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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sobre o Syriza

 
O encontro entre o ministro grego das finanças, Yanis Varoufakis, e o presidente holandês do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem (o do mestrado falso, ao que parece) tornou-se um poderoso símbolo de resistência face à ortodoxia monetarista que organismos como o FMI representam; com efeito, não é com leviandade que emprego a palavra "ortodoxia" e sublinho o carácter quasi-religioso que ela comporta.

A ortodoxia, aqui, consiste no chamado "Consenso de Washington": designação pela qual ficou conhecida (desde os anos oitenta do século passado) a receita neoliberal para resgate das economias em apuros, fórmula única de desmantelamento dos estados em benefício dos sectores privados, independentemente das diferentes condições sociais e políticas dos países. A economia não é uma ciência e, nesse feitio, toda a canga pseudocientífica que se lhe coloque não passa de artigos de fé - e, no que diz respeito à fé, a ortodoxia não gosta de heresias.

O impacto que a eleição do Syriza está a ter, observando o autêntico histerismo da maioria da Direita, pode ser equiparado à anexação das noventa e cinco teses de Martinho Lutero na porta da igreja do castelo de Wittenberg: ai, meu Deus, que a casa (a Europa) vem abaixo.

Para já, temos o que era preciso: uma contracorrente forte e com ideias, capaz de mobilizar os descontentes que estão longe de ser radicais (a vitória do Syriza deve-se ao eleitorado do Pasok, como é evidente). Veremos como, afinal de contas, todas estas questões aparentemente científicas ou técnicas não passavam de teimosias de uma fé ortodoxa no "Consenso de Washington" e numa visão quasi-neodarwinista aplicada ao mercado. A gente esquece-se que, tudo somado, as ideologias ainda mandam muito.

Resta descobrir se o estado de graça "luterano" do Syriza (e dos seus aliados de sinal político oposto) não terminará num perigoso caos absurdo à la João de Leiden (para lembrar outro heterodoxo) em Münster. Confiemos, portanto - mas atentos.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Por apófase


É com desalento que concluo que, hoje, Portugal só pode ser explicado por apófase: ou seja, por tudo aquilo que não é.
Não me tornei, ainda, um verdadeiro pessimista, mas não consigo encontrar razões para me designar como optimista, daí que, talvez, seja um "céptico simbólico"; sendo que "simbólico", aqui, deve ser lido segundo a aplicação que lhe foi dada por Pierre Bordieu: leia-se, um invisível, mas presente, conjunto de preceitos que afectam de modo desoficial. Recair, ininterruptamente, sobre esses discursos invisíveis faz-me pensar na probabilidade de estar-se a assistir a uma desaceleração da democracia (se isso significa uma iminente e tout court abolição da mesma restará para ser visto). Agora que estamos prestes a sair "limpos", dizem, da purga que nos sanou das nossas supostas abligurições, veremos até que ponto o estrago provocado pela iatrogenia nos deixou, permanentemente, aleijados - no corpo e, principalmente, no espírito. Qualquer domador sabe que é preciso quebrar o espírito das criaturas de modo a obrigá-las a aceitar com resignação uma nova normalidade.

(Quadro: Job, de Sir William Orpen. 1905.)

quarta-feira, 6 de março de 2013

Vem aí a extinção do salário mínimo?


O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho recusa-se, determinantemente, a aumentar o famélico salário mínimo português, que, actualmente, anda por volta dos 485 euros mensais. O chefe do executivo (ainda) em vigência reitera que para auxiliar o regresso aos mercados de um país que sofra com um elevado nível de desemprego «a medida mais sensata que se pode tomar é exactamente a oposta» - leia-se, a de baixar o salário mínimo.

Esta ideia de baixar o salário mínimo (ideia que será posta em prática, brevemente) é, apenas, o primeiro passo na direcção de extingui-lo - e se acham que esta sugestão parece retirada de um panfleto de teorias da conspiração é porque, cabalmente, não conhecem nada de economia, nem sabem nada de história (disciplina que, segundo disse recentemente um dos Yes Men favoritos do governo de coligação PSD/CDS-PP, até nem serve para nada).
A extinção do salário mínimo é um dos axiomas do neoliberalismo, tal como foi desenvolvido pelos economistas da infame "Escola de Chicago", em meados do século passado. Para os neoliberais, o salário mínimo sustenta os "comedores inúteis" e destrói a competitividade das empresas. Desde o Dia 1 que escrevo sobre isso aqui nos Cadernos de Daath (basta clicarem nas etiquetas abaixo para lerem os artigos anteriores), mas se não acreditam nas minhas palavras, acreditem nas do próprio Milton Friedman, um dos Papas do neoliberalismo contemporâneo - proferidas pela sua boca. Ouçam e vejam com atenção o vídeo abaixo e reflictam com profundidade sobre um pensamento económico que repudia o salário mínimo, mas que não encontra nada de errado na caridade.




segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Um retrato do nosso tempo


Um dos mais emocionantes, pungentes e trágicos retratos de quem, entre a maioria despreocupada ou alinhada com o sistema, é o único a interpretar correctamente os sinais do devir catastrófico que se aproxima: Stańczyk (1862) do artista polaco Jan Matejko.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Contra a estupidez, a inteligência


E é por isto que os eBooks nunca poderão substituir os livros a sério.

(Actualização: entretanto, imediatamente depois de publicar esta imagem, vi que saiu esta notícia: «O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, propôs "alterações profundas do sistema político" no período pós troika 
Sem adivinhar, escolhi a imagem certa no momento certo: nunca precisámos tanto de mão-firme e mente aguçada como agora. Se não formos mais activos, mais bem-informados e mais inteligentes, seremos escravos para sempre. A notícia encontra-se aqui: http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3067487.)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O fedor do lucro


A privatização da companhia aérea portuguesa TAP (a maior companhia do seu género em Portugal) não ganhou altitude, pois nem chegou a descolar, como convém. Resta saber se o negócio absurdo foi somente adiado ou se, com efeito, este é o início do fim da sanha privatizadora que enfebrece este governo; que, a ganhar velocidade, até poderia seguir para a privatização da segurança social, por que não? O que interessa é que a TAP, pelo menos, ficou livre de ser dada em bandeja de prata à Colômbia: esse estado que, note-se, é um dos cinco países onde mais jornalistas são assassinados "misteriosamente" (os outros são o Iraque, a Rússia, as Filipinas e o Bangladesh) e aquele que, de modo geral, é considerado pela comunidade internacional como o país da América do Sul que mais viola, consecutivamente, direitos humanos (suplantando nessa matéria a República do Paraguai e, talvez, as façanhas da República de El Salvador, que fica na América Central).

Menos sorte tem a empresa EDP Renováveis, com a China a comprar-lhe 49% do capital social: a China Three Gorges Corporation já era a maior accionista da EDP, detendo 21,35% do seu capital social e, evidentemente, prepara-se para adquirir o remanescente das acções que, por enquanto, ainda são propriedade do estado português. A China, toda a gente sabe, também tem um excelente currículo de respeito pelas liberdades civis e pelos direitos humanos, como se pode observar pela forma como tem tratado as suas minorias étnicas e religiosas, como os tibetanos ou os falungonguianos, por exemplo. Isto para não falar em negócios que a China tem feito com outros países, como os Estados Unidos, de quem é o maior credor, ao quais chamar obscuros é o melhor dos eufemismos (quem tiver tempo e interesse que leia umas coisitas sobre o imbróglio da venda de água potável entre a China e os Estados Unidos).

E quem está por trás da sociedade Pineview Overseas SA, que detém 91,25% do capital social do grupo Newshold que, até este momento, é a única empresa que manifestou interesse em comprar a RTP (a nossa televisão e rádio públicos)? Ninguém sabe, aparentemente; apenas se suspeita que os seus testas-de-ferro representam milhares - leram bem: milhares - de empresas fantasmas, associadas a uma conta offshore no Panamá. Vamos mesmo vender a RTP - com o seu arquivo histórico das nossas memórias, da nossa identidade estrutural - a nomes sem rostos?

Será que o fedor do lucro já asfixiou todo o sentido de moral, se não de responsabilidade? Será que ninguém se sente chocado com esta pilhagem às nossas maiores empresas estatais, sem as quais ficaremos que nem mendigos diante de interesses pouco saudáveis?
Este é o mundo neoliberal feito à medida pelo governo iníquo que nos lidera: um mundo em que não existe nada a não ser a mais elementar e despudorada das ganâncias, mascarada por palavras chiques como "empreendedorismo" ou "competitividade". É um mundo em que não existem boas ou más políticas: apenas bons e maus negócios.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O lobo que andamos a alimentar






«The formula is relatively simple: Goldman [Sachs] positions itself in the middle of a speculative bubble, selling investments they know are crap. Then they hoover up vast sums from the middle and lower floors of society with the aid of a crippled and corrupt state that allows it to rewrite the rules in exchange for the relative pennies the bank throws at political patronage. Finally, when it all goes bust, leaving millions of ordinary citizens broke and starving, they begin the entire process over again, riding in to rescue us all by lending us back our own money at interest, selling themselves as men above greed, just a bunch of really smart guys keeping the wheels greased. They've been pulling this same stunt over and over since the 1920s — and now they're preparing to do it again, creating what may be the biggest and most audacious bubble yet.»

E, à guisa de coda, fica a menção de uma das mais obscuras situações que atravessamos hoje em Portugal: a misteriosa "almofada" de 7,5 mil milhões de euros que está cativa - em exclusivo - para recapitalizar a banca, mas para a qual pagamos juros.
Pagamos juros sobre dinheiro que não nos beneficiará em nada, mas a banca não paga um cêntimo dessa "almofada" que irá, certamente, receber. É mais um prato de luxo que, com a insolvência das famílias e a destruição dos nossos projectos de vida, confeccionamos para alimentar o lobo supracitado. A ler nesta ligação.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O futuro de Portugal

Observem com atenção a seguinte sequência de imagens, que mostra uma mulher a ser agredida pelo corpo policial de intervenção durante a vaga de dispersão operada sobre os manifestantes que se reuniram na passada quarta-feira, dia 14, em frente à escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, para protestarem contra o governo de coligação, liderado por Pedro Passos Coelho, (ainda) em vigência. Nesta ligação e nesta já escrevi sobre esta carga policial cobarde e degradante, que nos devia envergonhar a todos, por isso quem ainda não leu esses textos poderá fazê-lo quando desejar, mas, para já, peço que observem por uns instantes estas imagens.

  
Peço-vos que se concentrem na expressão da mulher caída no chão.
Não é um rosto anónimo.
Tem um nome: esta mulher chama-se Cecília Silveira.
A imagem e o nome circulam nas redes sociais. Cecília Silveira é «uma desempregada de longa duração, sem direito a qualquer apoio da Segurança social, e vive da caridade de amigos». Cecília «passa fome, nem rendimento de inserção recebe, não tem qualquer apoio a não ser dos amigos, muitas vezes de pessoas que têm muito pouco, mas que ainda conseguem dividir uma sopa, um pão, um abraço». No entanto, como se isso não fosse aviltante o suficiente, Cecília ainda foi injustamente agredida por um homem blindado, couraçado com capacete, viseira e cassetete, e, no mínimo, com o triplo da sua força física.
Agredida com violência enquanto protestava, legitimamente, como era seu direito, contra as agressões igualmente violentas perpetradas pelo governo liderado por Pedro Passos Coelho. Atirada ao chão, perigosamente perto dos molossos que, esticando as trelas agarradas por criaturas não menos selvagens, salivam de antecipação sanguissedenta; atirada ao chão, perigosamente perto das biqueiras de aço das botas dos agentes do corpo policial de intervenção. Examinem o rosto de Cecília.
É uma face fatigada.
As pregas na pele, cinzeladas pela carestia e pelo desespero diários, têm, em vida, a retesia de um rigor mortis. Os olhos, vítreos como os de uma boneca, não reflectem a luz e só o gesto tímido de um braço estendido, que tacteia por auxílio, lhes empresta um ponto de fuga que nos deixa vislumbrar vida.
Este é o rosto penoso de uma pessoa angustiada. Este é um rosto repleto de vergonha - profundamente humilhado. Um rosto confundido pela injustiça extrema de ser agredido quando já pouquíssimo havia para agredir.
Observem bem este rosto. O rosto de Cecília.
Este é o rosto que costumam ter as vítimas de crimes de guerra.
Este é o rosto que se vira contra a parede à entrada do carrasco na cela.
Este é um rosto totalmente deformado pelo desamparo.

Observem muito bem este rosto. Memorizem muito bem esta expressão.
Olhem para o rosto de Cecília.
E imaginem que é o rosto da vossa mãe.


Imaginem que é o rosto da vossa irmã. Ou da vossa filha.
Imaginem que é o vosso rosto - ali, atirado ao chão, entre os animais.
Interroguem-se: esta é a sociedade em que querem viver? Interroguem-se: querem que este governo continue a governar-nos? Um governo que classificou a carga policial retratada acima como: «impecável», «estóica», «adequada», «profissional», «notável», «serena», «firme», «cheia de profissionalismo», «inevitável».
Olhem para o rosto na fotografia acima: devem-lhe uma resposta para estas perguntas. Devem-lhe a vossa vergonha sobre a desprezível manobra de estratégia do medo, orquestrada com maquiavelismo, a que se assistiu na passada quarta-feira. Devem-lhe aquilo que o governo lhe tem negado: humanidade.
 
Este é o rosto da desumana ideologia neo-liberal, desenvolvida em meados dos anos setenta do século passado pela chamada "Escola de Chicago": grupo de economistas do departamento de economia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, do qual fez parte o "monetarista" Milton Friedman, o principal pugnador da doutrina económica neo-liberal que veio a ganhar uma preponderância cada vez maior na política ocidental, desde o início da década de oitenta do século passado.
Engendrada como teoria económica, cujo único objectivo é, evidentemente, maximizar os lucros independentemente dos meios (o famoso slogan «money matters» é um dos seus mais conhecidos cartões de visita), a ideologia neo-liberal defende o desmantelamento do papel do estado na fixação e autorização de preços, o desregulamento total da banca privada, a privatização total dos serviços públicos e a extinção do salário mínimo.
Entretecida com o mundo da política, a ideologia económica neo-liberal transforma-se numa devastadora ferramenta de engenharia social que extingue a classe média e cria, somente, dois tipos de classes: a dos muito ricos e a dos muito pobres.
Um governo neo-liberal é um governo plutocrático: ou seja, é um governo dos muito ricos para exclusivo benefício dos muito ricos. O neo-liberalismo cria uma espécie de nova nobreza, mas uma que frui das grandes fortunas e não das famílias ancestrais de outrora. É uma política nova para cristalizar um mundo novo: um mundo que, para os muito ricos, é um mundo de facilidades e felicidades, mas que, para os muito pobres, é um mundo de desespero vivido no limite da sobrevivência.
No vídeo abaixo poderão ver como um par de anos de aplicação de ideologias neo-liberais na Grécia já acabaram com a sua classe média. O que acabo de escrever é, reitero, totalmente factual: isto é a doutrina económica neo-liberal escalpelizada ao nível mais elementar.     



As pessoas que viram neste vídeo poderão ser vocês em Março de 2013.
Quando receberem o vosso vencimento do próximo Janeiro, truncado pelas lâminas do orçamento de estado para 2013 que o governo vai aprovar em definitivo no próximo dia 27 de Novembro, talvez comecem, de facto, a prestar atenção ao que se está a passar em Portugal: usando a crise financeira como Cavalo-de-Tróia, o governo de coligação liderado por Pedro Passos Coelho está a usar o bê-a-bá do neo-liberalismo para empobrecer compulsoriamente o país, desvalorizar todos os salários e reduzir o salário mínimo para extingui-lo, desqualificar os indivíduos e privatizar todos os serviços públicos (incluindo a RTP com o seu arquivo histórico, a Caixa Geral de Depósitos e, ainda, património cultural e histórico) para transformar Portugal numa nação de trabalhadores pobres, no limiar da sobrevivência, que sirva de incubadora de mão-de-obra barata para os sectores secundários estrangeiros que, aliciados pelos salários miseráveis aqui aplicados, abrirão fábricas e manufacturas diversas como se não houvesse amanhã.

E, com efeito, para nós, aqueles que desejariam viver em Portugal com dignidade, poderá não haver amanhã nenhum.
O rosto de Cecília - não duvidem - é o nosso rosto. E poderá ser rosto do futuro de Portugal.
Com cinismo, o governo pede-nos para sairmos das nossas "zonas de conforto": poderemos, juntos, mostrar-lhe que isso quer dizer algo bem diferente daquilo que ele está à espera. Não temos nada a perder, a não ser o nosso futuro.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O sangue e o povo


«A força é ainda a última ratio dos povos.»
Frase de António José de Almeida (foto acima), primeiro presidente da república português a cumprir um mandato inteiro e o primeiro, num período de grande crispação social, a reunir um enorme consenso popular. António José de Almeida, figura maior da política portuguesa - e autor da importante frase supracitada -, foi um político de direita e até fundador do Partido Evolucionista: partido que ocupou no seu tempo um espaço no espectro político que equivale àquele que, hoje, é ocupado (ou deveria ser ocupado) pelo PSD de Pedro Passos Coelho. Quem tiver dois dedos de testa que entenda as diferenças e retire as suas próprias conclusões.


(Cidadãos de Lisboa dissipados com violência a golpes de cassetetes pelo corpo policial de intervenção, na noite de 14 de Novembro de 2012, em frente à escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento. Uma operação infame que, embora laudada pelo governo na comunicação social, nos deveria envergonhar e indignar a todos. Desde o Dia 1 que tenho escrito e esclarecido aqui nos Cadernos de Daath sobre o caminho negro que este governo iníquo nos está a desconduzir e eis que, na passada quarta-feira, esse executivo nos deu a todos um espectáculo degradante e gratuito somente com o objectivo de pressionar o povo e demonstrar-lhe pela força que é inútil manifestar-se contra a engenharia social neo-liberal que, disfarçada de funambulismo financeiro, nos está a ser empurrada pelas gargantas abaixo. Nunca precisámos tanto de coragem e verticalidade como agora.)


(Noite de 14 de Novembro de 2012: ruas de Lisboa revestidas com o tapete vermelho do governo liderado por Pedro Passos Coelho, cortesia das forças policiais que carregaram com cegueira irascível sobre os cidadãos em frente ao Palácio de São Bento numa operação de dissipação pela violência que teve como verdadeiro e único objectivo meter medo às pessoas para inibi-las de se manifestarem no futuro. O medo não pode instalar-se nas mentes, porque no momento em que ele o faz nunca mais as abandonará: ruas sem medo!)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Safanões a tempo



No segundo discurso da sua vitória eleitoral, na noite de eleições legislativas de 6 de Junho de 2011, Pedro Passos Coelho afirmou que «os jovens têm hoje mais razões para terem esperança em Portugal», antes de cantarolar o hino nacional - pela segunda vez nessa noite e num intervalo de tempo inferior a sessenta minutos. (No vídeo acima, pode ver-se esse momento aos 07:40.)
Pese a sua promessa - e patriotismo tonitruante -, dezassete meses depois, mais de sessenta e cinco mil jovens portugueses emigraram, porque o país por ele governado não lhes deu nenhumas razões para terem esperança. Dezassete meses depois de Passos Coelho ter sido eleito, e formado com outro partido um governo de coligação que não foi a votos - no fundo, ninguém votou no governo em vigência -, Portugal é um país muitíssimo mais pobre, confuso e quasi-destroçado pela ideologia neo-liberal de engenharia social que obstina em contrair com violência a nossa economia, em baixar brutalmente os salários, em desvalorizar os indivíduos e, em oposição à supracitada promessa eleitoral, roubar-lhes a esperança.

Sem ela e sem um espaço público no qual possam exercer uma autêntica intervenção cívica para comunicarem os seus problemas - ausência atávica que tolhe todos os movimentos úteis -, os indivíduos em impotência manifestam-se da única forma que lhes é possível e lhes está ao exíguo alcance: na rua, com cartazes artesanais de protesto - e, cada vez mais, motivados contra o horizonte da injustiça sem estarem orientados por bitolas partidárias. Ou seja, o governo liderado por Passos Coelho é, ainda, único na união que cumpre entre os eleitorados de direita e de esquerda, fundindo-os numa força que, progressivamente, lhe é hostil.
O grau dessa hostilidade tem vindo a aumentar em proporção à surdez e ao mutismo governamentais, que insistem em continuar a política de terra-queimada contra o país, não obstante as opiniões especializadas que diariamente declaram na comunicação social a inutilidade das medidas em aplicação e daquelas que estão planeadas: não só as que compõem o orçamento de estado para 2013, como as adicionais que irão ser instituídas a partir de Março desse ano e que consagram, entre outras estratégias, a dilatação da base tributável para efeitos de cálculo de IRS - como se o sufocante aumento das taxas de IRS contempladas no orçamento de estado para 2013, através das mudanças nos seus escalões, não fossem suficientemente destrutivas para as famílias portuguesas.

Ontem, Miguel Macedo, actual ministro da Administração Interna, desvendou na comunicação social que andaram «profissionais da desordem e da provocação» a gorar com violência as manifestações pacíficas que se realizaram pelas ruas e à frente do Palácio de São Bento no dia da Greve Geral, que também foi greve geral europeia. Se existem, de facto, "profissionais da desordem" são os ministros deste governo desumano, liderado por Pedro Passos Coelho, que, todos os dias, fazem da «desordem e da provocação» - e da violência -, sobre todos nós (inclusive sobre quem os defende), a sua profissão, o seu motivo de orgulho.
A coagida contracção da nossa economia, a desvalorização dos indivíduos e dos seus salários, os suicídios na Ponte 25 de Abril, nas linhas ferroviárias e de Metro de quem é arrebanhado pelo desespero criado por estas políticas homicidas - isso, sim!, é que é verdadeira desordem, isso é que é verdadeira provocação, isso é que é verdadeira violência.
Que categorizem, pois, dessa maneira, de «desordem e provocação», os protestos dos homens comuns a quem roubaram toda a esperança, porque é sinal que estão incomodados com esses protestos: e sem força não há protesto. Já dizia Brecht que chamavam violento ao rio, mas não se lembravam de chamar violentas às margens que o comprimiam. No vídeo abaixo, aos 00:46, pode ver-se o rompimento dessas margens, numa cerúela e perfulgente fragmentação que ocorre no lado direito da imagem, por trás do aparato policial. Não é possível, neste vídeo, ouvir nenhum aviso prévio do avanço da carga policial que se segue e que investiu com típica irascibilidade, desferindo golpes aleatórios de cassetete sobre cidadãos idosos e mulheres. 




Todavia, desde essa tarde que a polícia foi detendo por Lisboa um número indeterminado de indivíduos (ao que consta, várias dezenas ou até mesmo uma centena) e os manteve cativos até ao início desta madrugada em diversas esquadras e equipamentos análogos, como o desactivado tribunal de Monsanto - cujo acesso por transportes públicos e civis está, normalmente, bloqueado, tornando-se um local optimal para o efeito em questão. Detidos sem justificação - alguns sem sequer terem participado em qualquer manifestação -, impossibilitados de contactarem com a família ou com advogados, os indivíduos foram, paulatinamente, libertados depois de serem coagidos a assinar documentos em branco. Abaixo, podem ver um dos poucos vídeos que noticiam esta situação preocupante pelo seu absurdo e impunidade.



Dezassete meses depois de ter sido eleito Passos Coelho, este é o país que ele está a construir, com a feral erosão do edifício democrático e a instalação da cultura do medo - a cultura dos "safanões a tempo". O poeta Camões já se interrogara no seu funesto soneto, escrito no século XVI, sobre o engano de se tentar ser ledo (leia-se feliz) quando, afinal, se vivia com medo. No nosso caso, medo de senhores como este:



(Dá que pensar.) Dançamos uma trágico-patética danse macabre, musicada com desafino pelo governo de Passos Coelho; e quem acredita estar fora do alcance do caixão é melhor "tirar-se daí que já foi dada Abrantes", porque à medida que a classe média for desaparecendo aqueles que pensam estar hoje a salvo serão os próximos a empobrecer. É que na visão neo-liberal só existem dois tipos de classes: a muito rica e a outra.

domingo, 16 de setembro de 2012

Depoimento


Caros leitores:

Por escolha pessoal, sempre mantive em separado aquilo que é a minha face pública de autor e a minha vida e convicções privadas, mas este período negríssimo pelo qual passamos, e que emerge como sendo decisivo nas vidas de todos nós, obriga-me a desfazer essa separação e a pronunciar-me publicamente sobre política; em principal, sobre a perigosa política actual que nos conduz e que nos levará à ruína.
Por conseguinte, enquanto autor e enquanto indivíduo, não posso calar-me, pois a palavra é a minha ferramenta de trabalho e é através dela que tenho forma de fazer-me ler e escutar por todos.
Abaixo, encontram-se duas ligações para dois artigos que escrevi aqui no Cadernos de Daath sobre os últimos dias: um antes da Manifestação de 15 de Setembro - a que fui e à qual dei o meu contributo de protesto contra um governo injusto e fanático que urge remodelar - e outro que escrevi depois de chegar da Manifestação. Apresento-vos as ligações por ordem cronológica para que leiam, pensem e partilhem.

Reforço a ideia, axial nos textos, de que estas políticas actuais nada têm a ver com as políticas a que o(s) partido(s) em governo de coligação nos habituaram ao longo das últimas dezenas de anos, mas que se correspondem com ideologias novas, muito diferentes e mais perversas do que temos experimentado.
É o contributo que me é possível para mudar de uma vez por todas esta situação irrespirável, porque não tenho outro modo de agir. Sou escritor, sou um homem das letras, e é por elas que tenho de chegar aos outros: enquanto me for permitido e enquanto for, de modo geral, permitido.

Porque não desejo viver no Portugal que nos estão a construir, este governo irresponsável e perigoso tem de ser remodelado. Já! Antes de ser demasiado tarde, façam-se ouvir, protestem, manifestem-se nas vossas áreas se, tal como eu, também não querem que nos seja arruinado o país.
Obrigado.

http://cadernosdedaath.blogspot.pt/2012/09/aquele-que-nao-tem-ser-lhe-tirado-mesmo.html

http://cadernosdedaath.blogspot.pt/2012/09/ruas-sem-medo.html

Cumprimentos.
David Soares.
Lisboa, 16 de Setembro de 2012

Ruas sem medo


Cerca de um milhão (estimativa por baixo) de cidadãos de todo o país manifestaram-se na rua contras as políticas perigosas do autêntico projecto de engenharia social classista, (mal) disfarçado de teoria económica, desenvolvido nos anos setenta do século passado por Milton Friedman da "Escola de Chicago" e pugnado pelo nosso actual governo neo-liberal: quando, somente, a riqueza garante direitos, os direitos dos indivíduos são proporcionais à sua riqueza, o que é uma monstruosidade que substitui a velhíssima lei da "nobreza de sangue" por uma nova lei da "nobreza do recheio da conta bancária". Eu estive ontem na rua, em Lisboa, contra esta ideologia perversa: foi a MAIOR manifestação do género.
Ontem foi o Dia Zero: hoje é o Dia Um.
As coisas não podem continuar na mesma. Simplesmente, não podem.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Àquele que não tem, ser-lhe-á tirado mesmo o que tem


A política faz-se de ideologias, embora seja fácil esquecer isso, em especial nos dias contemporâneos, mas o facto é o de que as ideologias influenciam, marcam e definem as políticas; e, nesse sentido, as medidas de austeridade avançadas pelo governo em vigência inserem-se numa ideologia neo-liberal, plutocrática, pugnada por algumas escolas economicistas dos últimos três decénios do século passado, como a famosa "Escola de Chicago".

Sob a égide dessa ideologia da desvalorização do trabalho realizado pelos chamados trabalhadores por conta de outrem, observados como "comedores inúteis" pelos deificados criadores de empregos - os tais "empreendedores" -, cada indivíduo só é considerado como tal se se tornar um empresário; ou seja, uma pessoa influente em virtude da sua riqueza, valendo, em exclusivo, pelo dinheiro que faz ao ano.
Faz lembrar a lei da Limpeza de Sangue que, até há poucas centenas de anos, era mandatória para se aceder a cargos públicos em Portugal: só quem tivesse sangue limpo, nobre e despoluído de cruzamentos indesejáveis, era aceite como sendo um cidadão com direitos - aqui, essa lex sanguinis é substituída pelo recheio da conta bancária: mas já o Novo Testamento (leitura preferida nestes círculos nos quais ir-se à missa é que é sinónimo de uma boa cidadania - e o resto são, apenas, negócios) avisa que «pois àquele que tem, dar-se-lhe-á e terá em abundância; mas àquele que não tem, ser-lhe-á tirado mesmo o que tem».

Importa reter que esta ideologia almeja a construção de um novo tipo de homem - ou melhor, dois novos tipos: um, o tal empresário - tão auto-suficiente que até é capaz de segurar sozinho aos ombros, como Atlas, o edifício empresarial que construiu com as suas próprias mãos, como se os apoios estatais e privados não existissem - e, o outro, o operário desqualificado, sustentado com um salário de sobrevivência, no limiar da miséria.

Este pesadelo quasi-malthusiano está prestes a tornar-se realidade. Não duvidem que iremos, muito em breve, e até bem perto de nós, com certeza, assistir a grandes mudanças para pior, se esta draconiana desvalorização dos indivíduos for em frente. Nem nos piores tempos nepóticos dos séculos XVII e XVIII, uns quantos colocaram em Portugal um peso tão grande em tantos. E a Troika, excelente bicho-papão, nem sequer precisa de ser para aqui chamada como ceifeiro da desgraça: a austeridade do governo é parte indissolúvel do seu programa político e figurava já em 2010 no espantoso projecto de alteração da Constituição da República Portuguesa (as privatizações, a extinção da classe média e outras medidas ainda piores que, suspeita-se, estarão a ser reservadas para o segundo mandato). Sim, temos cá o FMI, mas o neo-liberalismo é do governo, completamente: abram os olhos, investiguem e pensem.
Por enquanto, ainda se pode.