fosse possível transplantar-se com sucesso um determinado cérebro para um corpo diferente, em pouco tempo esse órgão, em parceria com o novo corpo, reestruturaria uma nova mente e passaria a pensar de uma maneira diferente. O cérebro evoluiu para pensar, tal como os pulmões evoluíram para oxigenar o sangue, mas não pensa sozinho. No limite, poderá imitar-se a função dessa inteligência, mas, obviamente, ela nunca será real. Apenas um palito de canivete-suíço.

Não deixará de ser anacrónirónico que, daqui a umas duas ou três gerações, nenhum indivíduo terá conhecimento algum dos objectos analógicos para os quais as funções desincorporadas dos seus aparelhos digitais remetem: habituámo-nos a ver objectos obsoletos nos museus, mas as nossas casas já são museus.

Vós sois livres de pensar se isso é uma coisa boa ou uma coisa má.

(Foto do meu canivete-suíço, tirada com a função de câmara fotográfica do meu smartphone e dulcificada na aplicação Instagram.)

domingo, 27 de abril de 2014

Apontamentos para uma errata do futuro e do passado



Um desacerto reiterado em reconstituições de épocas pretéritas é pensar-se sobre o passado em moldes diorâmicos, como se cada período estivesse constituído sem surpresas para turistas temporais verem, tal qual uma sucessão esfuziante de carrosséis temáticos numa estranha feira popular do tempo: entre outros, o carrossel do ano 2000, o do ano 1950, mais o do ano 3000 a. C. Nem damos conta do anacronismo de que em cada uma dessas reorganizações artificiais do passado todos os elementos escolhidos para efeito de representação cénica pertencem, sem variações, aos próprios anos que estão a ser reproduzidos por esses cenários. Isto significa que no carrossel do ano 1950, por exemplo, tudo aquilo que pode ser observado pelo visitante temporal pertence a esse ano em específico: os modelos dos automóveis; o estilo do vestuário dos indivíduos, assim como os seus cortes de cabelo; as revistas, os jornais e os livros; todas as inovações tecnológicas. É uma escolha que tem como objectivo montar os dioramas com o maior grau possível de autenticidade, mas a nossa visão do passado é cega diante do facto de que o ano 1950 foi, certamente, muito mais parecido com o ano 1949 ou com o ano 1948 do que aquilo que imaginamos. Com efeito, o ano 1950 terá sido muito mais parecido com o ano 1940 ou até com o ano 1935, porque todas as inovações tecno-culturais criadas num determinado ano (modelos de automóveis e de vestuário, certos tipos de electrodomésticos e restantes tropos culturais, enuncie-se) apenas se popularizam nos anos seguintes à sua criação; nesse feitio, a visão especulativa que criámos no carrossel dioramático de 1950 terá tudo a ver, na verdade, com o ano histórico de 1940.
É graças a esta cegueira sobre o passado que somos capazes de ver alguns filmes de recomposição histórica e não dar conta dos múltiplos anacronismos que nos estão a ser apresentados - ou, no limite, os mais imperceptíveis, porque se detectamos sem dificuldade um relógio no pulso de um figurante que faz de legionário de um exército de Júlio César não somos capazes de perceber que aquele modelo de automóvel no qual acabou de entrar o nosso protagonista de um filme policial cujo enredo se passa em 1950 somente se difundiu em meados do ano seguinte, independentemente dessa máquina ter sido, efectivamente, criada em 1950. Nesse sentido, um bom filme policial com acção decorrida no ano de 1950 apresentaria um panorama cosmopolita com pouquíssimos elementos atribuíveis a esse ano, porque a vida de todos os dias pertence à média, enquanto que as inovações pertencem aos extremos. Importa reter a universalidade do conceito de que entre criação e implementação ou entre criação e difusão existe sempre um intervalo variável de tempo. Ora, é neste inconstante interstício, entre a constituição de um protótipo, que, aqui, quase assume um papel similar à forma ideal neoplatónica, e a sua difusão pelo público na sociedade, que reside o ponto cego das nossas previsões sobre o futuro e, por atracção, o ponto cego da ficção científica.

A autêntica ficção científica está preocupada em interrogar os efeitos que a ciência e a tecnologia imprimem sobre a sociedade e, por essa via, está pouquíssimo interessada nos afectos e nas convenções mais mundanas que são o combustível de outras famílias de narrativas, excepto quando esses afectos e convenções são ferramentas ao serviço do desiderato citado inicialmente. É por essa razão que a maioria dos livros e dos filmes que o público entende como sendo de ficção científica não o são: a verdadeira ficção científica está, desde há umas décadas, relativamente ausente do centro. Uma das razões para que esse afastamento tenha ocorrido será, sem dúvida, a incapacidade que a ficção científica de meados do século XX teve em prever, de facto, o futuro – ou seja, o nosso presente. Essa imperícia de presciência resulta, em exclusivo, do interstício inconstante que descrevi no final do parágrafo anterior. Os escritores de ficção científica têm sempre uma inclinação imediata para sobrecarregar o futuro com tecnologias novas, com múltiplos gadgets e criar uma atmosfera de neofilia omnipresente, mas, com efeito, o tempo erode as tecnologias e as inovações que vão sendo criadas e lançadas à experimentação. Só me recordo de duas grandes novas tecnologias, inventadas nas últimas décadas, que não só permanecem connosco como mudaram inexoravelmente o tecido social e o modo como o mundo se organizava: a bomba nuclear e a Internet – e se ainda é discutível se a ficção científica previu o aparecimento da primeira, menos discutível é a constatação de que não foi capaz de prever o surgimento da segunda.
O nosso presente – o futuro da ficção científica de meados do século XX – é muito mais semelhante aos finais do século XIX, com os conflitos dos Estados Unidos e do Próximo Oriente a espelhar os problemas que a Inglaterra teve com o Afeganistão, com a descoberta efectiva do bosão teorizado por Peter Higgs a mimetizar o impacto que teve a descoberta de Albert Michelson e Edward Morley de que o Éter não existia e com os movimentos alternativos do pseudoconhecimento e das teorias das conspirações a irem ao encontro dos efeitos provocados pelo renascimento ocultista da segunda metade de oitocentos. Excepto a bomba nuclear e a Internet todas as tecnologias ao nosso dispor são aperfeiçoamentos sucessivos de tecnologias que foram sobrevivendo à calandragem das eras.

Dizia Simónides de Ceos que «o tempo tem dentes afiados que destroem tudo». Para se prever o futuro é preciso olhar para o presente e perceber quais os elementos que, entretanto, irão desaparecer. Não me escapa a prematuridade dos prenúncios da morte do livro, face ao advento do eReader: de um ponto de vista de selecção natural, o livro está connosco para durar, enquanto que os indicadores de vendas demonstram que o entusiasmo pelos eReaders está a extinguir-se. A neofilia esgota-se a si mesma, como é evidente.      

  

sábado, 26 de abril de 2014

Sobre eReaders #3

Tenho escrito várias vezes sobre eBooks e eReaders e orgulho-me da previdência desses textos (como o meu artigo Sobre eReaders, publicado a 18 de Agosto de 2010 e que antecipou conceitos relacionados com a não-leitura em eReaders que foram explanados a 21 de Setembro desse ano no site Technology Review do MIT).
Nesse sentido, a breve argumentação seguinte (intitulada Sobre eReaders #3) deverá ser lida na sequência dos pensamentos contidos em Sobre eReaders, Os Cangalheiros da Literatura e Sobre eReaders #2.

Discerni que existe, ainda, um factor importante a adicionar a esta problemática: uma espécie de Efeito de Halo, sob o qual se criou uma fortíssima e galopante virtualização da vida. Este sintoma (é, de facto, um sintoma) foi descoberto em 1920 pelo psicólogo norte-americano Edward Thorndike e consiste na ilusória observação de que algo que mostra ser útil em resolver um problema específico será, de igual modo, útil em resolver outros problemas que em nada se lhe relacionam. É, directamente, o inverso daquilo a que eu chamo de Estanquidade: leia-se, a incapacidade de perceber que algo que se manifesta numa determinada área é exactamente a mesma coisa que está exposta em outras áreas diferentes.
Um exemplo realista de um Efeito de Halo é achar-se que um indivíduo que demonstra ser compentente a fazer sapatos também será exemplar em fazer mesas, bifes wellington e mergulho de apneia. É, sobretudo, uma ilusão alimentada pela positiva impressão inicial que o indivíduo - ou um objecto - provoca: há uma inclinação inata para se achar que aquilo que se considera simpático, bonito ou interessante é universalmente aplicável.
Um exemplo do meu conceito de Estanquidade é a incapacidade de compreender que uma ideia aprendida numa determinada área (na disciplina de história, conceba-se) é exactamente idêntica a outra que se encontra em campos distintos (em antropologia, sociologia ou até matemática): como a mesma ideia surge incrustada em diferentes conhecimentos ela parece diferente, quando, na verdade, não é. Tanto o Efeito de Halo como a Estanquidade são alucinações: um peca por excesso forçado, a outra por restrição forçada. Ora, o fenómeno dos eReaders é algo que se inscreve numa hegemonia forçada da tecnologia digital a todas as áreas da vida.

A tecnologia digital é óptima em certos casos e, assim, sob a alucinação do Efeito de Halo, acha-se que ela será uma ferramenta magnífica para resolver todos os problemas e que é universalmente aplicável; inclusive em espaços nos quais ela, em rigor, não é precisa para nada - desnecessária e até insegura.
Faz-me lembrar o entusiasmo que os engenheiros e o público oitocentista sentiram pelos sistemas pneumáticos de transporte que, durante muitas décadas, foram laudados como o último grito da tecnologia futurística (a tónica colocada no facto de ser a tecnologia do futuro foi unânime). Desde as instalações de tubos pneumáticos criadas para transportar cartas e pequenos objectos de prédio em prédio até à projecção de sistemas mais ambiciosos que pudessem transportar pessoas e mercadorias pesadas de cidade em cidade foi um pequeno passo, mas, por motivos variados, nenhumas das redes pneumáticas de transporte imaginadas para o efeito se cristalizou no êxito almejado pelos seus criadores.
Hoje é fácil sorrir diante da ingenuidade desses pioneiros do século XIX, mas nada nos garante que a tecnologia digital venha a estar sempre connosco ou que a própria Internet não desapareça de maneira irreversível. Os livros, por seu mérito, são objectos robustos no sentido tecnológico e perfeitos no sentido de utilização. Em suma: quanto mais delicada é uma tecnologia - e mais ramificada se encontra, criadora de redes de dependência muito grandes -, mais probabilidades ela tem de não recuperar de um acidente imprevisto. Pensem na fragilidade de um órgão vital comparada com a relativa robustez dos membros: se perdermos um braço ou uma perna as probabilidades de morrermos são menores do que se o coração parar ou o fígado colapsar, porque o corpo é extremamente sensível às redes de dependência que estes órgãos criam (nem sequer falei no cérebro).

Em suma: o facto do computador ser uma máquina maravilhosa não obriga a que se transforme tudo à nossa volta num computador (desde telemóveis a automóveis) - nem tão-pouco que se computorize os livros. Quebrem a alucinação do Efeito de Halo: se não aceitam hegemonias nos campos da política ou das ideias, por que razão haveriam de aceitá-las no território da tecnologia? Se isso acontecer, poderemos como Axël, o anti-herói criado por Auguste Villiers de l'Isle-Adam, suspirar com resignada complacência: «Viver? Os nossos servos farão isso por nós.»

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sobre eReaders #2

O escritor norte-americano Nicholas Carr (The Shallows) publicou há quatro dias no seu weblog um artigo em que divulga relatórios estatísticos actualizados sobre a venda de eBooks que comprovam o declínio desse mercado: escreve Carr que «The AAP [Association of American Publishers] findings are backed up by a remarkable new Nielsen report indicating that worldwide e-book sales actually declined slightly in the first quarter from year-earlier levels — something that would have seemed inconceivable a couple of years ago» (sublinhado meu).
Os relatórios divulgados por Carr podem ser consultados aqui e aqui.

Apesar dessas ligações ainda profetizarem, desesperadamente, que 2014 será um ano espectacular para a venda de eBooks, é inegável que 2013 não está a sê-lo e que a morte definitiva desse suporte está para breve: um suporte recebido com enorme entusiasmo por editores sem escrúpulos e sem espírito que, contando com o beato deslumbramento sentido pelos tecnófilos mais tontos diante de tudo o que cheira à santidade da novidade, pensaram em produzir livros digitais sem os custos de impressão e distribuição, mas com preços de venda ao público da mesma grandeza daqueles com que são vendidos nas livrarias os livros de papel - chico-espertismo do mais abissal nível merceeiro que, felizmente, não medrou. Além disso, parece que esses chicaneiros da edição nunca pensaram (ou não quiseram pensar) que um livro disponível para venda em formato digital seria logo pirateado até à exaustão. Que lhes faça bom proveito.

É, pois, com regozijo que danço na sepultura dos eBooks, dos eReaders e de outras eStultices similares - monstros modernos que me repugnam profundamente. Aliás, há três anos que ando a cavar essa sepultura, como poderão ler nos meus artigos Sobre eReaders e Os Cangalheiros da Literatura, publicados em Agosto e Setembro de 2010, que vos convido a reler ou a descobrir: artigos que, neste momento, à luz dos supracitados relatórios de vendas, posso perfeitamente apelidar de predizentes.

Quando o tempo dá razão a um homem é sinal de que as suas ideias eram, de facto, as melhores.